{"id":23261,"date":"2009-08-27T16:49:08","date_gmt":"2009-08-27T16:49:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23261"},"modified":"2009-08-27T16:49:08","modified_gmt":"2009-08-27T16:49:08","slug":"liberdade-de-expressao-convive-com-outros-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23261","title":{"rendered":"&#8220;Liberdade de express\u00e3o convive com outros direitos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--><span class=\"padrao\"><u><strong>Por Luiz Egypto &#8211; Observat&oacute;rio da Imprensa<\/strong><\/u><br \/><\/span><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><em>[T&iacute;tulo original: O direito na imprensa]<br \/><\/em><br \/>Este <em>Observat&oacute;rio<\/em> <em>[da Imprensa] <\/em>apraz-se em anunciar a chegada do jurista Dalmo de Abreu Dallari ao seu time de colunistas regulares. Ele escrever&aacute; quinzenalmente sob a retranca &quot;O direito na imprensa&quot; e seu foco preferencial ser&atilde;o as &quot;imperfei&ccedil;&otilde;es da imprensa no tratamento de mat&eacute;ria jur&iacute;dica&quot;, como adianta na entrevista a seguir.<\/p>\n<p>Dallari nasceu em Serra Negra (SP) h&aacute; 77 anos, neto de imigrantes italianos. Em depoimento ao site Direito do Estado, ele lembra da biblioteca de sua m&atilde;e e da sua paix&atilde;o pelos livros &ndash; o que foi decisivo para que o jovem Dalmo se interessasse pela leitura &ndash; e do h&aacute;bito de seu pai ler o jornal, em voz alta, a uma plat&eacute;ia de colonos italianos reunidos em sua loja de sapatos para, em seguida, explicar as not&iacute;cias lidas &ndash; o que teria despertado naquele garoto a voca&ccedil;&atilde;o para a doc&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Aos 15 anos transferiu-se para a capital S&atilde;o Paulo, onde estudou e descobriu bibliotecas p&uacute;blicas que permitiam o empr&eacute;stimo de at&eacute; quatro livros por quinzena. Foi uma festa para o &aacute;vido leitor. Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de S&atilde;o Paulo em 1953. Estudava &agrave; noite e durante o dia trabalhava como propagandista de produtos farmac&ecirc;uticos. Como lia muito e gostava de escrever, j&aacute; no primeiro ano assumiu a fun&ccedil;&atilde;o de redator-chefe do jornal do Centro Acad&ecirc;mico XI de Agosto. Graduou-se em 1957 na faculdade da qual posteriormente foi diretor e, hoje, &eacute; professor em&eacute;rito. Desde 1996 &eacute; professor da c&aacute;tedra Unesco de Educa&ccedil;&atilde;o para a Paz, Direitos Humanos e Democracia e Toler&acirc;ncia, criada na Universidade de S&atilde;o Paulo. Alguns dos seus livros s&atilde;o &ldquo;Elementos de teoria geral do Estado&rdquo;, &ldquo;O poder dos ju&iacute;zes&rdquo;, &ldquo;O futuro do Estado&rdquo;, &ldquo;Direitos humanos e cidadania&rdquo;, &ldquo;O que &eacute; participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica&rdquo; e &ldquo;O que s&atilde;o direitos da pessoa&rdquo;.<\/p>\n<p>Eis sua entrevista, feita por e-mail.<\/p>\n<p><strong>Professor Dalmo, seja bem-vindo ao <\/strong><em><strong>Observat&oacute;rio da Imprensa<\/strong><\/em><strong>. Como ser&aacute; sua coluna &quot;O direito na imprensa&quot;? Quais os temas priorit&aacute;rios desse espa&ccedil;o<br \/><\/strong>Participar do <em>Observat&oacute;rio da Imprensa <\/em>&eacute;, verdadeiramente, um privil&eacute;gio e tamb&eacute;m uma enorme responsabilidade. O grande prest&iacute;gio do Observat&oacute;rio e o respeito de que ele goza oferecem a possibilidade de falar a um p&uacute;blico muito numeroso e tamb&eacute;m muito exigente, que n&atilde;o recebe passivamente as informa&ccedil;&otilde;es, os coment&aacute;rios e as cr&iacute;ticas, mas tem opini&atilde;o pr&oacute;pria e avalia o que est&aacute; sendo transmitido. <br \/>Tenho sido cr&iacute;tico, numa roda &iacute;ntima, das imperfei&ccedil;&otilde;es da imprensa no tratamento de mat&eacute;ria jur&iacute;dica, tanto pela imprecis&atilde;o de muitas informa&ccedil;&otilde;es, &agrave;s vezes at&eacute; mesmo erradas, quanto pela avalia&ccedil;&atilde;o do desempenho de autoridades e institui&ccedil;&otilde;es da &aacute;rea jur&iacute;dica, revelando desconhecimento de peculiaridades b&aacute;sicas dessa &aacute;rea fundamental para a sociedade democr&aacute;tica e para a busca de justi&ccedil;a nas rela&ccedil;&otilde;es sociais. O que pretendo com a coluna &quot;O direito na imprensa&quot; &eacute; chamar a aten&ccedil;&atilde;o para as lacunas e impropriedades nas informa&ccedil;&otilde;es e nos coment&aacute;rios, falando com serenidade e independ&ecirc;ncia, externando lealmente e com imparcialidade meu pensamento, sem perder de vista que minhas palavras ser&atilde;o avaliadas por especialistas de outras &aacute;reas e tamb&eacute;m por conhecedores do direito.<\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal\"><strong>Decis&atilde;o recente do STF extinguiu a lei de imprensa, um dos tantos entulhos autorit&aacute;rios herdados ditadura. Sua elimina&ccedil;&atilde;o pura e simples foi de fato a solu&ccedil;&atilde;o mais acertada? Os c&oacute;digos Penal e Civil d&atilde;o conta de regular as cada vez mais intrincadas rela&ccedil;&otilde;es da cidadania com a m&iacute;dia?<br \/><\/strong><\/span>A lei de imprensa, heran&ccedil;a de um per&iacute;odo ditatorial, continha muitos pontos incompat&iacute;veis com os princ&iacute;pios democr&aacute;ticos consagrados na atual Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira. Creio, entretanto, que foi exagerada sua completa elimina&ccedil;&atilde;o, pois em muitos pontos ela atendia a necessidades da sociedade e dos indiv&iacute;duos, como, por exemplo, na fixa&ccedil;&atilde;o de responsabilidades. <br \/>A meu ver, existe a necessidade de uma lei de imprensa que estabele&ccedil;a, ou pelo menos procure estabelecer, o equil&iacute;brio entre direitos e responsabilidades. As condi&ccedil;&otilde;es atuais da vida social e as tremendas inova&ccedil;&otilde;es ocorridas no instrumental de comunica&ccedil;&otilde;es, o novo relacionamento do povo com a m&iacute;dia, est&atilde;o exigindo a fixa&ccedil;&atilde;o de regras legais adequadas, inclusive em linguagem apropriada a essa esfera de atividades, exig&ecirc;ncia que n&atilde;o encontra resposta adequada e suficiente nos c&oacute;digos Civil e Penal.<\/p>\n<p><strong>Como garantir, &agrave; luz da legisla&ccedil;&atilde;o atual, celeridade e relev&acirc;ncia ao instituto democr&aacute;tico do direito de resposta?<br \/><\/strong>Para que seja dada a necess&aacute;ria celeridade ao instituto democr&aacute;tico do direito de resposta &eacute; necess&aacute;ria a cria&ccedil;&atilde;o de instrumentos processuais pr&oacute;prios, &aacute;geis, n&atilde;o sujeitos a embara&ccedil;os e questionamentos formais. Nos &uacute;ltimos anos j&aacute; foram introduzidas inova&ccedil;&otilde;es importantes na pr&oacute;pria organiza&ccedil;&atilde;o judici&aacute;ria brasileira, com a cria&ccedil;&atilde;o de juizados especiais. Esse tamb&eacute;m &eacute; um aspecto importante que deve ser considerado, para que o direito de resposta seja efetivo e possa ser exercido oportunamente, para minimizar os efeitos de comunica&ccedil;&otilde;es erradas ou imperfeitas, divulgadas de boa ou de m&aacute; f&eacute;, que podem trazer enormes preju&iacute;zos a direitos fundamentais de pessoas e institui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Quando se discutem mecanismos de regula&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o &ndash; em especial os de radiodifus&atilde;o, que operam sob concess&atilde;o p&uacute;blica &ndash;, a maior resist&ecirc;ncia ao debate se d&aacute; sob a alega&ccedil;&atilde;o de que quaisquer movimentos nesse sentido colidiriam com os direitos &agrave; liberdade de imprensa e de express&atilde;o. &Eacute; um argumento v&aacute;lido? Por qu&ecirc;?<br \/><\/strong>Os direitos &agrave; liberdade de imprensa e de express&atilde;o fazem parte do n&uacute;cleo b&aacute;sico dos direitos fundamentais numa sociedade democr&aacute;tica. Entretanto, n&atilde;o se pode perder de vista que eles convivem com outros direitos, havendo sempre a possibilidade de conflito de direitos numa determinada situa&ccedil;&atilde;o concreta. Isso quer dizer que nenhum direito &eacute; absoluto, de tal modo que devam ser ignorados os efeitos sociais de seu gozo e seu relacionamento com os demais direitos. A Constitui&ccedil;&atilde;o consagra princ&iacute;pios fundamentais que devem ser tomados como base para a solu&ccedil;&atilde;o de eventuais conflitos dessa natureza, como, por exemplo, a dignidade humana e a cidadania, que podem ser invocados, n&atilde;o como limita&ccedil;&otilde;es mas como condicionantes do uso dos direitos fundamentais.<\/p>\n<p><strong>Como avalia a desenvoltura com que magistrados, quase sempre de primeira inst&acirc;ncia, exercem o que chamamos neste <\/strong><em><strong>Observat&oacute;rio<\/strong><\/em><strong> de &quot;censura togada&quot;? Onde reside a legitimidade dessas decis&otilde;es? <br \/><\/strong>A afirma&ccedil;&atilde;o da ocorr&ecirc;ncia do que muitas vezes tem sido chamado de &quot;censura togada&quot; &eacute; um dos pontos que exigem mais informa&ccedil;&atilde;o, busca de compreens&atilde;o dos par&acirc;metros jur&iacute;dicos e serenidade na avalia&ccedil;&atilde;o. Ainda agora foi desencadeada uma s&eacute;rie de acusa&ccedil;&otilde;es ao juiz que estabeleceu restri&ccedil;&otilde;es a um notici&aacute;rio relacionado com a fam&iacute;lia do senador Jos&eacute; Sarney. Mas, concreta e precisamente, o que foi que o juiz proibiu e como fundamentou sua decis&atilde;o? Para uma avalia&ccedil;&atilde;o correta e respons&aacute;vel de sua decis&atilde;o &eacute; fundamental o conhecimento dos termos precisos da proibi&ccedil;&atilde;o, os dados de fato e os fundamentos legais em que se apoiou o juiz. Entretanto, nem o jornal que se considera v&iacute;tima de censura nem qualquer &oacute;rg&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o publicou o texto da decis&atilde;o. <br \/>Observe-se que, por exig&ecirc;ncia legal expressa, o juiz &eacute; obrigado a fundamentar sua decis&atilde;o e ele deve ter feito isso, pois a falta de fundamenta&ccedil;&atilde;o ou a invoca&ccedil;&atilde;o de fundamentos errados j&aacute; teriam levado &agrave; anula&ccedil;&atilde;o da proibi&ccedil;&atilde;o pelo tribunal que apreciou o recurso e que, ao contr&aacute;rio disso, manteve a decis&atilde;o. Casos desse tipo dever&atilde;o ser objeto de avalia&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica na coluna &quot;O direito na imprensa&quot;, sempre tendo como base as exig&ecirc;ncias do Estado Democr&aacute;tico de Direito.<\/p>\n<p><strong>E no caso do impedimento da divulga&ccedil;&atilde;o, pelo jornal <\/strong><em><strong>Estado de S.Paulo<\/strong><\/em><strong>, de informa&ccedil;&otilde;es sobre a investiga&ccedil;&atilde;o da Pol&iacute;cia Federal acerca do filho do presidente do Senado? O que pensar da proximidade do desembargador D&aacute;cio Vieira com a fam&iacute;lia Sarney e da demora na aprecia&ccedil;&atilde;o do recurso impetrado pelo jornal?<br \/><\/strong>Essa quest&atilde;o remete &agrave; anterior: o que foi, exatamente, que o juiz proibiu? Como o juiz fundamentou sua decis&atilde;o? H&aacute; poucos anos tive oportunidade de participar de um debate no [programa televisivo do] <em>Observat&oacute;rio da Imprensa <\/em>a respeito da decis&atilde;o de um juiz do Rio de Janeiro, que, segundo alguns jornais, tinha proibido a publica&ccedil;&atilde;o de qualquer cr&iacute;tica ao ent&atilde;o governador Anthony Garotinho. Tendo sido convidado para o debate procurei e obtive o texto da decis&atilde;o e verifiquei que o juiz proibira, t&atilde;o s&oacute;, a publica&ccedil;&atilde;o da transcri&ccedil;&atilde;o de uma grava&ccedil;&atilde;o feita ilegalmente. Nada mais do que isso. Assim, pois, insisto na necessidade de conhecer os termos reais da decis&atilde;o do juiz para fazer sua avalia&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica. <\/p>\n<p><strong>H&aacute; uma linha de argumenta&ccedil;&atilde;o a sustentar que, no caso do Estad&atilde;o, a proibi&ccedil;&atilde;o de noticiar o assunto justifica-se pelo fato de o processo correr em segredo de Justi&ccedil;a. A imprensa deve eximir-se de noticiar o que apurou sobre o andamento de processos com esse car&aacute;ter? Por qu&ecirc;?<br \/><\/strong>S&atilde;o raros os casos em que um juiz determina que o processo corra em segredo de Justi&ccedil;a. Isso se faz, quando ocorre, para que a revela&ccedil;&atilde;o antecipada de certos dados n&atilde;o prejudique a investiga&ccedil;&atilde;o ou, ent&atilde;o, para que n&atilde;o seja dada publicidade a elementos cujo verdadeiro significado ainda depende de outras investiga&ccedil;&otilde;es ou de avalia&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica. Quando, depois disso, um elemento de fato &eacute; considerado v&aacute;lido como prova da pr&aacute;tica de ilegalidades desaparece o car&aacute;ter sigiloso e a imprensa fica absolutamente livre para divulg&aacute;-lo. <br \/>A imprensa deve ser livre, mas tamb&eacute;m respons&aacute;vel, n&atilde;o estimulando a pr&aacute;tica de ilegalidades nem colaborando com elas, abstendo-se de divulgar informa&ccedil;&otilde;es que sabe terem sido obtidas ilegalmente e cuja divulga&ccedil;&atilde;o apressada pode comprometer a apura&ccedil;&atilde;o da verdade, a avalia&ccedil;&atilde;o serena dos dados e a realiza&ccedil;&atilde;o da Justi&ccedil;a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jurista advoga em favor do equil&iacute;brio de direitos e responsabilidades na comunica&ccedil;&atilde;o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[434],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23261"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23261\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}