{"id":22914,"date":"2009-06-12T17:40:15","date_gmt":"2009-06-12T17:40:15","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22914"},"modified":"2009-06-12T17:40:15","modified_gmt":"2009-06-12T17:40:15","slug":"direitos-humanos-a-pauta-sempre-neglicenciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22914","title":{"rendered":"Direitos humanos: a pauta sempre neglicenciada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">No &uacute;ltimo fim de semana passado estive em Vit&oacute;ria (ES) participando do II Semin&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o em Direitos Humanos promovido pela Prefeitura de Vit&oacute;ria. Evento bem organizado, participantes motivados. Coube-me o tema &quot;M&iacute;dia e Direitos Humanos&quot;, que foi apresentado na abertura do semin&aacute;rio &ndash; primeiro dia, primeiro tema, primeira apresenta&ccedil;&atilde;o, primeiro debate. E tamb&eacute;m primeira preocupa&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o participaram profissionais do ramo como jornalistas, radialistas e gente ligada &agrave; televis&atilde;o. Da&iacute; j&aacute; comecei a pensar como o tema direitos humanos &eacute; relegado ao ostracismo quando da feitura das pautas.<\/p>\n<p>Evento dessa amplitude em um mundo turvado por viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos a torto e a direito, &agrave; esquerda e &agrave; direita, um mundo que conviveu com os campos de exterm&iacute;nio em Auschwitz, Treblinka e Sobibor, sob o imp&eacute;rio dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, e tamb&eacute;m mais recentemente com os horrores da pris&atilde;o de Abu Ghraib, em Bagd&aacute;, n&atilde;o poderia passar batido ao menos na m&iacute;dia local. Mas passou. E continuar&aacute; passando. &Eacute; como se existisse um pacto solene dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o para ignorar a tem&aacute;tica enfeixada sob o t&iacute;tulo direitos humanos.<\/p>\n<p><strong>Espa&ccedil;o prec&aacute;rio<br \/><\/strong><br \/>Algumas ideias preconcebidas (poder&iacute;amos chamar preconceitos) tomaram consist&ecirc;ncia ao longo dos anos e continuam vigindo nos anos recentes em que o Brasil reconquistou o estado de Direito e a democracia. Uma dessas &eacute; especialmente perniciosa: direitos humanos &eacute; o mesmo que &quot;direitos dos bandidos&quot;. Ora, essa leitura torcida da realidade somente se explica pelos vinte anos em que o Brasil mergulhou nas trevas do arb&iacute;trio, na ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.<\/p>\n<p>Naqueles anos, quem ousasse clamar por liberdade, justi&ccedil;a e seus derivativos reunia os predicados para engrossar a popula&ccedil;&atilde;o carcer&aacute;ria. Os cidad&atilde;os e cidad&atilde;s presos eram sumariamente rotulados como bandidos. E n&atilde;o importava se o preso era o professor de filosofia da USP ou da Unicamp, bandido era. Milhares de universit&aacute;rios tinha o rel&oacute;gio de suas vidas parado. Parte ingressava nos pres&iacute;dios, boa parte passava para a clandestinidade. Mundos paralelos existem quando pa&iacute;ses s&atilde;o (des)governados por ditadores.<\/p>\n<p>Vasta documenta&ccedil;&atilde;o iniciando com o projeto &quot;Brasil &ndash; Tortura Nunca Mais&quot; d&atilde;o conta desse per&iacute;odo, &eacute;poca em que para os governantes de plant&atilde;o falar em direitos humanos era apenas falar em direitos dos bandidos. Alguns filmes retratram &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o os anos 1964-1984: O que &eacute; isso, companheiro?, Pra frente Brasil, Lamarca, Angel, Batismo de Sangue. Advogados talentosos sobressa&iacute;ram: Heleno Fragoso, Raymundo Faoro, Evaristo de Morais Filho, Helio Bicudo, Gilson Nogueira, Marcio Thomaz Bastos, Herilda Baldu&iacute;no representaram dezenas de presos pol&iacute;ticos, os bandidos daqueles anos de chumbo.<\/p>\n<p>O fato &eacute; que a pecha ficou. E continua em nossos dias. Direitos humanos, direitos dos bandidos. Mantendo a tradi&ccedil;&atilde;o de lutar pela liberdade de opini&atilde;o quando os principais luminares do pensamento dito de esquerda se encontravam encarcerados, &eacute; fato que ainda hoje muitos defensores dos direitos humanos fazem a ronda regular nos pres&iacute;dios para denunciar a pr&aacute;tica da tortura contra aqueles sob a prote&ccedil;&atilde;o do Estado. E assim, uma vez mais, a sociedade deixou de distinguir o trabalho em favor da promo&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos como sendo o trabalho em favor dos criminosos que superlotam nossas penitenci&aacute;rias.<\/p>\n<p>Fazer tal confus&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma raridade, se at&eacute; bem h&aacute; pouco acompanh&aacute;vamos neste Observat&oacute;rio da Imprensa a discuss&atilde;o jur&iacute;dica &ndash; e n&atilde;o apenas de sem&acirc;ntica &ndash; suscitada pela Folha de S.Paulo quando aludiu &agrave; ditadura brasileira como sendo uma &quot;ditabranda&quot;, se comparada com a ferocidade de outras ditaduras ao largo e ao longo da Am&eacute;rica do Sul. Um dos muitos crimes gerados pelo estado de exce&ccedil;&atilde;o foi o de confinar a vis&atilde;o dos direitos humanos ao pequenino espa&ccedil;o em que est&atilde;o as pessoas apenadas resultante dos processos legais contra estas instaurados.<\/p>\n<p><strong>Minuto a minuto<br \/><\/strong><br \/>A m&iacute;dia tamb&eacute;m ignora os direitos humanos em outras inst&acirc;ncias. Quando, por exemplo, organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil promovem discuss&atilde;o sobre pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para elevar a dignidade humana, contra o trabalho infantil, contra o trabalho escravo, contra a explora&ccedil;&atilde;o sexual de crian&ccedil;as e adolescentes, contra a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, contra a viol&ecirc;ncia policial e em especial se as v&iacute;timas s&atilde;o moradores de rua ou meninas e meninos de rua.<\/p>\n<p>Chama a aten&ccedil;&atilde;o observar o enfoque dado por parte da m&iacute;dia nacional em seu esfor&ccedil;o para criminalizar movimentos sociais com o dos trabalhadores rurais sem terra. A m&iacute;dia mostra todo o seu corporativismo ao ser seletiva na express&atilde;o de indigna&ccedil;&atilde;o contra a viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos de celebridades como a atriz Daniela Perez (dezembro\/1992), o jornalista Tim Lopes (junho\/2002), o apresentador de televis&atilde;o Luciano Huck (outubro\/2007), a atriz Suzana Vieira (dezembro\/2008), apenas para mencionar alguns. <\/p>\n<p>Esta seletividade obedece a crit&eacute;rios como raridade, ineditismo e infelizmente na maioria dos exemplos mencionados as pessoas tiveram o rel&oacute;gio de sua vida parado com requintes de crueldade. A honrosa exce&ccedil;&atilde;o est&aacute; para Luciano Huck, que foi capa da revista &Eacute;poca e ocupou espa&ccedil;o privilegiado na Folha de S.Paulo para desaguar seu desabafo com o roubo de seu rel&oacute;gio Rolex.<\/p>\n<p>N&atilde;o precisar&iacute;amos pesquisar muito para ver que nas datas citadas ocorreram lamentavelmente in&uacute;meras trag&eacute;dias, chacinas com grande n&uacute;mero de v&iacute;timas e, tamb&eacute;m infelizmente, com &quot;a marca da maldade&quot;. Agora mesmo estou empenhado em um projeto que visa analisar o espa&ccedil;o que a m&iacute;dia brasileira concede ao tema direitos humanos e, pelo que j&aacute; vi, trata-se de espa&ccedil;o diminuto se comparado com as pautas sobre estilo de vida, show-business, novas tecnologias e&hellip; futilidades.<\/p>\n<p>A alternativa a este card&aacute;pio vem a ser a cobertura minuto a minuto das grandes trag&eacute;dias humanas: tsunamis, terremotos, quedas de avi&atilde;o. Nesses casos, o vil&atilde;o &eacute; invariavelmente alguma for&ccedil;a da natureza. Quando o vil&atilde;o &eacute; o pr&oacute;prio homem, o tema passa batido nas reda&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><em>Washington Ara&uacute;jo &eacute; mestre em comunica&ccedil;&atilde;o pela UnB e escritor; criou o blog <a href=\"http:\/\/www.cidadaodomundo.org\/\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\">Cidad&atilde;o do Mundo.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No &uacute;ltimo fim de semana passado estive em Vit&oacute;ria (ES) participando do II Semin&aacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o em Direitos Humanos promovido pela Prefeitura de Vit&oacute;ria. Evento bem organizado, participantes motivados. Coube-me o tema &quot;M&iacute;dia e Direitos Humanos&quot;, que foi apresentado na abertura do semin&aacute;rio &ndash; primeiro dia, primeiro tema, primeira apresenta&ccedil;&atilde;o, primeiro debate. 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