{"id":22822,"date":"2009-05-22T17:27:25","date_gmt":"2009-05-22T17:27:25","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22822"},"modified":"2009-05-22T17:27:25","modified_gmt":"2009-05-22T17:27:25","slug":"informatica-nas-escolas-modernizacao-com-despolitizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22822","title":{"rendered":"Inform\u00e1tica nas escolas: moderniza\u00e7\u00e3o com despolitiza\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">N&atilde;o foi por acaso que, fazendo uma pesquisa na rede, ao buscar dados sobre o documento &quot;Uma nova agenda para a educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica&quot;, anunciado pela Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo em agosto de 2007, cheguei &agrave; mat&eacute;ria publicada no &uacute;ltimo s&aacute;bado (16\/5), na revista Isto&Eacute;, &quot;<a href=\"http:\/\/www.terra.com.br\/istoe\/edicoes\/2062\/artigo135063-1.htm\">Computadores sob suspeita<\/a>&quot;.<\/p>\n<p>A reportagem denuncia que o megaprojeto &quot;Computador na Escola&quot; corre o risco de &quot;travar&quot; em fun&ccedil;&atilde;o de irregularidades em licita&ccedil;&otilde;es investigadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e pela Pol&iacute;cia Federal (PF) na Opera&ccedil;&atilde;o Mainframe. Segundo a revista semanal, a CTIS, empresa vitoriosa na disputa para o fornecimento dos computadores, &eacute; acusada pela Pol&iacute;cia Federal de liderar o maior cartel de inform&aacute;tica do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o publicou em seu site uma resposta &agrave; Isto&Eacute; (<a href=\"http:\/\/www.educacao.sp.gov.br\/noticias_2009\/2009_16_05.asp\">ver aqui<\/a> ), em que evoca seu direito enquanto citada de se pronunciar na mat&eacute;ria. Afirma que o contrato &eacute; regular e legal e que&#8230; <\/p>\n<p class=\"padrao\">&quot;&#8230;a contrata&ccedil;&atilde;o do cons&oacute;rcio Educat, que fornecer&aacute; por aluguel computadores e softwares pelo per&iacute;odo do contrato, n&atilde;o &eacute; objeto de investiga&ccedil;&atilde;o. O Tribunal de Contas do Estado analisa o referido contrato em procedimento de rotina, por for&ccedil;a de seu valor. Al&eacute;m disso, &eacute; equivocado afirmar que o contrato tem valor de 1,5 bilh&atilde;o de reais e apenas 400 milh&otilde;es de reais ser&atilde;o utilizados no programa Computador na Escola. Esse &uacute;ltimo valor &eacute; o teto do contrato, v&aacute;lido por 48 meses, e foi amplamente divulgado na m&iacute;dia quando de sua assinatura, em mar&ccedil;o &uacute;ltimo. O valor de 1,5 bilh&atilde;o de reais &eacute;, portanto, mais um dos erros da reportagem&quot;.<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>Pr&aacute;ticas educativas<\/strong><\/p>\n<p>O que menos interessa aqui &eacute; entrar em pormenores do bate-boca da secretaria com a revista. O fato &eacute; que a mat&eacute;ria evoca mais um dos casos de entrada das m&iacute;dias &ndash; e de seus discursos, valores, rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas &ndash; na escola de forma oculta.<\/p>\n<p>De acordo com a Isto&Eacute;, o programa &quot;Computador na Escola&quot; &eacute; uma das metas mais ambiciosas do governo paulista e consiste em equipar com computadores os quase quatro mil col&eacute;gios estaduais de S&atilde;o Paulo, que atendem cerca de cinco milh&otilde;es de alunos. Isso tudo, segundo a revista, pode custar cerca de R$ 1,5 bilh&atilde;o. A reportagem afirma que s&oacute; os contratos para a loca&ccedil;&atilde;o de 100 mil microcomputadores t&ecirc;m um custo estimado em R$ 400 milh&otilde;es.<\/p>\n<p>As tramas da rede s&atilde;o &ndash; &agrave;s vezes &ndash; inexplic&aacute;veis. Alguns atribuem a isso seu car&aacute;ter fascinante. A gente entra, cai nos seus links e viaja por rela&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o conseguir&iacute;amos fazer por conta pr&oacute;pria. Seria o mesmo princ&iacute;pio da imagina&ccedil;&atilde;o humana. Por vezes, nos deixamos passear e chegamos a caminhos que desvirtuam nosso pensamento.<\/p>\n<p>Mas no caso desta minha pesquisa, fui mais pragm&aacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o aos sentidos das conex&otilde;es da internet. N&atilde;o foi o acaso que me levou &agrave; mat&eacute;ria. O projeto de moderniza&ccedil;&atilde;o das escolas paulistas &eacute; parte integrante de um projeto mais amplo que vem sendo constru&iacute;do desde 1995 pelas gest&otilde;es do PSDB &agrave; frente do estado.<\/p>\n<p>Basta entrar na p&aacute;gina do governo estadual, na se&ccedil;&atilde;o &quot;Trabalhando por voc&ecirc;&quot;, que traz as metas da gest&atilde;o at&eacute; 2010. No tema &quot;Educa&ccedil;&atilde;o&quot;, de seis chamadas que havia no site no domingo (17\/5), quatro versavam sobre propostas de moderniza&ccedil;&atilde;o das escolas, do ensino e das pr&aacute;ticas educativas. Uma delas dizia &quot;Acessa Escola promove inclus&atilde;o digital na capital&quot;. Outra, &quot;Moderniza&ccedil;&atilde;o de escolas pode motivar alunos&quot;. <\/p>\n<p>E ainda: &quot;Computador do Professor: Objetivo &eacute; ajudar classe a adquirir notebook de qualidade com pre&ccedil;o baixo&quot;. Por fim, &quot;Secretaria lan&ccedil;a o Sempre. Pronto-atendimento via 0800 agilizar&aacute; in&iacute;cio de obras nas escolas&quot;. &Eacute; ou n&atilde;o &eacute; a tecnologia a servi&ccedil;o da qualidade na educa&ccedil;&atilde;o? Um discurso extremamente plaus&iacute;vel.<\/p>\n<p><strong>Bem na foto<br \/><\/strong><br \/>Mas qual o pre&ccedil;o desta moderniza&ccedil;&atilde;o? O que est&aacute; por tr&aacute;s dela? Por enquanto, a l&oacute;gica do &quot;choque de gest&atilde;o&quot; vem custando caro &agrave; rede, &agrave;s escolas, aos profissionais da educa&ccedil;&atilde;o e aos alunos. O dinheiro investido nessa moderniza&ccedil;&atilde;o est&aacute; de fato sendo bem empregado? Ou toda essa moderniza&ccedil;&atilde;o est&aacute; encontrando entraves &agrave; sua implanta&ccedil;&atilde;o, porque o discurso &eacute; muito bonito mas a realidade, no ch&atilde;o da escola, &eacute; outra?<\/p>\n<p>A moderniza&ccedil;&atilde;o exige uma agilidade, uma prontid&atilde;o. E o custo disso &eacute; fazer pol&iacute;tica sem fazer pol&iacute;tica. Ou seja: pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de moderniza&ccedil;&atilde;o sem debate pol&iacute;tico, sem participa&ccedil;&atilde;o da comunidade escolar nas decis&otilde;es, sem discuss&atilde;o para saber quais s&atilde;o as prioridades das redes. Mas &eacute; uma moderniza&ccedil;&atilde;o que sai bem na foto, que d&aacute; visibilidade. E que j&aacute; est&aacute; legitimada no senso comum como uma &quot;boa a&ccedil;&atilde;o&quot;, prova de que tal ou qual governo investe de fato na educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Condi&ccedil;&otilde;es adequadas<br \/><\/strong><br \/>&Eacute; preciso desnaturalizar esse discurso. O pre&ccedil;o dele &eacute; muito alto. Um dos pre&ccedil;os s&atilde;o as irregularidades averiguadas tanto em rela&ccedil;&atilde;o aos computadores quanto em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s assinaturas dos jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, ou &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o da revista Nova Escola. A pressa do mundo moderno permite que sejam atropeladas leis e procedimentos?<\/p>\n<p>Aquelas metas estabelecidas em 2007 pelo governo estadual para a educa&ccedil;&atilde;o paulista s&atilde;o o pano de fundo de toda essa a&ccedil;&atilde;o modernizante. Na base do discurso modernizador, est&aacute; uma concep&ccedil;&atilde;o de qualidade que, por um lado, justifica a precariza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de trabalho do professorado e, por outro, refor&ccedil;a a responsabiliza&ccedil;&atilde;o dos profissionais da educa&ccedil;&atilde;o pelos problemas da educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica. Afinal de contas, segundo este discurso, os professores estariam despreparados para lidar com o mundo das tecnologias e recursos midi&aacute;ticos (ver mat&eacute;ria da Folha de S.Paulo &quot;<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/educacao\/ult305u554357.shtml\">Professor sem preparo trava uso de computador em escola<\/a> &quot;).<\/p>\n<p>Este mesmo discurso &eacute; o que exime a secretaria da necessidade de garantir condi&ccedil;&otilde;es adequadas para o desenvolvimento do trabalho escolar. &Eacute; o que a promove enquanto grande art&iacute;fice da moderniza&ccedil;&atilde;o e da qualidade da educa&ccedil;&atilde;o, que acompanha os desafios do nosso tempo, enquanto o professorado precisa correr atr&aacute;s e se qualificar.<\/p>\n<p><strong>Projeto oculto<br \/><\/strong><br \/>&Eacute; importante pontuar que a escola n&atilde;o deve ser antimoderna. N&atilde;o defendo que o ambiente escolar se isente do mundo marcado centralmente pelas m&iacute;dias e pela tecnologia. &Eacute; justamente por que vivemos nesta &quot;era digital&quot; que faz tanto sentido o discurso da moderniza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso pensar nas formas democr&aacute;ticas de garantir esta moderniza&ccedil;&atilde;o, com a participa&ccedil;&atilde;o dos profissionais da educa&ccedil;&atilde;o no debate; com a forma&ccedil;&atilde;o destes profissionais para lidar com os novos recursos e com o uso destes recursos de acordo com os n&iacute;veis e modalidades da educa&ccedil;&atilde;o em que eles podem estar presentes sem comprometer a forma&ccedil;&atilde;o presencial; com regulamenta&ccedil;&atilde;o e legisla&ccedil;&otilde;es que garantam a transpar&ecirc;ncia e a idoneidade nos processos de confec&ccedil;&atilde;o e contrata&ccedil;&atilde;o de materiais e recursos, entre uma infinidade de possibilidades.<\/p>\n<p>S&oacute; n&atilde;o podemos naturalizar a entrada das m&iacute;dias na escola como se as escolas sem m&iacute;dias fossem atrasadas. As m&iacute;dias e as tecnologias na sala de aula n&atilde;o s&atilde;o uma quest&atilde;o meramente t&eacute;cnica. E ainda se fossem, sabemos que as tecnologias n&atilde;o s&atilde;o neutras (e muito menos s&atilde;o as m&iacute;dias).<\/p>\n<p>A entrada das m&iacute;dias e tecnologias nas escolas &eacute; uma quest&atilde;o pol&iacute;tica, ent&atilde;o devemos politiz&aacute;-la. Ela n&atilde;o est&aacute; solta no vento e se localiza em um tempo hist&oacute;rico marcado pelas pol&iacute;ticas e reformas neoliberais. Sem fazer esta conex&atilde;o, vamos seguir permitindo que, disfar&ccedil;adas de t&eacute;cnica no contexto da modernidade, elas cheguem e levem para as escolas &ndash; al&eacute;m de jogos, rela&ccedil;&otilde;es e interesses pol&iacute;ticos &ndash; um projeto oculto de socializa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>Michelle Prazeres &eacute; jornalista, mestre em Comunica&ccedil;&atilde;o e Semi&oacute;tica (PUC-SP) e doutoranda em educa&ccedil;&atilde;o (USP), integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social e assessora de comunica&ccedil;&atilde;o da ONG A&ccedil;&atilde;o Educativa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o foi por acaso que, fazendo uma pesquisa na rede, ao buscar dados sobre o documento &quot;Uma nova agenda para a educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica&quot;, anunciado pela Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o do Estado de S&atilde;o Paulo em agosto de 2007, cheguei &agrave; mat&eacute;ria publicada no &uacute;ltimo s&aacute;bado (16\/5), na revista Isto&Eacute;, &quot;Computadores sob suspeita&quot;. 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