{"id":22754,"date":"2009-05-11T16:40:04","date_gmt":"2009-05-11T16:40:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22754"},"modified":"2009-05-11T16:40:04","modified_gmt":"2009-05-11T16:40:04","slug":"por-uma-lei-de-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22754","title":{"rendered":"Por uma Lei de Imprensa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">Dos 191 pa&iacute;ses das Organiza&ccedil;&otilde;es das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), s&oacute; um n&atilde;o tem Lei de Imprensa. O Brasil. Alguma coisa est&aacute; errada nesses n&uacute;meros. Claro que sofremos, por tempo demais, com a pior Lei de Imprensa do planeta. Mas, pior mesmo, &eacute; n&atilde;o ter lei nenhuma. Os jornais dizem que Inglaterra e Estados Unidos tamb&eacute;m n&atilde;o t&ecirc;m, s&oacute; que s&atilde;o realidades diferentes. N&atilde;o apenas por serem pa&iacute;ses da common law (com menos &ecirc;nfase nas leis e mais &ecirc;nfase nas decis&otilde;es), mas, sobretudo, por n&atilde;o haver l&aacute;, sobre o tema, o vazio que agora passamos a ver por aqui.<\/p>\n<p>A Inglaterra tem um C&oacute;digo de &Eacute;tica jornal&iacute;stica desde 1938; e a House of Commons (seria o equivalente &agrave; C&acirc;mara dos Deputados) aprovou um c&oacute;digo de procedimentos para a Press Complaints Commission (comiss&atilde;o de queixas da imprensa) que vem sendo consensualmente cumprido.<\/p>\n<p>Nos EUA, ao lado da Libel Law (o cap&iacute;tulo dos crimes contra a honra do C&oacute;digo Penal federal norte-americano), temos vasto conjunto de regras espalhadas em diferentes normativas. O australiano Rupert Murdoch por exemplo, quando quis entrar naquele mercado, teve que se naturalizar americano por exig&ecirc;ncia da FCC (Comiss&atilde;o Federal de Comunica&ccedil;&atilde;o, na sigla em ingl&ecirc;s). Sem contar que, contra todas as tradi&ccedil;&otilde;es, o Congresso chegou a discutir, dez anos atr&aacute;s, a ado&ccedil;&atilde;o de algo como uma Lei de Imprensa, em um Libel Reform Act elaborado pelo Instituto Annenberg.<\/p>\n<p><strong>Interesse coletivo<br \/><\/strong><br \/>De parte essa observa&ccedil;&atilde;o estat&iacute;stica, cumpre ver quem ganha e quem perde com essa decis&atilde;o do Supremo Tribunal Federal revogando nossa Lei de Imprensa. Jornalistas, com certeza, perdem.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Uma Lei de Imprensa democr&aacute;tica lhes garantiria direitos fundamentais, como a &quot;cl&aacute;usula de consci&ecirc;ncia&quot;, com a qual poderiam n&atilde;o assinar reportagens contra suas cren&ccedil;as ou ideologias sem ser demitidos por isso; teriam direito &agrave; &quot;exce&ccedil;&atilde;o da verdade&quot;, que os protegeria de processos; ou, dado exercerem o of&iacute;cio de emitir opini&otilde;es, teriam tratamento penal diferenciado &ndash; a pena de priva&ccedil;&atilde;o da liberdade restaria limitada &agrave; reitera&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas eticamente reprov&aacute;veis. Jornais tamb&eacute;m perdem.<\/p>\n<p>Uma lei democr&aacute;tica levaria a que fossem processados apenas onde t&ecirc;m sede ou sucursais &ndash; evitando o que hoje ocorre com a Folha de S.Paulo, respondendo a processos dos filiados da Igreja Universal em mais de uma centena de f&oacute;runs. E n&atilde;o podem se aproveitar dos benef&iacute;cios da &quot;retifica&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea da not&iacute;cia&quot; &ndash; usualmente deferida, nas legisla&ccedil;&otilde;es, com um est&iacute;mulo a que os pr&oacute;prios jornais expressem a verdade dos fatos, independentemente do direito de resposta &ndash;, evitando, assim, condena&ccedil;&otilde;es por indeniza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Por fim, e sobretudo, perdemos n&oacute;s, cidad&atilde;os. Os jornais relutar&atilde;o em dar not&iacute;cias com receio de processos em casos de oposi&ccedil;&atilde;o entre o direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o e o direito &agrave; privacidade &ndash; quando, segundo as leis de imprensa dos pa&iacute;ses culturalmente maduros, esses conflitos se resolvem &quot;em favor do interesse coletivo da informa&ccedil;&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p><strong>Otimistas incorrig&iacute;veis<br \/><\/strong><br \/>Tamb&eacute;m n&atilde;o haver&aacute; obrigatoriedade da identifica&ccedil;&atilde;o de reportagem paga, protegendo o leitor. Nem vasto conjunto de exig&ecirc;ncias do direito de resposta &ndash; como a gratuidade. &Agrave; falta de uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica sobre o direito a resposta, vamos sofrer nas a&ccedil;&otilde;es perante ju&iacute;zes que relutar&atilde;o em aplicar um direito que, embora formalmente assegurado pela Constitui&ccedil;&atilde;o (artigo 5&ordm;, V), claramente s&oacute; ganhar&aacute; efetividade com a regulamenta&ccedil;&atilde;o que agora deixa de existir.<\/p>\n<p>O exemplo dos Estados Unidos, nesse caso, n&atilde;o nos serve. L&aacute;, mesmo constando em legisla&ccedil;&otilde;es estaduais, o direito de resposta foi declarado ilegal pela Suprema Corte (em 1974) no caso Miami Herald x Tornillo, por ofensa &agrave; Primeira Emenda. E, n&atilde;o obstante, os jornais usualmente o concedem, para evitar o risco de serem condenados a pagar indeniza&ccedil;&otilde;es quase sempre severas. A decis&atilde;o do Supremo, dadas tantas evid&ecirc;ncias, permite duas vis&otilde;es.<\/p>\n<p>Uma otimista, que se extrai do voto do ministro Ricardo Lewandowski &ndash; segundo o qual esse fato deve servir de est&iacute;mulo a que o Congresso Nacional aprove uma nova lei, em substitui&ccedil;&atilde;o &agrave; agora revogada. Outra pessimista, que se v&ecirc; nos discursos aligeirados, ufanistas e lamentavelmente equivocados, segundo os quais a decis&atilde;o aprimora a democracia brasileira &ndash; como uma promessa negra de que tudo vai ficar como est&aacute;.<\/p>\n<p>Seja como for, incorrig&iacute;veis otimistas, os brasileiros rogam ao Congresso, o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel, a edi&ccedil;&atilde;o de uma nova Lei de Imprensa verdadeiramente democr&aacute;tica. Que garanta o m&aacute;ximo de liberdade na informa&ccedil;&atilde;o, sagrado direito de todos e de cada um, mas que tamb&eacute;m garanta o m&aacute;ximo de responsabilidade no exerc&iacute;cio dessa liberdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos 191 pa&iacute;ses das Organiza&ccedil;&otilde;es das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), s&oacute; um n&atilde;o tem Lei de Imprensa. O Brasil. Alguma coisa est&aacute; errada nesses n&uacute;meros. Claro que sofremos, por tempo demais, com a pior Lei de Imprensa do planeta. Mas, pior mesmo, &eacute; n&atilde;o ter lei nenhuma. 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