{"id":23097,"date":"2009-07-22T17:04:00","date_gmt":"2009-07-22T17:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23097"},"modified":"2009-07-22T17:04:00","modified_gmt":"2009-07-22T17:04:00","slug":"o-furo-jornalistico-em-xeque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23097","title":{"rendered":"O furo jornal\u00edstico em xeque"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t    <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\"><span class=\"padrao\">A quem interessa um furo jornal&iacute;stico? Ele &eacute; um patrim&ocirc;nio do p&uacute;blico ou dos jornais e jornalistas? O furo &eacute; um direito do cidad&atilde;o ou um direito do jornalismo e da imprensa?<\/p>\n<p>Quest&otilde;es como essas vieram-me &agrave; mente com a pol&ecirc;mica em torno do blog da Petrobras.<\/p>\n<p>Pouco foi discutido sobre aquilo que considero fundamental na pol&ecirc;mica: o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Deve ser reconhecido numa sociedade mediada pela internet e outras tecnologias da comunica&ccedil;&atilde;o. Todos t&ecirc;m, portanto, direito a receber e a difundir informa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Miss&atilde;o imposs&iacute;vel no s&eacute;culo 20, quando os meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa ocuparam o espa&ccedil;o de media&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. A dissemina&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o estava limitada ao desejo de quem detinha o poder de m&iacute;dia. <\/p>\n<p>No s&eacute;culo 21, finalmente as coisas come&ccedil;am a mudar. E n&atilde;o h&aacute; mudan&ccedil;a que n&atilde;o cause celeuma. As ferramentas novas que a internet nos traz mudam o espa&ccedil;o de media&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. A informa&ccedil;&atilde;o sai do controle dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa &ndash; de um para muitos &ndash; e projeta-se numa nova rela&ccedil;&atilde;o, de muitos para muitos. Cria-se uma rede em que a leitura n&atilde;o &eacute; mais linear, cada leitor segue seu caminho e busca suas pr&oacute;prias fontes. &Eacute; nesse ponto que a transforma&ccedil;&otilde;es amea&ccedil;am o jornalismo. Ou pelo menos o jornalismo a que est&aacute;vamos acostumados.<\/p>\n<p>Neste jornalismo ainda hoje praticado havia uma informa&ccedil;&atilde;o privada, pertencente a poucos. Quando um ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o tem acesso a essa informa&ccedil;&atilde;o, apropria-se dela e a coloca &agrave; venda em seus jornais ou programas de r&aacute;dio e TV. O furo &eacute;, portanto, a informa&ccedil;&atilde;o exclusiva transformada em mercadoria jornal&iacute;stica. A busca pela informa&ccedil;&atilde;o exclusiva &eacute; a busca pela melhor mercadoria para ser colocada &agrave; venda. <\/p>\n<p>Mas ao falarmos de not&iacute;cia, devemos pens&aacute;-la como pensamos em um sabonete, um carro, um picol&eacute;? Ou a not&iacute;cia &eacute; um bem maior, simb&oacute;lico, com uma fun&ccedil;&atilde;o social muito mais ampla?<\/p>\n<p>Ao amea&ccedil;ar o furo jornal&iacute;stico, n&atilde;o estaria a Petrobras subvertendo o valor da not&iacute;cia enquanto mercadoria, mas dando-lhe ainda mais import&acirc;ncia quanto ao seu valor social? O jornalismo deve ser o exerc&iacute;cio cont&iacute;nuo da busca da verdade e sua constante veicula&ccedil;&atilde;o. A finalidade do jornalismo &eacute; tornar p&uacute;blico o que &eacute; de interesse p&uacute;blico, mesmo que algu&eacute;m queira manter a informa&ccedil;&atilde;o no dom&iacute;nio privado. N&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel pensarmos hoje que apenas os leitores do jornal A ou telespectadores da TV B tenham direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o de interesse p&uacute;blica descoberta por um jornalista. Essa informa&ccedil;&atilde;o deve pertencer ao p&uacute;blico em geral, ao conjunto da sociedade.<\/p>\n<p>O furo foi amea&ccedil;ado, inicialmente, pela internet quando os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o passaram a replicar as informa&ccedil;&otilde;es dos outros (com ou sem cr&eacute;dito, com ou sem checagem). O sentido do furo come&ccedil;ou a ruir quando uma reportagem produzida em semanas ou at&eacute; meses era replicada no concorrente poucos segundos depois de sua publica&ccedil;&atilde;o original. Sem contar que a informa&ccedil;&atilde;o exclusiva deixou, h&aacute; muito, de ser descoberta pelo jornalista. H&aacute; tempos ela &eacute; negociada com as assessorias de imprensa. O furo tornou-se moeda de troca, mais uma forma de transformar a not&iacute;cia em mercadoria.<\/p>\n<p>Mas o furo perde ainda mais o sentido agora, quando a informa&ccedil;&atilde;o exclusiva deixa de ser propriedade do jornalista. Ele tamb&eacute;m deve adequar-se a uma nova realidade: a de que todos t&ecirc;m o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. Todos podem informar e ser informados. Ao bom jornalismo, caber&aacute; ainda filtrar as informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis. Mas este filtro n&atilde;o ser&aacute; absoluto. <\/p>\n<p>O p&uacute;blico decidir&aacute; at&eacute; onde ir&aacute; em sua busca por informa&ccedil;&otilde;es. O futuro do jornalismo n&atilde;o est&aacute; amea&ccedil;ado, mas n&atilde;o haver&aacute; espa&ccedil;o para o jornalismo pautado nas assessorias de imprensa, feito apenas a partir de releases e acordos nada transparentes com as fontes. O bom jornalismo dever&aacute; ajudar o leitor na escolha das informa&ccedil;&otilde;es, indicar&aacute; o que &eacute; importante para ser lido, consultado, mas n&atilde;o ter&aacute; a pretens&atilde;o de se esgotar em si mesmo. O bom jornalismo sobreviver&aacute; e ser&aacute; independente dos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Esses, sim, da forma como se estruturam, t&ecirc;m seu poder amea&ccedil;ado.<\/p>\n<p><em>* Wanderley Garcia &eacute; jornalista, mestre em Ci&ecirc;ncia da Informa&ccedil;&atilde;o, professor da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e da Puc-Campinas.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quem interessa um furo jornal&iacute;stico? 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