{"id":23365,"date":"2009-09-16T20:14:03","date_gmt":"2009-09-16T20:14:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23365"},"modified":"2009-09-16T20:14:03","modified_gmt":"2009-09-16T20:14:03","slug":"como-democratizar-as-comunicacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23365","title":{"rendered":"Como democratizar as comunica\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Nesses tempos de prepara&ccedil;&atilde;o da 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, uma das quest&otilde;es recorrentes &eacute;: o que deve ser feito para &quot;democratizar as comunica&ccedil;&otilde;es&quot;? Boa pergunta, sem d&uacute;vida. Na verdade, essa &eacute; a quest&atilde;o s&iacute;ntese de todos os muitos e dif&iacute;ceis aspectos envolvidos na problem&aacute;tica geral do setor.<\/p>\n<p>&quot;Democratizar as comunica&ccedil;&otilde;es&quot; tem sido o principal paradigma conceitual, uma esp&eacute;cie de bandeira a orientar boa parte dos segmentos organizados da sociedade civil comprometidos com o avan&ccedil;o na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o. E n&atilde;o s&oacute; no Brasil. Todavia, uma das fal&aacute;cias desta bandeira &eacute; que ela pressup&otilde;e a possibilidade de que a grande m&iacute;dia dominante, privada e comercial, seria pass&iacute;vel de ser democratizada. Vale dizer, em termos da teoria liberal da liberdade de imprensa, trazer para dentro de si mesma, &quot;o mercado livre de id&eacute;ias&quot; (the market place of ideas) &ndash; representativo do conjunto da sociedade, isto &eacute;, plural e diverso. <\/p>\n<p>Seria este pressuposto realiz&aacute;vel?<\/p>\n<p><strong>Retrabalhando a teoria liberal<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; mais de 50 anos, isto &eacute;, pelo menos desde a Hutchins Commission (EUA, 1942-1947), a teoria liberal foi &quot;retrabalhada&quot; e passou a se apoiar em tr&ecirc;s id&eacute;ias centrais: pluralismo interno, responsabilidade social e profissionalismo. Esse &quot;retrabalhar&quot; decorreu da impossibilidade de se prosseguir sustentando o discurso do &quot;market place of ideas&quot; &ndash; semelhante ao mercado &quot;autocontrolado&quot; de Adam Smith &ndash; em face do avan&ccedil;o real da concentra&ccedil;&atilde;o (oligopoliza&ccedil;&atilde;o) da m&iacute;dia e da forma&ccedil;&atilde;o de redes regionais e nacionais de r&aacute;dio e televis&atilde;o.<\/p>\n<p>A solu&ccedil;&atilde;o encontrada, por&eacute;m, esbarra em dificuldades incontorn&aacute;veis identificadas pelo desenvolvimento da pesquisa na &aacute;rea &ndash; sobretudo em rela&ccedil;&atilde;o aos mitos da imparcialidade e da objetividade jornal&iacute;stica e da independ&ecirc;ncia dos conglomerados de m&iacute;dia &ndash; e tamb&eacute;m se torna invi&aacute;vel em sociedades, como a Inglaterra, onde existe uma tradi&ccedil;&atilde;o historicamente consolidada de imprensa partid&aacute;ria. <\/p>\n<p>Tudo isso trouxe de volta o ide&aacute;rio do &quot;market place of ideas&quot;, agora complementarmente ao pluralismo interno, &agrave; responsabilidade social e ao profissionalismo, e pela interven&ccedil;&atilde;o do Estado por interm&eacute;dio de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para garantir a concorr&ecirc;ncia das empresas de m&iacute;dia (a n&atilde;o oligopoliza&ccedil;&atilde;o) no mercado de id&eacute;ias. <\/p>\n<p>Al&eacute;m das dificuldades discursivas que a necessidade de interven&ccedil;&atilde;o do Estado cria para a teoria liberal, os pr&oacute;prios fatos t&ecirc;m revelado, sem margem a d&uacute;vidas, que nem um nem outro caminho tem garantido o &quot;market place of ideas&quot;.<\/p>\n<p><strong>Complementaridade dos sistemas<\/strong><\/p>\n<p>Uma variante dessas possibilidades foi contemplada na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988: trata-se da complementaridade dos sistemas privado, p&uacute;blico e estatal de radiodifus&atilde;o (Artigo 223).  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">Em fun&ccedil;&atilde;o de op&ccedil;&otilde;es feitas ainda na d&eacute;cada de 1930, temos no Brasil um sistema de radiodifus&atilde;o predominantemente privado. A Constitui&ccedil;&atilde;o, no entanto, determina a busca do equil&iacute;brio entre os sistemas como forma de democratizar as comunica&ccedil;&otilde;es: a cria&ccedil;&atilde;o da Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o (EBC), em 2007, caminha nesta dire&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Outra alternativa seria o apoio &agrave; cria&ccedil;&atilde;o e consolida&ccedil;&atilde;o de sistemas privados n&atilde;o comerciais, isto &eacute;, associa&ccedil;&otilde;es sem fins lucrativos, cooperativas ou funda&ccedil;&otilde;es. Aqui as r&aacute;dios e TVs comunit&aacute;rias s&atilde;o exemplos em curso.<\/p>\n<p><strong>Re-enquadrando a &quot;democratiza&ccedil;&atilde;o&quot; das comunica&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute;, no entanto, uma inflex&atilde;o conceitual que precisa ser feita. Devemos re-enquadrar toda a discuss&atilde;o da democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es em torno do conceito de &quot;direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o&quot;. &Eacute; preciso que a m&iacute;dia seja entendida como um poder e a comunica&ccedil;&atilde;o como um direito que compreenda n&atilde;o s&oacute; a liberdade de express&atilde;o como os direitos &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e ao conhecimento. Um direito t&atilde;o fundamental como a educa&ccedil;&atilde;o e\/ou a sa&uacute;de, por exemplo.<\/p>\n<p>A constru&ccedil;&atilde;o desse direito n&atilde;o &eacute; nova. Sua primeira formula&ccedil;&atilde;o j&aacute; tem quase 40 anos. Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; novo que entidades e movimentos sociais que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil inscrevam esse direito &ndash; direta ou indiretamente &ndash; entre os eixos principais de seus programas de a&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>S&atilde;o muitos, no entanto, os obst&aacute;culos &agrave; sua consolida&ccedil;&atilde;o, exatamente porque o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o abre perspectivas imensas do ponto de vista de garantias ao cidad&atilde;o, inclusive j&aacute; praticadas em outras democracias liberais, das quais ainda estamos muito distantes: o direito de resposta como interesse difuso e o direito de antena s&atilde;o apenas dois exemplos.<\/p>\n<p>O direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o logrou ainda o status de direito positivado nem mesmo em n&iacute;vel dos organismos multilaterais que t&ecirc;m a capacidade de provocar o reconhecimento internacional do conceito &ndash; como, por exemplo, a Unesco. Esse fato faz com que, simultaneamente &agrave; articula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de a&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, desenvolva-se tamb&eacute;m a luta pelo reconhecimento formal do direito. <\/p>\n<p>Existem ainda hist&oacute;ricas e poderosas resist&ecirc;ncias ao conceito, exatamente pelo poder que ele tem de abarcar um imenso leque de reivindica&ccedil;&otilde;es e bandeiras em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. Mas, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, esse &eacute; o caminho.<\/p>\n<p><strong>O que fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto se segue na constru&ccedil;&atilde;o do direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, h&aacute; de se tentar que o &quot;market place of ideas&quot; funcione no Brasil &ndash; sem ilus&otilde;es.<\/p>\n<p>Democratizar a comunica&ccedil;&atilde;o passa a ser, portanto, garantir a circula&ccedil;&atilde;o da diversidade e da pluralidade de id&eacute;ias existentes na sociedade, isto &eacute;, a universalidade da liberdade de express&atilde;o individual. Essa garantia tem que ser buscada tanto &quot;externamente&quot; &ndash; por meio da regula&ccedil;&atilde;o do mercado (sem propriedade cruzada e sem oligop&oacute;lios; priorizando a complementaridade dos sistemas p&uacute;blico, privado e estatal) &ndash; quanto &quot;internamente&quot; &agrave; m&iacute;dia &ndash; cobrando o cumprimento dos manuais de Reda&ccedil;&atilde;o que prometem (mas n&atilde;o praticam) a imparcialidade e a objetividade jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p><em>* Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia e autor, entre outros, de <\/em><span style=\"font-style: normal\">Di&aacute;logos da Perplexidade &ndash; reflex&otilde;es cr&iacute;ticas sobre a m&iacute;dia<\/span><em>, com Bernardo Kucinski (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2009).<\/em><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de prepara&ccedil;&atilde;o da 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, esta &eacute; uma quest&atilde;o recorrente.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23365"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23365\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}