{"id":22922,"date":"2009-06-16T15:18:07","date_gmt":"2009-06-16T15:18:07","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22922"},"modified":"2009-06-16T15:18:07","modified_gmt":"2009-06-16T15:18:07","slug":"usp-tv-reproduz-versoes-e-se-exime-de-apurar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22922","title":{"rendered":"USP: TV reproduz vers\u00f5es e se exime de apurar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">A cobertura televisiva da mobiliza&ccedil;&atilde;o na USP &ndash; em especial, do ataque da  Pol&iacute;cia Militar a estudantes, funcion&aacute;rios e professores ocorrido na ter&ccedil;a-feira  (9) &ndash; &eacute; exemplo de uma pr&aacute;tica jornal&iacute;stica que se resume &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o de  &quot;aspas&quot;, em que os jornalistas abdicam de apurar e ser testemunhas mesmo havendo  estado l&aacute;.<\/p>\n<p>Essa tend&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; exclusiva da m&iacute;dia eletr&ocirc;nica. Verifica-se um fen&ocirc;meno  semelhante na imprensa. Por&eacute;m, na televis&atilde;o, em que as imagens cumprem um papel  central, a aus&ecirc;ncia de apura&ccedil;&atilde;o causa uma esp&eacute;cie de curto-circuito: os  apresentadores e rep&oacute;rteres n&atilde;o s&atilde;o capazes de dar conta das cenas transmitidas  em seus pr&oacute;prios programas. Satisfazem-se em veicular &quot;vers&otilde;es&quot; (muitas vezes de  um s&oacute; dos &quot;lados&quot;), mesmo quando essas s&atilde;o desmentidas pelo que se v&ecirc;.<\/p>\n<p><strong>Abdicando de informar<br \/><\/strong><br \/>Em depoimento ao SPTV 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o (9\/6), da Rede Globo (<a href=\"http:\/\/video.globo.com\/Videos\/Player\/Noticias\/0,,GIM1055030-7823-PROTESTO+NA+USP+TEM+CONFRONTO+ENTRE+PM+E+MANIFESTANTES,00.html\">ver  aqui<\/a> ), o comandante da opera&ccedil;&atilde;o da PM, Cl&aacute;udio Longo, afirma: &quot;Existe uma  ordem pra prender alguns lideres que est&atilde;o incitando essa greve&quot;.<\/p>\n<p>A frase chama a aten&ccedil;&atilde;o por dois motivos. Por um lado, indica que a a&ccedil;&atilde;o da  PM foi premeditada. Por outro, revela que n&atilde;o se visava garantir o propalado  direito de ir e vir ou o cumprimento de mandato de reintegra&ccedil;&atilde;o de posse, como  sustentam, em un&iacute;ssono, a reitora e o governador do estado. Tratou-se, sim, de  repress&atilde;o ao direito constitucional &agrave; greve. O rep&oacute;rter, contudo, n&atilde;o  compartilha do assombro; Longo n&atilde;o &eacute; interpelado a respeito do que dissera e a  declara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o recebe o devido destaque. Posteriormente, a Globo passa a aceitar  outras vers&otilde;es da PM, em clara contradi&ccedil;&atilde;o com essa. Apurar para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Nos programas veiculados nas diferentes emissoras da TV aberta, h&aacute; confus&atilde;o  generalizada sobre o grau de ades&atilde;o &agrave; greve, as datas em que cada categoria ou  unidade aderiu &agrave; mobiliza&ccedil;&atilde;o e, especialmente, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; pauta. A edi&ccedil;&atilde;o do  Jornal Nacional de segunda-feira (15\/6) se esfor&ccedil;a por apresentar de modo  &quot;did&aacute;tico&quot; as reivindica&ccedil;&otilde;es, que, segundo o telejornal, &quot;incluem at&eacute; o fim do  ensino &agrave; dist&acirc;ncia&quot;. Ora, ao que saibamos, a Universidade Virtual do Estado de  S&atilde;o Paulo (Univesp) sequer come&ccedil;ou a funcionar.<\/p>\n<p>O tratamento conferido pela m&iacute;dia a essa pauta espec&iacute;fica torna evidente a  abdica&ccedil;&atilde;o do papel de informar. Os ve&iacute;culos afirmam, em coro, que os estudantes  s&atilde;o contra &quot;a cria&ccedil;&atilde;o de cursos &agrave; dist&acirc;ncia pela universidade&quot;.<\/p>\n<p>Essa simplifica&ccedil;&atilde;o torna a informa&ccedil;&atilde;o incorreta. Os estudantes n&atilde;o s&atilde;o contra  o ensino &agrave; dist&acirc;ncia em todas as suas manifesta&ccedil;&otilde;es, mas sim contra um projeto  espec&iacute;fico, com caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas. O projeto que os estudantes colocam  em quest&atilde;o, por&eacute;m, foi escondido, pelas emissoras, do telespectador. O termo  Univesp sequer &eacute; citado.<\/p>\n<p>Tal expediente abre espa&ccedil;o para estigmatizar o movimento estudantil como  elitista e contr&aacute;rio a amplia&ccedil;&atilde;o de vagas da universidade, ao mesmo tempo em que  poupa os ve&iacute;culos de apresentarem ao p&uacute;blico as cr&iacute;ticas concretas formuladas  pelos estudantes ao projeto do governo do estado de S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, proliferam erros pontuais: no SPTV 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, o  comandante Cl&aacute;udio Longo vira Cl&aacute;udio Lobo; no Em cima da hora, tamb&eacute;m da  Rede Globo, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas se transforma em  Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas&#8230; Para evitar o enfado, nos furtamos  de elencar um a um.<\/p>\n<p><strong>YouTube x televis&atilde;o<br \/><\/strong><br \/>Nenhum canal de televis&atilde;o foi capaz de mostrar ao telespectador uma das cenas  mais importantes dos acontecimentos da ter&ccedil;a-feira (9\/6): o momento exato em que  teve in&iacute;cio a repress&atilde;o policial contra os estudantes. S&oacute; tiveram acesso a essas  imagens aqueles que assistiram, no YouTube ou em outros espa&ccedil;os semelhantes na  internet, aos v&iacute;deos produzidos pelos pr&oacute;prios estudantes.<\/p>\n<p>Os cinegrafistas das emissoras de TV que estavam no local n&atilde;o captaram esse  momento? Se esse tiver sido o caso, n&atilde;o era poss&iacute;vel reproduzir as imagens  independentes? Ao n&atilde;o faz&ecirc;-lo, as emissoras deixaram de transmitir uma  informa&ccedil;&atilde;o relevante a sua audi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>As imagens mostram com clareza que o in&iacute;cio do &quot;confronto&quot; foi, na verdade,  uma a&ccedil;&atilde;o unilateral da for&ccedil;a policial. No momento em que a pol&iacute;cia jogou a  primeira granada contra os manifestantes (como <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=umPd5Sz9tjQ&amp;feature=related\">registrado  aqui<\/a>), n&atilde;o havia policiais cercados ou sob amea&ccedil;a &ndash; e, muito menos, qualquer  agress&atilde;o dos estudantes contra eles.<\/p>\n<p>Na falta de imagens, os ve&iacute;culos da grande imprensa abdicaram da busca pelos  fatos, optando por apresentar como poss&iacute;veis as diferentes vers&otilde;es sobre o  in&iacute;cio &ndash; ainda que algumas delas, como a apresentada por Longo, pudessem ser  postas abaixo pelas imagens que a televis&atilde;o deixou de exibir.<\/p>\n<p>Para militantes e apoiadores do movimento grevista, a veicula&ccedil;&atilde;o de v&iacute;deos  pela internet converteu-se em valioso instrumento informativo e de disputa da  opini&atilde;o. Celulares, c&acirc;meras fotogr&aacute;ficas e de v&iacute;deo foram amplamente utilizados.  As imagens, que se proliferaram rapidamente, constituem um registro muito mais  abrangente e diversificado que o veiculado pela televis&atilde;o comercial (a n&atilde;o ser,  &eacute; claro, pelas imagens a&eacute;reas, uma exclusividade da grande m&iacute;dia).<\/p>\n<p>A televis&atilde;o parece perder o bonde em meio a tal efervesc&ecirc;ncia. Crescem os  acessos aos v&iacute;deos de imagens por vezes desfocadas, tr&ecirc;mulas, reveladoras. Que  formalmente trazem as marcas de sua fatura: imagens feitas entre golpes. Quando  a c&acirc;mera repentinamente aponta para o ch&atilde;o &eacute; o cinegrafista-estudante a apanhar  da pol&iacute;cia. &quot;&Ocirc;, louco, pra que isso irm&atilde;o?! Cobertura  [jonal&iacute;stica]!&quot;<\/p>\n<p><strong>&quot;A verdade &eacute; que, ao que parece&#8230;, n&eacute;?&quot;<br \/><\/strong><br \/>Cabe especial aten&ccedil;&atilde;o &agrave; cobertura dada aos acontecimentos pelo programa  Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes, conduzido por Jos&eacute; Luiz Datena  (dispon&iacute;vel no <a href=\"http:\/\/maisband.band.com.br\/\">site da Bandeirantes<\/a>).<\/p>\n<p>O apresentador reservou mais de 20 minutos de seu programa (9\/6) para cobrir,  ao vivo, a a&ccedil;&atilde;o policial na USP, e contou para tanto com um helic&oacute;ptero, que  sobrevoava o campus Butant&atilde;, e uma equipe de reportagem no solo. O aparato  permitia uma vis&atilde;o privilegiada da movimenta&ccedil;&atilde;o no campus, possibilitando um  acompanhamento din&acirc;mico e detalhado da situa&ccedil;&atilde;o. Ainda assim, Datena foi incapaz  de transmitir aos espectadores as informa&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas sobre o ocorrido.<\/p>\n<p>O que se revela &eacute; a completa dissocia&ccedil;&atilde;o entre a rua e o est&uacute;dio; o  coment&aacute;rio do apresentador e as imagens colhidas ao vivo n&atilde;o se concatenam. Enquanto as imagens a&eacute;reas mostram as fileiras da For&ccedil;a T&aacute;tica posicionadas  na Cidade Universit&aacute;ria, em um longo e repetitivo mon&oacute;logo Datena vaza suas  opini&otilde;es pessoais, alternando momentos exaltados (&quot;o pau vai comer&quot;, &quot;vai ter  porrada&quot; etc.), com aconselhamentos conciliat&oacute;rios, em tom paternalista, aos  estudantes.<\/p>\n<p>Ao lembrar a ocupa&ccedil;&atilde;o da reitoria da USP ocorrida em 2007, Datena comenta:  &quot;Da outra vez at&eacute; que o governador Serra demorou demais pra intervir&quot;. Para ele,  Serra &quot;teve at&eacute; paci&ecirc;ncia extrema&quot;, foi &quot;condescendente demais&quot;. Com a linguagem  que lhe &eacute; peculiar, Datena afirma que, violado o direito de ir e vir, os  &quot;princ&iacute;pios democr&aacute;ticos s&atilde;o arranhados&quot; e &quot;o couro come&quot;.<\/p>\n<p>A fala&ccedil;&atilde;o &eacute; interrompida apenas quando novas imagens surgem na tela, captadas  pela equipe no solo. Um homem ca&iacute;do. Por qu&ecirc;? Datena especula: teria ele  desmaiado, nervoso com o clima de tens&atilde;o? Em uma passagem s&iacute;mbolo da extrema  dissocia&ccedil;&atilde;o entre os fatos e o coment&aacute;rio, vemos uma mulher que, ao lado do  homem ca&iacute;do, gesticula e grita diante da c&acirc;mera. Uma imagem muda. Em lugar de  suas palavras, que poderiam trazer elementos sobre as circunst&acirc;ncias nas quais o  homem passou mal, ouvimos o falar de Datena, que segue aventando hip&oacute;teses.<span class=\"padrao\"><\/p>\n<p>Ora, o homem era uma v&iacute;tima vis&iacute;vel de spray de pimenta. Contudo, at&eacute; esse  momento, Datena n&atilde;o se dera conta de que a a&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia j&aacute;<\/span> acontecera.  A cobertura tivera in&iacute;cio quanto o &quot;confronto&quot; j&aacute; estava em sua fase final, isso  &eacute;, quando estudantes e funcion&aacute;rios estavam refugiados no pr&eacute;dio da Hist&oacute;ria e  Geografia, depois de terem sido perseguidos pela pol&iacute;cia por mais de 1  quil&ocirc;metro.<\/p>\n<p>&quot;Parece que a PM at&eacute; agora n&atilde;o agiu&quot;, diz Datena. Ele fala em &quot;desobstruir  ruas&quot;, quando o que se v&ecirc; &eacute; um grande vazio. Por mais surreal que possa parecer,  Datena &ndash; apresentador de um telejornal, ou seja, aquele na posi&ccedil;&atilde;o de informar &ndash;  simplesmente desconhece o que acabara de ocorrer.<\/p>\n<p>Quando, em seguida, surge a imagem de um estudante com a perna ferida por uma  bala de borracha, Datena se d&aacute; conta, no ar, de que a pol&iacute;cia j&aacute; agira. Aos 8  minutos de reportagem, conclui: &quot;A verdade &eacute; que, ao que parece, o local j&aacute; foi  desobstru&iacute;do, n&eacute;?&quot;. A altura da coluna de fuma&ccedil;a focalizada na sequ&ecirc;ncia apenas  reafirma o atraso da cobertura.<\/p>\n<p>Uma vez constatado que a opera&ccedil;&atilde;o j&aacute; ocorrera, v&atilde;o ao ar imagens frias, de  horas antes, que Datena identifica como &quot;o momento em que o pau quebrou&quot;. As  imagens, contudo, se referem ao in&iacute;cio do ato pac&iacute;fico diante do port&atilde;o da USP,  que ocorrera mais de uma hora antes do &quot;confronto&quot;. Em meio a esses trope&ccedil;os, amplo espa&ccedil;o para a vers&atilde;o da PM, uma ode ao  &quot;Estado de direito&quot; e o encampar irrestrito da tese de que a pol&iacute;cia s&oacute; agiu  porque foi provocada com pedras.<\/p>\n<p><em>Bruno Mandelli e Daniela Alarcon s&atilde;o jornalistas formados pela ECA-USP.<\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cobertura televisiva da mobiliza&ccedil;&atilde;o na USP &ndash; em especial, do ataque da Pol&iacute;cia Militar a estudantes, funcion&aacute;rios e professores ocorrido na ter&ccedil;a-feira (9) &ndash; &eacute; exemplo de uma pr&aacute;tica jornal&iacute;stica que se resume &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o de &quot;aspas&quot;, em que os jornalistas abdicam de apurar e ser testemunhas mesmo havendo estado l&aacute;. 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