{"id":23017,"date":"2009-07-06T15:26:03","date_gmt":"2009-07-06T15:26:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=23017"},"modified":"2009-07-06T15:26:03","modified_gmt":"2009-07-06T15:26:03","slug":"cultura-indigena-e-os-meios-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=23017","title":{"rendered":"Cultura ind\u00edgena e os meios de comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\"><em>[T&iacute;tulo original: Cultura ind&iacute;gena e m&iacute;dia]<\/p>\n<p>Severi&aacute; Idiori&eacute; nasceu em um antigo territ&oacute;rio Karaj&aacute;, pr&oacute;ximo ao vilarejo de S&atilde;o Jos&eacute; dos Bandeirantes, no Goi&aacute;s. Aos sete anos de idade se mudou para Goi&acirc;nia a fim de se dedicar aos estudos. Formada no curso de Letras Modernas, na Universidade Cat&oacute;lica de Goi&aacute;s, aos 25 anos mudou-se para a aldeia Weder&atilde;, localizada na Terra Ind&iacute;gena Pimentel Barbosa, em Canarana, Estado do Mato Grosso, onde atua como educadora.<br \/><\/em><br \/><strong>A veicula&ccedil;&atilde;o da cultura ind&iacute;gena na m&iacute;dia ajuda a difundir os costumes e ideais do povo?<br \/><\/strong>Sim, h&aacute; cerca de 20 anos o pessoal da minha aldeia, Weder&atilde;, come&ccedil;ou a trabalhar com a quest&atilde;o da imagem, do que n&oacute;s queremos manter vivo por meio de v&iacute;deos e document&aacute;rios que s&atilde;o feitos. Temos videomakers da comunidade que captam imagens do nosso cotidiano, na tentativa de relativizar o di&aacute;logo entre os povos. Atrav&eacute;s de um edital do Minist&eacute;rio da Cultura, que incentiva a nossa pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o, fizemos umas trilhas e v&iacute;deos, como a Nutri&ccedil;&atilde;o e Sa&uacute;de Xavante, que &eacute; um trabalho que resgata a alimenta&ccedil;&atilde;o da mulher xavante. H&aacute; tamb&eacute;m o &ldquo;Darini &ndash; Inicia&ccedil;&atilde;o Espiritual Xavante&rdquo;, de Caimi Waiass&eacute; e Jorge Prodoti, que foi selecionado pela 29&ordf; Mostra de Cinema de S&atilde;o Paulo e ganhou o pr&ecirc;mio de melhor document&aacute;rio ind&iacute;gena na Mostra de Cinema da Cidade do M&eacute;xico. Outros document&aacute;rios foram feitos e em algumas entrevistas o cinegrafista se aproximou mais do povo ind&iacute;gena, mostrando que a &uacute;nica diferen&ccedil;a &eacute; a cultura, mas que todos querem educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de e alimenta&ccedil;&atilde;o melhor no Brasil. <\/p>\n<p><strong>Por outro lado, de que maneira a aldeia &eacute; influenciada pela m&iacute;dia?<\/strong><br \/>Viver isolado ou n&atilde;o para o meu povo &eacute; o seguinte: por mais que a gente quisesse ficar s&oacute; nas aldeias, j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais poss&iacute;vel. A Funai [Funda&ccedil;&atilde;o Nacional do &Iacute;ndio] e outras pol&iacute;ticas que est&atilde;o sendo feitas no Congresso visam preservar a cultura ind&iacute;gena, no entanto por mais que exista essa preocupa&ccedil;&atilde;o, tem alguns momentos que n&atilde;o conseguimos evitar esse acesso. Quando isso ocorre conosco, h&aacute; o mesmo efeito que nas comunidades n&atilde;o-ind&iacute;genas. Nossos jovens, por exemplo, v&atilde;o achar mais interessante ver um filme do que o jornal e maior paci&ecirc;ncia para ouvir m&uacute;sicas, do que um notici&aacute;rio no r&aacute;dio. Dentro da nossa comunidade, levamos para as escolas textos e livros que despertem questionamentos e an&aacute;lise do que vai servir desta nova cultura. A preocupa&ccedil;&atilde;o do cacique &eacute; de sempre abrir espa&ccedil;o para esses di&aacute;logos e de que os jovens sejam aconselhados pelos mais velhos e professores. A comunidade inteira tenta fazer esse &ldquo;conselho social&rdquo;, sobre o que &eacute; positivo para n&oacute;s usarmos. <\/p>\n<p><strong>Isso altera a din&acirc;mica da cultura?<\/strong><br \/>Em alguns lugares, sim. No caso o que acho mais perigoso, &eacute; a quest&atilde;o da roupa, a nudez n&atilde;o &eacute; um problema, desde que voc&ecirc; a observe de um ponto de vista cultural, mas, quando a nudez &eacute; vista pelo olhar do f&aacute;lico, do n&atilde;o-&iacute;ndio, isto &eacute; perigoso. Porque a gente n&atilde;o olha para certas partes do corpo do outro, como os seios e as genit&aacute;lias como objetos de desejo, voc&ecirc; acaba introduzindo novos valores. Tem outra quest&atilde;o importante nisto, que &eacute; em rela&ccedil;&atilde;o ao individualismo. Em algumas comunidades, o dinheiro j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais um bem coletivo, e sim um bem individual. Isso se torna um processo capitalista: se antes a ca&ccedil;a e a pesca eram repartidas entre todos, agora, quando o assunto &eacute; dinheiro, que n&atilde;o &eacute; um bem pr&oacute;prio da comunidade, os &iacute;ndios d&atilde;o o mesmo valor que o n&atilde;o-&iacute;ndio. Eles pensam que se trabalharam e conquistaram aquilo, v&atilde;o repartir somente com a minha fam&iacute;lia e os mais pr&oacute;ximos. Isso &eacute; perigoso porque o dinheiro levou pobreza a alguns povos. Os &iacute;ndios pensam que todos os brancos s&atilde;o ricos, com cinco ou seis carros na garagem, morando em uma bela casa, com a geladeira sempre cheia e que com estas riquezas eles s&atilde;o felizes.<\/p>\n<p><strong>A introdu&ccedil;&atilde;o destes novos valores traz quais consequ&ecirc;ncias &agrave; aldeia? <\/strong><br \/>H&aacute; v&aacute;rias hist&oacute;rias de estupros e de raptos que ocorreram ao longo do tempo e fizeram com que a comunidade ind&iacute;gena criasse estere&oacute;tipos de que os homens brancos s&atilde;o maus. Por exemplo, quando uma crian&ccedil;a faz malcria&ccedil;&atilde;o algumas pessoas da tribo dizem: &ldquo;se voc&ecirc; n&atilde;o ficar quieto, o branco vai vir te pegar e te levar embora&rdquo;. Da&iacute;, n&oacute;s temos que falar que n&atilde;o s&atilde;o todos os brancos que v&atilde;o chegar, raptar e levar embora nossos filhos. &Eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica entre os povos. Passa por aquilo que alguns estudiosos chamam de &ldquo;o caminho do conhecimento&rdquo;: ele passa pelo pensar, pelo sentir e pela a&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o como &eacute; que voc&ecirc; vai fazer isso e de que maneira transmitiremos essa aprendizagem? Falamos para eles observarem as pessoas que nos visitam, que geralmente s&atilde;o funcion&aacute;rios da Funasa [Funda&ccedil;&atilde;o Nacional de Sa&uacute;de] ou da Funai, ou &eacute; uma pessoa que veio fazer um trabalho de mestrado ou doutorado. Essas pessoas chegam e traem respostas paras os questionamentos deles e os nossos.<\/p>\n<p><strong>Sendo assim &eacute; importante registrar e exibir ritos, festas e manifesta&ccedil;&otilde;es do povo ind&iacute;gena? <br \/><\/strong>&Eacute; importante desde que a comunidade n&atilde;o-ind&iacute;gena deixe claro qual &eacute; o objetivo daquele filme, o que eles pretendem mostrar, de que maneira isso ser&aacute; apresentado. Os ritos, que s&atilde;o ritos mesmo, de segredo e tudo mais, n&atilde;o s&atilde;o mostrados, e outros temas que achamos que n&atilde;o ser&atilde;o compreendidos pelas comunidades n&atilde;o-ind&iacute;genas, n&oacute;s n&atilde;o gravamos, nem autorizamos sua reprodu&ccedil;&atilde;o. Eu acho que a comunidade tem de ter essa preocupa&ccedil;&atilde;o de conviver com as outras pessoas, pois elas saem enriquecidas com esses trabalhos. Temos alguns cinegrafistas de origem xavante que captam imagens que mostram que nem todo homem branco segue o estere&oacute;tipo criado pela m&iacute;dia, este outro lado diminui o nosso preconceito. <\/p>\n<p><strong>Atualmente com essa quest&atilde;o da conviv&ecirc;ncia, do viver junto, as rela&ccedil;&otilde;es entre o &iacute;ndio e o n&atilde;o-&iacute;ndio est&atilde;o mais estreitas, ou ainda est&atilde;o muito distantes do ideal?<br \/><\/strong>Para algumas pessoas esta rela&ccedil;&atilde;o est&aacute; muito pr&oacute;xima, mas para outras n&atilde;o. Ent&atilde;o n&atilde;o d&aacute; para fazer algo quantitativo. Antes, as pessoas tinham a gente como objeto de pesquisa, como seres de uma realidade muito distante, mas esses n&uacute;cleos de educadores e de formadores de opini&atilde;o j&aacute; n&atilde;o possuem mais esta imagem do &iacute;ndio. De onde eu venho, n&oacute;s temos uma filosofia de que, se em um di&aacute;logo com um grupo de dez pessoas, ao menos um refletir sobre o assunto, j&aacute; &eacute; algo significativo. Dependendo do que ela pensou e foi tocada, ela come&ccedil;a a agir. Por isso, evolu&iacute;mos em algumas quest&otilde;es e em outras, n&atilde;o. Quando h&aacute; a conscientiza&ccedil;&atilde;o de que todos somos seres humanos, iguais nesta quest&atilde;o do bi&oacute;tipo, mas diferentes somente na vis&atilde;o de mundo, na maneira como educamos nossos filhos, tendemos a gerar uma conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica. Mas isso n&atilde;o quer dizer que os conflitos acabaram, ali&aacute;s, o conflito at&eacute; acrescenta, desde que ele n&atilde;o seja armado, apenas ideol&oacute;gico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educadora reflete sobre a intera\u00e7\u00e3o entre \u00edndios e n\u00e3o-\u00edndios atrav\u00e9s da m\u00eddia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[1058],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23017"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23017\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}