{"id":23231,"date":"2009-08-24T17:05:50","date_gmt":"2009-08-24T17:05:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23231"},"modified":"2009-08-24T17:05:50","modified_gmt":"2009-08-24T17:05:50","slug":"a-midia-e-um-grande-poder-mas-esta-mais-vulneravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23231","title":{"rendered":"\u201cA m\u00eddia \u00e9 um grande poder, mas est\u00e1 mais vulner\u00e1vel\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">No livro &ldquo;A Ditadura da M&iacute;dia&rdquo; (Editora Anita Garibaldi), Altamiro Borges descreve o que chama de paradoxo da m&iacute;dia hegem&ocirc;nica: nunca teve tanto poder, mas nunca esteve t&atilde;o desacreditada. Nesta entrevista, explora novamente este paradoxo desde a perspectiva de quem se coloca na &ldquo;trincheira contra a ditadura midi&aacute;tica&rdquo; &ndash; como aponta o subt&iacute;tulo de seu Blog do Miro (altamiroborges.blogspot.com). Em suas respostas, o jornalista, membro do comit&ecirc; central do PCdoB e autor de outras publica&ccedil;&otilde;es sobre comunica&ccedil;&atilde;o e sindicalismo, faz um resumo provocador dos dilemas da m&iacute;dia hegem&ocirc;nica e daqueles movimentos que tentam &ndash; ou deveriam tentar &ndash; derrub&aacute;-la.&nbsp;<\/span>     <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao padrao padrao\"><strong><br \/>No livro &ldquo;A Ditadura da M&iacute;dia&rdquo;, voc&ecirc; tentou usar uma linguagem mais acess&iacute;vel, menos especializada. Por que esta preocupa&ccedil;&atilde;o? <br \/><\/strong>Um dos problemas da batalha pela democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil &eacute; que, como tratamos de um tema dif&iacute;cil, que envolve muita tecnologia nova, ela acaba se tornando um debate restrito a alguns setores. Estudiosos j&aacute; h&aacute; algum tempo alertaram para o tema como uma quest&atilde;o estrat&eacute;gica, mas o debate geralmente fica entre especialistas. No outro extremo, o movimento social ainda n&atilde;o se deu conta de que a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o decisiva para as lutas do cotidiano, que &eacute; muito dif&iacute;cil realizar um trabalho de conscientiza&ccedil;&atilde;o, organiza&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o da classe se voc&ecirc; n&atilde;o enfrenta a manipula&ccedil;&atilde;o que a m&iacute;dia desenvolve. E que a m&iacute;dia &eacute; fundamental tamb&eacute;m para a defesa de direitos &ndash; pois dizem que eles s&atilde;o coisa de privilegiados, maraj&aacute;s &ndash; e que ela dificulta qualquer luta transformadora.<br \/>O movimento social &eacute; muito premido pelas urg&ecirc;ncias. No sindicalismo, por exemplo, a demanda &eacute; muito grande. &Eacute; atraso de sal&aacute;rio, press&atilde;o da chefia, retirada de direitos&#8230; o movimento sindical acaba tendo que correr atr&aacute;s desse preju&iacute;zo, e esse tamb&eacute;m &eacute; o papel dele. Mas isso apenas confirma a tese de Marx: voc&ecirc; fica na guerra de guerrilhas cotidiana contra os efeitos e n&atilde;o v&ecirc; as causas. O movimento fica na luta imediata, econ&ocirc;mica, corporativa, mas n&atilde;o v&ecirc; as causas da explora&ccedil;&atilde;o. O movimento social, no geral, n&atilde;o se deu conta ainda desta batalha estrat&eacute;gica.<\/p>\n<p><strong>E como foi esse trabalho de &ldquo;tradu&ccedil;&atilde;o&rdquo;?<\/strong><br \/>O objetivo do livro foi exatamente tentar fazer uma ponte entre um tema que &eacute; meio &aacute;rido e um p&uacute;blico formado por quem nem sempre &ldquo;caiu a ficha&rdquo; sobre isso. Este foi o esfor&ccedil;o. Participei muito tempo do movimento sindical &ndash; fui presidente de uma entidade chamada Centro de Estudos Sindicais, fui assessor de forma&ccedil;&atilde;o em algumas entidades &ndash; e conhe&ccedil;o um pouco desta realidade. Ent&atilde;o, fiz um livro voltado para este p&uacute;blico, porque acho que se essa galera dos movimentos sociais &ndash; que &eacute; extremamente aguerrida e combativa e que, como todo mundo, tem tamb&eacute;m suas falhas e debilidade &ndash;  n&atilde;o encarar de frente essa batalha, ela n&atilde;o ser&aacute; ganha.<\/p>\n<p><strong>A pauta da comunica&ccedil;&atilde;o ainda &eacute; subestimada pelos movimentos sociais?<\/strong><br \/><span>Acho que sim, em v&aacute;rios sentidos. Primeiro, os movimentos e os militantes t&ecirc;m dificuldade de entender o que &eacute; a m&iacute;dia hegem&ocirc;nica. Todos ficam &ldquo;p da vida&rdquo; com o tratamento que se d&aacute;, por exemplo, a uma greve. Sempre desvirtuam as nossas lutas, colocando a sociedade contra as nossas mobiliza&ccedil;&otilde;es, como se a sociedade n&atilde;o fosse formada tamb&eacute;m por trabalhadores. Sobre qualquer greve ou manifesta&ccedil;&atilde;o que se fa&ccedil;a, o eixo da cobertura &eacute; sempre o da criminaliza&ccedil;&atilde;o do movimento. O tratamento da Rede Globo para manifesta&ccedil;&otilde;es &eacute; sempre &ldquo;congestionou o tr&acirc;nsito&rdquo;. S&atilde;o sempre os manifestantes que s&atilde;o os violentos, os baderneiros. O MST, por exemplo, &eacute; duramente criminalizado, como se v&ecirc; no tratamento que a Veja lhe d&aacute;. Ent&atilde;o, o movimento social &eacute; a principal v&iacute;tima desses meios de comunica&ccedil;&atilde;o, mas por enquanto ainda permanece apenas reclamando. Ainda n&atilde;o percebeu que a quest&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; decisiva e deveria ser pauta obrigat&oacute;ria de todos os congressos de trabalhadores. Afinal, s&atilde;o os trabalhadores as v&iacute;timas desta m&iacute;dia hegem&ocirc;nica, pois eles ficam no cotidiano do trabalho e, quando chegam em casa, se sentam na frente da TV e lhes &eacute; despejada uma carga imensa de material manipulado, publicidade, individualismo, consumismo e rejei&ccedil;&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o coletiva. A quest&atilde;o &eacute; que n&atilde;o adianta s&oacute; reclamar: o movimento social precisa encarar essa luta de maneira estrat&eacute;gica, e acho que ainda n&atilde;o encara. No pr&oacute;prio processo de constru&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, os relatos que chegam s&atilde;o sempre os mesmos: baixa participa&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais mais tradicionais. Al&eacute;m disso, tamb&eacute;m falta investir em instrumentos pr&oacute;prios de comunica&ccedil;&atilde;o, fazer a luta de id&eacute;ias na sua base. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>Qual o problema com a comunica&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais?<\/strong><\/span><span><br \/>Muitas entidades ainda encaram a comunica&ccedil;&atilde;o como um gasto, n&atilde;o como um investimento da luta de id&eacute;ias. Veja o caso do movimento sindical: existe at&eacute; uma tiragem razo&aacute;vel de boletins sindicais no Brasil, mas muito fragmentada, muita voltada para as quest&otilde;es do cotidiano e tamb&eacute;m com muitos problemas de linguagem. O mundo do trabalho sofreu profundas transforma&ccedil;&otilde;es em raz&atilde;o das mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas e de t&eacute;cnicas de gerenciamento. Existe uma juventude sem cultura sindical e que est&aacute; presente nas empresas, e como voc&ecirc; se comunica com eles? Os boletins sindicais s&atilde;o, geralmente, aqueles &ldquo;tijola&ccedil;os&rdquo;, aquela coisa mal feita. E quando se discute isso, alega-se que o gasto &eacute; muito grande. Ou voc&ecirc; investe em materiais de qualidade, em novas linguagens, em novas plataformas, ou voc&ecirc; vai perder a batalha de id&eacute;ias. Hoje, a cabe&ccedil;a do trabalhador &eacute; disputada no &ldquo;macro&rdquo; e no &ldquo;micro&rdquo;, pela m&iacute;dia e tamb&eacute;m com as t&eacute;cnicas de gerenciamento, pois o patr&atilde;o est&aacute; disputando a cabe&ccedil;a do trabalhador com c&iacute;rculos de controle de qualidade.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O quanto as organiza&ccedil;&otilde;es do movimento social tem conseguido usar as novas plataformas de comunica&ccedil;&atilde;o e se desapegar dos m&eacute;todos mais &ldquo;tradicionais&rdquo;?<br \/><\/strong><\/span><span>H&aacute; uma grande mudan&ccedil;a de paradigma e acho que &agrave;s vezes n&atilde;o nos damos conta destas mudan&ccedil;as. Percebo que ainda h&aacute; muita resist&ecirc;ncia. &Eacute; dif&iacute;cil convencer um sujeito acostumado com a m&aacute;quina de escrever da pot&ecirc;ncia da internet. Eu mesmo sinto essa dificuldade, pois ainda dou muito valor ao conte&uacute;do e pouco &agrave; forma, o visual. Eu acho que existem algumas organiza&ccedil;&otilde;es que come&ccedil;am a perceber isso, investindo mais em internet, produzindo sites mais vivos, atraentes, sem dogmatismo ou doutrinarismo. Acho que h&aacute; um esfor&ccedil;o. Eu vejo algumas organiza&ccedil;&otilde;es dos movimentos sociais investindo em outros instrumentos. A experi&ecirc;ncia do MST com r&aacute;dio &eacute; muito interessante, atingindo 600, 700 r&aacute;dios. Esta &eacute; uma das coisas bonitas que o MST est&aacute; fazendo, porque &eacute; uma comunica&ccedil;&atilde;o para o interior de S&atilde;o Paulo, onde o r&aacute;dio tem um papel fundamental. Alguns sindicatos t&ecirc;m investido hoje em TV. O Sinpro [Sindicato dos Professores] de Minas Gerais, por exemplo, investiu em um baita est&uacute;dio, fazendo um programa de televis&atilde;o muito bem feito, que procura ter dinamismo. Ou seja, eles est&atilde;o fazendo a disputa na sociedade. Existem outros casos, como a Apeoesp [Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S&atilde;o Paulo], os metal&uacute;rgicos de Caxias do Sul. Mesmo na internet, recebi um relato de que os banc&aacute;rios de Sergipe organizaram uma greve atrav&eacute;s do Orkut em fun&ccedil;&atilde;o das dificuldades de mobiliza&ccedil;&atilde;o. Ou seja, j&aacute; existe na esquerda gente se alertando para isso, mesmo que cometendo erros. &Agrave;s vezes.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>No livro, voc&ecirc; fala do &ldquo;paradoxo da m&iacute;dia hegem&ocirc;nica&rdquo;. Qual &eacute; o paradoxo?<\/strong><\/span><span><br \/>Nunca a m&iacute;dia teve tanto poder. Em certo momento, at&eacute; em uma vis&atilde;o progressista, chegou-se a sugerir que a m&iacute;dia fosse um quarto poder, como um poder fiscalizador do executivo, legislativo e judici&aacute;rio, que seria a voz dos sem vozes. Isso acabou. A m&iacute;dia n&atilde;o &eacute; mais hoje um poder de fiscaliza&ccedil;&atilde;o da sociedade, se &eacute; que algum dia foi, e eu questiono isso. Mas antes ela n&atilde;o era t&atilde;o forte. Hoje ela &eacute; um grande poder. Ela &eacute; altamente concentrada. Na Fran&ccedil;a, os dois principais grupos de comunica&ccedil;&atilde;o est&atilde;o ligados &agrave; ind&uacute;stria de armamentos. Como diz o Ignacio Ramonet, &eacute; comunica&ccedil;&atilde;o e canh&atilde;o. Voc&ecirc; pega nos Estados Unidos, grandes grupos&#8230; &eacute; um poder econ&ocirc;mico violent&iacute;ssimo, que tem como objetivo o lucro, que faz de tudo um espet&aacute;culo, sensacionalismo para ser rent&aacute;vel, no mundo e no Brasil. No nosso caso, ainda h&aacute; o agravante do tipo de forma&ccedil;&atilde;o dos complexos midi&aacute;ticos, que &eacute; um neg&oacute;cio familiar, propriedade cruzada. A situa&ccedil;&atilde;o do Brasil &eacute; dram&aacute;tica, pois o processo de concentra&ccedil;&atilde;o foi pior do que em outros pa&iacute;ses, j&aacute; que n&atilde;o existe regra nenhuma. Uma mesma fam&iacute;lia &eacute; dona de r&aacute;dio, jornal, revista, TV, internet, o diabo! Ent&atilde;o, &eacute; um grande poder com uma grande capacidade de manipula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Qu&atilde;o grande &eacute; esta capacidade de manipula&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>Ela consegue convencer que o Saddam Hussein tem armas qu&iacute;micas e bacteriol&oacute;gicas. Se bobear, consegue convencer que o Saddam Hussein estava num daqueles avi&otilde;es do 11 de setembro. Voc&ecirc; v&ecirc; a manipula&ccedil;&atilde;o que est&aacute; se dando agora com o golpe de Honduras&#8230; a m&iacute;dia est&aacute; relativizando o golpe, est&aacute; escondendo as manifesta&ccedil;&otilde;es. Ou sen&atilde;o, apresenta as manifesta&ccedil;&otilde;es a favor dos golpistas e as manifesta&ccedil;&otilde;es a favor do presidente deposto como se houvesse esta disputa entre os hondurenhos, tentando negar o golpe. Tem uma epis&oacute;dio recente que achei um absurdo&#8230; Sem entrar nos m&eacute;ritos do que representa o governo iraniano &ndash; um governo sobre o qual tenho muitas ressalvas, um governo teocr&aacute;tico, conservador, mas &eacute; um governo eleito, a m&iacute;dia fez uma &ldquo;baita onda&rdquo; quando o presidente iraniano viria ao Brasil para assinar alguns acordos. At&eacute; umas manifesta&ccedil;&otilde;es merrecas foram pra TV Globo. Agora, acabou de sair do pa&iacute;s um ministro de Israel [Avigdor Lieberman, ministro das Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores israelense] &ndash; e sobre este n&atilde;o precisa ter d&uacute;vida: o cara fala que tem que jogar bomba, que tem que matar, &eacute; um racista assumido, algu&eacute;m que emporcalha a hist&oacute;ria dos judeus perseguidos pelo holocausto porque ele prop&otilde;e um holocausto sionista. E a m&iacute;dia n&atilde;o fala nada! A Veja ainda publica uma entrevista como se o cara fosse um santo. Ent&atilde;o, essa capacidade de manipula&ccedil;&atilde;o da opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute; muito violenta. &Eacute; s&oacute; a gente pegar o que foi a elei&ccedil;&atilde;o de 2006 no Brasil, a elei&ccedil;&atilde;o de 2005 na Bol&iacute;via, a tentativa de golpe na Venezuela&#8230; O D&ecirc;nis de Moraes, que &eacute; um brilhante estudioso da m&iacute;dia, chega a dizer que ela tem um duplo poder: ela &eacute; um poder econ&ocirc;mico, no sentido de reprodu&ccedil;&atilde;o capitalista, est&aacute; atr&aacute;s de lucro, e &eacute; ao mesmo tempo &ndash; e ele ret&eacute;m o pensamento deste revolucion&aacute;rio italiano Antonio Gramsci &ndash; um aparelho privado de hegemonia. Este &eacute; o lado do poder, o lado da ditadura midi&aacute;tica.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Uma ditadura poderosa, pelo visto&#8230;<\/strong><\/span><span><br \/>E este poder se agravou muito, a meu ver, por tr&ecirc;s fatores. Um: as mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas, muito profundas. Dois: a desregulamenta&ccedil;&atilde;o neoliberal. O desmonte do Estado e o fim de leis deram &agrave; m&iacute;dia este poder. Ela se coloca acima da Constitui&ccedil;&atilde;o, acima do Estado, acima das leis. E um terceiro fator, este totalmente end&oacute;geno: o capitalismo tende &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o. A l&oacute;gica do sistema &eacute; ser concentrador. Ent&atilde;o, a monopoliza&ccedil;&atilde;o, o desmanche neoliberal e as novas tecnologias aumentaram este poder. E onde est&aacute; o paradoxo?<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Pois &eacute;&#8230; se estamos falando de um poder que vem crescendo nos &uacute;ltimos tempos, onde est&aacute; o paradoxo?<br \/><\/strong><\/span><span>&Eacute; que este poder tamb&eacute;m est&aacute; sendo questionado. E onde ele est&aacute; sendo questionado? No meu entender, pelas pr&oacute;prias mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas. Elas abriram determinadas brechas &ndash; que eu acho que n&atilde;o duram muito, mas s&atilde;o brechas importantes. A internet, hoje, &eacute; uma coisa aberta. Isso fragiliza a m&iacute;dia. Essa mudan&ccedil;a de paradigma sobre o qual a gente falava que o movimento social tem dificuldade de compreender, eles [a m&iacute;dia hegem&ocirc;nica] tamb&eacute;m est&atilde;o com dificuldade. &Eacute; fal&ecirc;ncia de jornal&otilde;es, &eacute; queda de audi&ecirc;ncia de TV&#8230; Acho que estas mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas criam o paradoxo: &eacute; um grande poder, mas que est&aacute; mais vulner&aacute;vel. A outra coisa que eu acho que afeta muito &eacute; que a m&iacute;dia, esta m&iacute;dia hegem&ocirc;nica, vem perdendo credibilidade. Porque como a manipula&ccedil;&atilde;o fica muito agressiva, tem hora que a sociedade vai despertando. Os estadunidenses, por exemplo, foram intoxicados e entorpecidos com toda aquela mensagem do Bush. Mas depois eles perceberam que aquela mensagem do Bush, da guerra, da desregulamenta&ccedil;&atilde;o da economia conduziu os Estados Unidos a uma crise enorme, tanto &eacute; que se produziu um fen&ocirc;meno: a elei&ccedil;&atilde;o de um negro para a Presid&ecirc;ncia em uma sociedade que tem caracter&iacute;sticas racistas muito fortes. Tal foi o descontentamento que se teve com o Bush. Com o Bush e tamb&eacute;m com a m&iacute;dia.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>No livro, voc&ecirc; cita alguns exemplos na Am&eacute;rica Latina.<\/strong><\/span><span><br \/>Acho que no nosso continente a m&iacute;dia sofre um forte questionamento da sua credibilidade. O golpe de 2002 na Venezuela foi um golpe todinho organizado pela m&iacute;dia. Inclusive as reuni&otilde;es dos golpistas eram feitas na sede da RCTV e na sede do Cisneros. E o povo n&atilde;o aceitou. O povo desligou as televis&otilde;es, se comunicou atrav&eacute;s de r&aacute;dios comunit&aacute;rias, internet e motoboy, desceu o morro, ocupou o [Pal&aacute;cio] Miraflores e obrigou o retorno do Ch&aacute;vez. Isso &eacute; uma derrota da m&iacute;dia. Voc&ecirc; pega a elei&ccedil;&atilde;o na Bol&iacute;via. O Emir Sader fez uma pesquisa interessante: 87% das mat&eacute;rias de r&aacute;dios, jornais e TVs na Bol&iacute;via foram contra o Evo Morales, inclusive com conte&uacute;do racista. E o povo vai l&aacute; e elege o Evo Morales. Pega aqui mesmo no Brasil, com todas as limita&ccedil;&otilde;es do governo Lula, a onda que se fez contra o governo Lula&#8230; e o povo reelege. <\/p>\n<p><\/span><span><strong>A gente percebe quando a m&iacute;dia passa do ponto&#8230;<\/strong><\/span><span><br \/>A m&iacute;dia passou do ponto, sim. E o povo percebe&#8230; Mas acho que n&atilde;o tem jeito: a m&iacute;dia vai exagerar na dose. Voltando ao Gramsci, ele fala o seguinte: quando os partidos das classes dominante entram em crise, a imprensa assume o papel do partido do capital. Isso que o Gramsci falava na d&eacute;cada de 1920 est&aacute; se confirmando hoje: como as institui&ccedil;&otilde;es burguesas est&atilde;o em crise &ndash; at&eacute; porque todas elas apostaram no receitu&aacute;rio neoliberal de desmonte do Estado, da na&ccedil;&atilde;o e do trabalho, e afundaram na crise que elas pr&oacute;prias ajudaram a criar &ndash;, cada vez mais a m&iacute;dia vai ocupar este papel e ser mais agressiva. E com isso ela vai perder credibilidade. Esse menino que organizou o <\/span><span><em>Rebeli&oacute;n<\/em><\/span><span>, que &eacute; um dos grandes portais da internet hoje no mundo &ndash; &eacute; o Pascoal Serrano &ndash;, tem um livro que ele fala: a m&iacute;dia vai perdendo credibilidade. Ela perde credibilidade porque surgem fontes alternativas, porque exagera na sua autoridade e isso vai corroendo a m&iacute;dia. E quando ela exagera demais ela se estrepa. Pega o epis&oacute;dio da <\/span><span><em>Folha de S. Paulo <\/em><\/span><span>quando qualificou a ditadura militar de ditabranda&#8230; ela perdeu assinantes! Por isso est&aacute; fazendo estas campanhas fals&aacute;rias, dizendo que &eacute; plural, que ouve todo mundo, pela democracia&#8230;Quem apoiou o regime militar, deu carro pra levar preso pol&iacute;tico pra tortura e quer falar de democracia tem que come&ccedil;ar fazendo autocr&iacute;tica do que fez no passado. Ent&atilde;o, &eacute; por tudo isso que se d&aacute; o paradoxo: a m&iacute;dia nunca teve tanto poder assim, mas as coisas est&atilde;o se corroendo. E h&aacute; ainda um terceiro fator que leva a este paradoxo: a m&iacute;dia reflete a luta de classes no seu pa&iacute;s e no mundo e, no caso do nosso continente, esta luta se radicalizou. De laborat&oacute;rio das pol&iacute;ticas neoliberais, virou a lideran&ccedil;a de oposi&ccedil;&atilde;o. Isso produziu uma radicaliza&ccedil;&atilde;o da luta pol&iacute;tica na Am&eacute;rica Latina e a elei&ccedil;&atilde;o de governos anti-neoliberais &ndash; uns mais avan&ccedil;ados, uns mais recuados, uns mais radicais no sentido pleno da palavra, de ir na raiz dos problemas, outros mais moderados e conciliadores, mas isso come&ccedil;ou a produzir mudan&ccedil;as. Mais cedo ou mais tarde estes governos iam ter de enfrentar o problema da m&iacute;dia. E eles come&ccedil;aram a enfrentar.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>Como tem sido este enfrentamento?<\/strong><\/span><span><br \/>Alguns pa&iacute;ses est&atilde;o enfrentando de forma ousada. Na Venezuela, o governo bate duro, n&atilde;o brinca com a m&iacute;dia. A m&iacute;dia n&atilde;o est&aacute; acima do Estado, acima da sociedade. Bate duro. Se a RCTV &eacute; golpista, se a RCTV n&atilde;o paga os funcion&aacute;rios, se a RCTV transmite programa fora do hor&aacute;rio que afeta crian&ccedil;as e adolescentes, programas de prostitui&ccedil;&atilde;o inclusive, se a RCTV pratica evas&atilde;o de divisa, acabou a concess&atilde;o p&uacute;blica. Acabou. Pode chorar, mas voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m mais a concess&atilde;o p&uacute;blica. &Eacute; bandido! N&atilde;o tem mais concess&atilde;o p&uacute;blica, voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m esse direito. O governo venezuelano vai tomando medidas. Agora mesmo fechou um bocado de r&aacute;dio com concess&otilde;es irregulares. O governo boliviano tamb&eacute;m vem tomando medidas. A Constitui&ccedil;&atilde;o do Equador &eacute; impressionante neste sentido. A auditoria das concess&otilde;es que foi feita no Equador&#8230; impressionante. Esses governos v&atilde;o tomando estas medidas e a m&iacute;dia vai ficando cada vez mais como bicho acuado&#8230; Eu acho que isso tudo vai vulnerabilizar a m&iacute;dia hegem&ocirc;nica. Por isso o paradoxo: nunca teve tanto poder, mas nunca esteve t&atilde;o vulner&aacute;vel.<\/p>\n<p><\/span><span><strong>O senhor v&ecirc; alguma especificidade no caso brasileiro? Por exemplo, no Brasil n&atilde;o tem defini&ccedil;&otilde;es como:  tal jornal &eacute; conservador, tal colunista &eacute; progressista. A <\/strong><\/span><span><em><strong>Folha<\/strong><\/em><\/span><span><strong>, por exemplo, diz em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; imprensa norte-americana: o jornal <\/strong><\/span><span><em><strong>The New York Times <\/strong><\/em><\/span><span><strong>&eacute; progressista, o colunista tal &eacute; conservador, mas n&atilde;o usa essas coisas para si mesma. Por qu&ecirc;? Por que essa especificidade brasileira, onde n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel nem fazer este tipo de questionamento acerca da filia&ccedil;&atilde;o dos diferentes ve&iacute;culos a determinadas posi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas?<\/strong><\/span><br \/>Eu acho que isso tem a ver com a pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o dos monop&oacute;lios no Brasil. O processo de concentra&ccedil;&atilde;o no Brasil se deu totalmente desregrado. Nos Estados Unidos, com todos os problemas dos Estados Unidos &ndash; uma pot&ecirc;ncia imperialista agressiva -, mas l&aacute; voc&ecirc; teve, at&eacute; mesmo como fruto da luta contra o nazifascismo, a elabora&ccedil;&atilde;o de leis que controlavam um pouco a m&iacute;dia, que proibiam a propriedade cruzada. Voc&ecirc; tem uma ag&ecirc;ncia reguladora, tem lei anti-truste &ndash; &eacute; verdade que o Bush tentou acabar com todas elas &#8230; &ndash;, voc&ecirc; tem duas redes p&uacute;blicas razo&aacute;veis. Na Europa, tem ainda mais cuidado com isso, porque, no processo de derrota do nazifascismo, voc&ecirc; teve toda uma constru&ccedil;&atilde;o de redes p&uacute;blicas fortes, com capacidade de audi&ecirc;ncia. Voc&ecirc; pode at&eacute; ter cr&iacute;ticas &agrave; BBC, mas ela &eacute; uma televis&atilde;o de alta qualidade p&uacute;blica. Ent&atilde;o, houve a experi&ecirc;ncia da televis&atilde;o portuguesa no final do salazarismo, teve a It&aacute;lia no final do fascismo. No Brasil, n&atilde;o teve nada disso, nunca teve uma rede p&uacute;blica forte. Get&uacute;lio Vargas at&eacute; tentou criar com a R&aacute;dio Nacional &#8211; que chegou a ser a 4&ordf; maior do mundo &ndash; , investiu tamb&eacute;m em um jornal alternativo que foi o <em>&Uacute;ltima Hora<\/em>, mas exatamente por isso ele &eacute; t&atilde;o detestado pela elite brasileira e principalmente pela elite paulista. Ali&aacute;s, S&atilde;o Paulo &eacute; o &uacute;nico estado do pa&iacute;s onde n&atilde;o tem uma rua Get&uacute;lio Vargas. &Eacute; o &uacute;nico lugar onde tem um feriado para comemorar a tentativa de uma revolu&ccedil;&atilde;o olig&aacute;rquica, dia 9 de julho. <\/p>\n<p><strong>Qual o problema criado pela falta de uma rede p&uacute;blica de comunica&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>Sem uma rede p&uacute;blica forte, o que sempre se teve foi um setor privado que nunca teve regras de controle. Nunca houve regulamenta&ccedil;&atilde;o para essa &aacute;rea. Ent&atilde;o, n&oacute;s n&atilde;o pegamos a experi&ecirc;ncia europ&eacute;ia de p&uacute;blico e ainda pioramos o que pegamos dos Estados Unidos, que minimamente tem lei que controla a concentra&ccedil;&atilde;o e o trabalho da m&iacute;dia. Ent&atilde;o, esses caras aqui se sentem os donos da cocada preta, sempre com muita capacidade de interferir. Com exce&ccedil;&atilde;o do <em>&Uacute;ltima Hora <\/em>e jornais de esquerda, todas essas grandes empresas de comunica&ccedil;&atilde;o apoiaram o golpe de 64. Todas entraram na campanha do Collor. At&eacute; os colunistas progressistas estas empresas foram limpando. Para vozes que destoem, que problematizem, que polemizem, o espa&ccedil;o &eacute; reduzid&iacute;ssimo nestes meios. Eu acho que estes fatores &eacute; que geram esta degenera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as no Brasil, hoje, entre os movimentos progressistas que questionam o modelo midi&aacute;tico e estes grandes grupos de m&iacute;dia? Como voc&ecirc; acha que vai ser a Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Primeiro, a Confer&ecirc;ncia &eacute; uma grande conquista dos movimentos sociais brasileiros, destas entidades que h&aacute; muito tempo levantam a import&acirc;ncia de se lutar pela democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o: Intervozes [- Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social], FNDC [F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o], Abra&ccedil;o [Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias], entidades que levantam este tema. Uma vit&oacute;ria que foi dif&iacute;cil, pois h&aacute; sete anos estamos tentando esta Confer&ecirc;ncia. Ela estava impl&iacute;cita no programa do Lula de 2003, estava expl&iacute;cita no de 2006 e s&oacute; saiu agora, no final de 2009. E isso tem a ver com correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a e com vacila&ccedil;&otilde;es do governo Lula. <\/p>\n<p><strong>Por que &ldquo;vacila&ccedil;&otilde;es&rdquo;?<\/strong><br \/>O governo Lula fez pacto com o capital financeiro, pacto com o agroneg&oacute;cio e pacto com os bar&otilde;es da m&iacute;dia. Apanhou muito em 2006, e no segundo mandato come&ccedil;ou a romper com esse pacto com os bar&otilde;es, mas foi muito cauteloso. Dos governos progressistas da Am&eacute;rica Latina, talvez tenha sido o que menos avan&ccedil;ou neste processo de democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Isso tem a ver com a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as no Brasil e com a complexidade do Brasil e o pr&oacute;prio problema de convic&ccedil;&atilde;o do governo. Ent&atilde;o, j&aacute; foi t&atilde;o duro conquistar a Confer&ecirc;ncia, n&atilde;o ia ser f&aacute;cil realiz&aacute;-la. <\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; se refere aos impasses criados pelos empres&aacute;rios&#8230;<\/strong><br \/>A conquista da Confer&ecirc;ncia teve a ver tamb&eacute;m com um racha no setor empresarial, um racha nas classes dominantes, que, por sua vez, teve a ver com essas mudan&ccedil;as tecnol&oacute;gicas, com essa digitaliza&ccedil;&atilde;o e com a entrada dos operadores de telefonia na produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos. Ent&atilde;o, os radiodifusores brasileiros est&atilde;o muito preocupados com isso. Inclusive s&atilde;o muito manhosos. Eles que pregaram a desnacionaliza&ccedil;&atilde;o da economia, entrega tudo, privatiza tudo e agora est&atilde;o falando em defesa da cultura nacional. &Eacute; uma hipocrisia razo&aacute;vel, apesar de que parte de um problema real, porque se as operadoras de telefonia entram, elas t&ecirc;m um poder financeiro&#8230; A Telef&ocirc;nica &eacute; 60 bi [R$ 60 bilh&otilde;es] e a Globo que &eacute; a Globo &eacute; 5 bi. Ent&atilde;o se n&atilde;o tiver nenhum mecanismo de controle, daqui a pouco voc&ecirc; n&atilde;o tem nenhuma produ&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;do nacional, s&oacute; vai ver porcaria estrangeira. Vai ter que ag&uuml;entar Bob Esponja de manh&atilde;, &agrave; tarde e &agrave; noite. Enfim: este racha empresarial tamb&eacute;m facilitou a Confer&ecirc;ncia. &Eacute; uma vit&oacute;ria do povo, dos movimentos sociais brasileiros e principalmente destas entidades que entenderam a import&acirc;ncia estrat&eacute;gica deste tema. Mas nada vem f&aacute;cil. Eles perderam por conta do racha deles, mas eles v&atilde;o tentar interferir no processo da Confer&ecirc;ncia. Eu acho que se eles sentirem que eles v&atilde;o levar uma surra na Confer&ecirc;ncia a tend&ecirc;ncia &eacute; eles n&atilde;o irem para Confer&ecirc;ncia. <\/p>\n<p><span style=\"font-style: normal\"><strong>Eles j&aacute; tem sinalizado esta sa&iacute;da&#8230; <\/strong><\/span><br \/>&Eacute; uma postura truculenta, arrogante. O Evandro  [Guimar&atilde;es] representante da Abert [Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e TV] vem com exig&ecirc;ncias. E eu pergunto: quem &eacute; voc&ecirc; para falar pela sociedade? Eles dizem: n&atilde;o pode discutir o passado, s&oacute; pode discutir o futuro. Discutir &ldquo;o passado&rdquo; &eacute; discutir o que est&aacute; na Constitui&ccedil;&atilde;o, nos artigos 220, 221, 222 e 223? Eles dizem: n&atilde;o pode discutir conte&uacute;do. E vem com uma imposi&ccedil;&atilde;o de que tem que reduzir a interfer&ecirc;ncia estatal.. N&atilde;o existe rede p&uacute;blica no brasil e est&aacute; querendo reduzir ainda mais?  Vem com imposi&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios: &ldquo;temos que ter 40% de cadeira cativa para os empres&aacute;rios&rdquo;. Mas quem s&atilde;o voc&ecirc;s para ter 40% de cadeira cativa? Se os empres&aacute;rios dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o representassem 40% da sociedade brasileira, n&oacute;s n&atilde;o ter&iacute;amos o problema de concentra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia no Brasil. Eu acho que eles est&atilde;o medindo, est&atilde;o tentando enquadrar a Confer&ecirc;ncia, chantagear o governo e amea&ccedil;ar sair para tentar enquadrar a Confer&ecirc;ncia na quest&atilde;o de conte&uacute;do, de crit&eacute;rios para participa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o &eacute; uma batalha dif&iacute;cil, n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. O governo tem manifestado que faz a Confer&ecirc;ncia com ou sem empres&aacute;rios, vamos ver se peita este tipo de atitude. <span style=\"font-style: normal\">[O an&uacute;ncio da sa&iacute;da dos empres&aacute;rios foi feito duas semanas ap&oacute;s a entrevista.]<\/span><\/p>\n<p><strong>Ocorrendo a Confer&ecirc;ncia, o que pode acontecer? Qual pode ser o saldo da Confer&ecirc;ncia?<\/strong><br \/>A realiza&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia, o seu processo com as etapas estaduais, municipais e a nacional &eacute; um processo muito interessante, porque ela se volta para aquela pergunta inicial sobre quem entendeu a import&acirc;ncia da comunica&ccedil;&atilde;o, da luta nesta &aacute;rea estar restrita a um setor ainda pequeno, formado de &ldquo;especialistas&rdquo;. N&atilde;o caiu a ficha para os movimentos sociais e ampla parcela da sociedade acha que a televis&atilde;o que est&aacute; a&iacute; &eacute; &oacute;tima.  O processo de Confer&ecirc;ncia eu acho que permite duas coisas: primeira e grande coisa, ela &eacute; um esfor&ccedil;o pedag&oacute;gico porque permite envolver mais gente nesse debate, sair da coisa de especialistas, cutucar o movimento social para que ele entre com for&ccedil;a e fazer o debate com o amplo setor da sociedade. Se este debate, hoje, est&aacute; reduzido a mil, dois mil ativistas, no processo da Confer&ecirc;ncia voc&ecirc; pode  envolver, sei l&aacute;, cem mil pessoas debatendo m&iacute;dia enquanto direito humano, enquanto requisito da democracia, debatendo m&iacute;dia enquanto respeito &agrave; diversidade. Por si s&oacute;, mesmo que n&atilde;o tivesse conquista nenhuma na Confer&ecirc;ncia s&oacute; isso j&aacute; seria extremamente positivo. Al&eacute;m disso, eu acho que &eacute; poss&iacute;vel ter algumas vit&oacute;rias na Confer&ecirc;ncia. <\/p>\n<p><strong>Quais seriam estas poss&iacute;veis vit&oacute;rias?<\/strong><br \/>Eu acho que se o movimento social brasileiro conseguir elencar propostas concretas, centrar em algumas &ndash; n&atilde;o tentar abarcar tudo -, n&atilde;o achar que a Confer&ecirc;ncia vai acabar com a ditadura midi&aacute;tica, porque n&atilde;o vai acabar&#8230; Nem o Ch&aacute;vez que &eacute; o Ch&aacute;vez, em um processo mais radicalizado, acabou com o latif&uacute;ndio midi&aacute;tico na Venezuela! N&oacute;s ainda vamos ter que acumular muita for&ccedil;a. Mas eu acho que se a gente consegue eleger alguns temas e propostas concretas, n&atilde;o ficar s&oacute; no diagn&oacute;stico, mas ir para a proposi&ccedil;&atilde;o, eu acho que a gente pode conseguir algumas vit&oacute;rias como: medidas para inclus&atilde;o digital, medidas para n&atilde;o criminalizar a radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria, medidas para rediscutir crit&eacute;rios de publicidade oficial, medidas para redefinir atualizar e garantir a discuss&atilde;o dos crit&eacute;rios de concess&atilde;o publica, medidas de fortalecimento da rede p&uacute;blica &ndash; e a gente n&atilde;o est&aacute; falando s&oacute; sobre a EBC [Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o], mas tamb&eacute;m os canais comunit&aacute;rios, canais educativos, universit&aacute;rios. Ent&atilde;o, eu acho que a Confer&ecirc;ncia &eacute; vit&oacute;ria, os patr&otilde;es est&atilde;o fazendo chantagem, mas se ela se realiza, s&oacute; o processo j&aacute; &eacute; pedag&oacute;gico. E mais do que isso: acho que conseguimos obter vit&oacute;rias pontuais, parciais, mas vit&oacute;rias. N&atilde;o vai ser uma revolu&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; um processo acumulativo de ganhar for&ccedil;as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor de &ldquo;A ditadura da m&iacute;dia&rdquo; fala do paradoxo midi&aacute;tico e das oportunidades a serem exploradas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1086],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23231"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}