{"id":22928,"date":"2009-06-16T17:04:08","date_gmt":"2009-06-16T17:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22928"},"modified":"2009-06-16T17:04:08","modified_gmt":"2009-06-16T17:04:08","slug":"a-batalha-da-midia-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22928","title":{"rendered":"A batalha da m\u00eddia na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><em>A Am&eacute;rica Latina tem se destacado no cen&aacute;rio internacional pelas sucessivas vit&oacute;rias da for&ccedil;as de esquerda nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais. Nestas experi&ecirc;ncias de car&aacute;ter mais ou menos transformador, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m assumindo papel fundamental, seja como for&ccedil;as de resist&ecirc;ncia &agrave;s mudan&ccedil;as ou como instrumentos de disputa de hegemonia de seus promotores. <\/p>\n<p>Uma an&aacute;lise deste quadro complexo e rico est&aacute; no livro &quot;A Batalha da M&iacute;dia&quot; (P&atilde;o e Rosas, 2009), escrito pelo professor D&ecirc;nis de Moraes. A obra discute o papel da comunica&ccedil;&atilde;o nas lutas pol&iacute;ticas em curso na regi&atilde;o a partir da investigac&atilde;o sobre como os governos progressistas latino-americanos t&ecirc;m agido em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia, seja no campo das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para a &aacute;rea, seja na disputa contra grupos midi&aacute;ticos opositores.<\/p>\n<p>O autor analisou as altera&ccedil;&otilde;es promovidas no ambiente regulat&oacute;rio do setor nos v&aacute;rios pa&iacute;ses e identificou que as novas pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o de governos progressistas da regi&atilde;o buscam viabilizar legisla&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;licas, apoiar meios alternativos e comunit&aacute;rios e estimular a produ&ccedil;&atilde;o audiovisual independente. <\/p>\n<p>D&ecirc;nis de Moraes &eacute; doutor em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e p&oacute;s-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), sed iado em Buenos Aires, Argentina. &Eacute; professor associado do Departamento de Estudos Culturais e M&iacute;dia e &nbsp;do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq). Autor e organizador de d iversos l ivros, entre os quais Cultura medi&aacute;tica y poder mundial (Norma, 2006), Sociedade midiatizada (Mauad, 2006),Combates e utopias: os intelectuais num mundo em crise (Record, 2004) e Por uma outra comunica&ccedil;&atilde;o: m&iacute;dia, mundializa&ccedil;&atilde;o cultural e poder (Record, 2003). <\/em><br \/>&nbsp;<br \/><em>Nesta entrevista concedida ao Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o, D&ecirc;nis de Moraes fala sobre as experi&ecirc;ncias que encontrou em sua pesquisa e acerca de li&ccedil;&otilde;es que podem ser adotadas no Brasil. <\/em><\/p>\n<p><strong>Como voc&ecirc; analisa a import&acirc;ncia das batalhas em torno da comunica&ccedil;&atilde;o no processo atual de transforma&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina?<br \/><\/strong><br \/>A comunica&ccedil;&atilde;o tem import&acirc;ncia estrat&eacute;gica no processo de transforma&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica Latina. Trata-se de um campo de luta entre diferentes propostas hegem&ocirc;nicas, no quadro geral dos embates pol&iacute;ticos e culturais que t&ecirc;m origem na totalidade social. &Eacute; na arena da comunica&ccedil;&atilde;o que se trava, neste momento, uma das mais renhidas batalhas pelo controle do imagin&aacute;rio social na regi&atilde;o. De um lado, est&atilde;o as elites pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas associadas, por identidade de prop&oacute;sitos de domina&ccedil;&atilde;o, &agrave; chamada grande m&iacute;dia, formando um bloco privatista que tudo faz para manter a sua influ&ecirc;ncia ideol&oacute;gica e suas ambi&ccedil;&otilde;es lucrativas. <\/p>\n<p>De outro lado, est&atilde;o as for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas que ap&oacute;iam governos progressistas empenhados em superar os malef&iacute;cios provocados por d&eacute;cadas de neoliberalismo, assumindo compromissos com a justi&ccedil;a social, com a inclus&atilde;o das massas no processo de desenvolvimento e com a diversidade informativa e cultural. H&aacute; um cabo-de-guerra entre a&ccedil;&otilde;es governamentais em favor da descentraliza&ccedil;&atilde;o e da diversifica&ccedil;&atilde;o dos sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o e as violentas campanhas midi&aacute;ticas em defesa de seus hist&oacute;ricos privil&eacute;gios e mandonismos. Sob alega&ccedil;&atilde;o de que exerce uma hipot&eacute;tica fun&ccedil;&atilde;o social espec&iacute;fica (informar a coletividade), a m&iacute;dia n&atilde;o quer submeter-se a freios de conten&ccedil;&atilde;o e se p&otilde;e fora do alcance das leis e da regula&ccedil;&atilde;o estatal. <\/p>\n<p>A opini&atilde;o p&uacute;blica &eacute; induzida ao convencimento de que s&oacute; tem relev&acirc;ncia aquilo que os meios divulgam. N&atilde;o somente &eacute; uma mistifica&ccedil;&atilde;o, como permite, perigosamente, a absor&ccedil;&atilde;o de tarefas, fun&ccedil;&otilde;es e pap&eacute;is tradicionalmente desempenhados por inst&acirc;ncias representativas da sociedade. Pela primeira vez na Am&eacute;rica Latina, essa posi&ccedil;&atilde;o hipertrofiada dos meios, coligada &agrave; absurda concentra&ccedil;&atilde;o dos setores de informa&ccedil;&atilde;o e entretenimento nas m&atilde;os de um reduzido n&uacute;mero de corpora&ccedil;&otilde;es, est&aacute; sendo contestada frontalmente, e em v&aacute;rios pa&iacute;ses podemos perceber provid&ecirc;ncias concretas para se tentar reverter quadro t&atilde;o adverso ao pluralismo. <\/p>\n<p>Penso que a democratiza&ccedil;&atilde;o dos sistemas de comunica&ccedil;&atilde;o se insere numa moldura mais ampla, de revigoramento da esfera p&uacute;blica e do papel regulador e ativo do Estado na vida socioecon&ocirc;mica e cultural &ndash; o que depende, entre outros fatores, de pol&iacute;ticas consistentes de promo&ccedil;&atilde;o social e educa&ccedil;&atilde;o, formas de defesa e amplia&ccedil;&atilde;o dos direitos de cidadania, gest&atilde;o participativa na tomada de decis&otilde;es, controle do capital especulativo, pol&iacute;ticas externas independentes, redistribui&ccedil;&atilde;o e eleva&ccedil;&atilde;o de renda e gera&ccedil;&atilde;o de empregos. Que n&atilde;o tenhamos ilus&atilde;o: n&atilde;o cessar&atilde;o as impreca&ccedil;&otilde;es do conservadorismo, e os atritos com conglomerados de comunica&ccedil;&atilde;o v&atilde;o agudizar-se &agrave; medida que se acelere a velocidade das mudan&ccedil;as. Da&iacute; ser imperioso esclarecermos a opini&atilde;o p&uacute;blica e desenvolvermos mobiliza&ccedil;&otilde;es e press&otilde;es para reclamar interven&ccedil;&otilde;es democratizadoras e afirm&aacute;-las frente &agrave;s resist&ecirc;ncias das elites e da m&iacute;dia.<\/p>\n<p><strong>Em que pa&iacute;ses voc&ecirc; identificou pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o orientadas para supera&ccedil;&atilde;o do atual quadro de hegemonia neoliberal no continente? Que experi&ecirc;ncias de contra-hegemonia voc&ecirc; destacaria? <br \/><\/strong><br \/>Os governos de Venezuela, Equador e Bol&iacute;via &ndash; que formam um bloco de poder nacionalista, antineoliberal, antiimperialista e de esquerda &#8211; t&ecirc;m sido os mais coerentes e ativos na rejei&ccedil;&atilde;o &agrave; mercantiliza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e ao monop&oacute;lio privado da m&iacute;dia e ao seu predom&iacute;nio desmedido no mundo social. Naqueles tr&ecirc;s pa&iacute;ses, qualificados pelo soci&oacute;logo argentino At&iacute;lio Boron, como &ldquo;o eixo da esperan&ccedil;a&rdquo; na Am&eacute;rica Latina, as interven&ccedil;&otilde;es governamentais visam enfrentar a concentra&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia com legisla&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;licas e antioligop&oacute;licas, ao mesmo tempo em que p&otilde;em em vigor um conjunto de medidas para diversificar as fontes de emiss&atilde;o, estimular meios alternativos e comunit&aacute;rios, apoiar a gera&ccedil;&atilde;o e a divulga&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos regionais e locais, revalorizar os meios p&uacute;blicos e redirecionar fomentos e patroc&iacute;nios &agrave; produ&ccedil;&atilde;o audiovisual independente. <\/p>\n<p>Tais medidas contam com o respaldo das maiorias parlamentares no legislativo e de movimentos sociais e entidades que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o. O meu livro &quot;A batalha da M&iacute;dia&quot; apresenta um amplo e detalhado painel de tais provid&ecirc;ncias, incluindo iniciativas an&aacute;logas que est&atilde;o em curso ou em vias de execu&ccedil;&atilde;o em outros pa&iacute;ses latino-americanos, com distintos graus de profundidade e efic&aacute;cia. Sabemos que n&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil, principalmente quando pol&iacute;ticas p&uacute;blicas colocam em xeque conveni&ecirc;ncias de elites pol&iacute;ticas, empresariais e midi&aacute;ticas. Os governos de Hugo Ch&aacute;vez, Rafael Correa e Evo Moraes est&atilde;o sendo obrigados a travar duras pelejas para que suas propostas renovadoras sobrevivam &agrave;s campanhas orquestradas pela m&iacute;dia e por grupos conservadores, cujo alvo &eacute; debilit&aacute;-los perante a opini&atilde;o p&uacute;blica. <\/p>\n<p><strong>Que experi&ecirc;ncias de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas analisadas pela pesquisa podem ser tomadas como exemplos interessantes para o Brasil?<br \/><\/strong><br \/>As novas Constitui&ccedil;&otilde;es do Equador e da Bol&iacute;via consagram e protegem o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o veraz e plural, instituindo mecanismos de combate &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o e &agrave;s oligopoliza&ccedil;&atilde;o e assegurando a setores sociais e comunit&aacute;rios uma participa&ccedil;&atilde;o real na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o, incluindo o acesso &agrave; radiodifus&atilde;o sob concess&atilde;o p&uacute;blica. Tamb&eacute;m devem ser destacadas: a nova legisla&ccedil;&atilde;o de radiodifus&atilde;o comunit&aacute;ria do Uruguai, considerada pela Amarc uma das mais avan&ccedil;adas do mundo; a nova lei geral de comunica&ccedil;&atilde;o da Argentina, de clara inspira&ccedil;&atilde;o antimonop&oacute;lica e antioligop&oacute;lica, em tramita&ccedil;&atilde;o no Congresso; e a nova Lei do Audiovisual da Venezuela, que co&iacute;be o controle da distribui&ccedil;&atilde;o e da exibi&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;ficas por cart&eacute;is norte-americanos, garantindo reserva de mercado para filmes nacionais e latino-americanos e instituindo taxa&ccedil;&atilde;o dos lucros dos cart&eacute;is. <\/p>\n<p>Merecem ainda ser apreciadas outras experi&ecirc;ncias, como, por exemplo, a cadeia de r&aacute;dios dos povos origin&aacute;rios da Bol&iacute;via, concebida por Evo Morales; os fundos de financiamento &agrave; produ&ccedil;&atilde;o independente para televis&atilde;o e &agrave; regionaliza&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia patrocinados pelo governo de Michelle Bachelet no Chile; os inovadores canais p&uacute;blicos de televis&atilde;o educativa e cultural Encuentro, criado pelo presidente N&eacute;stor Kirchner na Argentina, e Vive TV, levado ao ar pelo presidente Ch&aacute;vez na Venezuela; o programa de apoio ao audiovisual independente no Brasil; as modalidades de integra&ccedil;&atilde;o e interc&acirc;mbios entre &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos latino-americanos, como que acontece no canal Telesur, entre ag&ecirc;ncias de not&iacute;cias e emissoras de televis&atilde;o estatais e com os mecanismos de co-produ&ccedil;&atilde;o e co-distribui&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;ficas. <\/p>\n<p>Mas nada disso ser&aacute; levado adiante, no Brasil ou em qualquer pa&iacute;s, se faltarem vontade pol&iacute;tica aos governantes e sustenta&ccedil;&atilde;o popular. A fei&ccedil;&atilde;o progressista de um mandato n&atilde;o se mede por inten&ccedil;&otilde;es ret&oacute;ricas nem por aptid&atilde;o para contemporizar; mede-se, isto sim, pela coragem para inverter a pir&acirc;mide e colocar no alto tudo aquilo que estava sufocado e travado. O que pressup&otilde;e fazer cumprir delibera&ccedil;&otilde;es democratizadoras. Este me parece ser o norte do presidente do Equador, Rafael Correa, ao tomar, em novembro de 2008, uma decis&atilde;o importante e in&eacute;dita na Am&eacute;rica Latina: designou uma comiss&atilde;o formada por especialistas nacionais e internacionais para realizar auditoria das licen&ccedil;as de r&aacute;dio e televis&atilde;o, com base nas disposi&ccedil;&otilde;es antimonop&oacute;licas da nova Constitui&ccedil;&atilde;o daquele pa&iacute;s. <\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute; um exemplo fabuloso a ser seguido, com o prop&oacute;sito de dar transpar&ecirc;ncia, legitimidade e garantias a um regime justo de concess&atilde;o de canais de r&aacute;dio e televis&atilde;o. Um regime que ponha termo ao que Ven&iacute;cio Artur de Lima bem definiu como &ldquo;coronelismo eletr&ocirc;nico&rdquo; e assegure equidade entre os setores p&uacute;blico, privado e comunit&aacute;rio na divis&atilde;o das outorgas e variedade de programa&ccedil;&atilde;o dos canais. <\/p>\n<p><strong>Dentro desse panorama de transforma&ccedil;&otilde;es na Am&eacute;rica Latina como voc&ecirc; analisa a import&acirc;ncia da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, convocada para o final de 2009 no Brasil? <br \/><\/strong><br \/>A Confer&ecirc;ncia &eacute; uma oportunidade extraordin&aacute;ria para a discuss&atilde;o e o encaminhamento de proposi&ccedil;&otilde;es que contribuam para a estrutura&ccedil;&atilde;o de um sistema de comunica&ccedil;&atilde;o mais justo e democr&aacute;tico no Brasil. Por isso, devemos nos esfor&ccedil;ar para real&ccedil;ar junto &agrave; sociedade sua import&acirc;ncia neste momento hist&oacute;rico, inclusive salientando o direito que o exerc&iacute;cio da cidadania nos confere de interferir nos rumos da comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s.&nbsp; Contudo, n&atilde;o devemos cultivar ilus&otilde;es, nem acreditar que males cr&ocirc;nicos ser&atilde;o equacionados, por encanto, em fun&ccedil;&atilde;o da repercuss&atilde;o dos trabalhos da Confer&ecirc;ncia. N&atilde;o podemos esquecer que o mesmo governo Lula que convocou a Confer&ecirc;ncia praticamente nada fez em sete dos seus oito anos de mandato para modificar o quadro geral da comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. <\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute; a anacr&ocirc;nica legisla&ccedil;&atilde;o de radiodifus&atilde;o que n&atilde;o me deixa mentir. Tamb&eacute;m n&atilde;o podemos desconhecer a for&ccedil;a dos lobbies e interesses empresariais do setor. Penso que &eacute; essencial aumentar o grau de organiza&ccedil;&atilde;o e de articula&ccedil;&atilde;o de entidades e segmentos da sociedade civil que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o, bem como buscar meios mais efetivos e conseq&uuml;entes de esclarecimento e convencimento da opini&atilde;o p&uacute;blica sobre a relev&acirc;ncia da comunica&ccedil;&atilde;o para o desenvolvimento humano em bases igualit&aacute;rias. Esses esfor&ccedil;os me parecem decisivos, sobretudo para intensificar a press&atilde;o organizada de &aacute;reas reivindicantes da sociedade civil sobre os poderes p&uacute;blicos, e assim, no curso de persistentes campanhas e longas batalhas, construir, gradualmente, uma outra comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. <\/p>\n<p>A Confer&ecirc;ncia, sem d&uacute;vida, poder&aacute; ter desdobramentos v&aacute;lidos e promissores. Mas n&atilde;o percamos de vista que enfrentamos e enfrentaremos inimigos poderosos, inclusive ramificados nas institui&ccedil;&otilde;es hegem&ocirc;nicas. Da&iacute; a necessidade de avan&ccedil;armos tamb&eacute;m no plano das mobiliza&ccedil;&otilde;es e campanhas permanentes, tanto para exigir e cobrar provid&ecirc;ncias aos poderes p&uacute;blicos quanto para esclarecer a opini&atilde;o p&uacute;blica sobre a necessidade urgente de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que protejam e promovam o interesse coletivo contra ambi&ccedil;&otilde;es monop&oacute;licas privadas.<\/p>\n<p><strong>Gramsci &eacute; o autor mais presente nas suas an&aacute;lises, nos quatro ensaios de seu livro. Qual &eacute; a import&acirc;ncia desse autor na compreens&atilde;o das batalhas travadas na atualidade? &nbsp;<br \/><\/strong><br \/>O pensamento cr&iacute;tico de Antonio Gramsci, brilhante fil&oacute;sofo marxista italiano, &eacute; uma f&eacute;rtil fonte inspiradora na luta por efetivas transforma&ccedil;&otilde;es sociais e na compreens&atilde;o das disputas pol&iacute;ticas, ideol&oacute;gicas e culturais que se manifestam no contexto concreto da luta de classes. Considero extremamente atual a argumenta&ccedil;&atilde;o de Gramsci sobre as possibilidades humanizadoras para a exist&ecirc;ncia. Segundo ele, perseguir o consenso em torno de concep&ccedil;&otilde;es emancipadoras pressup&otilde;e recusar e combater proposi&ccedil;&otilde;es que tentam, intencionalmente, afastar os homens da consci&ecirc;ncia contra o conformismo, a apatia e a aliena&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Se observamos atentamente o que se passa &agrave; nossa volta, perceberemos o quanto de proposital e insidioso existe nos discursos&nbsp; hegem&ocirc;nicos; quase sempre, eles atenuam os efeitos perversos do capitalismo, arrefecer o esp&iacute;rito cr&iacute;tico e neutralizar as vozes dissonantes e questionadoras. Tamb&eacute;m reputo como fundamental a contribui&ccedil;&atilde;o de Gramsci a um entendimento ampliado do conceito de hegemonia, t&atilde;o valioso para desvendarmos os jogos de consenso e dissenso que caracterizam a produ&ccedil;&atilde;o de sentido nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Gramsci nos faz ver que a hegemonia n&atilde;o se reduz &agrave; coer&ccedil;&atilde;o militar e &agrave; superioridade econ&ocirc;mica, pois decorre tamb&eacute;m de batalhas permanentes pela conquista da lideran&ccedil;a cultural e pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica de uma classe ou bloco de classes sobre as outras. <\/p>\n<p>A hegemonia n&atilde;o &eacute;, por conseguinte, uma constru&ccedil;&atilde;o monol&iacute;tica, e sim o resultado das medi&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as entre blocos e classes, traduzindo formas vari&aacute;veis de conserva&ccedil;&atilde;o ou revers&atilde;o do dom&iacute;nio material e imaterial que atravessam o campo midi&aacute;tico, sendo por ele influenciadas. Tem a ver, portanto, com entrechoques de valores e vis&otilde;es de mundo. A teoria da hegemonia de Gramsci permite-nos meditar sobre o lugar crucial dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o na contemporaneidade, a partir de sua condi&ccedil;&atilde;o privilegiada de produtores e distribuidores de conte&uacute;dos. Os ve&iacute;culos atuam na sociedade civil como aparelhos privados de hegemonia (organismos relativamente aut&ocirc;nomos em face do Estado em sentido estrito). <\/p>\n<p>S&atilde;o os agentes da hegemonia, os portadores materiais das ideologias que almejam sedimentar apoios na sociedade civil, seja para manter a domina&ccedil;&atilde;o, seja para contraditar seus pressupostos. Assim sendo, situar a m&iacute;dia como aparelho privado de hegemonia torna-se decisivo para avaliarmos, na exata medida, sua inser&ccedil;&atilde;o no plano pol&iacute;tico-cultural, como caixas de resson&acirc;ncia de posi&ccedil;&otilde;es presentes nos embates sociais. Ao mesmo tempo, as teorias gramscianas ajudam-nos bastante a vislumbrar horizontes alternativos, mobilizar coliga&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as afins e construir a&ccedil;&otilde;es contra-hegem&ocirc;nicas, com o prop&oacute;sito de intervirmos sistematicamente na difus&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es e id&eacute;ias que concorram para a forma&ccedil;&atilde;o progressiva de outros consensos em torno de concep&ccedil;&otilde;es democratizadoras da vida social e da pr&oacute;pria comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor fala sobre comunica\u00e7\u00e3o e hegemonia no continente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[528],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22928"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22928"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22928\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}