{"id":22990,"date":"2009-06-29T15:17:03","date_gmt":"2009-06-29T15:17:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22990"},"modified":"2009-06-29T15:17:03","modified_gmt":"2009-06-29T15:17:03","slug":"pl-29-o-caminho-para-a-apartacao-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22990","title":{"rendered":"PL-29: o caminho para a aparta\u00e7\u00e3o cultural"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">&ldquo;O que restou na televis&atilde;o aberta para os &lsquo;baixinhos&rsquo;, como diz Xuxa, passada a era das apresentadoras loiras?&rdquo; &ndash; perguntou-se a <em>Folha de S. Paulo<\/em>, na reportagem sugestivamente intitulada &ldquo;Quem precisa da TV aberta?&rdquo;, assinada por Laura Mattos, publicada em 9 de novembro do ano passado. N&atilde;o restou quase nada, responde. &ldquo;As paix&otilde;es da meninada hoje s&atilde;o &lsquo;Backyardgans&rsquo;, &lsquo;Ben 10&rsquo;, &lsquo;High Scholl Musical&rsquo; e outros programas totalmente gestados em canais pagos&rdquo;, informa. Esqueceu-se muito convenientemente de acrescentar: al&eacute;m de pagos, estrangeiros.<\/p>\n<p>A mentalidade de milh&otilde;es de crian&ccedil;as e jovens que, daqui a 20 ou 30 anos, come&ccedil;ar&atilde;o a assumir postos de responsabilidade e de lideran&ccedil;a nas mais diversas atividades de nossa sociedade, da simples opera&ccedil;&atilde;o ou gest&atilde;o de empresas, at&eacute; a alta produ&ccedil;&atilde;o cultural ou dire&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, est&aacute; sendo, neste momento, integralmente formada por produtos simb&oacute;licos sem qualquer vincula&ccedil;&atilde;o com a cultura brasileira e com alguma id&eacute;ia de pertencimento e destino comum de na&ccedil;&atilde;o. Mas, como diz com aparente ingenuidade a mesma mat&eacute;ria, aqueles e outros programas &ldquo;estampam milhares de subprodutos, de DVDs a cuecas e macarr&atilde;o instant&acirc;neo&rdquo;. Habituam as crian&ccedil;as a naturalizar o consumo desmedido (de marcas importadas) e nada lhes ensinam sobre democracia, cidadania e projeto de Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Cerca de 5,5 milh&otilde;es de domic&iacute;lios brasileiros j&aacute; s&atilde;o atingidos pela TV paga. Em quase todos, encontram-se os canais Discovery Kids, Warner, Cartoon Networks, Disney, Nickelodeon e outros. &Eacute; claro que esses domic&iacute;lios s&atilde;o basicamente habitados pelas chamadas classe &ldquo;A&rdquo; e &ldquo;B&rdquo;, ou seja, burguesia e alta classe m&eacute;dia. Neles se encontram as crian&ccedil;as e jovens com melhores condi&ccedil;&otilde;es de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o, com elevado poder de consumo, destinadas, gostemos ou n&atilde;o, a sucederem seus pais e av&oacute;s na condi&ccedil;&atilde;o de elite (econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica, intelec-tual, cultural) do Pa&iacute;s, daqui a alguns anos. Voltando a se comportar como as elites que t&iacute;nhamos at&eacute; meados do s&eacute;culo XX, esta ser&aacute;, de novo, uma elite de costas para o Brasil, que aprender&aacute; a olhar (j&aacute; est&aacute; come&ccedil;ando a aprender) com profundo desprezo para a nossa hist&oacute;ria e para a nossa cultura, sobretudo para a nossa rica cultura popular. Uma elite americanalhada.<\/p>\n<p>Este &eacute; ou deveria ser o ponto central do debate em torno da PL-29. Seria uma oportunidade para, corrigindo o equ&iacute;voco da cultuada Lei do Cabo, submeter o audiovisual, qualquer que seja o seu meio de propaga&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o, aos princ&iacute;pios expressos nos artigos 221, 222 e 223 da nossa Constitui&ccedil;&atilde;o. Ora, quando a Constitui&ccedil;&atilde;o foi elaborada, no final dos anos 1980, a produ&ccedil;&atilde;o cultural somente poderia ser veiculada, al&eacute;m da imprensa escrita e das salas de cinema ou teatro, atrav&eacute;s do r&aacute;dio e da televis&atilde;o. <\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o por isto s&oacute; tratou destes. Hoje, aquelas miss&otilde;es que a Constitui&ccedil;&atilde;o atribuiu ao r&aacute;dio e &agrave; TV propagados por sinal eletromagn&eacute;tico aberto, precisam tamb&eacute;m, sob pena de total incoer&ecirc;ncia, al&eacute;m de atentado contra o futuro do Brasil, serem estendidas ao sinal eletromagn&eacute;tico fechado, pago ou codificado. A televis&atilde;o, seja por que meio for, seja por VHF, cabo, sat&eacute;lite ou celular, n&atilde;o pode deixar de atender aos mandamentos constitucionais: prefer&ecirc;ncia a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais, informativas; promo&ccedil;&atilde;o da cultura nacional e regional e est&iacute;mulo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente; regionaliza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cul-tural e respeito aos valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>A TV paga, desde que deu os seus primeiros passos no Brasil, jamais atendeu a esses ditames da nossa Constitui&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o est&aacute; a servi&ccedil;o do desenvolvimento cultural e econ&ocirc;mico brasileiro. &Eacute; verdade que se pode questionar se a TV aberta atende &agrave;queles princ&iacute;pios. Pode-se e deve-se. Mas, hoje, quando, cada vez mais, a TV paga vai se tornando o principal meio de informa&ccedil;&atilde;o e entretenimento da popula&ccedil;&atilde;o (nos EUA j&aacute; atinge 90% dos lares; em todo o mundo, j&aacute; chega a quase metade dos lares com TV), h&aacute; que se afirmar, contra os dogmas do mercado e da ideologia consumista, que ela tamb&eacute;m precisa ser objeto de regulamenta&ccedil;&atilde;o que reconhe&ccedil;a e estabele&ccedil;a a sua finalidade primeiramente educativa e cultural; que nela imprima tamb&eacute;m princ&iacute;pios de regime p&uacute;blico; que dela fa&ccedil;a igualmente instrumento de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas em benef&iacute;cio da maioria da nossa sociedade.<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio, o debate sobre a regulamenta&ccedil;&atilde;o da TV paga deveria estar inserido no debate maior sobre a regulamenta&ccedil;&atilde;o de toda a ind&uacute;stria brasileira de comunica&ccedil;&otilde;es, a ser travado na I&ordf; Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. No entanto, enquanto a Confecom debate no abstrato, sem maiores poderes decis&oacute;rios, o PL-29 avan&ccedil;a no concreto, podendo vir a decidir sobre a TV paga no Brasil ainda este ano, assim criando fatos consumados. Por isto, &eacute; preciso debat&ecirc;-la j&aacute;! <\/p>\n<p>O &uacute;ltimo substitutivo produzido pelas idas e vindas da C&acirc;mara assinala um enorme retrocesso diante de tudo o qu&ecirc;, mal ou bem, se havia conseguido avan&ccedil;ar, enquanto o PL esteve aos cuidados do engenheiro de telecomunica&ccedil;&otilde;es e deputado carioca Jorge Bittar. Retrocesso na forma e no conte&uacute;do. O substitutivo de Bittar era formalmente bem elaborado e claro. Este &uacute;ltimo, apresentado pelo advogado e deputado paraibano Vital Rego Filho (PMDB), &eacute; confuso, n&atilde;o raro contradit&oacute;rio. <\/p>\n<p>Um exemplo. O seu artigo 16 diz que &ldquo;nos canais de programa&ccedil;&atilde;o e cat&aacute;logos que veicularem mais de 3h30 de conte&uacute;dos brasileiros que integrem espa&ccedil;o qualificado, no m&iacute;nimo 50% (cinq&uuml;enta por cento) dos conte&uacute;dos excedentes dever&atilde;o ser produzidos por produtora brasileira independente&rdquo;. Pelo que est&aacute; a&iacute; escrito &ndash; e a lei vale pelo que est&aacute; escrito &ndash; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel saber se esse tempo de &ldquo;3h30&rdquo; &eacute; di&aacute;rio, semanal, mensal, anual&#8230; E como definir &ldquo;conte&uacute;dos excedentes&rdquo;? Ser&aacute; aquele que ultrapasse esse tempo de &ldquo;3h30&rdquo;? Caso esse &ldquo;excedente&rdquo; seja de 1 minuto, o tempo da produ&ccedil;&atilde;o brasileira independente ser&aacute; de 30 segundos? <\/p>\n<p>J&aacute; o projeto do deputado Bittar, ao menos era objetivo: qualquer canal cuja programa&ccedil;&atilde;o fosse majoritariamente definida como &ldquo;qualificada&rdquo; (isto &eacute;, canais de filmes, document&aacute;rios, desenhos animados etc.), estaria obrigado a transmitir, no m&iacute;nimo, 3h30 semanais de conte&uacute;dos brasileiros, metade dos quais gerados por produtoras independentes. Pode-se considerar pouco. Nas suas primeiras vers&otilde;es, Bittar exigia mais. Mas aqui est&aacute; claro qual ser&aacute; o tempo dedicado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o brasileira, desta regra n&atilde;o se excluindo nenhum canal estrangeiro de filmes, document&aacute;rios, desenhos etc. J&aacute; a regra pretendida pelo deputado paraibano, num texto tortuoso, pretende deixar de fora os canais estrangeiros e nada deixar muito claro sequer para os nacionais.<\/p>\n<p>Outro exemplo? Pelo novo substitutivo, os &ldquo;pacotes ofertados aos assinantes&rdquo; dever&atilde;o possuir, &ldquo;pelo menos, um canal para veicula&ccedil;&atilde;o exclusiva de conte&uacute;do brasileiro em cuja programa&ccedil;&atilde;o, no m&iacute;nimo, 12 horas di&aacute;rias consistam em conte&uacute;do brasileiro integrante do espa&ccedil;o qualificado restrito [leia-se, filmes, document&aacute;rios, desenhos etc.], produzido por produtora brasileira independente&rdquo;. J&aacute; o substitutivo do deputado Bittar&nbsp; determinava&nbsp; que os &ldquo;pacotes&rdquo;&nbsp; deve-riam possuir &ldquo;pelo menos 25% de canais programados por programadora brasileira&rdquo;, sendo que desses 25%, ao menos 1\/3 deveria &ldquo;ser programado por programadora brasileira independente&rdquo;.<\/p>\n<p>A diferen&ccedil;a? Em um, o pacote pode ter 100, 200, 500 canais, e ter&aacute; um canal supostamente brasileiro &ndash; algo como j&aacute; &eacute; hoje o &ldquo;Canal Brasil&rdquo; perdido nos pacotes da NET. No outro, a cada 100 canais por exemplo, 25 teriam que ser canais realmente brasileiros, dos quais 8 n&atilde;o poderiam ser controlados por outras empresas da cadeia e todos teriam que veicular pelo menos 4 horas de filmes, document&aacute;rios, desenhos etc (&ldquo;espa&ccedil;o qualificado&rdquo;). Haveria mais exemplos, o espa&ccedil;o por&eacute;m &eacute; curto. <\/p>\n<p>Infelizmente, esse debate n&atilde;o tem mobilizado os cora&ccedil;&otilde;es e mentes que poderiam atentar para as dimens&otilde;es do problema. Com efeito, crian&ccedil;as, jovens e adultos n&atilde;o assistem &agrave; NET, nem &agrave; Sky, como n&atilde;o assistir&atilde;o &agrave; Telef&ocirc;nica, &agrave; Oi ou &agrave; Claro. Crian&ccedil;as, jovens e adultos assistem, sim, ao Disney, ao Cartoon, &agrave; Fox, &agrave; Warner, aos Telecines, &agrave; CNN, eventualmente tamb&eacute;m &agrave; GloboNews ou ao Canal Brasil. O que est&aacute; em discuss&atilde;o &eacute; se nesses canais de televis&atilde;o que, hoje, j&aacute; substitu&iacute;ram a Globo, a Record ou o SBT no gosto da nossa crian&ccedil;ada bem nutrida e, mesmo, de boa parte dos nossos adultos endinheirados, haver&aacute; espa&ccedil;o para a cultura brasileira. <\/p>\n<p>Ou n&atilde;o. Se n&atilde;o, desde j&aacute; podemos prever mais um processo de aparta&ccedil;&atilde;o em nossa sociedade: dentro de uns poucos anos, as classes m&eacute;dias e altas estar&atilde;o totalmente informadas e formadas pelos canais oriundos dos Estados Unidos, enquanto que ao nosso pov&atilde;o restar&aacute; assistir aos Faust&otilde;es, BBBs, Datenas ou Lucianas Jimenes. Da&iacute; para pior.<\/p>\n<p><\/span><span class=\"padrao\"><em>Marcos Dantas &eacute; professor do Dept. de Comunica&ccedil;&atilde;o Social e coordenador do Instituto de M&iacute;dias Digitais da PUC-Rio. Integra o GTE do F&oacute;rum M&iacute;dia Livre e a Comiss&atilde;o Rio Pr&oacute;-Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. Foi secret&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o a Dist&acirc;ncia do MEC e membro do Conselho Consultivo da Anatel. Este &eacute; o primeiro de dois artigos sobre o tema.<br \/> <\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;O que restou na televis&atilde;o aberta para os &lsquo;baixinhos&rsquo;, como diz Xuxa, passada a era das apresentadoras loiras?&rdquo; &ndash; perguntou-se a Folha de S. Paulo, na reportagem sugestivamente intitulada &ldquo;Quem precisa da TV aberta?&rdquo;, assinada por Laura Mattos, publicada em 9 de novembro do ano passado. 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