{"id":23495,"date":"2009-10-31T13:35:06","date_gmt":"2009-10-31T13:35:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23495"},"modified":"2009-10-31T13:35:06","modified_gmt":"2009-10-31T13:35:06","slug":"o-mito-da-tecnologia-fora-de-controle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23495","title":{"rendered":"O mito da tecnologia fora de controle"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Um dos mais importantes fil&oacute;sofos da tecnologia da atualidade, Langdon Winner &eacute; professor do Departamento de Estudos sobre Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Rensselaer Polytechnic Institute, em Nova York. Estuda e escreve sobre ci&ecirc;ncia, tecnologia e sociedade e foi rep&oacute;rter da revista Rolling Stone. Nesta entrevista exclusiva para o F&oacute;rum da Cultura Digital Brasileira, o autor de Autonomous Technology &ndash; the myth of technology out of control (ainda sem tradu&ccedil;&atilde;o para o portugu&ecirc;s) questiona a ideia de que a sociedade n&atilde;o tem controle sobre a tecnologia, discute conceitos como inova&ccedil;&atilde;o e sustentabilidade e indica qual seria o caminho para uma internet livre e democr&aacute;tica. &ldquo;O Estado &eacute; apenas um de uma vasta gama de institui&ccedil;&otilde;es que precisam ser envolvidas na negocia&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter das pr&aacute;ticas encontradas na rede&rdquo;, afirma Winner, que estar&aacute; no Brasil em novembro junto de nomes como Alexander Galloway e Tim Wu participando do Semin&aacute;rio &ldquo;Cidadania e Redes Digitais&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>O Sr. defende que as tecnologias adquirem uma apar&ecirc;ncia de autonomia e que as pessoas aceitam isso como um fato inevit&aacute;vel. A tecnologia est&aacute; fora de controle?<\/strong><\/p>\n<p>Meus escritos sobre a autonomia da tecnologia investigam uma variedade de ideias que defendem que a tecnologia est&aacute; &ldquo;fora de controle&rdquo;, tanto na teoria social moderna como no cinema e afins. Isso n&atilde;o significa que eu endosso ou defendo qualquer vers&atilde;o deste tema. &Eacute; certamente verdade que muita gente v&ecirc; a evolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica acontecendo em nosso tempo como algo &ldquo;necess&aacute;rio&rdquo; ou &ldquo;inevit&aacute;vel&rdquo;. Levantar quest&otilde;es sobre isso &eacute; frequentemente considerado como tolice ou negativo. Por essa raz&atilde;o, se algu&eacute;m tenta ir al&eacute;m da percep&ccedil;&atilde;o de que um determinado g&ecirc;nero ou projeto tecnol&oacute;gico vai inevitavelmente varrer a sociedade, &eacute; preciso ser muito h&aacute;bil para propor outras formas de pensar, outras maneiras de falar sobre as possibilidades tecnol&oacute;gicas e sociais. &Eacute; preciso perguntar: Uma determinada tecnologia &eacute; realmente necess&aacute;ria? Quem disse? Por qu&ecirc;? S&atilde;o raz&otilde;es confi&aacute;veis ou n&atilde;o? Podemos influenciar ou mudar significativamente sua forma, o seu funcionamento, os seus efeitos a longo prazo?<\/p>\n<p><strong>No caso das novas tecnologias, h&aacute; tamb&eacute;m a ideia de que as inova&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas devem ser celebradas. Como o Sr. relaciona a acomoda&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, a quest&atilde;o do livre arb&iacute;trio e os interesses econ&ocirc;micos envolvidos?<\/strong><\/p>\n<p>A disposi&ccedil;&atilde;o recorrente na mentalidade moderna &eacute; a de evitar perguntas como estas completamente. Cri&aacute;-las significa ser rotulado como &ldquo;anti-tecnologia&rdquo;, o que significa simplesmente &ldquo;Cale-se!&rdquo;. Espera-se que simplesmente celebremos a mudan&ccedil;a tecnol&oacute;gica e que a aceitemos pela f&eacute;, como se a sua chegada sempre oferecesse melhorias em nossa maneira de viver.<\/p>\n<p>O que indica que quaisquer supostas &ldquo;inova&ccedil;&otilde;es&rdquo; atuais s&atilde;o desej&aacute;veis? Essa &eacute; outra quest&atilde;o quase improv&aacute;vel para a maioria das pessoas. O termo deriva do latim &ldquo;Innovare&rdquo;, que significa &ldquo;renovar&rdquo;. Nesta perspectiva, o conceito ganha uma aura brilhante em torno dele. &Eacute; talvez a principal &ldquo;palavra da moda&rdquo; do nosso tempo. Afinal, quem n&atilde;o gostaria de tomar medidas para &ldquo;renovar&rdquo; as condi&ccedil;&otilde;es de vida em nossa sociedade conturbada?<\/p>\n<p>Mas se voc&ecirc; olhar para o que geralmente &eacute; divulgado como &ldquo;inova&ccedil;&atilde;o&rdquo;, voc&ecirc; v&ecirc; que eles envolvem principalmente a busca por uma vantagem econ&ocirc;mica competitiva no mundo das corpora&ccedil;&otilde;es globais. Uma boa defini&ccedil;&atilde;o para &ldquo;inova&ccedil;&atilde;o&rdquo; &eacute; &ldquo;mudan&ccedil;a t&eacute;cnica que beneficia os ricos&rdquo;. Planejadores corporativos e publicit&aacute;rios s&atilde;o os respons&aacute;veis pelo clima de celebra&ccedil;&atilde;o em torno das &ldquo;inova&ccedil;&otilde;es&rdquo;, n&atilde;o as pessoas comuns com necessidades comuns. Se voc&ecirc; olhar para os recursos apregoadas como &ldquo;inova&ccedil;&otilde;es&rdquo;, geralmente o que se v&ecirc; s&atilde;o modifica&ccedil;&otilde;es triviais, as caracter&iacute;sticas do iPod mais recente, por exemplo, ou uma lata de cerveja que indica se ela est&aacute; gelada ou n&atilde;o &ndash; em suma, mudan&ccedil;as que t&ecirc;m pouca import&acirc;ncia para a maioria das pessoas ou para a maioria dos problemas do planeta.<\/p>\n<p><strong>&Eacute; poss&iacute;vel afirmar que esta &eacute; uma reconfigura&ccedil;&atilde;o do mito do progresso? Se a tecnologia n&atilde;o est&aacute; fora de controle. como superar o fetiche e us&aacute;-la em benef&iacute;cio da humanidade? O termo &ldquo;sustentabilidade&rdquo; incorpora esta ideia?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo ambos os discursos de &ldquo;inova&ccedil;&atilde;o&rdquo; e de &ldquo;sustentabilidade&rdquo; como g&ecirc;meos: sucessores da grande narrativa do &ldquo;progresso&rdquo; que ganhou impulso durante a revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica dos s&eacute;culos XVII e XVIII. &Eacute; evidente que a f&oacute;rmula cl&aacute;ssica de &ldquo;progresso&rdquo; &ndash; mais conhecimentos cient&iacute;ficos levam a melhores tecnologias, que levam a melhores formas de vida para toda a humanidade &ndash; j&aacute; desabou. Ningu&eacute;m defende isso h&aacute; muito tempo. Em primeira inst&acirc;ncia, o que acabou por matar a f&eacute; no &ldquo;progresso&rdquo; foi a persist&ecirc;ncia da evid&ecirc;ncia da pobreza e da desigualdade na popula&ccedil;&atilde;o mundial, a evid&ecirc;ncia de que mais da metade das pessoas na Terra sempre foram irremediavelmente deixadas para tr&aacute;s. Depois de um tempo, as desculpas padr&atilde;o j&aacute; n&atilde;o eram convincentes.<\/p>\n<p>Hoje, o sonho do &ldquo;progresso&rdquo; tamb&eacute;m &eacute; ofuscado pela crescente evid&ecirc;ncia de que a prosperidade da civiliza&ccedil;&atilde;o moderna foi (em grande medida) gerada por um presente da natureza &ndash; petr&oacute;leo barato. Claro que, na sua maior parte, esta heran&ccedil;a inesperada foi explorada de formas que serviram aos interesses de uma minoria relativamente pequena dentro da comunidade humana. O termo &ldquo;peak oil&rdquo; (pico de produ&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera) sinaliza o crescente reconhecimento da crise vindoura como a celebrada criatividade da moderna civiliza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica batendo a cabe&ccedil;a contra a parede de tijolo da escassez de petr&oacute;leo.<\/p>\n<p>Outra sombra &eacute; o reconhecimento do aquecimento global e suas desastrosas conseq&uuml;&ecirc;ncias atuais e nas pr&oacute;ximas d&eacute;cadas. Ao inv&eacute;s de falar sobre &ldquo;progresso&rdquo; e as suas esperan&ccedil;as de melhoria universal, as pessoas agora adoram falar sobre &ldquo;inova&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Mas como eu j&aacute; mencionei, os tipos de melhoria aqui s&atilde;o definidos dentro de um quadro muito pequeno de signific&acirc;ncia. O outro tema sucessor, a &ldquo;sustentabilidade&rdquo; levanta uma quest&atilde;o verdadeiramente embara&ccedil;osa: &ldquo;Pode a civiliza&ccedil;&atilde;o moderna e suas principais pr&aacute;ticas serem sustentadas como um todo?&rdquo;. A resposta impl&iacute;cita &eacute; &ldquo;talvez n&atilde;o&rdquo;. No meu modo de pensar, estes dois temas &ndash; &ldquo;inova&ccedil;&atilde;o&rdquo; e &ldquo;sustentabilidade&rdquo; &ndash; s&atilde;o indicadores para o que agora parece ser um vigoroso deslocamento intelectual e espiritual do &ldquo;progresso&rdquo;, a f&eacute; que inspira h&aacute; muito tempo as pol&iacute;ticas b&aacute;sicas e os projetos da civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental. Atualmente, parece haver pouca discuss&atilde;o honesta sobre o que a humanidade enfrenta al&eacute;m destes temas esgotados.<\/p>\n<p><strong>No Brasil, assim como em pa&iacute;ses como a Fran&ccedil;a, surgiram recentemente iniciativas no &acirc;mbito legislativo no sentido de restringir a liberdade na internet exigindo, por exemplo, que os provedores de acesso denunciem pr&aacute;ticas como os &ldquo;downloads ilegais&rdquo;. Qual cen&aacute;rio o Sr. prev&ecirc; para a liberdade de express&atilde;o na Internet? Como interpreta a ideia de uma internet regulada?<\/strong><\/p>\n<p>As perguntas b&aacute;sicas s&atilde;o bastante simples. Quem seremos n&oacute;s enquanto usu&aacute;rios de internet nos pr&oacute;ximos anos? Como consideraremos a n&oacute;s mesmos? Quais ser&atilde;o as qualidades que ir&atilde;o caracterizar a atividade das pessoas? E como as institui&ccedil;&otilde;es detentoras do poder e da autoridade v&atilde;o entender quem somos e o que estamos fazendo?<\/p>\n<p>Uma vis&atilde;o promissora &eacute; que nos tornaremos cidad&atilde;os democr&aacute;ticos, com sensibilidade melhorada e capacidades expandidas para a a&ccedil;&atilde;o na vida p&uacute;blica. Teremos acesso a uma gama mais ampla de recursos informativos do que anteriormente e usaremos isso para cultivar oportunidades tanto para pessoal quanto para o coletivo. Desta forma, poderiam surgir variedades mais profundas de cidadania do que qualquer outra em qualquer per&iacute;odo da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>H&aacute;, infelizmente, outras concep&ccedil;&otilde;es do que somos na Internet que t&ecirc;m uma apar&ecirc;ncia totalmente diferente. Uma ideia comum e em expans&atilde;o atualmente &eacute; a de considerar as pessoas como &ldquo;suspeitas&rdquo;, pessoas que cometeram crimes ou que se acredita que possam faz&ecirc;-lo. Esta atitude move silenciosamente as pol&iacute;ticas de governo para a Internet em diferentes dire&ccedil;&otilde;es daqueles de uma cidadania alargada e melhorada. Assim, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia para a criminaliza&ccedil;&atilde;o e possibilidades de controle para que muitas pessoas comuns encontrem na esfera digital um ambiente mais agrad&aacute;vel.<br \/><strong><br \/>O Sr. acredita que o Estado tem um papel na formula&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para a rede?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, existem variedades significativas de crimes que a sociedade deve ter em conta, mas tamb&eacute;m &eacute; verdade que n&oacute;s vemos uma r&aacute;pida expans&atilde;o de conceitos, regras e mecanismos de execu&ccedil;&atilde;o que fazem diariamente o uso e o compartilhamento de recursos digitais parecerem mais e mais como uma cena de crime. O estado &eacute; apenas um de uma vasta gama de institui&ccedil;&otilde;es que precisam ser envolvidos na negocia&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter das pr&aacute;ticas encontradas na rede. As fam&iacute;lias, escolas, universidades, sindicatos, ONGs, e uma ampla gama de grupos da sociedade civil tamb&eacute;m precisam ter uma voz proeminente. Neste momento, algumas no&ccedil;&otilde;es tradicionais de propriedade e de comportamento socialmente adequado absorvem muita aten&ccedil;&atilde;o e amea&ccedil;am limitar o alcance de novas liberdades emergentes &ndash; a liberdade de informar, de criticar e de criar. Formas f&eacute;rteis de cidadania surgir&atilde;o se a sociedade puder superar medos sem sentido e resistir &agrave; tend&ecirc;ncia a permitir que as corpora&ccedil;&otilde;es definam tudo.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Um dos mais importantes fil&oacute;sofos da tecnologia da atualidade <\/span><span class=\"padrao\">questiona a ideia de que a sociedade n&atilde;o tem controle sobre a tecnologia<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1143],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23495"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}