{"id":22908,"date":"2009-06-10T14:08:22","date_gmt":"2009-06-10T14:08:22","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22908"},"modified":"2009-06-10T14:08:22","modified_gmt":"2009-06-10T14:08:22","slug":"jornalismo-de-insinuacao-quem-voce-pensa-que-esta-enganando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22908","title":{"rendered":"Jornalismo de insinua\u00e7\u00e3o: &#8220;quem voc\u00ea pensa que est\u00e1 enganando?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">Os &uacute;ltimos dados sobre a circula&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia de jornais divulgados pelo Instituto Verificador de Circula&ccedil;&atilde;o (IVC) para o m&ecirc;s de abril, e o tipo de jornalismo que continua sendo praticado pelos principais jornal&otilde;es brasileiros, trouxeram &agrave; mem&oacute;ria uma m&uacute;sica de Paul Simon, muito popular nos anos 1970. Lan&ccedil;ada em 1973, mesmo ano das audi&ecirc;ncias do caso Watergate no Congresso dos EUA, o refr&atilde;o de Loves me like a rock (&quot;gosta de mim tanto quanto um rock&quot;) repetia: &quot;who do you think you&acute;re fooling?&quot; (quem voc&ecirc; pensa que est&aacute; enganando?) <\/p>\n<p><strong>A circula&ccedil;&atilde;o dos jornal&otilde;es<br \/><\/strong><br \/>Dados do IVC revelam que a Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo perderam, respectivamente, 10,84%, 7,75% e 16,93% de circula&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia di&aacute;ria em abril de 2009, se comparada aos n&uacute;meros de abril de 2008. Nenhum deles atinge a circula&ccedil;&atilde;o de 300 mil exemplares di&aacute;rios. Os n&uacute;meros arredondados s&atilde;o, respectivamente, 289 mil, 259 mil e 214 mil exemplares [<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=540ASP006\">veja aqui<\/a>  mat&eacute;ria &quot;Circula&ccedil;&atilde;o de jornais cai 6,7% em abril&quot;].<\/p>\n<p>Se supusermos que cada exemplar &eacute; lido, em m&eacute;dia, por quatro (?) pessoas, o maior jornal&atilde;o brasileiro teria hoje cerca de 1 milh&atilde;o, 156 mil leitores\/dia. Isto significa atingir potencialmente cerca de 0,604% do total estimado da popula&ccedil;&atilde;o brasileira, que &eacute; de 191.231.246&nbsp;habitantes (cf. <a href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/home\/disseminacao\/online\/popclock\/popclock.php\">IBGE<\/a> , em 4\/6\/2009).<\/p>\n<p>Considerando esses n&uacute;meros em perspectiva hist&oacute;rica, verifica-se que, apesar do crescimento da popula&ccedil;&atilde;o alfabetizada, h&aacute; uma tend&ecirc;ncia clara de queda nos &uacute;ltimos anos. No ano 2000, a Folha tinha uma circula&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia de 429.476 exemplares\/dia, O Globo de 334.098 e O Estado de S.Paulo, 391.023. Por outro lado, a pesquisa sobre &quot;O Futuro da M&iacute;dia&quot;, recentemente divulgada, revela que, entre n&oacute;s, ler jornais (impressos ou online) &eacute; apenas a 10&ordf; fonte de entretenimento preferida (ver &quot;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=538JDB010\">A mudan&ccedil;a sem retorno<\/a> &quot;).<\/p>\n<p>Na verdade, os dados do IVC apenas confirmam o que j&aacute; se sabia: os jornal&otilde;es, cada vez mais, circulam apenas entre parcela muito reduzida da elite letrada brasileira. Apesar disso, os n&uacute;meros n&atilde;o parecem assustar o representante da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais (ANJ), que considera &quot;a situa&ccedil;&atilde;o passageira (&#8230;), reflexo da situa&ccedil;&atilde;o da economia (sic)&quot;. E, paradoxalmente, tamb&eacute;m n&atilde;o parecem incomodar aos pr&oacute;prios jornal&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Jornalismo de insinua&ccedil;&atilde;o (e de exclus&atilde;o)<br \/><\/strong><br \/>O tipo de cobertura jornal&iacute;stica praticado pelos jornal&otilde;es aparentemente n&atilde;o se interessa em conquistar novos leitores. Em princ&iacute;pio, uma cobertura equilibrada, que represente todos os lados envolvidos nas quest&otilde;es, seria aquela capaz de conquistar credibilidade e atrair o maior n&uacute;mero de leitores &ndash; vale dizer, contemplar leitores de diferentes opini&otilde;es.<\/p>\n<p>Se, no entanto, a cobertura jornal&iacute;stica obedece sempre a um mesmo &quot;enquadramento&quot; para diferentes not&iacute;cias &ndash; &quot;enquadramento&quot; percept&iacute;vel at&eacute; mesmo para um leitor menos atento &ndash;, o que ela faz &eacute; refor&ccedil;ar, diariamente, a opini&atilde;o dos atuais (poucos) leitores. Ao mesmo tempo, excluem-se eventuais novos leitores que n&atilde;o se alinhem com o &quot;enquadramento&quot; da cobertura.<\/p>\n<p>Outra possibilidade, creio, mais remota, seria o jornal crescer dentro do universo de leitores potenciais que tamb&eacute;m se sentiriam refor&ccedil;ados com o &quot;enquadramento&quot; j&aacute; praticado.<\/p>\n<p><strong>Poucos quil&ocirc;metros<br \/><\/strong><br \/>Tomemos um pequeno, mas emblem&aacute;tico, exemplo: a cobertura oferecida pelo jornal O Globo na ter&ccedil;a feira (2\/6), sobre o comportamento comparado dos presidentes da Fran&ccedil;a e do Brasil em rela&ccedil;&atilde;o aos parentes das v&iacute;timas, t&atilde;o logo se soube do desaparecimento do Airbus da Air France (o tema foi tratado neste Observat&oacute;rio em &quot;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=540IMQ007\" onclick=\"NovaJanela(this.href);return false;\">Air France, voo 447 &ndash; As trag&eacute;dias da m&iacute;dia<\/a>).<\/p>\n<p>A &quot;m&aacute; vontade&quot; da cobertura pol&iacute;tica dos jornal&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o ao presidente da Rep&uacute;blica, seu partido e seus aliados, embora n&atilde;o consensual, &eacute; certamente conhecida e reconhecida. N&atilde;o me refiro, por &oacute;bvio, &agrave; fiscaliza&ccedil;&atilde;o das atividades do Executivo, nem &agrave;s den&uacute;ncias fundadas de corrup&ccedil;&atilde;o, nem aos editoriais, nem &agrave; opini&atilde;o de colunistas e\/ou articulistas. Refiro-me t&atilde;o somente &agrave; rotina di&aacute;ria da cobertura pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Uma nota de capa de O Globo tinha como t&iacute;tulo &quot;Sarkozy vai e Lula manda vice&quot;. Uma mat&eacute;ria interna (p&aacute;g. 9) tinha como t&iacute;tulo &quot;Sarkozy consola parentes; Lula estava longe&quot;.<\/p>\n<p>Seria dif&iacute;cil negar que esses t&iacute;tulos &ndash; estatisticamente mais lidos do que o conte&uacute;do das mat&eacute;rias &ndash; insinuam que o presidente brasileiro, ao contr&aacute;rio de seu colega franc&ecirc;s, foi omisso e n&atilde;o deu a import&acirc;ncia que deveria ao acidente, mandando o vice represent&aacute;-lo e permanecendo longe dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Os leitores que se derem ao trabalho de ler, tanto a nota quanto a mat&eacute;ria interna, no entanto, ficar&atilde;o sabendo: que o presidente do Brasil soube do desaparecimento do Airbus depois de chegar a El Salvador, que visitava, em viagem oficial, para as solenidades de posse de seu novo presidente (ali&aacute;s, casado com uma brasileira); que ele cancelou sua participa&ccedil;&atilde;o no almo&ccedil;o comemorativo &quot;por estar abalado com a trag&eacute;dia&quot;; e que ele pediu ao presidente em exerc&iacute;cio para deslocar-se de Bras&iacute;lia ao Rio de Janeiro, para se encontrar com os familiares.<\/p>\n<p>Nem a nota, nem a mat&eacute;ria de O Globo, todavia, informam ao leitor que o Pal&aacute;cio do Eliseu, onde estava o presidente da Fran&ccedil;a (ali&aacute;s, pa&iacute;s de origem da Air France e membro-sede do cons&oacute;rcio franco-germ&acirc;nico-espanhol &ndash; European Aeronautic Defence and Space Company (EADS) &ndash; fabricante do Airbus A330-200), fica a poucos quil&ocirc;metros do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde Sarkozy se reuniu com os familiares das v&iacute;timas.<\/p>\n<p><strong>&quot;Who do you think you&acute;re fooling?&quot;<\/strong><\/p>\n<p>O jornalismo de insinua&ccedil;&atilde;o, ao &quot;dar a entender de modo sutil ou indireto&quot; uma interpreta&ccedil;&atilde;o tendenciosa, fere o princ&iacute;pio b&aacute;sico do jornalismo que &eacute; seu compromisso com a verdade. Sua pr&aacute;tica desrespeita o leitor e, por &oacute;bvio, &eacute; conden&aacute;vel em qualquer circunst&acirc;ncia. Utilizar o jornalismo de insinua&ccedil;&atilde;o at&eacute; mesmo na cobertura de uma trag&eacute;dia das propor&ccedil;&otilde;es do acidente do voo 447 da Air France, com o objetivo de atingir politicamente um presidente da Rep&uacute;blica cujos &iacute;ndices de aprova&ccedil;&atilde;o, em todas as camadas sociais, estabelecem recordes hist&oacute;ricos, n&atilde;o parece revelar a inten&ccedil;&atilde;o de ampliar o n&uacute;mero de leitores ou aumentar a circula&ccedil;&atilde;o do jornal. <\/p>\n<p>Na hip&oacute;tese inversa, estar&iacute;amos supondo que os jornal&otilde;es ainda acreditam que seus leitores (antigos e\/ou novos) s&atilde;o incapazes de fazer a distin&ccedil;&atilde;o entre a insinua&ccedil;&atilde;o dos t&iacute;tulos, a omiss&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es na mat&eacute;ria e a verdade dos fatos.<\/p>\n<p>Se for esse o caso, valeria repetir para os jornal&otilde;es, o refr&atilde;o da musica de Paul Simon: &quot;Who do you think you&acute;re fooling?&quot;. E a resposta s&oacute; poderia ser uma: os jornal&otilde;es est&atilde;o enganando (fooling) a si mesmos. O resultado desse tipo de jornalismo, junto a outras causas, est&aacute; revelado, ainda mais uma vez, nos &uacute;ltimos n&uacute;meros divulgados pelo IVC.<\/p>\n<p><em>Ven&iacute;cio A. de Lima&nbsp; &eacute; pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia e autor\/organizador, entre outros, de A m&iacute;dia nas elei&ccedil;&otilde;es de 2006 (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2007)\t\t\t\t<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os &uacute;ltimos dados sobre a circula&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia de jornais divulgados pelo Instituto Verificador de Circula&ccedil;&atilde;o (IVC) para o m&ecirc;s de abril, e o tipo de jornalismo que continua sendo praticado pelos principais jornal&otilde;es brasileiros, trouxeram &agrave; mem&oacute;ria uma m&uacute;sica de Paul Simon, muito popular nos anos 1970. 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