{"id":23469,"date":"2009-10-27T12:33:18","date_gmt":"2009-10-27T12:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23469"},"modified":"2009-10-27T12:33:18","modified_gmt":"2009-10-27T12:33:18","slug":"meios-de-comunicacao-contra-democratizacao-dos-meios-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23469","title":{"rendered":"Meios de comunica\u00e7\u00e3o contra democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Na contram&atilde;o das pot&ecirc;ncias capitalistas ocidentais, governos latino-americanos, os bolivarianos particularmente, est&atilde;o dando exemplo numa batalha essencial dos tempos sombrios a que estamos condicionados. Insurgem-se contra o estabelecimento da barb&aacute;rie cultural que vem amea&ccedil;ando seus povos por conta da crescente concentra&ccedil;&atilde;o de poder, pol&iacute;tico e econ&ocirc;mico, em m&atilde;os dos grandes meios de informa&ccedil;&atilde;o privados. Ousam propor, e aprovar, legisla&ccedil;&otilde;es que estabelecem controles democr&aacute;ticos sobre esses meios, e as executam.<\/p>\n<p>Em fun&ccedil;&atilde;o de tal &quot;heresia&quot;, tornam-se alvo de ataques incessantes e crescentes dos tent&aacute;culos da Sociedade Interamericana de Prensa (SIP), essa Internacional org&acirc;nica que acumplicia os controladores dessas corpora&ccedil;&otilde;es medi&aacute;ticas aos setores mais reacion&aacute;rios dos diversos pa&iacute;ses do continente. S&atilde;o tratados como protoditatoriais, e outros ep&iacute;tetos do g&ecirc;nero. Alvos, enfim, de belicosidade, sequer original, pois que vem de longe.<\/p>\n<p>J&aacute; na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa do fim do s&eacute;culo XVIII, Robespierre, numa de suas monumentais disputas ret&oacute;ricas na tribuna da Conven&ccedil;&atilde;o, era perempt&oacute;rio na defini&ccedil;&atilde;o do poder dos formadores de opini&atilde;o. &quot;Os jornalistas t&ecirc;m nas m&atilde;os o destino dos povos. (&#8230;) Assim como os pr&iacute;ncipes calculam suas for&ccedil;as pela quantidade de seus soldados e pelos recursos de suas finan&ccedil;as, os chefes de fac&ccedil;&otilde;es rivais entre n&oacute;s calculam as deles pelo n&uacute;mero de cronistas que podem patrocinar&quot;, afirmava ele, e dava exemplo pr&aacute;tico, a partir do seu embate com La Fayette. O &quot;her&oacute;i de dois mundos&quot;, ent&atilde;o passado para o campo da burguesia, obtivera, atrav&eacute;s do controle sobre jornalistas influentes, &quot;mais conquistas, no espa&ccedil;o de alguns meses, do que poderia ter alcan&ccedil;ado na Revolu&ccedil;&atilde;o, durante meio s&eacute;culo, &agrave; frente de um Ex&eacute;rcito&quot;. A quem interessar, este trecho &eacute; extra&iacute;do de obra important&iacute;ssima, editada pela Contraponto: &quot;Discursos e Relat&oacute;rios na Conven&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Mas retornando ao gr&atilde;o. Se j&aacute; era assim quando a m&iacute;dia se restringia a quase panfletos mal impressos, distribu&iacute;dos entre popula&ccedil;&otilde;es com alt&iacute;ssimo n&iacute;vel de analfabetismo, n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar por que, com o avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico gigantesco, o terreno se transformou numa arena quase principal do confronto entre o mundo do trabalho e as classes dominantes, nos dias atuais. Cabendo aos governos, por via de conseq&uuml;&ecirc;ncia, se definir por campo exatamente a partir da posi&ccedil;&atilde;o que tomam em rela&ccedil;&atilde;o ao conceito de &quot;liberdade de express&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Se ousarem considerar que &eacute; um direito social, estar&atilde;o entrando em choque com o grande capital, onde o conceito &eacute; avaliado pela maior ou menor capacidade de transformar not&iacute;cia e informa&ccedil;&atilde;o, para al&eacute;m de ferramenta de poder, em produto, valor de troca; em mercadoria geradora de lucro, no mais das vezes pantagru&eacute;licos.<\/p>\n<p>O caso mais recente &eacute; o que concerne &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o da nova lei do audiovisual na Argentina. A ler a correspondente do Globo, em Buenos Aires, com mat&eacute;rias valorizadas nas manchetes de p&aacute;gina, a reforma estaria sendo enfiada goela abaixo do Congresso e da popula&ccedil;&atilde;o por um poderoso governo, controlado por um inq&uuml;estion&aacute;vel Executivo. Longe de n&oacute;s entrar nas querelas e seq&uuml;elas das lutas internas entre os herdeiros do peronismo. Mas &eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o repelir a desonestidade editorial, e a cumplicidade a&iacute; constat&aacute;vel do quadro assalariado de editores e redatores, que n&atilde;o se peja de fazer o jogo sujo dos interesses empresariais e ideol&oacute;gicos do grande patronato.<\/p>\n<p>Pois se h&aacute; algo facilmente verific&aacute;vel, &eacute; que poder, na realidade argentina atual, tem a pr&oacute;pria id&eacute;ia de quebra do monop&oacute;lio privado sobre os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o a presid&ecirc;ncia de Cristina Kishner.<\/p>\n<p>Seu grupo pol&iacute;tico foi batido em recentes elei&ccedil;&otilde;es legislativas. Resultado previs&iacute;vel para governos que se pretendem populares e democr&aacute;ticos, mas n&atilde;o v&atilde;o ao gr&atilde;o das quest&otilde;es essenciais.<\/p>\n<p>Por que, ent&atilde;o, vem obtendo &ecirc;xito retumbante na aprova&ccedil;&atilde;o de uma legisla&ccedil;&atilde;o que estabelece limites concretos ao monop&oacute;lio do Clarin (grupo que corresponde, na Argentina, aos privil&eacute;gios e exclusividades que as organiza&ccedil;&otilde;es Globo t&ecirc;m no Brasil)?<\/p>\n<p>Porque, por conta de confronto de interesses diretos, colocou a seu lado amplos setores da sociedade civil organizada, atrav&eacute;s de um projeto que transfere para empresas de menor express&atilde;o econ&ocirc;mica, ou para organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-lucrativas da sociedade civil, concess&otilde;es at&eacute; ent&atilde;o abocanhadas quase monopolisticamente pelo grupo. Fato gerador de base parlamentar favor&aacute;vel, pois congressista burgu&ecirc;s &eacute; capaz de tudo, menos de p&ocirc;r em risco o seu mandato.<\/p>\n<p>Entre os efeitos j&aacute; percebidos pela popula&ccedil;&atilde;o h&aacute; um elucidativo: o da transmiss&atilde;o do futebol. Pela lei, n&atilde;o pode mais ser exclusividade do grupo Clarin. Passa a ser transmitido de forma mais ampla; por todas as TVs abertas, inclusive as p&uacute;blicas. Quanto aos clubes, tiveram sua participa&ccedil;&atilde;o na distribui&ccedil;&atilde;o de recursos da venda significativamente ampliada. Passam a receber muito mais do que lhes tocava na venda ao grupo monopolista. Ou seja, e para citar o quadro brasileiro: fim &agrave; subordina&ccedil;&atilde;o do hor&aacute;rio dos jogos ao hor&aacute;rio das novelas.<\/p>\n<p>Mais ainda; estabelece-se limites de extens&atilde;o de rede, e de tempo de concess&atilde;o. Ningu&eacute;m poder&aacute; controlar m&iacute;dias distintas sobre um mesmo territ&oacute;rio. A concess&atilde;o ser&aacute; reavaliada a cada 10 anos. Podendo, ou n&atilde;o, ser renovada desde que atendidas, ou n&atilde;o, preceitos m&iacute;nimos de respeito &agrave; cidadania e ao ser direito concreto de ter acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. Para tanto, evidentemente, instrumentos de controle ser&atilde;o implementados.<\/p>\n<p>Nada de novidade, tudo previsto em amplos debates que, na discuss&atilde;o do processo constitucional de 88, os segmentos brasileiros voltados para a democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Mostrando que, no Brasil, se a id&eacute;ia pega, se o governo Lula tivesse um m&iacute;nimo de autonomia e coragem, a  Globo tem muito com que se preocupar.<\/p>\n<p>O que preciso ser esclarecido de forma incisiva &eacute; a necessidade de definir legitimamente o conceito de liberdade de express&atilde;o, ponto fundamental na constru&ccedil;&atilde;o de uma sociedade justa e libert&aacute;ria. Conceito que n&atilde;o tem nada a ver com a forma como &eacute; utilizado pela SIP e seus tent&aacute;culos nos diversos pa&iacute;ses. N&atilde;o se trata, para ser preciso, de defender direitos empresariais sobre a concess&atilde;o p&uacute;blica de r&aacute;dio e televis&atilde;o (as emissoras s&atilde;o simples produtoras que t&ecirc;m concess&atilde;o sobre canais de transmiss&atilde;o que n&atilde;o lhes pertence, mas sim &agrave; sociedade como um todo).<\/p>\n<p>Para receber tal concess&atilde;o, que tem tempo definido, essas concession&aacute;rias se obrigam a deveres que n&atilde;o cumprem. Basta, ali&aacute;s, consultar o cap&iacute;tulo de Comunica&ccedil;&atilde;o Social de nossa Constituinte, para ver a imensa quantidade de exig&ecirc;ncias constantemente atropeladas por esses concession&aacute;rios aqui no Brasil.<\/p>\n<p>Quando a Globo esperneia, sabe por que o faz. Quando ataca Chavez ou Rafael Correa por n&atilde;o terem renovado concess&otilde;es de canais que substituem partidos pol&iacute;ticos onde a direita n&atilde;o consegue organiz&aacute;-los, conscientemente atropela a realidade dos fatos. Omite o que esses canais s&atilde;o capazes de produzir para desestabilizar a ordem institucional vigente &#8211; e quem fizer um balan&ccedil;o honesto do papel das emissoras de tv venezuelanas no fracassado golpe contra Chavez ter&aacute; infind&aacute;veis argumentos comprobat&oacute;rios.<\/p>\n<p>Cabe, portanto, aos que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil, ampliarem seu espectro de reivindica&ccedil;&otilde;es para al&eacute;m da defesa das emissoras comunit&aacute;rias. Cabe retomar os tempos em que o povo, na rua, afirmava n&atilde;o ser bobo, e rejeitava a rede Globo. Exigir desse governo que se diz democr&aacute;tico e popular a abertura de debate semelhante ao que ocorre entre nossos vizinhos continentais. Cen&aacute;rio realmente dif&iacute;cil de imaginar, quando lembramos que, distintamente do moderado Tancredo Neves &#8211; cuja primeira coletiva de imprensa foi dada no Congresso Nacional, onde afirmou n&atilde;o se propor a &quot;pagar a d&iacute;vida externa com o sangue do povo brasileiro&quot; &#8211; , Lula deu a sua sentadinho no banco de ouvinte do Jornal Nacional, dirigido pelo casal apresentador e respeitando os intervalos comerciais.<\/p>\n<p><em>* Milton Temer &eacute; jornalista e presidente da Funda&ccedil;&atilde;o Lauro Campos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Donos da m&iacute;dia atacam incessantemente quem se insurge contra a barb&aacute;rie do setor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1138],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23469"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23469\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}