{"id":23435,"date":"2009-10-16T10:40:44","date_gmt":"2009-10-16T10:40:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23435"},"modified":"2009-10-16T10:40:44","modified_gmt":"2009-10-16T10:40:44","slug":"a-midia-como-partido-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23435","title":{"rendered":"A m\u00eddia como partido pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">O jornalista Luiz Carlos Azenha transcreve em seu blog Vi o Mundo mat&eacute;ria publicada no The Nation no domingo (11\/10) [ver aqui] repercutindo entrevista que a diretora de Comunica&ccedil;&otilde;es da Casa Branca, Annita Dunn, concedeu &agrave; rede de televis&atilde;o CNN e tamb&eacute;m declara&ccedil;&otilde;es feitas a rep&oacute;rteres do The New York Times, nas quais ela afirma:<\/p>\n<p>&quot;A rede Fox News opera, praticamente, ou como o setor de pesquisas ou como o setor de comunica&ccedil;&otilde;es do Partido Republicano&quot; (&#8230;) &quot;n&atilde;o precisamos fingir que [a Fox] seria empresa comercial de comunica&ccedil;&otilde;es do mesmo tipo que a CNN.&quot;<\/p>\n<p>&quot;A rede Fox est&aacute; em guerra contra Barack Obama e a Casa Branca, [e] n&atilde;o precisamos fingir que o modo como essa organiza&ccedil;&atilde;o trabalha seria o modo que d&aacute; legitimidade ao trabalho jornal&iacute;stico.&quot;<\/p>\n<p>E disse mais:<\/p>\n<p>&quot;Quando o presidente [Barack Obama] fala &agrave; Fox, j&aacute; sabe que n&atilde;o falar&aacute; &agrave; imprensa, propriamente dita. O presidente j&aacute; sabe que estar&aacute; como num debate com o partido da oposi&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>Em mat&eacute;ria sobre o mesmo tema publicada na revista Time [ver aqui] e tamb&eacute;m reproduzida no site do Azenha [ver aqui], Michael Scherer escreve:<\/p>\n<p>&quot;Em vez de facilitar a vida dos jornalistas, oferecendo-lhes fatos que os jornais e jornalistas usam em seguida como se fossem `prova&acute; do que escreveriam contra Obama, mesmo sem qualquer verifica&ccedil;&atilde;o ou sem qualquer prova, a Casa Branca decidiu entrar no jogo e criticar mordazmente o jornalismo de futricas, os pol&iacute;ticos e os ve&iacute;culos que vivem de publicar bobagens, ou mentiras, ou inven&ccedil;&otilde;es completamente nascidas das cabe&ccedil;as dos `jornalistas&acute;(&#8230;).&quot;<\/p>\n<p><strong>O que h&aacute; de novo?<\/strong><\/p>\n<p>A rede de televis&atilde;o Fox, como se sabe, faz parte da News Corporation de Rudolph Murdoch. H&aacute; quase cinco anos escrevi, aqui mesmo no Observat&oacute;rio:<\/p>\n<p>&quot;O comportamento conservador dos ve&iacute;culos do grupo News Corporation &ndash; um dos maiores conglomerados de m&iacute;dia do planeta, controlado pelo magnata Rupert Murdoch &ndash; n&atilde;o &eacute; novidade para quem acompanha as an&aacute;lises sobre o jornalismo contempor&acirc;neo.<\/p>\n<p>Recentemente foi lan&ccedil;ado nos EUA um document&aacute;rio intitulado Outfoxed: Rupert Murdoch&acute;s War on Journalism, produzido e dirigido por Robert Greenwald. Baseado numa an&aacute;lise de v&aacute;rios meses dos notici&aacute;rios da Fox &ndash; que j&aacute; superou a CNN em termos de audi&ecirc;ncia &ndash; e em depoimentos de produtores, rep&oacute;rteres e escritores que trabalharam na emissora, Greenwald demonstra como a Fox tem servido de porta-voz dos grupos radicais de direita atrav&eacute;s da rotiniza&ccedil;&atilde;o de procedimentos de propaganda e controle interno do seu jornalismo&quot; [ver &quot;Rumo ao monop&oacute;lio da TV paga&quot;].<\/p>\n<p>O que constitui novidade, portanto, n&atilde;o &eacute; a posi&ccedil;&atilde;o da Fox. A novidade &eacute; a atitude do governo Barack Obama de enfrentar publicamente a Fox e nome&aacute;-la com todas as letras pelo papel que realmente vem desempenhando, isto &eacute;, o papel de um partido pol&iacute;tico de oposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>M&iacute;dia como partido pol&iacute;tico<\/strong><\/p>\n<p>Creio ter sido Antonio Gramsci (1891-1937), referindo-se &agrave; imprensa italiana do in&iacute;cio do s&eacute;culo 20, quem primeiro chamou a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que os jornais se transformaram nos verdadeiros partidos pol&iacute;ticos. Muitos anos depois, Octavio Ianni (1926-2004) cognominou a m&iacute;dia de &quot;o Pr&iacute;ncipe eletr&ocirc;nico&quot;.<\/p>\n<p>Na Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica contempor&acirc;nea, apesar de toda a resist&ecirc;ncia em problematizar &quot;a constru&ccedil;&atilde;o coletiva das prefer&ecirc;ncias&quot; no debate te&oacute;rico sobre a democracia, creio que j&aacute; se admite que a m&iacute;dia venha, historicamente, substituindo os partidos pol&iacute;ticos em algumas de suas fun&ccedil;&otilde;es tradicionais como, por exemplo, construir a agenda p&uacute;blica (agendamento); gerar e transmitir informa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas; fiscalizar as a&ccedil;&otilde;es de governo; exercer a cr&iacute;tica das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas e canalizar as demandas da popula&ccedil;&atilde;o [ver &quot;Revisitando as sete teses sobre m&iacute;dia e pol&iacute;tica no Brasil&quot;].<\/p>\n<p>No momento em que governos, em princ&iacute;pio democr&aacute;ticos, sobretudo na Am&eacute;rica Latina, prop&otilde;em o debate (caso da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, no Brasil) ou a regula&ccedil;&atilde;o dentro das regras do Estado de Direito (caso da Argentina, do Equador, da Bol&iacute;via), ou enfrentam diretamente os grupos privados de m&iacute;dia criando alternativas estatais e p&uacute;blicas (caso da Venezuela), o exemplo dos EUA significa um importante precedente.<\/p>\n<p>Os grandes grupos privados de m&iacute;dia &ndash; como a News Corporation, de Murdoch &ndash; seus s&oacute;cios e aliados em todo o planeta, por &oacute;bvio, v&atilde;o continuar reiterando cotidianamente suas acusa&ccedil;&otilde;es de n&atilde;o democr&aacute;ticos, autorit&aacute;rios e\/ou totalit&aacute;rios a esses governos.<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o seria, todavia, a hora de se questionar &ndash; s&eacute;ria e responsavelmente &ndash; o discurso de que a grande m&iacute;dia privada seria a mediadora neutra, desinteressada, imparcial e objetiva do interesse p&uacute;blico nas sociedades democr&aacute;ticas? Como sustentar esse discurso diante de todas as evidencias em contr&aacute;rio, inclusive de partidariza&ccedil;&atilde;o, aqui e alhures?<\/p>\n<p>N&atilde;o avan&ccedil;ar&iacute;amos no debate democr&aacute;tico se a grande m&iacute;dia assumisse publicamente suas posi&ccedil;&otilde;es e reconhecesse que, sim, al&eacute;m dos editoriais, dos artigos e das colunas, a cobertura que faz &ndash; ou a aus&ecirc;ncia dela &ndash; &eacute; tamb&eacute;m opinativa e, &agrave;s vezes, partid&aacute;ria?<\/p>\n<p>A posi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica do governo Barack Obama em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; rede de televis&atilde;o Fox obriga, necessariamente, a uma reflex&atilde;o sobre o papel da grande m&iacute;dia nas democracias representativas. Inclusive, &eacute; claro, no Brasil.<\/p>\n<p>Ou os Estados Unidos ser&atilde;o tamb&eacute;m inclu&iacute;dos, a partir de agora, na rela&ccedil;&atilde;o dos governos que a grande m&iacute;dia considera n&atilde;o democr&aacute;ticos, autorit&aacute;rios e\/ou totalit&aacute;rios?<\/p>\n<p><em>* Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia e autor, entre outros, de &quot;Di&aacute;logos da Perplexidade &ndash; reflex&otilde;es cr&iacute;ticas sobre a m&iacute;dia&quot;, com Bernardo Kucinski (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2009).<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">J&aacute; n&atilde;o seria a hora de se questionar o discurso de que a grande m&iacute;dia privada seria a mediadora neutra, imparcial e objetiva do interesse p&uacute;blico?<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23435"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23435\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}