{"id":23280,"date":"2009-08-31T16:49:41","date_gmt":"2009-08-31T16:49:41","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23280"},"modified":"2009-08-31T16:49:41","modified_gmt":"2009-08-31T16:49:41","slug":"anj-a-condenacao-seletiva-da-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23280","title":{"rendered":"ANJ: A condena\u00e7\u00e3o seletiva da censura"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\">Em solenidade na qual comemorou seus 30 anos de funda&ccedil;&atilde;o, na semana passada, em Bras&iacute;lia, a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais apresentou uma rela&ccedil;&atilde;o com 31 casos de censura &agrave; imprensa praticados nos &uacute;ltimos 12 meses no Brasil, sendo 16 decorrentes de decis&atilde;o judicial. O levantamento podia ser considerado completo ou, pelo menos, satisfat&oacute;rio, se n&atilde;o tivesse omitido a censura judicial imposta ao Jornal Pessoal, quinzen&aacute;rio que edito em Bel&eacute;m do Par&aacute; h&aacute; 22 anos, pelo juiz da 4&ordf; Vara C&iacute;vel do f&oacute;rum de Bel&eacute;m, Raimundo das Chagas Filho, no dia 6 de julho.<\/p>\n<p>O juiz Raimundo das Chagas deferiu a a&ccedil;&atilde;o de indeniza&ccedil;&atilde;o por dano moral proposta em setembro de 2005 por Ronaldo Maiorana e Romulo Maiorana J&uacute;nior, donos do grupo Liberal, a maior corpora&ccedil;&atilde;o de comunica&ccedil;&otilde;es do norte do pa&iacute;s, afiliada &agrave; rede Globo de Televis&atilde;o. O juiz condenou o<em> Jornal Pessoal <\/em>a indenizar os dois empres&aacute;rios, por pretensa ofensa &agrave; mem&oacute;ria de seu pai, em 30 mil reais, mais honor&aacute;rios advocat&iacute;cios arbitrados pelo m&aacute;ximo legal (20% do valor da causa) e custas judiciais. O valor corresponde a um ano e meio de faturamento bruto do <em>Jornal Pessoal<\/em>. Recorde-se que pena semelhante aplicada a <em>O Estado de S. Paulo<\/em> por magistrado do Distrito Federal foi de 150 mil reais, em iniciativa que provocou o justo protesto da ANJ. <\/p>\n<p>Para estabelecer o valor, o juiz disse que meu jornal, que circula com tiragem de 2.000 exemplares, 12 p&aacute;ginas em formato of&iacute;cio e n&atilde;o aceita publicidade, vendendo apenas em bancas e livrarias, tem alto lucro, sobretudo por vender muito entre estudantes. N&atilde;o h&aacute; qualquer base de c&aacute;lculo nos autos nem o juiz requereu per&iacute;cia que fundamentasse sua decis&atilde;o. Como tudo na senten&ccedil;a, ela &eacute; arbitr&aacute;ria.<\/p>\n<p>O titular da 4&ordf; Vara C&iacute;vel tamb&eacute;m imp&ocirc;s ao <em>Jornal Pessoal <\/em>publicar carta dos autores da a&ccedil;&atilde;o, em respeito ao direito de resposta. S&oacute; que nenhuma carta foi juntada aos autos, o que, evidentemente, torna inexeq&uuml;&iacute;vel a determina&ccedil;&atilde;o, nem ela pode ser ainda suprida, j&aacute; que o processo foi encerrado pela senten&ccedil;a de m&eacute;rito.<\/p>\n<p><strong>Direito e verdade<\/strong><\/p>\n<p>Em outra tutela inibit&oacute;ria, o juiz imp&ocirc;s ao <em>Jornal Pessoal <\/em>a proibi&ccedil;&atilde;o de qualquer tipo de refer&ecirc;ncia aos autores da a&ccedil;&atilde;o, embora, na peti&ccedil;&atilde;o inicial, eles tivessem requerido o acautelamento apenas para a mem&oacute;ria do pai, o que caracteriza a viola&ccedil;&atilde;o &agrave; regra processual de que o julgador n&atilde;o pode conceder o que n&atilde;o foi pedido.<\/p>\n<p>J&aacute; suscitei a suspei&ccedil;&atilde;o do magistrado atrav&eacute;s do devido recurso, al&eacute;m de ter-lhe embargado a senten&ccedil;a. Representarei contra ele ao Conselho Nacional de Justi&ccedil;a na pr&oacute;xima semana.<\/p>\n<p>Diante da gravidade desse caso de censura, qualquer levantamento sobre a viola&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio constitucional que pro&iacute;be a censura de peri&oacute;dicos no Brasil deixar&aacute; de ser s&eacute;rio se excluir a viol&ecirc;ncia praticada no dia 6 de julho pelo juiz Raimundo das Chagas Filho. Poder&aacute; sugerir uma moral de m&aacute; inspira&ccedil;&atilde;o: de que a ANJ coloca o esp&iacute;rito corporativo acima da defesa de um dos princ&iacute;pios constitucionais que sustenta o edif&iacute;cio democr&aacute;tico, que &eacute; a liberdade de imprensa. Atenta para combater a insidiosa censura que se espraia pelo pa&iacute;s em pleno regime democr&aacute;tico, fecha os olhos para a viola&ccedil;&atilde;o patrocinada por um associado, como o jornal <em>O Liberal<\/em>.<\/p>\n<p>No dia 20 de agosto escrevi uma carta ao vice-presidente da ANJ e respons&aacute;vel pelo Comit&ecirc; de Liberdade de Express&atilde;o entidade, J&uacute;lio C&eacute;sar Mesquita, pedindo-lhe para rever a lista dos 31 casos de censura &agrave; imprensa divulgada pela associa&ccedil;&atilde;o e nela incluir, por ser de direito e de verdade, o caso do <em>Jornal Pessoal<\/em>. Aguardo sua manifesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Exce&ccedil;&atilde;o da verdade<\/strong><\/p>\n<p>Quase aos 60 anos de idade, sou jornalista profissional h&aacute; 43 anos, 18 dos quais em <em>O Estado de S.Paulo <\/em>(1971-1989), minha mais longa e mais importante experi&ecirc;ncia na grande imprensa.<\/p>\n<p>H&aacute; 22 anos edito, sozinho, o <em>Jornal Pessoal<\/em>, quinzen&aacute;rio que coloquei em circula&ccedil;&atilde;o em setembro de 1987, em Bel&eacute;m do Par&aacute;. &Eacute; a mais duradoura das publica&ccedil;&otilde;es da imprensa alternativa brasileira, com a singularidade de ser feita por uma &uacute;nica pessoa, viver exclusivamente da venda avulsa e ter formato pobre, quase artesanal. Mesmo assim, recebeu pr&ecirc;mios internacionais por sua qualidade e &eacute; considerada uma fonte de refer&ecirc;ncia sobre temas amaz&ocirc;nicos. Tudo em fun&ccedil;&atilde;o da sua seriedade, da sua devo&ccedil;&atilde;o quase mission&aacute;ria &agrave; rigorosa e exata apura&ccedil;&atilde;o dos fatos, o que possibilita ao meu jornal um t&iacute;tulo que muito o honra: o de jamais ter sido desmentido. Mesmo os que divergem do jornal reconhecem sua seriedade e sua compet&ecirc;ncia no trato dos temas da sua pauta.<\/p>\n<p>Justamente por isso, o <em>Jornal Pessoal <\/em>tem sido muito perseguido, por aqueles que n&atilde;o aceitam a divulga&ccedil;&atilde;o dos seus desvios, como disse o Jo&atilde;o Roberto Marinho, ao discursar na solenidade comemorativa aos 30 anos da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornais. Meu jornal incomoda n&atilde;o por mentir ou ofender as pessoas, mas por dizer a verdade. O texto b&iacute;blico assegura, com raz&atilde;o, que a verdade liberta. Mas h&aacute; pessoas no nosso pa&iacute;s que n&atilde;o toleram a liberdade. Da&iacute; porque, desde 1992 at&eacute; hoje, fui processado 33 vezes no f&oacute;rum de Bel&eacute;m e condenado cinco vezes, sem que, entretanto, tenha perdido minha condi&ccedil;&atilde;o de r&eacute;u prim&aacute;rio porque as senten&ccedil;as n&atilde;o foram executadas.<\/p>\n<p>Desses 33 processos, 19 s&atilde;o de autoria de tr&ecirc;s irm&atilde;os, filhos de Romulo Maiorana, fundador do grupo Liberal, que &eacute; associado da ANJ, 14 dos quais propostos em ju&iacute;zo depois que um deles, Ronaldo Maiorana, diretor editor-corporativo do jornal <em>O Liberal<\/em>, me agrediu fisicamente, em 21 de janeiro de 2005. A agress&atilde;o, perpetrada pelas costas, com a cobertura de dois policiais militares, que funcionavam como seguran&ccedil;as particulares do agressor, teria sido uma rea&ccedil;&atilde;o do referido cidad&atilde;o a um artigo publicado no <em>Jornal Pessoal<\/em>, por ele considerado ofensivo.<\/p>\n<p>Apesar dessa alega&ccedil;&atilde;o, observa-se que os autores das a&ccedil;&otilde;es (cinco delas c&iacute;veis e 14 penais, com base na extinta Lei de Imprensa) jamais contestaram as mat&eacute;rias do <em>Jornal Pessoal <\/em>em seus pr&oacute;prios ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o, de audi&ecirc;ncia incomparavelmente maior, e nunca exerceram o direito de resposta. Preferiram propor de imediato as a&ccedil;&otilde;es na justi&ccedil;a, confinando as quest&otilde;es controversas aos autos dos processos. Mesmo nesses processos, por&eacute;m, nunca demonstraram a inten&ccedil;&atilde;o de apurar os fatos, j&aacute; que n&atilde;o comparecem &agrave;s audi&ecirc;ncias designadas, embora sendo seus autores, o que &eacute; fato in&eacute;dito. Em dois dos processos, recorrendo &agrave; exce&ccedil;&atilde;o da verdade, demonstrei cabalmente que todos os fatos por eles contestados eram procedentes, apresentando as provas deferidas, acolhidas e reconhecidas pelo juiz do feito. Todos fatos de interesse p&uacute;blico, relacionados &agrave; imprensa. Nada com a vida privada dos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p><strong>Lit&iacute;gio judicial<\/strong><\/p>\n<p>A inten&ccedil;&atilde;o, sobretudo ap&oacute;s a agress&atilde;o covarde, tanto mais grave porque o agressor &eacute; advogado e preside a comiss&atilde;o em defesa da liberdade de imprensa da OAB do Par&aacute;, &eacute; n&iacute;tida: acabar com o <em>Jornal Pessoal<\/em>. Os donos do grupo Liberal, associado da ANJ, usam plenamente seu direito de informa&ccedil;&atilde;o e opini&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o a tudo e a todos, mas n&atilde;o aceitam serem inclu&iacute;dos na agenda dos cidad&atilde;os, como se constitu&iacute;ssem categoria especial. Nem se preocupam com o debate p&uacute;blico, em esclarecer a sociedade, apresentando suas raz&otilde;es em contraposi&ccedil;&atilde;o aos relatos do meu jornal. Simplesmente querem punir o jornalista que ousou n&atilde;o se submeter &agrave;s suas vontades e caprichos.<\/p>\n<p>A persegui&ccedil;&atilde;o judicial ao <em>Jornal Pessoal <\/em>completar&aacute;, no pr&oacute;ximo m&ecirc;s, 19 anos. N&atilde;o sei de jornalista que j&aacute; tenha sido t&atilde;o processado por uma empresa jornal&iacute;stica, como eu tenho sido pelo grupo Liberal. Inusitadamente, essa corpora&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica abre m&atilde;o da sua compet&ecirc;ncia espec&iacute;fica, que &eacute; a informa&ccedil;&atilde;o, partindo diretamente para o lit&iacute;gio judicial, nada dizendo em seus pr&oacute;prios ve&iacute;culos sobre as supostas ofensas recebidas, atrav&eacute;s da imprensa, nem se defendendo no &acirc;mbito do ve&iacute;culo tido como ofensor. [Bel&eacute;m (PA), 26 de agosto de 2009]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Levantamento da ANJ est&aacute; incompleto: faltou o caso do Jornal Pessoal.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23280"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23280"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23280\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23280"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23280"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23280"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}