{"id":22667,"date":"2009-04-15T13:41:04","date_gmt":"2009-04-15T13:41:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22667"},"modified":"2014-09-07T02:58:20","modified_gmt":"2014-09-07T02:58:20","slug":"o-cochilo-dos-coroneis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22667","title":{"rendered":"O cochilo dos coron\u00e9is"},"content":{"rendered":"<p class=\"padrao\">Tudo come&ccedil;ou em 5 de julho de 2006, com um Requerimento (REQ) dirigido ao presidente do Senado, assinado pelos senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Ti&atilde;o Viana (PT-AC) (cf. REQ n&ordm; 782 de 2006, Di&aacute;rio do Senado Federal de 6\/7\/2006; p&aacute;g. 22841). Tendo em vista o procedimento rotineiro de vota&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica na aprecia&ccedil;&atilde;o dos Decretos Legislativos referentes a outorga e\/ou renova&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o, os senadores solicitavam &quot;a t&iacute;tulo de defini&ccedil;&atilde;o normativa (&#8230;) para o fim de exata instru&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;rias atinentes, a teleologia do disposto no art. 54, inciso II, letra a , da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, nos casos de concess&otilde;es (de radiodifus&atilde;o)&quot;.<\/p>\n<p>O texto constitucional tem sido permissivamente interpretado como impedindo deputados e senadores&nbsp;apenas&nbsp;de serem gestores nas empresas concession&aacute;rias dos servi&ccedil;os de r&aacute;dio e televis&atilde;o, embora reze o seguinte:<\/p>\n<p class=\"padrao\">Artigo 54. Os Deputados e Senadores n&atilde;o poder&atilde;o:<\/p>\n<p class=\"padrao\">(&#8230;)<\/p>\n<p class=\"padrao\">II &ndash; desde a posse<\/p>\n<p class=\"padrao\">a) ser propriet&aacute;rios, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoas jur&iacute;dicas de direito p&uacute;blico, ou nela exercer fun&ccedil;&atilde;o remunerada.<\/p>\n<p class=\"padrao\">Na justificativa ao requerimento, os senadores se apoiavam em mat&eacute;rias publicadas no&nbsp;Estado de S.Paulo&nbsp;(de 2\/7\/06) e na&nbsp;Folha de S.Paulo&nbsp;(3\/7\/06).<\/p>\n<p>A primeira mat&eacute;ria tratava de&nbsp;representa&ccedil;&atilde;o que o Projor [<a href=\"http:\/\/observatorio.ultimosegundo.ig.com.br\/download\/352ipb001.pdf\">veja aqui<\/a> ], entidade mantenedora deste&nbsp;Observat&oacute;rio da Imprensa, ofereceu &agrave; Procuradoria Geral da Rep&uacute;blica em outubro de 2005 sobre parlamentares que n&atilde;o s&oacute; eram propriet&aacute;rios de emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o, mas votavam na renova&ccedil;&atilde;o de suas pr&oacute;prias concess&otilde;es. A segunda relatava ato in&eacute;dito da Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica que solicitou ao Congresso a devolu&ccedil;&atilde;o de 225 processos de renova&ccedil;&atilde;o de concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o, amea&ccedil;ados de rejei&ccedil;&atilde;o pela Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica (CCTCI) da C&acirc;mara dos Deputados.<\/p>\n<p><strong>A longa tramita&ccedil;&atilde;o do requerimento<\/strong><\/p>\n<p>Encaminhado &agrave; Comiss&atilde;o de Constitui&ccedil;&atilde;o e Justi&ccedil;a (CCJ), o requerimento 782\/06 n&atilde;o foi distribu&iacute;do para relatoria at&eacute; o final da 52&ordf; Legislatura. De volta &agrave; CCJ na 53&ordf;. Legislatura, ele s&oacute; foi distribu&iacute;do ao relator quase dezessete meses depois, em 28 de novembro de 2007.<\/p>\n<p>Apesar de entregue vinte dias depois, o relat&oacute;rio alcan&ccedil;ou a pauta para vota&ccedil;&atilde;o apenas na 5&ordf; Reuni&atilde;o Ordin&aacute;ria da CCJ em 2009, iniciada no dia 1&ordm; e conclu&iacute;da na ter&ccedil;a-feira, dia 7\/4\/09. O requerimento em quest&atilde;o, portanto, precisou de mais de dois anos e nove meses para ser votado na CCJ.<\/p>\n<p>O relat&oacute;rio do senador Pedro Simon (PMDB-RS), aprovado quando a sess&atilde;o da CCJ &ndash; ali&aacute;s, presidida por um senador do DEM, partido que tradicionalmente abriga parlamentares concession&aacute;rios de r&aacute;dio e televis&atilde;o &ndash; j&aacute; se encontrava esvaziada, conclui que:<\/p>\n<p class=\"padrao\">&quot;a) n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito aos Deputados e Senadores figurarem como diretores, propriet&aacute;rios ou controladores de empresas que explorem servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o; e<\/p>\n<p class=\"padrao\">b) caso verificada essa condi&ccedil;&atilde;o, o respectivo ato de outorga ou renova&ccedil;&atilde;o dever&aacute; ser rejeitado.&quot;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>A rea&ccedil;&atilde;o dos coron&eacute;is<\/strong><\/p>\n<p>Quando os muitos interessados tomaram conhecimento da aprova&ccedil;&atilde;o do relat&oacute;rio do senador Pedro Simon, al&eacute;m da perplexidade, reagiram imediatamente. Nota sob o t&iacute;tulo &quot;A bancada da causa pr&oacute;pria&quot;, publicada na coluna &quot;Panorama Pol&iacute;tico&quot;, de Ilimar Franco, em&nbsp;O Globo&nbsp;de quinta-feira (9\/4), descreve:<\/p>\n<p class=\"padrao\">&quot;O senador ACM J&uacute;nior (DEM-BA) deu um ataque ontem com o presidente da CCJ, senador Dem&oacute;stenes Torres (DEM-GO), devido &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o, na sua aus&ecirc;ncia, de parecer dizendo que `n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito&acute; parlamentares serem diretores ou controladores de empresas de r&aacute;dio e televis&atilde;o. `Como voc&ecirc; coloca um projeto desse em vota&ccedil;&atilde;o? Voc&ecirc; disse na reuni&atilde;o de l&iacute;deres que n&atilde;o colocaria nada pol&ecirc;mico&acute;, cobrou ACM J&uacute;nior. Irritado, arrematou: `Ele contraria interesses meus, do Tasso [Jereissati], do [Jos&eacute;] Sarney, do [Jos&eacute;] Agripino e do Wellington Salgado, que &eacute; vice-presidente dessa comiss&atilde;o&acute;.&quot;<\/p>\n<p class=\"padrao\"><strong>O que h&aacute; de novo?<\/strong><\/p>\n<p>Quem acompanha a pol&iacute;tica brasileira sabe que n&atilde;o h&aacute; nada de novo na utiliza&ccedil;&atilde;o das concess&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o como objeto de barganha e conhece a utiliza&ccedil;&atilde;o desse servi&ccedil;o p&uacute;blico no interesse privado e na manuten&ccedil;&atilde;o do&nbsp;status quo&nbsp;eleitoral. O que h&aacute; de novo &eacute; a explicita&ccedil;&atilde;o desses interesses pelo leg&iacute;timo herdeiro de um dos &iacute;cones do coronelismo eletr&ocirc;nico brasileiro, o ex-senador Antonio Carlos Magalh&atilde;es (ver <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=443MEM001\">&quot;Desaparece um s&iacute;mbolo do coronelismo eletr&ocirc;nico&quot;<\/a> ).<\/p>\n<p>O senador ACM J&uacute;nior, no entanto, citou apenas alguns dos senadores que tiveram seus interesses pessoais contrariados com a decis&atilde;o da CCJ. O projeto &quot;Donos da M&iacute;dia&quot; informa que pelo menos 20 &ndash; ou 24,7 % &ndash; dos atuais senadores s&atilde;o s&oacute;cios ou diretores de empresas concession&aacute;rias de r&aacute;dio e televis&atilde;o [<a href=\"http:\/\/donosdamidia.com.br\/levantamento\/politicos\">ver aqui<\/a> ].<\/p>\n<p class=\"padrao\">Levantamento sobre os membros das Comiss&otilde;es Tem&aacute;ticas na C&acirc;mara dos Deputados (CCTCI) e no Senado Federal (CCT), realizado pelo LapCom-UnB e recentemente divulgado pelo <strong>Observat&oacute;rio do Direito &agrave; Comunica&ccedil;&atilde;o<\/strong> (ver &quot;<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=531IPB005\">Radiodifusores dominam comiss&otilde;es<\/a> &quot;), mostra que, na atual legislatura, pelo menos oito dos dezessete membros titulares da Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&atilde;o, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica do Senado controlam direta ou indiretamente emissoras de r&aacute;dio ou televis&atilde;o. Dos membros suplentes, pelo menos seis desfrutam a mesma condi&ccedil;&atilde;o. Vale dizer, por exemplo, que numa vota&ccedil;&atilde;o, pelo menos 47% dos votos estar&atilde;o vinculados aos interesses de radiodifusores privados [<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=18302\">ver rela&ccedil;&atilde;o nominal<\/a> ].<\/p>\n<p><strong>Apenas um cochilo<br \/><\/strong><br \/>O parecer aprovado na CCJ ir&aacute; ainda a vota&ccedil;&atilde;o no plen&aacute;rio do Senado Federal. N&atilde;o tem a m&iacute;nima chance de ser aprovado. De qualquer maneira, o cochilo dos coron&eacute;is serviu para mostrar, uma vez mais, o absurdo da situa&ccedil;&atilde;o normativa em que vivemos: deputados e senadores, desde a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, s&atilde;o, ao mesmo tempo, poder concedente e concession&aacute;rios de um servi&ccedil;o p&uacute;blico, a radiodifus&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come&ccedil;ou em 5 de julho de 2006, com um Requerimento (REQ) dirigido ao presidente do Senado, assinado pelos senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Ti&atilde;o Viana (PT-AC) (cf. REQ n&ordm; 782 de 2006, Di&aacute;rio do Senado Federal de 6\/7\/2006; p&aacute;g. 22841). 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