{"id":23124,"date":"2009-07-28T17:45:53","date_gmt":"2009-07-28T17:45:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23124"},"modified":"2009-07-28T17:45:53","modified_gmt":"2009-07-28T17:45:53","slug":"as-bandeiras-da-democratizacao-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23124","title":{"rendered":"As bandeiras da democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\"><em>[T&iacute;tulo original: &quot;Transformar jornalismo em servi&ccedil;o p&uacute;blico &eacute; o desafio da comunica&ccedil;&atilde;o&quot;]<\/em><\/p>\n<p>Num ano dos mais movimentados no setor da comunica&ccedil;&atilde;o, com as extin&ccedil;&otilde;es da Lei de Imprensa e da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o, corremos o risco de perder o foco de debates mais relevantes no sentido de organizar a democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es no Brasil. &Eacute; a an&aacute;lise do jornalista Renato Rovai, editor da <em>Revista F&oacute;rum<\/em>, entrevistado pelo <em>Correio da Cidadania<\/em> para tratar de alguns dos assuntos de total interesse tanto de comunicadores como do p&uacute;blico, ambos cada vez mais um mesmo agente. <\/p>\n<p>Quanto aos temas mais abordados pela grande m&iacute;dia, Rovai relativiza sua import&acirc;ncia, pois n&atilde;o alteram a realidade do jornalismo e nem mexem nas rela&ccedil;&otilde;es de poder, que realmente definem os &quot;graus&quot; de liberdade de express&atilde;o concedida a cada grupo social. <\/p>\n<p>Por outro lado, destaca que do lado dos entusiastas da democratiza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia fez falta uma pauta que visasse regular o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o com o fim da lei de imprensa, de forma a contemplar todos que trabalham na &aacute;rea, sem distin&ccedil;&atilde;o de forma&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>De olho nas tend&ecirc;ncias do futuro na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o, Rovai destaca que os grandes conglomerados est&atilde;o num momento de defensiva, o que se v&ecirc; na avidez em controlar as novas tecnologias e no discreto trabalho de esvaziamento da Confer&ecirc;ncia Nacional da Comunica&ccedil;&atilde;o. No entanto, se mostra otimista com algumas quest&otilde;es, como em rela&ccedil;&atilde;o ao veto do projeto do senador Eduardo Azeredo, que visa impor controles invi&aacute;veis no uso da internet e no pr&oacute;prio direito &agrave; troca de informa&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Em s&iacute;ntese, todos aqueles interessados em mudar os atuais rumos da comunica&ccedil;&atilde;o devem se focar menos nos debates que foram travados na grande m&iacute;dia e no judici&aacute;rio brasileiro e mais nas bandeiras que tragam a democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o e do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s, como, por exemplo, banda larga gratuita para todos e a institui&ccedil;&atilde;o do jornalismo como um servi&ccedil;o p&uacute;blico. <\/p>\n<p><strong>Como analisa a revoga&ccedil;&atilde;o total da antiga Lei de Imprensa? <\/strong><br \/>Eu acho que em algumas quest&otilde;es na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o est&aacute; deixando de se fazer um debate completo, o que tem criado alguns problemas. No caso da lei de imprensa, penso que a revoga&ccedil;&atilde;o em si n&atilde;o &eacute; problema, e sim deixar de se discutir algo para ocupar seu lugar, retirando-a sem apresentar alternativa. <br \/>Em boa medida isso acontece tamb&eacute;m porque o debate no Conselho Federal de Jornalismo foi malfeito. Naquela ocasi&atilde;o, deveria ter sido feito um debate sobre a constru&ccedil;&atilde;o de um conselho ou algo que regulamentasse a atividade profissional do jornalista e suas a&ccedil;&otilde;es. Tais debates, tanto da lei de imprensa como do diploma, poderiam ter sido feitos de forma mais ampla, impedindo que tiv&eacute;ssemos um v&aacute;cuo jur&iacute;dico em algumas quest&otilde;es. <\/p>\n<p><strong>O fato de sua revoga&ccedil;&atilde;o ter partido tamb&eacute;m de campanha por parte dos grandes grupos do setor n&atilde;o &eacute; uma mostra que devemos ter o p&eacute; atr&aacute;s com as conseq&uuml;&ecirc;ncias da extin&ccedil;&atilde;o da lei? N&atilde;o se corre o risco de a manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o ficar ainda mais descontrolada? <br \/><\/strong>Os grandes conglomerados, as corpora&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas, evidentemente n&atilde;o agem por emo&ccedil;&atilde;o. Tudo tem um interesse comercial, pol&iacute;tico e, por que n&atilde;o dizer, de grupo, corporativo tamb&eacute;m. Eu acho que eles tinham objetivos na revoga&ccedil;&atilde;o dessa Lei de Imprensa. Mas tamb&eacute;m &eacute; verdade que n&oacute;s, do outro lado, n&atilde;o buscamos construir alternativas que pudessem ser implementadas na aus&ecirc;ncia de tais leis, como se viu nos &uacute;ltimos dois casos, tanto na lei de imprensa e como na quest&atilde;o da obrigatoriedade do diploma jornal&iacute;stico. <\/p>\n<p><strong>Que liga&ccedil;&atilde;o isso poderia ter com o fim da exig&ecirc;ncia de diploma, tamb&eacute;m defendido por tais correntes? <\/strong><br \/>Bom, particularmente, eu n&atilde;o tenho posi&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel &agrave; obrigatoriedade, sou contra a necessidade do diploma de jornalismo para o exerc&iacute;cio profissional. O que acho que precisa ter, e vejo alguns pol&iacute;ticos agora fazendo esse par&ecirc;ntese de que n&atilde;o buscamos alternativas, &eacute; a regulamenta&ccedil;&atilde;o do exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o de jornalista. &Eacute; preciso defender que o profissional, tendo ou n&atilde;o diploma, exercendo o papel de jornalista seja tratado como jornalista. E ficaria obrigado a respeitar certos crit&eacute;rios para essa atividade profissional, tanto do ponto de vista da l&oacute;gica de sua inser&ccedil;&atilde;o no mercado de trabalho &ndash; que de alguma forma ainda est&aacute; preservado pela pr&oacute;pria Fenaj, j&aacute; que quando se contrata uma pessoa para jornalista ela deve receber o piso salarial &ndash; como tamb&eacute;m no que concerne &agrave;s formula&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas. <br \/>Dando uma outra caracter&iacute;stica, penso que deveria se recuperar alguma esp&eacute;cie de ordem ou conselho de jornalistas, de profissionais que exercem a profiss&atilde;o de jornalista, o que n&atilde;o deve ser vinculado &agrave; necessidade de a pessoa ter um diploma somente da faculdade de jornalismo. Vou dar uma opini&atilde;o mais particular: se eu fosse guri e tivesse de fazer faculdade, provavelmente cursaria jornalismo, que era a profiss&atilde;o que eu gostaria de exercer, independentemente de ser obrigat&oacute;rio ou n&atilde;o o diploma. Na USP, um dos cursos mais concorridos &eacute; o de publicidade, &aacute;rea onde n&atilde;o h&aacute; obrigatoriedade do diploma; na mesma linha, as pessoas n&atilde;o deixam de cursar hist&oacute;ria, mesmo sem a obriga&ccedil;&atilde;o do diploma. <br \/>Acho que acabamos nos enredando numa armadilha que nos leva a fazer a defesa de uma coisa que interessa muito mais a grupos econ&ocirc;micos ligados &agrave; m&aacute; educa&ccedil;&atilde;o do que ao pr&oacute;prio exerc&iacute;cio profissional. Pode ser ingenuidade minha, mas n&atilde;o vejo que h&aacute; uma combina&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es para, digamos, liberalizar completamente a profiss&atilde;o. At&eacute; porque ela j&aacute; &eacute; superliberalizada, os grandes grupos econ&ocirc;micos, em tese os maiores interessados na n&atilde;o-obrigatoriedade do diploma, j&aacute; contratam gente n&atilde;o diplomada h&aacute; muito tempo, d&atilde;o de ombros para nossos sindicatos, que por sinal est&atilde;o muito enfraquecidos. Exemplo disso foi o sindicato de S&atilde;o Paulo, que segundo suas pr&oacute;prias informa&ccedil;&otilde;es tem 30 mil filiados na base e uma elei&ccedil;&atilde;o que foi acirrada, com duas chapas, teve 1300 votos. Creio que isso tamb&eacute;m tenha a ver as pr&oacute;prias formula&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m sido feitas pelas entidades, dizendo muito mais respeito a quest&otilde;es cartoriais que a quest&otilde;es do dia-a-dia da atividade profissional, que inclusive n&atilde;o passa somente pelas reda&ccedil;&otilde;es dos grandes ve&iacute;culos corporativos. N&oacute;s da <em>F&oacute;rum,<\/em> voc&ecirc;s e diversos outros ve&iacute;culos est&atilde;o tamb&eacute;m fazendo hist&oacute;ria no jornalismo de hoje, com profissionais tamb&eacute;m envolvidos, sem contar os movimentos sindical e social, que t&ecirc;m contratado cada vez mais profissionais da &aacute;rea. Eu n&atilde;o acredito que agora v&atilde;o procurar gente que n&atilde;o tenha diploma. Sinceramente, eu n&atilde;o acredito nisso. <\/p>\n<p><strong>E acredita na validade do argumento de que o fim da lei aumentar&aacute; a liberdade de express&atilde;o? Isso n&atilde;o est&aacute; muito mais condicionado &agrave;s redes de interesses e poderes envolvidas diretamente na comunica&ccedil;&atilde;o? <br \/><\/strong>Acho que isso tamb&eacute;m n&atilde;o muda. A nosso favor, vejo que muda o seguinte: as r&aacute;dios comunit&aacute;rias, por exemplo, que n&atilde;o possuem profissionais de jornalismo formados, v&atilde;o ter mais tranq&uuml;ilidade para operar. Acho que beneficia tamb&eacute;m a a&ccedil;&atilde;o da internet, onde h&aacute; muita gente fazendo jornalismo. Vou dar um exemplo: Eduardo Guimar&atilde;es, um blogueiro amigo, &eacute; comerciante e tem um dos blogs mais visitados no que diz respeito &agrave; m&iacute;dia. Construiu o Movimento dos Sem M&iacute;dia, que virou uma ONG e tem a&ccedil;&otilde;es interessantes contra os grupos corporativos. E ele n&atilde;o &eacute; jornalista diplomado. Amanh&atilde; ou depois, se algu&eacute;m quisesse encasquetar com ele, poderia acu&aacute;-lo. Hoje ele tem mais liberdade. Do ponto de vista dos conglomerados midi&aacute;ticos &eacute; bobagem, pois eles j&aacute; d&atilde;o de ombros para tudo isso h&aacute; muito tempo. <\/p>\n<p><strong>O projeto de lei do deputado Eduardo Azeredo, chamado por algumas correntes de AI-5 digital, e as dificuldades em se conduzirem os preparativos para a Confer&ecirc;ncia Nacional da Comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o sugerem que podemos estar diante de uma ofensiva dos grandes grupos da comunica&ccedil;&atilde;o no sentido de garantirem maior controle sobre a informa&ccedil;&atilde;o? <br \/><\/strong>Bom, tenho dito, at&eacute; usando uma express&atilde;o do professo Ven&iacute;cio Lima, que em uma das palestras em que estivemos juntos fez uma cita&ccedil;&atilde;o do Gramsci que me parece muito adequada para o momento: o novo j&aacute; nasceu e o velho ainda n&atilde;o morreu. Ou seja, h&aacute; uma disputa colocada. H&aacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o e h&aacute; muitas coisas novas surgindo. Ao mesmo tempo, os ve&iacute;culos, digamos, referendados no s&eacute;culo passado, ainda continuam importantes e protagonistas, assim como os grandes grupos econ&ocirc;micos baseados nesse outro tempo. Essa disputa continuar&aacute; ocorrendo. Ela ocorre tanto do ponto de vista dos interesses econ&ocirc;micos em jogo como por conta da disputa das tecnologias, a atual e a passada. <br \/>No caso da Confer&ecirc;ncia da Comunica&ccedil;&atilde;o, tendo a pensar que ela ser&aacute; adiada. E n&atilde;o s&oacute; porque as corpora&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas desejam, mas por uma necessidade real do calend&aacute;rio da constru&ccedil;&atilde;o, por parte dos movimentos do lado de c&aacute;. Estamos patinando em algumas coisas. E j&aacute; sab&iacute;amos que eles iam tentar atrapalhar, sab&iacute;amos e era &oacute;bvio. N&atilde;o podemos ser ing&ecirc;nuos, eles est&atilde;o mesmo tentando atrapalhar, &eacute; o papel deles, pois querem uma confer&ecirc;ncia com 300 pessoas. Uma confer&ecirc;ncia que n&atilde;o mobilize e que discuta apenas quest&otilde;es da internet. <br \/>No caso do AI-5 digital &eacute; a mesma coisa. Os grandes grupos querem controlar a internet. E a possibilidade de conseguirem isso &eacute; tornando-a neutra. Isto &eacute;, que se possa identificar quem est&aacute; fazendo o qu&ecirc;, de que jeito, de onde&#8230; Eles v&atilde;o travar a disputa. N&oacute;s, do outro lado, temos de ficar vigilantes para que isso n&atilde;o ocorra. Houve uma grande mobiliza&ccedil;&atilde;o, principalmente por parte do pessoal do Associa&ccedil;&atilde;o Software Livre, que j&aacute; deu repercuss&atilde;o. J&aacute; houve um meio passo atr&aacute;s em rela&ccedil;&atilde;o a esse projeto. <br \/>Quando ganhamos uma tamb&eacute;m &eacute; preciso falar. E acho que esse movimento liderado, entre outras pessoas, pelo Sergio Amadeu merece aplauso, porque conseguiu pelo menos retardar o processo. E acho que essa lei n&atilde;o ser&aacute; aprovada. Penso que a sociedade civil j&aacute; conseguiu ser sensibilizada com o fato de que tal lei n&atilde;o pode ser aprovada. E por isso penso que ela n&atilde;o vingar&aacute;. <\/p>\n<p><strong>Com o surgimento de diversas ferramentas informativas na internet, vantajosa a grupos que possuem menos voz nas m&iacute;dias tradicionais, e a queda regular das vendas de jornais, n&atilde;o se est&aacute; desviando o foco da discuss&atilde;o na &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o sob argumentos et&eacute;reos e un&acirc;nimes, tais quais &quot;liberdade de express&atilde;o&quot; e &quot;entulho autorit&aacute;rio&quot;, ao inv&eacute;s de se buscarem essas novas formas de expans&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o? <br \/><\/strong>&Eacute; muito curioso: essa mesma m&iacute;dia que discute liberdade de express&atilde;o &eacute; a que de certa forma compactua com o golpe de Honduras. &Eacute; a mesma m&iacute;dia que supostamente defende liberdade de express&atilde;o que sustentou o golpe militar no Brasil. Os mesmos grupos: Estado de S. Paulo, Folha, Organiza&ccedil;&otilde;es Globo, n&atilde;o h&aacute; novidade. Cada vez mais as pessoas v&ecirc;em que eles n&atilde;o t&ecirc;m nenhum compromisso com liberdade de express&atilde;o. Assim, acabam tentando fazer ataques pontuais. No entanto, temos de tomar outros cuidados. Eu n&atilde;o acho que liberdade de express&atilde;o vem com o fim da obrigatoriedade do diploma ou com a queda de diversos pontos da Lei de Imprensa. <br \/>Eu penso que nossa pauta, por exemplo, tem de ser a conquista de banda larga gratuita &agrave; toda a popula&ccedil;&atilde;o brasileira. &Eacute; desse foco que est&atilde;o desviando o debate, pois &eacute; preciso dizer que a discuss&atilde;o que vem sendo realizada &eacute; besteira e apontar caminhos para a sociedade. &Eacute; preciso democratizar o acesso de banda larga a toda a popula&ccedil;&atilde;o, &eacute; fundamental. E a banda larga brasileira tem de ser larga, n&atilde;o &quot;larguinha&quot;. Al&eacute;m disso, podemos buscar a distribui&ccedil;&atilde;o de computadores nas escolas, como j&aacute; se faz no Uruguai, onde cada crian&ccedil;a ter&aacute; um laptop. &Eacute; preciso criar bandeiras desse tipo, como a de toda crian&ccedil;a ter um laptop, para que a alfabetiza&ccedil;&atilde;o tenha outro n&iacute;vel no Brasil e nossas crian&ccedil;as tenham condi&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s das crian&ccedil;as de pa&iacute;ses desenvolvidos no acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o. N&oacute;s temos de sair com uma nova pauta, e nesse ponto &eacute; fundamental a internet. <br \/>No campo da democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, outra bandeira &eacute; transformar o jornalismo num servi&ccedil;o p&uacute;blico, da sociedade. Como s&atilde;o o Minist&eacute;rio P&uacute;blico, o judici&aacute;rio, as universidades federais. Precisamos construir uma comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica no Brasil que n&atilde;o seja referendada na l&oacute;gica estatal, mas dentro do que h&aacute; de mais puro em termos de servir o p&uacute;blico. Podemos tamb&eacute;m valorizar iniciativas nossas, como a dos Pontos de M&iacute;dia Livre. Inclusive, fui um dos idealizadores dessa proposta no Minist&eacute;rio da Cultura, ao lado da Ivana Bentes e Antonio Martins e tamb&eacute;m o C&eacute;lio Turino. O pr&oacute;prio minist&eacute;rio tem uma iniciativa sensacional, a dos Pontos de Cultura, que ajudam a democratizar o acesso &agrave; m&iacute;dia. Pontos de m&iacute;dia livre significam que as pessoas t&ecirc;m liberdade para fazer comunica&ccedil;&atilde;o. Essa &eacute; a pauta da modernidade, do s&eacute;culo 21, ou ao menos de seu princ&iacute;pio. <br \/>N&atilde;o acho que devemos deixar de discutir concess&otilde;es. Tamb&eacute;m devemos, assim como a quest&atilde;o da radiodifus&atilde;o. Mas talvez o que nos una mais e nos jogue mais pra frente seja a luta por bandeiras como as que citei. <\/p>\n<p><strong>Sem uma lei de imprensa, n&atilde;o acredita que setores minorit&aacute;rios ou discriminados pela grande m&iacute;dia ter&atilde;o ainda menos espa&ccedil;o para se expressar, ainda que seja pela via do direito de resposta (outra lacuna esvaziada)? <br \/><\/strong>Eu tenho cada vez mais a seguinte posi&ccedil;&atilde;o: deixemos como est&aacute; essa m&iacute;dia que conhecemos, pois ela por s&oacute; vai se desgastar e se diminuir, e vamos n&oacute;s mesmos construir aparelhos informativos. Vejo espa&ccedil;o para isso hoje. N&atilde;o lutamos mais por faze, escrever, publicar. A luta &eacute; por audi&ecirc;ncia, pois j&aacute; temos condi&ccedil;&otilde;es de p&ocirc;r nossos ve&iacute;culos em p&eacute;; deixamos o patamar anterior, das d&eacute;cadas de 1980 e 90, quando n&atilde;o consegu&iacute;amos ter uma revista, um jornal, um site. Hoje os movimentos sociais est&atilde;o articulados em rede, est&atilde;o em outro n&iacute;vel. E falo do movimento gay, das mulheres, diversos, todos j&aacute; t&ecirc;m outro protagonismo. <br \/>Agora precisamos ampliar a agenda, temos de buscar legisla&ccedil;&otilde;es, principalmente em rela&ccedil;&atilde;o a quem tem concess&atilde;o, tem que diferenciar. Por exemplo, um produto impresso, como a Veja, que eu odeio, tem todo direito de fazer o que faz. Se a pessoa se sente agredida pelo jornalismo da Veja, pode entrar na justi&ccedil;a comum. Ainda &eacute; poss&iacute;vel fazer isso. Mas quem tem concess&atilde;o deveria respeitar um contrato p&uacute;blico, pois recebeu aquilo. E devemos for&ccedil;ar esse contrato a ter um compromisso social maior. Privatizaram as concess&otilde;es e fazem dela o que bem entendem para obter vantagens comerciais. <\/p>\n<p><strong>&Eacute; esse tipo de debate que vem sendo evitado, aparentemente. <\/strong><br \/>Os grupos econ&ocirc;micos, as corpora&ccedil;&otilde;es brasileiras, e as outras tamb&eacute;m, est&atilde;o na defensiva. Est&atilde;o perdendo espa&ccedil;o. Antes, se arvoravam em opini&atilde;o p&uacute;blica, hoje, no limite, s&atilde;o opini&atilde;o publicada em alguns ve&iacute;culos. Eles n&atilde;o s&atilde;o a esfera p&uacute;blica da comunica&ccedil;&atilde;o. At&eacute; porque n&atilde;o considero que exista uma esfera p&uacute;blica da comunica&ccedil;&atilde;o, existem algumas e eles s&atilde;o apenas uma delas. E dialogam com um p&uacute;blico que &eacute; de elite e cada vez menor. <br \/>H&aacute; 15, 20 anos, a Globo era respons&aacute;vel por 70, 80 por cento da audi&ecirc;ncia do pa&iacute;s. Isso porque pegamos audi&ecirc;ncia relativa, e n&atilde;o bruta. E hoje eles est&atilde;o perdendo audi&ecirc;ncia bruta. Minha filha fica cinco, seis vezes mais tempo na frente do computador que da TV &ndash; ela tem 18 anos. A&iacute; v&atilde;o dizer que &eacute; algo da juventude. Mas no m&iacute;nimo j&aacute; significa que o consumidor do futuro est&aacute; trocando de meio. E minha m&atilde;e, perto de fazer 70 anos, j&aacute; fica hoje mais tempo na frente do computador tamb&eacute;m. Ou seja, eles est&atilde;o perdendo at&eacute; seu p&uacute;blico mais tradicional. A pessoa se aproxima do computador e desiste de televis&atilde;o, pois &eacute; um aparelho muito mais interessante, onde se pode participar, sem ser somente receptor. <\/p>\n<p><strong>Que caminho devem tomar os inumer&aacute;veis processos judiciais que correm por nossos tribunais envolvendo empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, jornalistas e quem tenha conflitos com essas partes? Algum dos lados tende a se beneficiar mais? <br \/><\/strong>Sinceramente, n&atilde;o tenho avalia&ccedil;&atilde;o a respeito. N&atilde;o ouvi ningu&eacute;m especializado para fazer essa avalia&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o sei exatamente a que pode levar. Mas suponho que muitos desses processos acabar&atilde;o na justi&ccedil;a comum. Ali&aacute;s, muitos j&aacute; correm nessa inst&acirc;ncia, sem base na Lei de Imprensa. De qualquer forma, o veiculo ou o profissional tem de provar o que falam, e o cidad&atilde;o que se sentir ofendido, lesado, ainda tem seus direitos resguardados. De toda forma, n&atilde;o tenho avalia&ccedil;&atilde;o disso.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalista avalia oportunidades para mudar os rumos da comunica\u00e7\u00e3o no pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1076],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23124"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23124\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}