{"id":22831,"date":"2009-05-26T15:40:53","date_gmt":"2009-05-26T15:40:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22831"},"modified":"2009-05-26T15:40:53","modified_gmt":"2009-05-26T15:40:53","slug":"existe-jornalismo-independente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22831","title":{"rendered":"Existe jornalismo independente?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">A Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) promove na quarta-feira (27), um semin&aacute;rio sobre &quot;Jornalismo Independente&quot; no contexto do debate em torno da liberdade de imprensa, do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e da democracia no Brasil. A velha quest&atilde;o est&aacute; mais atual do que nunca: a Lei de Imprensa do per&iacute;odo autorit&aacute;rio foi revogada, estamos em ano pr&eacute;-eleitoral e a m&iacute;dia tradicional passa por profundas transforma&ccedil;&otilde;es provocadas pela revolu&ccedil;&atilde;o digital. O tema merece, portanto, reflex&atilde;o renovada. Esbo&ccedil;amos algumas linhas mestras para ela, nos limites deste pequeno artigo.<\/p>\n<p>Primeiro, para que a reflex&atilde;o n&atilde;o caia no idealismo abstrato recorrente, &eacute; necess&aacute;rio registrar que o jornalismo &eacute; uma atividade exercida por profissionais, em empresas de m&iacute;dia, sejam elas de jornalismo impresso &ndash; jornais ou revistas &ndash; ou de jornalismo eletr&ocirc;nico &ndash; o servi&ccedil;o p&uacute;blico de r&aacute;dio e televis&atilde;o &ndash; podendo estas pertencer aos sistemas privado, p&uacute;blico ou estatal (n&atilde;o vamos discutir aqui o &quot;jornalismo&quot; das assessorias de imprensa e nem o jornalismo da internet). Outro ponto de partida &eacute; que, na express&atilde;o &quot;jornalismo independente&quot;, o adjetivo &quot;independente&quot; significa &quot;livre de qualquer sujei&ccedil;&atilde;o, aut&ocirc;nomo&quot;.<\/p>\n<p>Considerando que existe entre n&oacute;s uma hegemonia hist&oacute;rica do sistema privado de m&iacute;dia, tanto impresso como eletr&ocirc;nico, poder&iacute;amos, ent&atilde;o, formular a seguinte quest&atilde;o: o jornalismo praticado nas empresas privadas brasileiras de m&iacute;dia &eacute; independente, aut&ocirc;nomo? A pergunta remete imediatamente a outra: independente, aut&ocirc;nomo, em rela&ccedil;&atilde;o a que, ou, mais precisamente, a qual poder? <\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>O Estado como amea&ccedil;a &uacute;nica<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">Talvez por um v&iacute;cio de origem do embate sobre a liberdade de impress&atilde;o &ndash; que n&atilde;o &eacute; id&ecirc;ntica &agrave; liberdade individual de express&atilde;o e nem &agrave; liberdade de imprensa &ndash; ainda nos tempos do absolutismo pol&iacute;tico e religioso europeu, geralmente se equaciona independ&ecirc;ncia e autonomia do jornalismo em rela&ccedil;&atilde;o ao poder do Estado. <\/p>\n<p class=\"padrao\">No caso brasileiro, &eacute; verdade que o nosso jornalismo, desde os poucos anos em que existiu durante o Brasil Col&ocirc;nia, ao longo do Imp&eacute;rio e desde a proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica, sempre manteve uma rela&ccedil;&atilde;o de interdepend&ecirc;ncia com o Estado. Esta interdepend&ecirc;ncia se materializa atrav&eacute;s de subs&iacute;dios, empr&eacute;stimos banc&aacute;rios e financiamentos oficiais; de isen&ccedil;&otilde;es fiscais, publicidade legal obrigat&oacute;ria ou publicidade oficial e, mais recentemente, at&eacute; mesmo pela compra volumosa &ndash; e sem licita&ccedil;&atilde;o &ndash; de material did&aacute;tico.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Por &oacute;bvio, essa interdepend&ecirc;ncia hist&oacute;rica, muitas vezes fez com o jornalismo se submetesse aos interesses do Estado, sobretudo nas rela&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia regional e local com os governos estaduais e municipais.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Por outro lado, &eacute; verdade tamb&eacute;m que, em diferentes momentos, floresceu um jornalismo de combate ao Estado autorit&aacute;rio e defesa das liberdades democr&aacute;ticas como, por exemplo, aquele da chamada &quot;imprensa alternativa&quot; dos anos 1970 e 80; ou da campanha pelas &quot;Diretas J&aacute;&quot; em 1984-85 ou da campanha pelo impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Outras poderes<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">Mas constituiria o Estado, de fato, a &uacute;nica amea&ccedil;a &agrave; independ&ecirc;ncia e autonomia do jornalismo? No debate p&uacute;blico que a m&iacute;dia prop&otilde;e de quest&otilde;es como liberdade de imprensa ou qualquer forma de regula&ccedil;&atilde;o do setor de comunica&ccedil;&otilde;es, afirma-se que sim. O Estado &eacute; sempre identificado como &uacute;nico poder que amea&ccedil;a &ndash; por sua pr&oacute;pria natureza &ndash; as liberdades individuais e, por extens&atilde;o, a liberdade do exerc&iacute;cio do jornalismo. <\/p>\n<p class=\"padrao\">No mundo contempor&acirc;neo, todavia, h&aacute; fartas evid&ecirc;ncias de que as amea&ccedil;as &agrave; independ&ecirc;ncia e autonomia do jornalismo podem vir tanto do Estado como do poder econ&ocirc;mico, como dos pr&oacute;prios conglomerados empresariais dos quais alguns grupos de m&iacute;dia fazem parte. Essas amea&ccedil;as podem vir, inclusive, da autocensura praticada pelos pr&oacute;prios jornalistas profissionais que internalizam regras empresariais de atua&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o necessariamente escritas &ndash; formuladas no interesse dos propriet&aacute;rios dos grupos de m&iacute;dia.<\/p>\n<p class=\"padrao\">No caso brasileiro, h&aacute; se acrescentar ainda a amea&ccedil;a a independ&ecirc;ncia e &agrave; autonomia do jornalismo que decorre da imbrica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica existente entre as oligarquias pol&iacute;ticas regionais e locais com as concess&otilde;es de radiodifus&atilde;o, agravada por dispositivos da Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988 que fazem de alguns parlamentares, ao mesmo tempo, poder concedente e concession&aacute;rios desses servi&ccedil;os p&uacute;blicos.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Subcultura e rotinas produtivas<\/strong><\/p>\n<p class=\"padrao\">H&aacute; ainda que se registrar que os estudos sobre linguagem, a sociologia do jornalismo e sobre a constru&ccedil;&atilde;o da not&iacute;cia (newsmaking), o enquadramento (framing) e o agendamento (agenda setting), apesar de diferen&ccedil;as significativas, revelam que a pr&aacute;tica do jornalismo profissional ocorre no contexto de uma subcultura pr&oacute;pria; de rotinas produtivas que se transformam em normas; e de interfer&ecirc;ncias editoriais &ndash; expl&iacute;citas ou n&atilde;o &ndash; que tornam sem sentido qualquer pretens&atilde;o &agrave; exist&ecirc;ncia do mito da objetividade jornal&iacute;stica ou de uma pr&aacute;tica jornal&iacute;stica neutra e isenta.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Como se v&ecirc;, a quest&atilde;o do jornalismo independente &eacute; complexa e comporta um amplo leque de considera&ccedil;&otilde;es que, embora apenas indicadas neste texto, apontam para a impossibilidade da exist&ecirc;ncia de uma pr&aacute;tica jornal&iacute;stica inteiramente livre de constrangimentos &ndash; vale dizer, um jornalismo que pairasse acima das disputas de poder que existem no seio da sociedade. Pode-se, no entanto, afirmar com seguran&ccedil;a que as limita&ccedil;&otilde;es &agrave; independ&ecirc;ncia e autonomia do jornalismo n&atilde;o se originam apenas no Estado, mas est&atilde;o presentes, inclusive, no interior dos grupos de m&iacute;dia e no pr&oacute;prio exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o de jornalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) promove na quarta-feira (27), um semin&aacute;rio sobre &quot;Jornalismo Independente&quot; no contexto do debate em torno da liberdade de imprensa, do direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e da democracia no Brasil. 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