{"id":22623,"date":"2009-03-24T10:19:04","date_gmt":"2009-03-24T10:19:04","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22623"},"modified":"2014-09-07T02:58:17","modified_gmt":"2014-09-07T02:58:17","slug":"conferencia-nacional-de-comunicacao-antes-tarde-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22623","title":{"rendered":"Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o, antes tarde do que nunca"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">No Brasil, comunica&ccedil;&atilde;o sempre foi um n&atilde;o-assunto. Contam-se nos dedos os jornais que, em algum momento, abriram espa&ccedil;o para uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica a respeito do pr&oacute;prio trabalho. Para o r&aacute;dio e a televis&atilde;o dispensam-se os dedos, n&atilde;o h&aacute; autocr&iacute;tica. Se do conte&uacute;do informativo pouco ou nada se fala, sobre as lutas de seus trabalhadores o sil&ecirc;ncio &eacute; total. Lembro uma campanha salarial liderada pelo Sindicato dos Jornalistas do Paran&aacute; que espalhou outdoors por Curitiba com a frase &quot;a nossa dor n&atilde;o sai nos jornais&quot;. Naquela &eacute;poca, anos 1980, as dores de outras categorias at&eacute; apareciam em algumas p&aacute;ginas, menos a dos jornalistas.<\/p>\n<p>E os jornalistas, al&eacute;m das suas dores e ang&uacute;stias profissionais, t&ecirc;m muito a falar sobre a sociedade e os meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Muito mais do que seus patr&otilde;es permitem. Claro que h&aacute; jornalistas e jornalistas, como lembrou em artigo exemplar nesta p&aacute;gina Marcelo Salles <a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21961\">[veja aqui]<\/a> . S&atilde;o, de um lado, os que est&atilde;o comprometidos com as imprescind&iacute;veis e necess&aacute;rias transforma&ccedil;&otilde;es sociais e, de outro, os ventr&iacute;loquos dos que lhes pagam altos sal&aacute;rios no fim do m&ecirc;s. A maioria ganha pouco, trabalha muito e tem que ficar quietinha cumprindo as pautas determinadas pelos interesses empresariais.<\/p>\n<p>Essa divis&atilde;o se j&aacute; era bem n&iacute;tida, agora escancarou-se diante da anunciada realiza&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o, reivindica&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de v&aacute;rios setores da sociedade. Bastou o governo confirmar o evento, a campanha contra come&ccedil;ou. E a ordem veio de cima, bem de cima: da associa&ccedil;&atilde;o internacional dos donos da m&iacute;dia no continente, conhecida pela sigla SIP (Sociedade Interamericana de Prensa). A entidade se diz preocupada &quot;porque os debates (na Confer&ecirc;ncia) ser&atilde;o conduzidos por ONGs e movimentos sociais que pretendem interferir no funcionamento da imprensa&quot;. Express&atilde;o que pode ser traduzida pelo temor diante da possibilidade de um debate mais s&eacute;rio e aprofundado sobre o pensamento &uacute;nico imposto pelos grandes meios de comunica&ccedil;&atilde;o aos nossos pa&iacute;ses. Afinal, debates como o proposto podem conduzir a a&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas, capazes de impor limites a esse poder incontrolado.<\/p>\n<p>Do lado patronal dificilmente sairia posi&ccedil;&atilde;o diferente, afinal est&atilde;o defendendo interesses de classe seculares. O triste &eacute; constatar que enquanto centenas de trabalhadores da m&iacute;dia mobilizam-se em todo o Brasil a favor da realiza&ccedil;&atilde;o da Confer&ecirc;ncia, uns poucos jornalistas e radialistas, agem em sentido contr&aacute;rio. Caso emblem&aacute;tico &eacute; o de um &acirc;ncora e de uma rep&oacute;rter da r&aacute;dio CBN que usaram longos minutos da programa&ccedil;&atilde;o para ecoar pelo pa&iacute;s as posi&ccedil;&otilde;es dos seus patr&otilde;es. Usavam o velho procedimento dos comunicadores populares, decodificando para grandes audi&ecirc;ncias as concep&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas de quem lhes paga os sal&aacute;rios. Esbanjando informalidade, usando a ridiculariza&ccedil;&atilde;o como arma, eles levam ao ouvinte as mesmas id&eacute;ias que os jornais apresentam de forma mais elaborada, nos editoriais ou nas colunas dos seus articulistas. Colaboram, dessa forma, para popularizar as id&eacute;ias da classe dominante tornando-as dominantes em toda a sociedade, como j&aacute; notava aquele pensador do s&eacute;culo 19, cada vez mais atual.<\/p>\n<p>Mas h&aacute; resist&ecirc;ncia. Rapidamente os sindicatos dos jornalistas do Distrito Federal e do Estado do Rio de Janeiro foram a p&uacute;blico repudiar a posi&ccedil;&atilde;o da SIP e dos seus porta vozes nacionais. Os jornalistas do DF atrav&eacute;s de sua entidade perguntam &quot;O que pretendem os grandes empres&aacute;rios da comunica&ccedil;&atilde;o? Pressionar o governo para retirar o apoio &agrave; Confer&ecirc;ncia, facilitando assim a manuten&ccedil;&atilde;o intacta dos oligop&oacute;lios que dominam, e que manipulam a informa&ccedil;&atilde;o, em detrimento do interesse p&uacute;blico&quot;. E os fluminenses afirmam: &quot;A nossa entidade n&atilde;o pode silenciar diante do posicionamento pouco democr&aacute;tico manifestado pela SIP. &Eacute; preciso deixar bem claro que o patronato mente quando diz que defende a liberdade de imprensa, pois est&aacute;, isto sim, defendendo de fato a liberdade de empresa, que n&atilde;o aceita a amplia&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os midi&aacute;ticos a serem ocupados pelos mais amplos setores representativos do povo brasileiro, como s&atilde;o os movimentos sociais&quot;.<\/p>\n<p>Apesar das press&otilde;es, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que a Confer&ecirc;ncia vai sair. Pelos estados j&aacute; se realizam confer&ecirc;ncias regionais preparat&oacute;rias para o encontro nacional marcado para o come&ccedil;o de dezembro, em Bras&iacute;lia. Diante do fato irrevers&iacute;vel, as entidades patronais tentam impor suas pautas ao debate. Segundo a <em>Folha de S.Paulo<\/em>, para Paulo Tonet, da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais, discutir monop&oacute;lio e propriedade cruzada &eacute; um retrocesso. Para ele o tema tem que ser &quot;conte&uacute;do nacional e igualdade de tratamento regulat&oacute;rio&quot;. Mais uma frase que precisa tradu&ccedil;&atilde;o: ele quer dizer que a Confer&ecirc;ncia s&oacute; deve tratar dos interesses das empresas de r&aacute;dio e televis&atilde;o, preocupad&iacute;ssimas com a entrada no mercado de radiodifus&atilde;o das operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>E parte para o sofisma ao chamar de retrocesso a discuss&atilde;o em torno do monop&oacute;lio e da propriedade cruzada dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sem d&uacute;vida a maior chaga existente na comunica&ccedil;&atilde;o social brasileira. N&atilde;o h&aacute; como democratiz&aacute;-la sem que se enfrente com determina&ccedil;&atilde;o esse obst&aacute;culo.<\/p>\n<p>O tema geral da Confer&ecirc;ncia ser&aacute; &quot;Comunica&ccedil;&atilde;o: Direito e Cidadania na Era Digital&quot;. Amplo o suficiente para caber tudo. Da&iacute; a import&acirc;ncia da mobiliza&ccedil;&atilde;o nacional, necess&aacute;ria para impedir que os interesses empresarias da m&iacute;dia se sobreponham aos da sociedade. Confer&ecirc;ncias de outros setores, como sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o e direitos humanos, por exemplo,tem sido decisivas para o encaminhamento das respectivas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. A da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode fugir &agrave; regra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, comunica&ccedil;&atilde;o sempre foi um n&atilde;o-assunto. 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