{"id":22691,"date":"2009-04-27T11:58:20","date_gmt":"2009-04-27T11:58:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22691"},"modified":"2009-04-27T11:58:20","modified_gmt":"2009-04-27T11:58:20","slug":"argentina-o-longo-caminho-de-uma-lei-dos-meios-de-comunicacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22691","title":{"rendered":"Argentina: o longo caminho de uma lei dos meios de comunica\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Desde que iniciou o conflito que as entidades ruralistas mant&eacute;m, h&aacute; mais de um ano, com o governo argentino, a cada dia torna-se evidente outro conflito, que atravessa a sociedade de maneira estrutural: o sistema de meios de comunica&ccedil;&atilde;o que temos e o papel que eles desempenham na constru&ccedil;&atilde;o das alternativas sociais, culturais, econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas de nossa vida coletiva. Poder&iacute;amos remontar o surgimento p&uacute;blico deste conflito a outros momentos de nossa hist&oacute;ria recente, mas h&aacute; um fato importante que marcou essa disputa que os grandes meios abra&ccedil;aram e trabalharam em cadeia como nunca. <\/p>\n<p>Por ocasi&atilde;o do feroz conflito e da investida midi&aacute;tica contra a pol&iacute;tica do governo pra o campo, com as implica&ccedil;&otilde;es &ldquo;desconstituintes&rdquo; que muitos intelectuais destacados do pa&iacute;s apontaram, o governo de Cristina Fern&aacute;ndez de Kirchner decidiu finalmente apresentar um anteprojeto de lei para substituir a atual Lei de Radiodifus&atilde;o do pa&iacute;s. A lei vigente foi redigida nos tempos da &uacute;ltima ditadura militar e v&aacute;rias vezes emendada pelos diferentes governos constitucionais que se seguiram, sem que isso tenha modificado de maneira substancial a matriz antidemocr&aacute;tica de nosso sistema de m&iacute;dia. Muito pelo contr&aacute;rio, muitas das modifica&ccedil;&otilde;es feitas consolidaram a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade dos meios e a l&oacute;gica mercantil para o sistema de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A apresenta&ccedil;&atilde;o de uma nova Lei de Servi&ccedil;os de Comunica&ccedil;&atilde;o Audiovisual comporta outros dois marcos: a reda&ccedil;&atilde;o de seu conte&uacute;do foi feito na base de consultas com os atores sociais implicados e, em boa medida, recolheu as propostas da &ldquo;Coaliz&atilde;o por uma Radiodifus&atilde;o Democr&aacute;tica&rdquo;, integrada por organiza&ccedil;&otilde;es sociais de base, organismos de direitos humanos e meios comunit&aacute;rios. Por outro lado, abriu-se um processo para divulgar a nova lei para a opini&atilde;o p&uacute;blica por meio de debates convocados tanto pelo governo como por outras institui&ccedil;&otilde;es. No entanto, os grandes ausentes deste esfor&ccedil;o para difundir esse tema priorit&aacute;rio para a democratiza&ccedil;&atilde;o da sociedade s&atilde;o, justamente, os grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No debate sobre meios e cidadania, organizado pelo Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o do Centro Cultural da Coopera&ccedil;&atilde;o, realizado esta semana em Buenos Aires, a pesquisadora e professora universit&aacute;ria da Universidade de Buenos Aires (UBA), Lila Luchessi, observou que &ldquo;a nova lei &eacute; muito positiva e &eacute; muito importante porque &eacute; a primeira vez que um governo abre um anteprojeto de lei para a discuss&atilde;o p&uacute;blica com a sociedade civil&rdquo;. O jornalista do P&aacute;gina 12 e tamb&eacute;m professor da UBA, Washington Uranga, acrescentou que &ldquo;os meios n&atilde;o falam dos meios,na medida em que n&atilde;o discutem o sistema de meios. Isso implicaria realizar processos de autocr&iacute;tica que n&atilde;o est&atilde;o habilitados neste &acirc;mbito&rdquo;. <\/p>\n<p>Ele continuou: &ldquo;Revisemos as campanhas pol&iacute;ticas desde a volta da democracia e busquemos juntos quais foram os debates sobre o sistema de comunica&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s: n&atilde;o h&aacute; nenhum. Quando se discutiu isso? Nunca. Esse tema n&atilde;o est&aacute; na agenda midi&aacute;tica, mas tampouco est&aacute; na consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica da sociedade. Como sociedade que se pensa democr&aacute;tica, dever&iacute;amos ter nos ocupado deste tema, para possibilitar o surgimento de outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preciso garantir socialmente a exist&ecirc;ncia de outros meios e isso n&atilde;o &eacute; algo que interesse &agrave;s grandes empresas midi&aacute;ticas, mas sim &agrave; cidadania e aos dirigentes pol&iacute;ticos. Nem tudo pode ficar entregue livremente &agrave; l&oacute;gica do mercado&rdquo;.<\/p>\n<p>A cobertura que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o realizaram sobre o conflito do governo com o &ldquo;campo&rdquo;, em torno da quest&atilde;o das reten&ccedil;&otilde;es sobre as exporta&ccedil;&otilde;es agr&aacute;rias, foi o detonador de v&aacute;rias reflex&otilde;es e questionamentos em torno dos quais girou o debate, especialmente as quest&otilde;es relativas &agrave; manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o, &agrave; constru&ccedil;&atilde;o das agendas da m&iacute;dia, e ao choque de interesses e as no&ccedil;&otilde;es de &ldquo;responsabilidade&rdquo; e &ldquo;liberdade de imprensa&rdquo;.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao papel dos meios e sua responsabilidade social, Uranga afirmou:<\/p>\n<p>&ldquo;Os meios s&atilde;o protagonistas e correspons&aacute;veis dos processos pol&iacute;ticos e sociais que vivemos. Influem no pol&iacute;tico,no econ&ocirc;mico e no social. Vivemos em uma sociedade muito midiatizada, ou seja, em uma sociedade que transporta os debates pol&iacute;ticos e sociais aos meios. Portanto, o sistema de meios e n&oacute;s que trabalhamos nos meios temos um peso, uma relev&acirc;ncia e uma carga de responsabilidade. Responsabilidade, inclusive, em termos de como pensar a governabilidade: quando algu&eacute;m define uma manchete, quando escreve, tem que pensar sobre esse tema. Isso nos imp&otilde;e certos limites &agrave; liberdade, nos d&aacute; um marco. E assumo isso quando escrevo&rdquo;.<\/p>\n<p>Especialista na an&aacute;lise da cobertura de informa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, Luchessi abordou o tema da transpar&ecirc;ncia, da constru&ccedil;&atilde;o de agendas e da representa&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. &ldquo;Em termos de transpar&ecirc;ncia, seria importante que os meios apresentassem claramente sua posi&ccedil;&atilde;o. Se as empresas midi&aacute;ticas expusessem quem s&atilde;o, para quem atuam, etc., seria outra coisa&rdquo;, afirmou.<\/p>\n<p>&ldquo;Nenhum meio reflete sobre os acontecimentos; constroem a agenda em fun&ccedil;&atilde;o de seus interesses e do que as empresas de pesquisa dizem sobre o que preocupa as pessoas. Como aparecem relatadas as coisas nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o? Na medida em que se trata de uma narrativa, &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o. E essa constru&ccedil;&atilde;o se realiza de acordo com determinados interesses que, em geral, n&atilde;o s&atilde;o transparentes&rdquo;, agregou. Em conex&atilde;o com esse tema, Uranga completou: &ldquo;O espa&ccedil;o dos meios &eacute; um espa&ccedil;o p&uacute;blico, mas de disputa simb&oacute;lica pelo poder, ou seja, pol&iacute;tico. No entanto, nem todos participam desse espa&ccedil;o. &Eacute; um cen&aacute;rio no qual alguns participam e outros n&atilde;o. Atrav&eacute;s dos meios, distintos atores sociais tentam impor um sentido comum, valores interpretativos da sociedade, que expressam uma hegemonia&rdquo;.<\/p>\n<p>O jornalista Eduardo Blaustein, por sua vez, fez uma an&aacute;lise da situa&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o no marco de uma contextualiza&ccedil;&atilde;o mais ampla. Ele afirmou que, para al&eacute;m da possibilidade de uma nova lei, s&atilde;o muitas as condi&ccedil;&otilde;es que operam sobre o estado atual da cultura informativa: &ldquo;&Eacute; preciso assumir que n&atilde;o h&aacute; respostas no curto prazo. O estado atual dos meios &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o de d&eacute;cadas, &eacute; algo que diz respeito ao estado cultural da sociedade. N&atilde;o h&aacute; nenhuma lei m&aacute;gica. S&atilde;o grandes constru&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas. S&atilde;o evolu&ccedil;&otilde;es culturais muito lentas. Os meios que temos tamb&eacute;m s&atilde;o sintomas da sociedade que somos. Ainda que muitas organiza&ccedil;&otilde;es sociais possam ter r&aacute;dios a partir da nova lei, isso n&atilde;o vai mudar a situa&ccedil;&atilde;o dos meios da noite para o dia. A batalha n&atilde;o se esgota na disputa meios\/contrameios. Trata-se de uma constru&ccedil;&atilde;o maior&rdquo;.<\/p>\n<p>Durante o debate tamb&eacute;m foram abordadas quest&otilde;es tais como a naturaliza&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&otilde;es racistas da sociedade, repetidas algumas vezes pelos &ldquo;movileros&rdquo;, a manipula&ccedil;&atilde;o exercida pela editorializa&ccedil;&atilde;o e pela propaga&ccedil;&atilde;o do discurso &uacute;nico a partir da homogeneiza&ccedil;&atilde;o produzida pela concentra&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica. Em torno dessas an&aacute;lises, Uranga destacou que o desafio &eacute; construir um sistema no qual haja &ldquo;meios com pluralidade de vozes e de atores, que funcionem como mecanismos de representa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preciso buscar a emerg&ecirc;ncia em novos atores sociais que n&atilde;o s&atilde;o necessariamente os meios. Na medida em que existam esses novos atores, poderemos ter meios de comunica&ccedil;&atilde;o que os possam expressar. <\/p>\n<p>N&atilde;o podemos pensar o processo vinculado &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o e &agrave; informa&ccedil;&atilde;o fora dos processos sociais e culturais; portanto, as mudan&ccedil;as vir&atilde;o de m&atilde;os dadas com mudan&ccedil;as pol&iacute;ticas e culturais. Ser&aacute; um processo coletivo, complexo, multifacetado, uma luta do conjunto dos atores sociais e da cidadania. O futuro que quero construir depende do passo que vou dar hoje, por menor que ele seja. Esse anteprojeto de lei pode ser feito porque houve uma constru&ccedil;&atilde;o de anos de propostas e projetos alternativos. At&eacute; agora n&atilde;o havia condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas para coloc&aacute;-lo sob a forma de uma lei, mas houve uma caminhada que o permitiu&rdquo;.<\/p>\n<p>Resta ver se o caminho iniciado pelo anteprojeto de lei e, muito antes, pelo movimento das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, da imprensa livre e das organiza&ccedil;&otilde;es sociais que reclamam n&atilde;o s&oacute; a democratiza&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m que a comunica&ccedil;&atilde;o seja entendida como um direito social que s&oacute; se completar&aacute; na medida em que haja uma pluralidade de vozes e participa&ccedil;&atilde;o coletiva, atinge a legitimidade social necess&aacute;ria para vencer aos poderosos interesses que se op&otilde;em a ele: as corpora&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas e o establishment (pol&iacute;tico, empresarial, social) que sempre se beneficiou de um sistema fechado &agrave;s vozes dissidentes, defensor do status quo hegem&ocirc;nico e consolidado hoje como nunca antes.<\/p>\n<p><\/span><em>Maria Eva Blotta &eacute; jornalista, correspondente do Democracy Now em Buenos Aires<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu&ccedil;&atilde;o: Katarina Peixoto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que iniciou o conflito que as entidades ruralistas mant&eacute;m, h&aacute; mais de um ano, com o governo argentino, a cada dia torna-se evidente outro conflito, que atravessa a sociedade de maneira estrutural: o sistema de meios de comunica&ccedil;&atilde;o que temos e o papel que eles desempenham na constru&ccedil;&atilde;o das alternativas sociais, culturais, econ&ocirc;micas e &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22691\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Argentina: o longo caminho de uma lei dos meios de comunica\u00e7\u00e3o<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[144],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22691"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22691\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}