{"id":23259,"date":"2009-08-27T11:13:10","date_gmt":"2009-08-27T11:13:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23259"},"modified":"2009-08-27T11:13:10","modified_gmt":"2009-08-27T11:13:10","slug":"o-marketing-do-escandalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23259","title":{"rendered":"O marketing do esc\u00e2ndalo"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"padrao\"><u><\/u>A li&ccedil;&atilde;o de Conf&uacute;cio n&atilde;o prescreve. Ainda mais nos dias atuais. Ele escreveu: &quot;Se puderes resgatar as penas de dez travesseiros abertos no alto de uma colina em uma noite de tempestade, poder&aacute; resgatar a honra de uma pessoa caluniada&quot;. <\/p>\n<p>In&uacute;meros s&atilde;o os casos em que a imprensa tem se arrogado o papel da Justi&ccedil;a. Assumir fun&ccedil;&otilde;es t&iacute;picas da Justi&ccedil;a &eacute; recorrente na atividade jornal&iacute;stica. H&aacute; certa compreens&atilde;o de que jornal &eacute; f&oacute;rum, rep&oacute;rter &eacute; magistrado, editor &eacute; ministro de tribunal superior. E quando este &eacute; o quadro resta-nos apenas ver o desvirtuamento da informa&ccedil;&atilde;o fidedigna em atos de autoridade prepotente. <\/p>\n<p>Em 1993 escrevia Joaquim Falc&atilde;o em artigo publicado na imprensa carioca e que permanece t&atilde;o atual quando &agrave; &eacute;poca de sua publica&ccedil;&atilde;o: &quot;N&atilde;o raramente hoje, alguns jornais, ao divulgarem a den&uacute;ncia alheia, acusam sem apurar, processam sem ouvir, colocam r&eacute;u sem defesa na pris&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica; enfim, condenam sem julgar&quot;. E quando isto ocorre vemos justi&ccedil;amento e n&atilde;o justi&ccedil;a. &Eacute; imensa a dist&acirc;ncia separando um conceito do outro. <\/p>\n<p><strong>Verdade contrabandeada<\/strong><\/p>\n<p>Estas percep&ccedil;&otilde;es surgem quando cotejo a cobertura das quatro revistas semanais de informa&ccedil;&atilde;o e as capas dos principais jornais di&aacute;rios nestes &uacute;ltimos tr&ecirc;s meses. Existem tiros demais, v&iacute;timas demais. E tamb&eacute;m verdade de menos, isen&ccedil;&atilde;o de menos, muito menos. Isso me faz lembrar afirma&ccedil;&atilde;o do jornalista ingl&ecirc;s Paul Johnson quando em meados dos anos de 1990 em um artigo afirmava que &quot;a m&iacute;dia &eacute; uma arma carregada quando dirigida com inten&ccedil;&atilde;o hostil contra um indiv&iacute;duo&quot;. E h&aacute; muita inten&ccedil;&atilde;o hostil no notici&aacute;rio, da&iacute; que estamos sempre h&aacute; bem poucos metros do pelot&atilde;o de fuzilamento institu&iacute;do pela m&iacute;dia.<\/p>\n<p>Cl&aacute;udio Abramo personificava sua pr&oacute;pria m&aacute;xima ao dizer que o jornalismo era &quot;o exerc&iacute;cio di&aacute;rio da intelig&ecirc;ncia e a pr&aacute;tica cotidiana do car&aacute;ter&quot;. &Eacute; que n&atilde;o havia dist&acirc;ncia entre inten&ccedil;&atilde;o e gesto no caso do autor da frase. Ele sabia muito bem a regra do jogo (sem trocadilho com o famoso livro). <\/p>\n<p>&Eacute; bem desagrad&aacute;vel o sentimento que temos quando vemos campanha lan&ccedil;ada por jornal defendendo ou acusando esta ou aquela ideologia, este ou aquele pensamento pol&iacute;tico, filos&oacute;fico, religioso. Parece faltar intelig&ecirc;ncia ou a quem criou a campanha ou ao distinto p&uacute;blico-alvo da mesma. E faltou coragem de dizer com todas as letras quem est&aacute; por tr&aacute;s da tal campanha. <\/p>\n<p>Para ser coerente com a defini&ccedil;&atilde;o de Abramo somente aceitando que estamos diante de qualquer coisa, mas n&atilde;o de jornalismo. Quando revista semanal se transforma em porta-voz de partido pol&iacute;tico algo de muito errado est&aacute; acontecendo. Da mesma forma quando rede de televis&atilde;o se notabiliza na defesa intransigente de ponto de vista eminentemente religioso, logo somos alcan&ccedil;ados pelo mau odor exalado pelo preconceito e o fanatismo. <\/p>\n<p>E s&oacute; n&atilde;o h&aacute; erro se o ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o atua com transpar&ecirc;ncia deixando o p&uacute;blico saber a servi&ccedil;o de que agremia&ccedil;&atilde;o se encontra. &Eacute; aqui que mora o perigo: n&atilde;o temos tradi&ccedil;&atilde;o de nossos jornais e revistas cerrarem fileiras com esta ou aquela corrente pol&iacute;tica. &Eacute; sempre por debaixo do pano que a verdade &eacute; contrabandeada &ndash; e a credibilidade do ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a decair quando seu p&uacute;blico reconhece por si mesmo que h&aacute; um marketing por tr&aacute;s dessa ou daquela capa, dessa ou daquela cobertura. <\/p>\n<p><strong>Passagem do tempo<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; o marketing do esc&acirc;ndalo. As v&iacute;timas ser&atilde;o sempre aquelas que se atrevem a discordar da opini&atilde;o, da cren&ccedil;a defendida pelo canal de televis&atilde;o, jornal, revista, emissora de r&aacute;dio, portal na internet. O procedimento padr&atilde;o aplicado &eacute; minimizar ao m&aacute;ximo o contradit&oacute;rio, garantia m&iacute;nima que &eacute; para o Estado democr&aacute;tico, deixar passar ao longo da cobertura qualquer pluralidade de pensamento, qualquer fato novo investigado que tenha for&ccedil;a suficiente para frustrar o resultado desejado. Procedimento que maximiza as opini&otilde;es que fortalecem a linha editorial pretendida, que lhe concede repercuss&atilde;o indevida como forma de atender a interesses outros que n&atilde;o aqueles defendidos pelos que praticam o bom jornalismo. <\/p>\n<p>A l&oacute;gica do marketing do esc&acirc;ndalo inclui, sim, a possibilidade de retifica&ccedil;&atilde;o do erro cometido, do excesso havido, mas sempre o far&aacute; de maneira fr&aacute;gil, envergonhada, vulner&aacute;vel e inteiramente desproporcional ao impacto ou conseq&uuml;&ecirc;ncias do mal protagonizado. <\/p>\n<p>Penso haver t&atilde;o-somente um ant&iacute;doto a essa forma enviesada do fazer jornalismo no Brasil. E seria um choque de &eacute;tica nas rela&ccedil;&otilde;es dos jornalistas com suas mat&eacute;rias, com suas fontes, com os fatos, com a id&eacute;ia do contradit&oacute;rio, com a j&aacute; esquecida pr&aacute;tica de, antes da publica&ccedil;&atilde;o, ter buscado, honestamente, ouvir o outro lado. Quando penso em &eacute;tica n&atilde;o penso em consci&ecirc;ncia amorda&ccedil;ada. E nem penso em not&iacute;cias em constante descompasso com a passagem do tempo. Penso, apenas, no direito que todos temos de ter acesso a not&iacute;cia com maior qualidade, mais apurada, texto correto e preciso. Ser&aacute; pedir muito?<\/p>\n<p><strong>Reino inferior<\/strong><\/p>\n<p>S&eacute;culos atr&aacute;s Luis de Cam&otilde;es escreveu esses belos versos: &quot;Mudam-se os tempos,\/ Mudam-se as vontades\/ Muda-se o ser, muda-se a confian&ccedil;a\/ Todo o ser &eacute; feito de mudan&ccedil;a\/ Assumindo sempre novas qualidades.&quot; <\/p>\n<p>Bem conhecida a frase da escritora estadunidense Lilian Hellman (1905-1984): &quot;As pessoas mudam, mas esquecem de comunic&aacute;-lo&quot;. O mesmo acontece com os meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Nascem com uma proposta editorial clara e aos poucos, ao longo do caminho, v&atilde;o se desfazendo daquele esp&iacute;rito impulsor que lhe dava subst&acirc;ncia. Esquecem, tamb&eacute;m, de comunicar a mudan&ccedil;a aos leitores, ouvintes, telespectadores. <\/p>\n<p>Nada contra a mudan&ccedil;a, afinal j&aacute; faz parte da filosofia dos caminh&otilde;es: &quot;A &uacute;nica coisa que n&atilde;o muda &eacute; a mudan&ccedil;a&quot;. O problema com os meios de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; que eles mudam e nada fazem para assumir as conseq&uuml;&ecirc;ncias da mudan&ccedil;a. Faz-nos recordar aquela famosa atriz que, em busca do tempo perdido, decide fazer pl&aacute;stica no rosto. Uma vez feita, esta lhe altera os tra&ccedil;os fision&ocirc;micos, reduz significativamente os sulcos que o arado do tempo fez, mas, a atriz, mesmo diante da contraprova ante o espelho, ainda assim n&atilde;o se d&aacute; por vencida e volta a jurar, uma e mil vezes, que jamais passou perto de um bisturi. D&aacute; para acreditar?<\/p>\n<p>A pris&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica &ndash; com sua atual superlota&ccedil;&atilde;o &ndash; tem como alicerce os escombros de uma &eacute;tica jornal&iacute;stica profundamente abalada. Este entulho &eacute; representado pelo desabrido jogo pol&iacute;tico conspurcando o livre tr&acirc;nsito da informa&ccedil;&atilde;o e o desenfreado balc&atilde;o de neg&oacute;cios em que esta mesma informa&ccedil;&atilde;o &eacute; moeda corrente. <\/p>\n<p>A opini&atilde;o p&uacute;blica, quando trancafiada nos c&aacute;rceres do mau jornalismo, fere de morte um direito humano b&aacute;sico, fundamental. Refiro-me ao direito que trata da liberdade de pensamento, de opini&atilde;o, de cren&ccedil;a. E se esse direito &eacute; subtra&iacute;do ao patrim&ocirc;nio de humanidade que carregamos assim como o corpo carrega sua sombra, ent&atilde;o renunciamos &agrave; nossa humanidade e passamos a integrar um reino inferior, qual mineral, qual vegetal, qual animal irracional. <\/p>\n<p><em>* Washington Ara&uacute;jo &eacute; mestre em Comunica&ccedil;&atilde;o pela UnB e escritor; criou o blog Cidad&atilde;o do Mundo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A opini&atilde;o p&uacute;blica, quando trancafiada nos c&aacute;rceres do mau jornalismo, fere de morte um direito humano b&aacute;sico: a liberdade de pensamento, de opini&atilde;o, de cren&ccedil;a.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23259"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23259\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}