{"id":22639,"date":"2009-03-31T15:03:34","date_gmt":"2009-03-31T15:03:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22639"},"modified":"2009-03-31T15:03:34","modified_gmt":"2009-03-31T15:03:34","slug":"a-responsabilidade-social-da-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22639","title":{"rendered":"A responsabilidade social da m\u00eddia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao\">No Brasil, os empres&aacute;rios de m&iacute;dia continuam a defender seus interesses como se estiv&eacute;ssemos nos tempos da velha doutrina liberal (que, de fato, nunca vivemos). O discurso da liberdade de imprensa e da autoregula&ccedil;&atilde;o praticado no Brasil &eacute; historicamente anterior ao trabalho da Hutchins Commission, de 1947.<\/p>\n<p>H&aacute; 62 anos, em 27 de mar&ccedil;o de 1947, era publicado nos Estados Unidos o primeiro volume que resultou do trabalho da Hutchins Commission &ndash; &ldquo;A free and responsible press&rdquo; (Uma imprensa livre e respons&aacute;vel). A Comiss&atilde;o, presidida pelo ent&atilde;o reitor da Universidade de Chicago, Robert M. Hutchins, e formada por 13 personalidades dos mundos empresarial e acad&ecirc;mico, foi uma iniciativa dos pr&oacute;prios empres&aacute;rios e foi por eles financiada.<\/p>\n<p>Criada em 1942 como resposta a uma onda crescente de cr&iacute;ticas &agrave; imprensa, a Comiss&atilde;o tinha como objetivo formal definir quais eram as fun&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia na sociedade moderna. Na verdade, diante da crescente oligopoliza&ccedil;&atilde;o do setor e da forma&ccedil;&atilde;o das redes de radiodifus&atilde;o (networks), se tornara imposs&iacute;vel sustentar a doutrina liberal cl&aacute;ssica de um mercado de id&eacute;ias (a marketplace of ideas) onde a liberdade de express&atilde;o era exercida em igualdade de condi&ccedil;&otilde;es pelos cidad&atilde;os. <\/p>\n<p>A sa&iacute;da foi a cria&ccedil;&atilde;o da &ldquo;teoria da responsabilidade social da imprensa&rdquo;. Centrada no pluralismo de id&eacute;ias e no profissionalismo dos jornalistas, acreditava-se que ela seria capaz de legitimar o sistema de mercado e sustentar o argumento de que a liberdade de imprensa das empresas de m&iacute;dia &eacute; uma extens&atilde;o da liberdade de express&atilde;o individual.<\/p>\n<p>Em pa&iacute;ses europeus, com forte tradi&ccedil;&atilde;o de uma imprensa partid&aacute;ria, no entanto, a teoria da responsabilidade social enfrentou s&eacute;rias dificuldades e a doutrina liberal cl&aacute;ssica teve que se ajustar &agrave; implanta&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que regulassem o mercado e estimulassem a concorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><strong>Responsabilidade Social<\/strong><\/p>\n<p>A responsabilidade social tem sua origem associada &agrave; filosofia utilitarista que surge na Inglaterra e nos Estados Unidos no s&eacute;culo XIX, de certa forma derivada das id&eacute;ias de Jeremy Bentham (1784-1832) e John Stuart Mill (1806-1873).<\/p>\n<p>Nos anos p&oacute;s Segunda Grande Guerra, a responsabilidade social se constituiu como um modelo a ser aplicado &agrave;s empresas em geral e &agrave;s empresas jornal&iacute;sticas estadunidenses, em particular, e come&ccedil;ou a ser introduzido atrav&eacute;s de c&oacute;digos de auto-regula&ccedil;&atilde;o estabelecidos para o comportamento de jornalistas e de setores como r&aacute;dio e televis&atilde;o. O modelo est&aacute;, portanto, historicamente vinculado aos interesses dos grandes grupos de m&iacute;dia.<\/p>\n<p>A responsabilidade social se baseia na cren&ccedil;a individualista de que qualquer um que goze de liberdade tem certas obriga&ccedil;&otilde;es para com a sociedade, da&iacute; seu car&aacute;ter normativo. Na sua aplica&ccedil;&atilde;o &agrave; m&iacute;dia, &eacute; uma evolu&ccedil;&atilde;o de outra teoria da imprensa &ndash; a teoria libert&aacute;ria &ndash; que n&atilde;o tinha como refer&ecirc;ncia a garantia de um fluxo de informa&ccedil;&atilde;o em nome do interesse p&uacute;blico. A teoria da responsabilidade social, ao contr&aacute;rio, aceita que a m&iacute;dia deve servir ao sistema econ&ocirc;mico e buscar a obten&ccedil;&atilde;o do lucro, mas subordina essas fun&ccedil;&otilde;es &agrave; promo&ccedil;&atilde;o do processo democr&aacute;tico e a informa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico (&ldquo;o p&uacute;blico tem o direito de saber&rdquo;).<\/p>\n<p>Para responder &agrave;s cr&iacute;ticas que a imprensa recebia, a Hutchins Commission resumiu as exig&ecirc;ncias que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o teriam de cumprir em cinco pontos principais:<\/p>\n<p>(1) propiciar relatos fi&eacute;is e exatos, separando not&iacute;cias (reportagens objetivas) das opini&otilde;es (que deveriam ser restritas &agrave;s p&aacute;ginas de opini&atilde;o);<\/p>\n<p>(2) servir como f&oacute;rum para interc&acirc;mbio de coment&aacute;rios e cr&iacute;ticas, dando espa&ccedil;o para que pontos de vista contr&aacute;rios sejam publicados;<\/p>\n<p>(3) retratar a imagem dos v&aacute;rios grupos com exatid&atilde;o, registrando uma imagem representativa da sociedade, sem perpetuar os estere&oacute;tipos;<\/p>\n<p>(4) apresentar e clarificar os objetivos e valores da sociedade, assumindo um papel educativo; e por fim,<\/p>\n<p>(5) distribuir amplamente o maior n&uacute;mero de informa&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis.<\/p>\n<p>Esses cinco pontos se tornariam a origem dos crit&eacute;rios profissionais do chamado &#39;bom jornalismo&#39; &ndash; objetividade, exatid&atilde;o, isen&ccedil;&atilde;o, diversidade de opini&otilde;es, interesse p&uacute;blico &ndash; adotado nos Estados Unidos e &ldquo;escrito&rdquo; nos Manuais de Reda&ccedil;&atilde;o de boa parte dos jornais brasileiros.<\/p>\n<p><strong>Liberdade de imprensa vs. responsabilidade da imprensa<br \/><\/strong><br \/>Analistas estadunidenses consideram que a Hutchins Commision talvez tenha sido a respons&aacute;vel por uma mudan&ccedil;a fundamental de paradigma no jornalismo: da liberdade de imprensa para a responsabilidade da imprensa. Teria essa mudan&ccedil;a de paradigma de fato ocorrido?<\/p>\n<p>No Brasil, certamente, os empres&aacute;rios de m&iacute;dia continuam a defender seus interesses como se estiv&eacute;ssemos nos tempos da velha doutrina liberal (que, de fato, nunca vivemos). O discurso da liberdade de imprensa e da autoregula&ccedil;&atilde;o praticado no Brasil &eacute; historicamente anterior &agrave; Hutchins Commission. Basta que se considere, por um lado, a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade e a aus&ecirc;ncia de regula&ccedil;&atilde;o na m&iacute;dia e, por outro, as enormes dificuldades que enfrenta at&eacute; mesmo o debate de temas e projetos com potencial de alterar o status quo legal.<\/p>\n<p>Um exemplo contempor&acirc;neo s&atilde;o as resist&ecirc;ncias &ndash; que j&aacute; se manifestam &ndash; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o da 1&ordf;. Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&otilde;es. As recomenda&ccedil;&otilde;es da Hutchins Commission, se adotadas pelos grupos de m&iacute;dia no Brasil, representariam um avan&ccedil;o importante. Para n&oacute;s, a teoria da responsabilidade social da imprensa permanece atual, mesmo 62 anos depois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, os empres&aacute;rios de m&iacute;dia continuam a defender seus interesses como se estiv&eacute;ssemos nos tempos da velha doutrina liberal (que, de fato, nunca vivemos). O discurso da liberdade de imprensa e da autoregula&ccedil;&atilde;o praticado no Brasil &eacute; historicamente anterior ao trabalho da Hutchins Commission, de 1947. 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