{"id":23436,"date":"2009-10-16T10:45:58","date_gmt":"2009-10-16T10:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23436"},"modified":"2009-10-16T10:45:58","modified_gmt":"2009-10-16T10:45:58","slug":"a-grande-imprensa-e-o-profissionalismo-profissionalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23436","title":{"rendered":"A grande imprensa e o profissionalismo. Profissionalismo?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Das cr&iacute;ticas que se faz &agrave; grande imprensa, h&aacute; sempre uma constante: a m&iacute;dia teria abdicado de toda e qualquer imparcialidade, para cumprir o mandamento patronal de jamais conceder ao governo; ou &agrave; imagem que ela pr&oacute;pria construiu do governo. Fala-se pouco ou quase nada de um problema cada vez mais cr&ocirc;nico &#8211; a absoluta, a quase inacredit&aacute;vel falta de profissionalismo na composi&ccedil;&atilde;o do que cada dia se caracteriza mais em mais, como t&atilde;o somente, arma&ccedil;&otilde;es jornal&iacute;sticas. Ao que parece, aquele aforismo de Voltaire :&quot;Menti, menti, algo restar&aacute;&quot; seria ainda aplic&aacute;vel num mundo informatizado e, bem pior, num pa&iacute;s em que a cada ataque ao presidente Lula, mais e mais a sua popularidade aumenta.<\/p>\n<p>Franklin Martins, quando ainda n&atilde;o era ministro, disse sobre a revista &quot;Veja&quot; (de quem ele ganhou um processo por inj&uacute;ria e difama&ccedil;&atilde;o), que a &quot;Veja era a maior inimiga da Veja&quot;. Seria de se lembrar a recente capa da revista em que &agrave; evid&ecirc;ncia de que o Itamaraty iria vencer a parada em Honduras, era insistiu em que a condu&ccedil;&atilde;o do &quot;affair&quot; pelo Minist&eacute;rio de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores do Brasil, era um rotundo fracasso? Ser&aacute; que algum jornalista ou editor da revista acha mesmo que sem o apoio expresso dos Estados Unidos, os golpistas de Honduras conseguir&atilde;o se impor?<\/p>\n<p>Nenhuma destas perguntas s&atilde;o respond&iacute;veis. Fica s&oacute; a evid&ecirc;ncia de que n&atilde;o apenas a Veja mas os jornais e revistas do Pa&iacute;s, em sua esmagadora maioria, s&atilde;o mesmo inimigos de si pr&oacute;prios. O fato intriga. Para qualquer sujeito de meia idade que cumpriu boa parte de seus anos de jornalismo nos jornal&otilde;es e revistonas brasileiras, nunca era evidente, que o que se queria seria, realmente, a verdade. Talvez seja especioso discutir se grande parte da popula&ccedil;&atilde;o brasileira era a favor da ditadura militar; no entanto, era razo&aacute;vel que se admitisse o fato. S&oacute; que n&atilde;o eram poucos os jornalistas mais velhos, os decanos das reda&ccedil;&otilde;es, que, mesmo n&atilde;o sendo favor&aacute;veis &agrave; milicada e ao seu regime, insistiam na tese de que o pov&atilde;o bem que o tolerava. Vivia-se o pleno emprego: que diferen&ccedil;a fazia que, al&eacute;m dos presos comuns de sempre, jovens militantes e velhos homens de esquerda, estivessem sendo massacrados nos pres&iacute;dios? Para quem trabalhou na m&iacute;dia da &eacute;poca, era decepcionante, mas era isso mesmo. N&atilde;o havia como escamotear o fato, a inventar uma revolta que o povo n&atilde;o sentia.<\/p>\n<p>Digamos, ent&atilde;o, que a pauta para investigar a grande imprensa hoje deva ser a seguinte: at&eacute; onde os coleguinhas &#8211; fala-se daqueles mais velhos &#8211; acreditam no que escrevem? E por que mesmo que a todo o momento exigem a chancela patronal para exporem seus pontos de vista? A isso soma-se um fato ainda mais constrangedor: onde &eacute; mesmo que a palavra profissionalismo entra nesta hist&oacute;ria, se a dimens&atilde;o da farsa &eacute; muito maior que as evid&ecirc;ncias que inventam o contr&aacute;rio?<\/p>\n<p>S&atilde;o tantos os fatos, que &eacute; at&eacute; fastidioso lembr&aacute;-los: n&atilde;o haveria mem&oacute;ria para tanto. Pode-se, contudo, tomar qualquer caso ao acaso. At&eacute; quando se os rememora, alguns s&atilde;o simplesmente estarrecedores. Na &eacute;poca em que os jornais e revistonas estamparam em letras garrafais a famosa compra do dossi&ecirc;, em que o hoje governador Serra teria sido investigado, tudo circulou em torno do montante do dinheiro mobilizado. Teoricamente, o pagamento adviria de uma estatal ou de qualquer fonte nunca esclarecida. At&eacute; a&iacute;, por&eacute;m, &eacute; de se perguntar se essa seria toda a quest&atilde;o.<\/p>\n<p>Pois o inacredit&aacute;vel, em todo o caso, foi o fato certamente in&eacute;dito na hist&oacute;ria do jornalismo mundial: eis que a compra do dossi&ecirc; seria muito mais importante que o dossi&ecirc; em si. Que jornalismo pode se explicar como tal, ao n&atilde;o se preocupar com as poss&iacute;veis revela&ccedil;&otilde;es contidas no tal dossi&ecirc;, se isso sequer entrou em cogita&ccedil;&atilde;o? Tudo bem: como disse o presidente Lula -o &uacute;nico que disse alguma coisa, ali&aacute;s &#8211; n&atilde;o havia nada no tal dossi&ecirc; que realmente pudesse interessar a quem quer que fosse. Mas afora a considera&ccedil;&atilde;o presidencial, o interesse jornal&iacute;stico impositivo pelo que o dossi&ecirc; pudesse conter &#8211; esse n&atilde;o foi mencionado ou sugerido uma vez sequer. Era mentira, era irrelevante em princ&iacute;pio, ponto final.<\/p>\n<p>As coisas extrapolam o m&iacute;nimo. No fact&oacute;ide que foi a den&uacute;ncia da ex-secret&aacute;ria da Receita Federal que teria se encontrado com com a ministra Dilma Roussef , ocasi&atilde;o em que esta lhe teria pedido &quot;pressa&quot; na apura&ccedil;&atilde;o de supostos crimes cometidos por Jos&eacute; Sarney, a ningu&eacute;m foi dado saber do princ&iacute;pio jur&iacute;dico que o &quot;&ocirc;nus da prova&quot; estaria com a acusadora e n&atilde;o com a acusada. E que quando o Planalto, enfim, encerrou a quest&atilde;o &#8211; justamente pela raz&atilde;o que a Justi&ccedil;a lhe dava &#8211; n&atilde;o faltaram professores a impingir &agrave; ministra a suspeita das irregularidades. Um professor da USP abandonou qualquer bom senso ao insistir, numa entrevista na r&aacute;dio Cultura, que cabia &agrave; Ministra &quot;dirimir as suspeitas&quot;.<\/p>\n<p>Pois eram &quot;evidentes&quot;, pela prova nenhuma, que a ex-secret&aacute;ria tinha apresentado, que a ministra era suspeita, em princ&iacute;pio. Uma comentarista da CBN, ao admitir que a tal ex-secret&aacute;ria n&atilde;o tinha conseguido convencer ningu&eacute;m na CPI, nem por isso hesitou um s&oacute; instante de reiterar, mesmo assim, que a ministra teria &quot;de se explicar&quot;. N&atilde;o &eacute; o caso de se exigir um m&iacute;nimo de profici&ecirc;ncia profissional &#8211; mas, convenhamos, o despudor tem limites.<\/p>\n<p>Falar em despudor talvez seja de se supor que ele exista. E que a part&iacute;cula de nega&ccedil;&atilde;o &#8211; des &#8211; s&oacute; se aplicasse ao caso, excepcionalmente. Pois haveria ainda que rememorar a interpreta&ccedil;&atilde;o do famoso &quot;top-top&quot; do assessor especial do presidente, o professor Marco Aur&eacute;lio Garcia, que teria sido flagrado a dirigir os gestos obscenos &quot;&agrave;s v&iacute;timas do avi&atilde;o da TAM&quot; (sic). Nenhum jornalista minimamente probo assacaria que os gestos do assessor da presid&ecirc;ncia, feito na privacidade de seu gabinete, deveria ser lido como tendo sido endere&ccedil;ado aos passageiros mortos no desastre a&eacute;reo. As imagens diziam o que as televis&otilde;es e as r&aacute;dios quiseram ver, n&atilde;o o que era mais que evidente: que o sr. Marco Aur&eacute;lio Garcia xingava justamente as interpreta&ccedil;&otilde;es da grande imprensa; que s&oacute; faltou dizer que quem tinha derrubado o avi&atilde;o teria sido o presidente Lula. No entanto, propalada a vers&atilde;o mentirosa, tudo ficou ao vento. E a&iacute; sim, em conformidade com a m&aacute;xima voltariana, de que a mentira, repetida muitas vezes, pode al&ccedil;ar v&ocirc;os mais altos, principalmente para os incautos que gostam de se iludir.<\/p>\n<p>Talvez se possa inferir que tudo da grande imprensa seja mentira -e ent&atilde;o nada do que &eacute; veiculado pela m&iacute;dia seria verdadeiro. &Eacute; um evidente exagero &#8211; mas n&atilde;o parece um evidente exagero arriscar que a divulga&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do da prova do Enem, veio muito bem a calhar. obrigado. Eis que uma empresa jornal&iacute;stica que comanda a gr&aacute;fica de onde foram surrupiadas as provas, n&atilde;o tem nada a ver com o fato, embora seja, como quase toda a m&iacute;dia, &quot;de oposi&ccedil;&atilde;o&quot;. O que at&eacute; pode ser verdadeiro, ou seja, que o gr&aacute;fica n&atilde;o tem nada a ver com o fato. Mas imaginar que algu&eacute;m possa supor, tranq&uuml;ilamente, que os autores do crime pensassem em tirar dinheiro do &quot;Estad&atilde;o&quot;- para o qual foi revelado o conte&uacute;do do Enem- e n&atilde;o de gente que, realmente, pudesse e tivesse interesse em compr&aacute;-lo, vai uma dist&acirc;ncia que s&oacute; o delegado que presidiu o inqu&eacute;rito n&atilde;o quis ver. Mas que, de qualquer forma, adiou a quest&atilde;o da solu&ccedil;&atilde;o dos vestibulares para um futuro, que talvez contemple o governo Lula com &quot;mais essa&quot;: ele n&atilde;o avan&ccedil;ou em nada na quest&atilde;o dos vestibulares. E a rapidez com que algumas universidades descartaram se vincularem ao Enem, pode ser lida, sim, como o motivo para n&atilde;o dar ao governo federal qualquer m&eacute;rito por mexer com o candente problema do vestibular. Ou seja, nada de inquiri&ccedil;&otilde;es para o caso &#8211; t&atilde;o somente a aceita&ccedil;&atilde;o dos fatos. N&atilde;o &eacute; coisa de profissionais de jornalismo certamente : mas n&atilde;o o ser&aacute; de uma imprensa que a todo o momento se mostra inegavelmente golpista?<\/p>\n<p>Quem tem cerca de 60 anos, j&aacute; viu esse filme algumas vezes. E como se dizia antigamente, n&atilde;o passa de um tremendo abacaxi.<\/p>\n<p>P.S. Talvez fosse o caso de se ressaltar que a grande imprensa tem o poder de ainda influir sobre a cultura do Brasil. E que os artistas s&atilde;o os primeiros a perderem com isso. D&oacute;i, mas &eacute; isso mesmo. Da&iacute;, entretanto, tantos intelectuais se jogarem &agrave; execra&ccedil;&atilde;o do futuro (n&atilde;o &eacute; preciso mencion&aacute;-los, eles est&atilde;o nos jornal&otilde;es a vociferarem contra o governo Lula) s&oacute; se explica por n&atilde;o acreditarem em si mesmos. O que s&oacute; confirma Beethoven na sua cr&iacute;tica aos poetas (que vale para todos os que trocam tudo por um espa&ccedil;o na m&iacute;dia brasileira): eles amam em demasia as lantejoulas da corte para serem levados a s&eacute;rio. A come&ccedil;ar pelo futuro.<\/p>\n<p><em>* Enio Squeff &eacute; artista pl&aacute;stico e jornalista.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">&Eacute; quase inacredit&aacute;vel falta de profissionalismo no que se caracteriza mais em mais como t&atilde;o somente arma&ccedil;&otilde;es jornal&iacute;sticas.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23436"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}