{"id":22717,"date":"2009-05-04T13:44:40","date_gmt":"2009-05-04T13:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22717"},"modified":"2009-05-04T13:44:40","modified_gmt":"2009-05-04T13:44:40","slug":"tv-brasil-de-publico-e-publicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22717","title":{"rendered":"TV Brasil: de &#8216;p\u00fablico&#8217; e p\u00fablicos"},"content":{"rendered":"<p>A &uacute;ltima grande crise da TV Brasil, levando &agrave; sa&iacute;da de sua dire&ccedil;&atilde;o do que ainda restava do time do Audiovisual e do MinC, deveria provocar profundas medita&ccedil;&otilde;es sobre todo o projeto. Reduzir a discuss&atilde;o a uma poss&iacute;vel incapacidade de gest&atilde;o da jornalista Tereza Cruvinel &eacute; privilegiar a forma ao conte&uacute;do (e injusto com a pessoa). Apontar, como fez o cineasta Orlando Senna, numa mensagem que &ldquo;caiu&rdquo; na internet, a pr&oacute;pria forma de organiza&ccedil;&atilde;o empresarial da TV Brasil como origem dos seus males, chega mais perto das ra&iacute;zes, mas ainda foge da sua ess&ecirc;ncia. Afinal, qualquer entidade ligada ao Estado brasileiro ter&aacute; que se organizar conforme suas leis e regras. Pode-se at&eacute; questionar se essas leis e regras s&atilde;o boas. Se n&atilde;o s&atilde;o (e o acima assinado, por experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, acha que, de fato, elas s&atilde;o muito ruins, bur(r)ocr&aacute;ticas na forma e neoliberais no fundo), ent&atilde;o que se as modifique em bloco, e n&atilde;o para atender a um particular projeto pol&iacute;tico, ou a uma isolada entidade.<\/p>\n<p>O que devemos discutir &eacute; o pr&oacute;prio projeto pol&iacute;tico. Como nasce, de s&uacute;bito, essa TV Brasil? Por que nasce no MinC? A mensagem entre Orlando Senna e seus pares nos dirime as d&uacute;vidas. Tratava-se de criar um canal de televis&atilde;o para uma <em>certa<\/em> produ&ccedil;&atilde;o audiovisual brasileira, ou para uma <em>certa<\/em> pol&iacute;tica cultural que desejava um canal de televis&atilde;o para se expressar. Logo, tamb&eacute;m, para os grupos de poder que, na sociedade ou no Estado, vocalizam aquela produ&ccedil;&atilde;o e aquela pol&iacute;tica. Fique absolutamente claro que n&atilde;o se est&aacute; a negar a necessidade de contarmos com um grande projeto audiovisual brasileiro. Aqui, t&atilde;o somente, trata-se de apontar a tentativa de apropria&ccedil;&atilde;o, por alguns, de um discurso que, originariamente, tinha um outro prop&oacute;sito, bem distinto. Da&iacute; a confus&atilde;o. Da&iacute; a frustra&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Sou grato ao professor Venicio Lima que h&aacute; dias, numa troca particular de e-mails, lembrou-me as origens da proposta, abrigada na nossa Constitui&ccedil;&atilde;o, de cria&ccedil;&atilde;o de um sistema p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o, complementar ao estatal e ao privado. Conforme ele mesmo escreveu em artigo publicado, no in&iacute;cio do ano, no <em>Observat&oacute;rio da Imprensa<\/em>, essa proposta nasceu, visando a Constituinte, no j&aacute; extinto Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o (CEC), definindo o sistema p&uacute;blico como &ldquo;aquele que sendo financiado tanto por contribui&ccedil;&otilde;es diretas do p&uacute;blico, como pelo estado e\/ou pela iniciativa privada tem, todavia, sua programa&ccedil;&atilde;o sob o controle de segmentos organizados da sociedade civil&quot;. <\/p>\n<p>Proposta parecida, encontramos agora no projeto de Lei Audiovisual argentino que prev&ecirc; a cria&ccedil;&atilde;o de uma reserva do espectro para &ldquo;pessoas jur&iacute;dicas sem fins lucrativos&rdquo;. Claro que essas &ldquo;pessoas&rdquo; s&atilde;o financiadas pelo Estado ou por agentes privados, mas o que as distingue das entidades empresariais &eacute; n&atilde;o terem finalidades lucrativas; e o que as distingue do Estado &eacute; nascerem de iniciativas da sociedade civil: sindicatos, ONGs, igrejas, associa-&ccedil;&otilde;es das mais diversas etc. <\/p>\n<p>O projeto de Cristina Kirchner, sob este aspecto, &eacute; preciso: n&atilde;o confunde iniciativas privadas n&atilde;o-comerciais, com &ldquo;entidade p&uacute;blica&rdquo; pois entidade p&uacute;blica &eacute; necessariamente o Estado (embora, reconhe&ccedil;amos, no Brasil de hoje, est&aacute; sendo muito dif&iacute;cil pensarmos assim&#8230;). O esp&iacute;rito da proposta original do CEC, feita h&aacute; 25 anos, seria similar ao do atual projeto argentino. Se esta assertiva est&aacute; correta, a iniciativa do Governo Lula, conduzida pelo MinC e, levando atr&aacute;s de si centenas de almas bem intencionadas (para alegria do Diabo&#8230;), s&oacute; poderia resultar no que resultou: numa disputa de poder dentro do aparelho estatal, ou melhor, neste caso, do Executivo, com a vit&oacute;ria final do grupo que pode n&atilde;o entender de gest&atilde;o, mas entende muito bem de comunica&ccedil;&atilde;o social (e mais ainda de &ldquo;lulismo&rdquo;&#8230;). Afinal, um canal aberto de televis&atilde;o &eacute;, antes de mais nada, um meio de comunica&ccedil;&atilde;o social de massa e generalista, n&atilde;o uma sala de cinema na sala de visita das pessoas.<\/p>\n<p>Se olharmos para os t&atilde;o decantados modelos de TV p&uacute;blica &agrave; volta do mundo (todos eles, hoje em dia, cada vez menos &ldquo;p&uacute;blicos&rdquo; e mais comerciais), poderemos observar algumas caracter&iacute;sticas comuns. Em primeiro lugar, s&atilde;o financiados por impostos diretamente cobrados aos cidad&atilde;os (no Jap&atilde;o, at&eacute; hoje, a NHK mant&eacute;m um ex&eacute;rcito de cobran&ccedil;a que vai de casa em casa, recolhendo as devidas taxas). Isto cria um compromisso direto com a cidadania ou, ao menos, com o contribuinte. Em segundo lugar, n&atilde;o menos importante, eles vingaram e sobrevivem em Estados parlamentaristas. A divis&atilde;o expl&iacute;cita, transparente, de poder dentro do Parlamento provavelmente d&aacute; a outras institui&ccedil;&otilde;es do Estado maior grau de autonomia relativamente ao governo (Maioria) de plant&atilde;o. <\/p>\n<p>Num Estado presidencialista, o presidente concentra muito mais poder que os outros poderes, e boa parte das institui&ccedil;&otilde;es do Estado, sobretudo a radiodifus&atilde;o, n&atilde;o poder&atilde;o deixar de ser, de um modo ou de outro, instrumentos do Executivo. Em terceiro lugar, o grau de desenvolvimento pol&iacute;tico e cultural dessas sociedades separa razoavelmente bem o p&uacute;blico do privado. No Brasil dos Gilmar Mendes, dos Sarney, dos Renan Calheiros, dos &ldquo;diretores&rdquo; do Senado, da farra das passagens a&eacute;reas, dos pal&aacute;cios do Edmar, do deputado-namorado da Galisteu, dos&#8230; das&#8230; n&atilde;o faltam exemplos, neste Brasil, a mostrar que ainda teremos que caminhar muito para um dia ficar claro a quem quer que seja servidor p&uacute;blico, a diferen&ccedil;a entre vida privada e vida p&uacute;blica. E dinheiro privado, e dinheiro p&uacute;blico.<\/p>\n<p>Para esta caminhada muito ajudar&aacute; um forte setor <em>privado<\/em> n&atilde;o-comercial: uma m&iacute;dia produzida e distribu&iacute;da por grupos e movimentos sociais, conforme suas organiza&ccedil;&otilde;es cidad&atilde;s, voltada para a defesa dos m&uacute;ltiplos interesses da cidadania, vocalizando-os na <em>esfera p&uacute;blica<\/em>. Aqui, podemos come&ccedil;ar a nos entender conceitual e politicamente. Precisamos construir uma esfera p&uacute;blica no Brasil, aquele espa&ccedil;o onde cidad&atilde;os privados exp&otilde;em suas raz&otilde;es em p&uacute;blico, raz&otilde;es que s&oacute; podem ser, se expostas em p&uacute;blico e para o p&uacute;blico, identificadas com o interesse p&uacute;blico, com o interesse da comunidade, com o interesse da sociedade, n&atilde;o com meras motiva&ccedil;&otilde;es instrumentais do indiv&iacute;duo. <\/p>\n<p>Para isto, h&aacute; que se reservar um espa&ccedil;o, no espectro, para sistemas que sirvam a esse campo de manifesta&ccedil;&atilde;o, lembrando, por&eacute;m, que, hoje, muito &agrave; frente do mundo de 1988, esse espa&ccedil;o deve servir n&atilde;o apenas para a radiodifus&atilde;o mas tamb&eacute;m (e, talvez, principalmente) para as redes interativas de banda-larga (tecnologia &ldquo;Wi-Fi&rdquo;, por exemplo). E n&atilde;o se trata s&oacute; do espectro, mas de toda a forma de express&atilde;o midi&aacute;tica, inclusive impressa, que ainda sirva para as manifesta&ccedil;&otilde;es da cidadania e da sociedade organizada.<\/p>\n<p>Para isso, tanto quanto assegurar espa&ccedil;o eletromagn&eacute;tico ou, conforme o caso, lambda, para a esfera p&uacute;blica, h&aacute; que se discutir tamb&eacute;m o financiamento. Se o Estado (supostamente p&uacute;blico) usa recursos (sabidamente) p&uacute;blicos para sustentar a m&iacute;dia atrav&eacute;s de suas campanhas publicit&aacute;rias, n&atilde;o pode, por&eacute;m, alocar esses recursos conforme crit&eacute;rios meramente comerciais, considerando apenas, ao gosto das ag&ecirc;ncias de publicidade, os n&uacute;meros de circula&ccedil;&atilde;o ou audi&ecirc;ncia. Recursos p&uacute;blicos devem ser usados tamb&eacute;m para financiar a m&iacute;dia n&atilde;o-comercial, a m&iacute;dia que fortalece a esfera p&uacute;blica. Ali&aacute;s, um Executivo comprometido com o fortalecimento da democracia, deveria assumir essa id&eacute;ia como uma de suas mais importantes propostas, talvez at&eacute; mais do que a da TV &ldquo;p&uacute;blica&rdquo;. <\/p>\n<p>Esta &eacute; uma tese que dever&aacute; ser discutida na Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o. Trata-se de um dos principais itens do programa do F&oacute;rum M&iacute;dia Livre (FML) que re&uacute;ne exatamente a m&iacute;dia da esfera p&uacute;blica, a m&iacute;dia privada n&atilde;o-comercial comprometida com a cidadania e a democracia participativa. Ser&aacute; pelo caminho do fortalecimento da esfera p&uacute;blica cidad&atilde; que, talvez, consigamos democratizar e publicizar realmente o Estado brasileiro. E, um dia, este Estado ter&aacute; uma TV p&uacute;blica, n&atilde;o porque mudou-se um nome e usurpou-se um discurso, mas porque o Estado ser&aacute;, ele mesmo, de fato <em>p&uacute;blico<\/em>.<\/p>\n<p><em>Marcos Dantas &eacute; professor do curso de comunica&ccedil;&atilde;o da PUC do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &uacute;ltima grande crise da TV Brasil, levando &agrave; sa&iacute;da de sua dire&ccedil;&atilde;o do que ainda restava do time do Audiovisual e do MinC, deveria provocar profundas medita&ccedil;&otilde;es sobre todo o projeto. 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