{"id":23176,"date":"2009-08-11T17:35:27","date_gmt":"2009-08-11T17:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23176"},"modified":"2009-08-11T17:35:27","modified_gmt":"2009-08-11T17:35:27","slug":"por-uma-internet-sem-governos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23176","title":{"rendered":"Por uma internet sem governos"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">[T&iacute;tulo original: ICCAN: internacional, mas sem governo]<\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\"><em>O futuro do endere&ccedil;amento da rede mundial de computadores volta &agrave; discuss&atilde;o. Em setembro acaba o prazo do contrato entre o Departamento de Com&eacute;rcio dos Estados Unidos e a ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers), corpora&ccedil;&atilde;o internacional sem fins lucrativo respons&aacute;vel pela atribui&ccedil;&atilde;o de nomes e n&uacute;meros na internet. O contrato, firmado em 1998, previa a transi&ccedil;&atilde;o durante a qual a corpora&ccedil;&atilde;o firmaria v&aacute;rios acordos para permitir que o governo norte-americano encerrasse sua fun&ccedil;&atilde;o. De l&aacute; para c&aacute;, o contrato foi prorrogado duas vezes. Para setembro, est&atilde;o em debate tr&ecirc;s alternativas, propostas por diferentes pa&iacute;ses: nova prorroga&ccedil;&atilde;o, ado&ccedil;&atilde;o de um outro acordo que conte com a participa&ccedil;&atilde;o multilateral de governos, ou transformar a ICANN em uma entidade internacional, sem governos, como defende o presidente do Nic.br (N&uacute;cleo de Informa&ccedil;&atilde;o e Coordena&ccedil;&atilde;o do Ponto BR), Demi Getschko.<\/em><\/p>\n<p><strong>O acordo da ICANN com o Departamento de Com&eacute;rcio dos EUA acaba em setembro. O que acontecer&aacute; depois disso? Ser&aacute; adotado novo acordo, como prop&otilde;em interlocutores de diferentes pa&iacute;ses?<br \/><\/strong>A gest&atilde;o da internet n&atilde;o tem diretamente a ver com governos, mas sim com os diversos setores da sociedade, como a Academia e a &aacute;rea privada. Na verdade, havia um governo que tinha um papel espec&iacute;fico que, teoricamente, era um processo para que a ICANN transitasse desde sua inaugura&ccedil;&atilde;o at&eacute; a maturidade e passasse a tocar a gest&atilde;o independentemente. O acordo com o departamento de Com&eacute;rcio dos EUA come&ccedil;ou em 1998, foi renovado duas vezes e espera-se que em setembro ou entra uma outra coisa no lugar ou tem que sumir. Eu, pessoalmente, espero que n&atilde;o haja nada no lugar, porque o que a ICANN faz n&atilde;o tem nada a ver especificamente com governos, tem a ver com a estrutura da internet como um todo e n&atilde;o &eacute; desej&aacute;vel que haja um governo ditando as normas.<\/p>\n<p><strong>O governo norte-americano teve alguma interfer&ecirc;ncia na gest&atilde;o da rede?<br \/><\/strong>No per&iacute;odo em que o Departamento de Com&eacute;rcio Americano esteve tutelando a transi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o me lembro de interfer&ecirc;ncias diretas. Mas sempre houve a possibilidade de interferir. Pessoalmente, gostaria que esse acordo terminasse e houvesse a convic&ccedil;&atilde;o de que a ICANN j&aacute; est&aacute; suficientemente madura para gerir e prestar contas &agrave; comunidade da internet como um todo, sem necessidade de novo acordo.<\/p>\n<p><strong>Mas existem propostas de se criar um f&oacute;rum de governan&ccedil;a na UIT ou ONU para substituir a ICANN.<br \/><\/strong>&Eacute; claro que h&aacute; propostas para substituir o atual acordo. Existe uma de um grupo de pa&iacute;ses europeus, mas ainda &eacute; muito vaga. O ideal &eacute; que as coisas andassem somente com um grupo de tr&ecirc;s ou quatro pessoas, na sede da ONG na Calif&oacute;rnia. Mas se criou uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica exagerada com base em outros fatores que n&atilde;o s&atilde;o propriamente ligados com a governan&ccedil;a da internet b&aacute;sica, como a ICANN, que tem uma posi&ccedil;&atilde;o muito l&uacute;cida, de muita credibilidade. N&atilde;o acho que uma fun&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica da rede exija uma gest&atilde;o intragovernamental, como em controle a&eacute;reo, por exemplo. Acho que &eacute; uma fun&ccedil;&atilde;o que deve ser restrita aos segmentos t&eacute;cnicos da rede e que s&oacute; em casos de desespero poderia ser poss&iacute;vel uma interven&ccedil;&atilde;o de outra ordem. A internet n&atilde;o &eacute; uma cria&ccedil;&atilde;o s&oacute; de governo. &Eacute; uma cria&ccedil;&atilde;o de todos os segmentos e n&atilde;o h&aacute; uma participa&ccedil;&atilde;o mais forte de um segmento em rela&ccedil;&atilde;o a outro.<\/p>\n<p><strong>Por que os governos est&atilde;o interessados em intervir na rede?<\/strong><br \/>Os interesses dos governos nessa quest&atilde;o se d&aacute;, em primeiro lugar, porque a internet est&aacute; sendo percebida por diversos setores em ordem crescente. A Academia sabia o que era isso desde o come&ccedil;o, no final dos anos 90. O pessoal de telecom, por exemplo, s&oacute; foi descobrir a internet em 2003, 2004, quando come&ccedil;aram as ofertas de banda larga, antes nem sabia o que era. Os governos, na minha opini&atilde;o, s&atilde;o o terceiro ou o quarto segmento a descobrir a rede. Agora, caiu a ficha e est&atilde;o correndo atr&aacute;s do preju&iacute;zo, elaborando legisla&ccedil;&atilde;o para ver se controlam, mas n&atilde;o controlam. Mas acho que esta posi&ccedil;&atilde;o &eacute; uma gangorra, vai e volta. A China &eacute; um exemplo disso. O governo de l&aacute; tentou controlar fortemente a internet, depois aliviou bastante e encerrou-se o ciclo, porque na verdade &eacute; muito dif&iacute;cil controlar. No Brasil tamb&eacute;m descobriram que o buraco &eacute; mais embaixo. O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Carlos Ayres Britto, por exemplo, disse que a proposta de legisla&ccedil;&atilde;o para elei&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s n&atilde;o est&aacute; levando em conta o que &eacute; de fato a internet. Ele fez um belo pronunciamento em rela&ccedil;&atilde;o o que &eacute; a rede, claro que um pouco ousado, rom&acirc;ntico, afirmando que a liberdade na rede nunca vai ser tolhida, ou coisa assim.<\/p>\n<p><strong>O controle n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio?<\/strong><br \/>&Eacute; claro que a gente sabe que h&aacute; bons e maus elementos na rede, mas de qualquer forma, &eacute; dif&iacute;cil controlar, dif&iacute;cil regular, n&atilde;o tenho d&uacute;vida. A internet tem l&aacute; seus problemas, como as fraudes. Mas n&atilde;o podemos tratar a internet de forma discriminat&oacute;ria.<\/p>\n<p><strong>Ent&atilde;o o fim do contrato com o governo americano evitar&aacute; algum tipo de interfer&ecirc;ncia ou controle na rede?<br \/><\/strong>Depois que o contrato for encerrado poderemos discutir outros temas, como, por exemplo, por que a ICANN &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o da Calif&oacute;rnia; por que n&atilde;o &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o internacional; por que n&atilde;o fica em outro lugar, como Nova Iork, que &eacute; sujeita &agrave; lei da ONU. Ela n&atilde;o deveria ficar sujeita &agrave;s leis da Calif&oacute;rnia. N&atilde;o d&aacute;, a priori, para substituir o contrato do Departamento Comercial Americano por um contrato multinacional porque a ICANN &eacute; uma ONG da Calif&oacute;rnia e n&atilde;o caberia um contrato com outros pa&iacute;ses. A quest&atilde;o central &eacute; se o contrato continua ou desaparece. No caso de desaparecer, o que ser&aacute; feito para colocar no lugar? Vale a pena colocar algo no lugar? Ou se &eacute; melhorar criar um outro tipo de f&oacute;rum que discuta outros assuntos, que n&atilde;o sejam esses mais t&eacute;cnicos, onde de fato haja uma participa&ccedil;&atilde;o de diversos governos?<\/p>\n<p><strong>H&aacute; possibilidade de o contrato com o governo norte-americano ser outra vez renovado?<br \/><\/strong>H&aacute; possibilidade ainda de o contrato ser renovado porque sempre que acontecem discuss&otilde;es sobre o assunto, o Congresso norte-americano fica relutante em aprovar o seu fim. Quem toca esse neg&oacute;cio &eacute; a ag&ecirc;ncia reguladora do setor, mas o contrato para ser encerrado precisa da aprova&ccedil;&atilde;o do Congresso. &Eacute; capaz de os congressistas acharem que o fim do contrato representar&aacute; perda de poder e, numa posi&ccedil;&atilde;o conservadora, apesar da posi&ccedil;&atilde;o do presidente Barak Obama, podem criar uma nova prorroga&ccedil;&atilde;o, mas espero que isso n&atilde;o aconte&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>O senhor fez parte do conselho da ICANN. Tem possibilidade de ser indicado de novo para l&aacute;?<\/strong><br \/>Fiz parte da ICANN at&eacute; maio deste ano. Fiquei l&aacute; durante cinco anos como membro, mas continuo acompanhando as reuni&otilde;es como ouvinte. A diretoria &eacute; composta de 15 membros, que vem de v&aacute;rios lugares do mundo, e da Am&eacute;rica Latina agora s&oacute; tem um chileno. Existem tr&ecirc;s vagas a serem ocupadas at&eacute; o final do ano e esperamos que uma delas venha para a Am&eacute;rica Latina.<\/p>\n<p><strong>E como vai a internet no Brasil?<\/strong><br \/>No Brasil, a rede corre muito bem. Houve um crescimento no mercado brasileiro acima dos &iacute;ndices da Am&eacute;rica Latina, acima dos outros &iacute;ndices brasileiros de um modo geral. Quanto aos dom&iacute;nios, est&atilde;o bastante fortes. N&atilde;o h&aacute; nada que indique uma desacelera&ccedil;&atilde;o, pelo contr&aacute;rio, vamos continuar num ritmo de crescimento de 20% ao ano e ainda estamos numa fase bastante intensa de investimentos, que deve durar ainda dois ou tr&ecirc;s anos. Depois disso, diminui um pouquinho e o crescimento ficar&aacute; na casa de 15% ao ano. &Eacute; claro que ainda existem muitas pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m acesso &agrave; rede, muitos rinc&otilde;es que n&atilde;o t&ecirc;m conex&atilde;o, pessoas que n&atilde;o conseguem comprar um micro e outras barreiras de entrada que continuam a impedir um crescimento maior. <br \/><strong>V&aacute;rios setores da sociedade defendem a ado&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica p&uacute;blica que dissemine o acesso &agrave; internet. O senhor concorda com isso?<br \/><\/strong>O Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) acompanha tudo o que acontece e tem posi&ccedil;&otilde;es importantes, como a defesa do unbundling, mas n&atilde;o temos um papel de propor pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, que &eacute; uma coisa do governo. Mas acho importante para o Brasil a&ccedil;&otilde;es de inclus&atilde;o digital, mesmo que n&atilde;o seja com banda larga. Porque a banda larga &eacute; uma forma de se estabilizar o usu&aacute;rio na rede, sem que ele tenha que se preocupar com o tempo de conex&atilde;o. Mesmo que isso n&atilde;o seja fact&iacute;vel agora em muitos lugares, porque depende de infraestrutura, pelo menos a inclus&atilde;o digital &eacute; fundamental. Nas estat&iacute;sticas do CGI, as lan houses s&atilde;o um grande elemento de inclus&atilde;o digital, ent&atilde;o, seria importante aumentar os pontos de acessos p&uacute;blicos. O programa banda larga nas escolas deu um grande avan&ccedil;o. E acho que o programa de banda larga rural poder&aacute; trazer benef&iacute;cios semelhantes. Eu n&atilde;o sei se d&aacute; para defender banda larga nas casas de todos os brasileiros, porque ainda tem locais de dif&iacute;cil acesso para se chegar com infraestrutura, mas &eacute; preciso aumentar os pontos de acessibilidade nesses rinc&otilde;es, de forma que os moradores dessas regi&otilde;es consigam usar. Muitas vezes as operadoras levam a banda larga onde h&aacute; facilidade de meios e de p&uacute;blicos. Nos rinc&otilde;es, elas n&atilde;o ir&atilde;o porque necessitam de grandes investimentos e o retorno comercial &eacute; baixo. Nesses lugares o governo precisa complementar.<\/p>\n<p><strong>A utiliza&ccedil;&atilde;o da rede el&eacute;trica para levar internet &agrave;s casas, por meio da tecnologia PLC (Power Line Communication), poder&aacute; facilitar um programa desse tipo?<br \/><\/strong>A rede de energia el&eacute;trica ser&aacute; muito boa para usar em pequenas dist&acirc;ncias. Eu n&atilde;o acredito que possa ser usada para fazer backbone ou para fazer conex&atilde;o de alta velocidade em pontos distantes. Acho que o backbone tradicional precisa chegar l&aacute; de alguma forma, a&iacute; poder&aacute; ser distribu&iacute;do localmente nas casas. E isso &eacute; &oacute;timo porque &eacute; mais um competidor na &aacute;rea, mais um fornecedor de acesso &agrave; &uacute;ltima milha, mas n&atilde;o &eacute; uma forma de se chegar l&aacute;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente do Nic.BR fala sobre a ICANN e o futuro da rede mundial de computadores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1081],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}