{"id":23173,"date":"2009-08-11T11:44:18","date_gmt":"2009-08-11T11:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23173"},"modified":"2009-08-11T11:44:18","modified_gmt":"2009-08-11T11:44:18","slug":"conferencia-nacional-de-comunicacao-caem-as-mascaras-e-as-ilusoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23173","title":{"rendered":"Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o: caem as m\u00e1scaras e as ilus\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Alguns atores pol&iacute;ticos do campo da comunica&ccedil;&atilde;o acreditam firmemente que a presen&ccedil;a das empresas vai conferir uma legitimidade maior, especial, &agrave; I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. Outros chegam a embarcar no discurso pseudonacionalista de institui&ccedil;&otilde;es que, sem exce&ccedil;&atilde;o, sempre defenderam &ndash; e contribu&iacute;ram ativamente com &ndash; a pol&iacute;tica entreguista de todas as riquezas do Brasil ao capital estrangeiro, vigente sem restri&ccedil;&otilde;es at&eacute; 2002. E ainda h&aacute; quem creia ser politicamente vi&aacute;vel e concretamente poss&iacute;vel se chegar a consensos &ndash; leia-se: concilia&ccedil;&atilde;o &ndash; com os (tu)bar&otilde;es da m&iacute;dia que permitam ganhos reais para a sociedade na luta para a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Estas tr&ecirc;s id&eacute;ias est&atilde;o permeadas por graves equ&iacute;vocos conceituais e pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Na dimens&atilde;o conceitual, h&aacute; uma grande dose de incompreens&atilde;o acerca do instrumento no qual consiste uma confer&ecirc;ncia: sua forma, seus fundamentos, seus limites e suas potencialidades. Muitos atores sequer conseguem discernir entre os pap&eacute;is e atribui&ccedil;&otilde;es do Estado e da sociedade (nos seus diversos segmentos) na constru&ccedil;&atilde;o do processo.<\/p>\n<p>Os erros nas formula&ccedil;&otilde;es &ndash; sobretudo no terreno da estrat&eacute;gia e t&aacute;tica &ndash; e a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas s&atilde;o apenas a conseq&uuml;&ecirc;ncia pr&aacute;tica dos lapsos conceituais. <\/p>\n<p>Voltando &agrave;s id&eacute;ias que motivaram o presente texto, em primeiro lugar, o que garante a legitimidade de uma confer&ecirc;ncia setorial &ndash; um instrumento de democracia direta e participativa muito peculiar do Brasil &ndash; &eacute; a conjuga&ccedil;&atilde;o da forma de constru&ccedil;&atilde;o (transparente, aberta, horizontal e capilarizada) do processo com a presen&ccedil;a ativa da sociedade, esta sim, raz&atilde;o maior e demandadora e destinat&aacute;ria primordial dos meios e fins deste processo.<\/p>\n<p>Vale dizer que mesmo confer&ecirc;ncias setoriais convocadas apenas pelo Legislativo &ndash; caso de muitas confer&ecirc;ncias de direitos humanos e de educa&ccedil;&atilde;o e cultura &ndash; n&atilde;o foram ileg&iacute;timas pela aus&ecirc;ncia formal do Executivo. A presen&ccedil;a deste, no entanto, se justifica pela (possibilidade de) maior efetividade nos desdobramentos das confer&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>No caso da Confer&ecirc;ncia de Comunica&ccedil;&atilde;o, a participa&ccedil;&atilde;o de um setor que &eacute; fundado na l&oacute;gica do lucro &ndash; frontalmente oposta &agrave; l&oacute;gica da democracia e do interesse p&uacute;blico &ndash; pode, respeitadas certas condi&ccedil;&otilde;es, qualificar o processo e fortalecer a efic&aacute;cia do momento p&oacute;s-confer&ecirc;ncia, o que n&atilde;o significa, de modo algum, ampliar a sua legitimidade. O vigor social e a validade pol&iacute;tica desse tipo de instrumento s&atilde;o conferidos justamente &ndash; em medida mais do que suficiente &ndash; por aqueles setores que reivindicam maior participa&ccedil;&atilde;o e poder de decis&atilde;o. A participa&ccedil;&atilde;o do empresariado &eacute; bem vinda, sem d&uacute;vida. No entanto, jamais ser&aacute; condicionante da legitimidade de um instrumento que foi reclamado e conquistado exatamente para dar voz e vez a quem as tem negada pela hegemonia do capital, tanto nos v&aacute;rios entes do Estado quanto, sobretudo, nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o que se dizem defensores da liberdade de express&atilde;o para o conjunto da sociedade.<\/p>\n<p>Os art&iacute;fices do grande capital t&ecirc;m acesso direto, privilegiado e irrestrito ao Estado. No caso da comunica&ccedil;&atilde;o, as empresas que historicamente controlam o setor possuem um representante dileto ocupando o principal posto da &aacute;rea no governo federal. Al&eacute;m disso, podem se reunir, a qualquer momento e sem qualquer &oacute;bice, com outros membros do primeiro escal&atilde;o e mesmo com o Presidente da Rep&uacute;blica. S&oacute; a ingenuidade &ndash; ou a predisposi&ccedil;&atilde;o para a concilia&ccedil;&atilde;o indolor, mas in&oacute;cua &ndash; justificaria a (suposta) cren&ccedil;a de que os empres&aacute;rios participariam da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o movidos por sentimentos e objetivos democr&aacute;ticos.<\/p>\n<p>Diante dessa constata&ccedil;&atilde;o, o atual momento &ndash; dominado pela postura chantagista de parte do empresariado e, com isso, aberto a um poss&iacute;vel golpe contra a Confer&ecirc;ncia, visando deslegitim&aacute;-la politicamente e evitar que seus resultados sejam acolhidos de bom grado pelo poder p&uacute;blico &ndash; revela o tamanho do equ&iacute;voco em que consistiram os insistentes esfor&ccedil;os despedidos pelo campo popular-democr&aacute;tico da sociedade civil para incluir os empres&aacute;rios na constru&ccedil;&atilde;o do processo.<\/p>\n<p>Uma coisa seria o governo convidar e buscar envolver os empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o. Outra coisa foi uma certa ilus&atilde;o &ndash; que acabou prevalecendo &ndash; entre as entidades e movimentos da sociedade civil de que eles n&atilde;o iriam sabotar um processo que se coloca explicitamente na contram&atilde;o de seus interesses. O &ocirc;nus dessa miragem &eacute; coletivo, sem d&uacute;vida, mas espera-se que sirva de li&ccedil;&atilde;o para outras batalhas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o discurso de &ldquo;defesa dos interesses nacionais&rdquo;, especialmente por parte das emissoras de r&aacute;dio e TV, &eacute; t&atilde;o s&oacute;lido quanto um castelo de cartas em meio a uma tempestade.<\/p>\n<p>Os grupos que se autodefinem como guardi&otilde;es da democracia brasileira s&atilde;o os mesmos que pediram, apoiaram, legitimaram e sustentaram o Golpe de 1964. E, antes disso, j&aacute; haviam atuado de forma unificada na rejei&ccedil;&atilde;o &agrave; cria&ccedil;&atilde;o da Petrobr&aacute;s, mesma empresa que hoje querem desacreditar (perante a sociedade brasileira) e enfraquecer (no cen&aacute;rio internacional) no preciso momento em que ela encara o seu maior desafio &ndash; que coincide com a maior possibilidade de salto econ&ocirc;mico que o Brasil poder&aacute; dar em toda sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Estas empresas, que disseminam o preconceito e a viol&ecirc;ncia simb&oacute;lica contra os movimentos sindicais e sociais e chamam de &ldquo;ditabranda&rdquo; o regime de terror de Estado vigente por mais de duas d&eacute;cadas em nosso pa&iacute;s, s&atilde;o as mesmas que atuaram sistematicamente a favor de projetos conservadores-entreguistas em absolutamente todas as elei&ccedil;&otilde;es presidenciais desde 1989 e n&atilde;o t&ecirc;m qualquer pudor de acusar de terroristas aqueles lutadores que ousaram empunhar armas para resistir aos governos ileg&iacute;timos e tiranos que assaltaram a Na&ccedil;&atilde;o a partir de 1964. Sem falar no grupo hegem&ocirc;nico do setor, que boicotou as Diretas J&aacute;! em 1984 e se envolveu diretamente em in&uacute;meras tentativas de fraudes em elei&ccedil;&otilde;es ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p>Sobretudo, estas empresas s&atilde;o as mesmas que desrespeitam sistematicamente a Constitui&ccedil;&atilde;o e in&uacute;meras normas jur&iacute;dicas do pa&iacute;s, no tocante ao monop&oacute;lio e oligop&oacute;lio na comunica&ccedil;&atilde;o, no controle de concess&otilde;es de r&aacute;dio e TV por parlamentares, na asfixia da veicula&ccedil;&atilde;o e da produ&ccedil;&atilde;o audiovisual regional e independente, entre muitas outras irregularidades.<\/p>\n<p>Por fim, a id&eacute;ia &ndash; percebida claramente nas entrelinhas do discurso de alguns atores &ndash; de que a confer&ecirc;ncia seria, na ess&ecirc;ncia, uma grande mesa de di&aacute;logo com o empresariado e o governo, de modo a apontar diretrizes &ldquo;poss&iacute;veis&rdquo; e &ldquo;vi&aacute;veis&rdquo; para fazer avan&ccedil;ar a comunica&ccedil;&atilde;o no Brasil, se mostrou equivocada desde as primeiras reuni&otilde;es da Comiss&atilde;o Organizadora Nacional. As m&aacute;scaras ca&iacute;ram cedo.<\/p>\n<p>Nem mesmo o princ&iacute;pio b&aacute;sico de participa&ccedil;&atilde;o majorit&aacute;ria da sociedade &ndash; excetuando-se os entes do Estado e os representantes do mercado &ndash; &eacute; aceito pelos empres&aacute;rios. Estes, com flertes positivos do governo, t&ecirc;m dado sinaliza&ccedil;&otilde;es de que ir&atilde;o exigir, para confirmarem sua participa&ccedil;&atilde;o, uma composi&ccedil;&atilde;o equivalente aos setores n&atilde;o empresariais &ndash; na propor&ccedil;&atilde;o 40\/40, restando 20% ao poder p&uacute;blico &ndash; no universo de delegados(as) para a confer&ecirc;ncia. Caso isso se confirme, a I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o conseguir&aacute; a proeza de superar at&eacute; mesmo o Congresso Nacional &ndash; que j&aacute; &eacute; uma anomalia e uma ilegalidade &ndash; na super-representatividade de empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o ao conjunto da popula&ccedil;&atilde;o brasileira.<\/p>\n<p>Se ainda restava d&uacute;vida em alguns atores quanto &agrave; impossibilidade de concilia&ccedil;&atilde;o com as empresas, a postura dos representantes destas na Comiss&atilde;o Organizadora deve ter apagado qualquer v&atilde; ilus&atilde;o.<\/p>\n<p>Na realidade, as confer&ecirc;ncias s&atilde;o arenas p&uacute;blicas de acirrada disputa de projetos e de concep&ccedil;&otilde;es acerca dos temas em quest&atilde;o. O rebaixamento ou &ldquo;recuo t&aacute;tico&rdquo;, a priori, do programa das entidades &eacute; uma premissa que n&atilde;o precisa ser aplicada, visto que os resultados das confer&ecirc;ncias precisar&atilde;o passar, obrigatoriamente, pelos filtros do Legislativo e do Executivo antes de se tornarem objetos palp&aacute;veis na realidade cotidiana. A&iacute;, sim, neste campo da representatividade, com os seus &ocirc;nus e b&ocirc;nus inerentes, o pragmatismo e a l&oacute;gica da concilia&ccedil;&atilde;o prevalecem e se traduzem na forma de leis, regulamentos, programas e outras categorias de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>Portanto, nenhum recuo e nenhuma concess&atilde;o aos (tu)bar&otilde;es da m&iacute;dia na I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o! A participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &ndash; al&eacute;m de ser a concretiza&ccedil;&atilde;o do princ&iacute;pio da soberania popular que d&aacute; vigor a qualquer democracia &ndash; &eacute; um direito sagrado da sociedade e uma obriga&ccedil;&atilde;o do Estado. Se as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o se dispuserem a participar da Confer&ecirc;ncia, sem impor condi&ccedil;&otilde;es ou desvirtuar a sua natureza, excelente. Caso contr&aacute;rio, sigamos em frente. O que n&atilde;o falta &eacute; trabalho a ser feito.<\/p>\n<p><em>*Rog&eacute;rio Tomaz Jr. &eacute; jornalista, integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social e da Comiss&atilde;o de Liberdade de Express&atilde;o do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal. As opini&otilde;es neste artigo s&atilde;o de exclusiva responsabilidade do autor e n&atilde;o podem ser atribu&iacute;das &agrave;s entidades das quais faz parte.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns atores pol&iacute;ticos do campo da comunica&ccedil;&atilde;o acreditam firmemente que a presen&ccedil;a das empresas vai conferir uma legitimidade maior, especial, &agrave; I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. 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