{"id":22620,"date":"2009-03-20T16:43:23","date_gmt":"2009-03-20T16:43:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22620"},"modified":"2009-03-20T16:43:23","modified_gmt":"2009-03-20T16:43:23","slug":"o-programa-que-incomodou-o-ministro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22620","title":{"rendered":"O programa que incomodou o ministro"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">No dia 11 de mar&ccedil;o de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo Jos&eacute; Cunha, da TV C&acirc;mara, para participar do programa intitulado Comit&ecirc; de Imprensa, um espa&ccedil;o reconhecidamente plural de discuss&atilde;o da imprensa dentro do Congresso Nacional. A meu lado estava, tamb&eacute;m convidado, o jornalista Jailton de Carvalho, da sucursal de Bras&iacute;lia de O Globo. O tema do programa, naquele dia, era a reportagem da revista Veja, do fim de semana anterior, com as supostas e &quot;aterradoras&quot; revela&ccedil;&otilde;es contidas no notebook apreendido pela Pol&iacute;cia Federal na casa do delegado Prot&oacute;genes Queiroz, referentes &agrave; Opera&ccedil;&atilde;o Satiagraha.<\/p>\n<p>Eu, assim como Jailton, j&aacute; havia participado outras vezes do Comit&ecirc; de Imprensa, sempre a convite, para tratar de assuntos os mais diversos relativos ao comportamento e &agrave; rotina da imprensa em Bras&iacute;lia. Vale dizer que Jailton e eu somos rep&oacute;rteres veteranos na cobertura de assuntos de Pol&iacute;cia Federal, em todo o pa&iacute;s. Raz&atilde;o pela qual, inclusive, o jornalista Paulo Jos&eacute; Cunha nos convidou a participar do programa. Nesta carta, contudo, falo somente por mim.<strong><\/p>\n<p>Fora da grade<\/strong><\/p>\n<p>Durante a grava&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s, em ambiente muito bem humorado e de absoluta liberdade de express&atilde;o, como cabe a um encontro entre velhos amigos jornalistas, discutimos abertamente quest&otilde;es relativas &agrave; Opera&ccedil;&atilde;o Satiagraha, &agrave; CPI das Escutas Telef&ocirc;nicas Ilegais, &agrave;s a&ccedil;&otilde;es contra Prot&oacute;genes Queiroz e, &eacute; claro, ao grampo telef&ocirc;nico &ndash; de &aacute;udio nunca revelado &ndash; envolvendo o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, e o senador Dem&oacute;stenes Torres, do DEM de Goi&aacute;s. Em particular, discordei da tese de contamina&ccedil;&atilde;o da Satiagraha por conta da participa&ccedil;&atilde;o de agentes da Ag&ecirc;ncia Brasileira de Informa&ccedil;&atilde;o (Abin) e citei o fato de estar sendo processado por Gilmar Mendes por ter denunciado, nas p&aacute;ginas da revista CartaCapital, os muitos neg&oacute;cios nebulosos que envolvem o Instituto Brasiliense de Direito P&uacute;blico (IDP), de propriedade do ministro, farto de contratos sem licita&ccedil;&atilde;o firmados com &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos e constru&iacute;do com recursos do Banco do Brasil sobre um terreno comprado ao governo do Distrito Federal, &agrave; &eacute;poca do governador Joaquim Roriz, com 80% de desconto.<\/p>\n<p>Terminada a grava&ccedil;&atilde;o, o programa foi colocado no ar, dentro de uma grade de programa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-agendada, ao mesmo tempo em que foi disponibilizado na internet, na p&aacute;gina eletr&ocirc;nica da TV C&acirc;mara. L&aacute;, qualquer cidad&atilde;o pode acessar e ver os debates, como cabe a um servi&ccedil;o p&uacute;blico e democr&aacute;tico ligado ao Parlamento brasileiro. O debate daquele dia, realmente, rendeu audi&ecirc;ncia, tanto que acabou sendo reproduzido em muitos sites da blogosfera.<\/p>\n<p>Qual foi minha surpresa ao ser informado por alguns colegas, na quarta-feira (18\/3), exatamente quando completei 43 anos (23 dos quais dedicados ao jornalismo), que o link para o programa havia sido retirado da internet, sem que me fosse dada nenhuma explica&ccedil;&atilde;o. Ali&aacute;s, nem a mim, nem aos contribuintes e cidad&atilde;os brasileiros.<\/p>\n<p>Apurar o evento, contudo, n&atilde;o foi muito dif&iacute;cil: irritado com o teor do programa, o ministro Gilmar Mendes telefonou ao presidente da C&acirc;mara dos Deputados, Michel Temer, do PMDB de S&atilde;o Paulo, e pediu a retirada do conte&uacute;do da p&aacute;gina da internet e a suspens&atilde;o da veicula&ccedil;&atilde;o na grade da TV C&acirc;mara. O pedido de Mendes foi prontamente atendido.<\/p>\n<p><strong>Obscurantismo pol&iacute;tico<\/strong><\/p>\n<p>Sem levar em conta o rid&iacute;culo da situa&ccedil;&atilde;o (o programa j&aacute; havia sido veiculado seis vezes pela TV C&acirc;mara, al&eacute;m de visto e baixado por milhares de internautas), esse epis&oacute;dio revela um estado de coisas que transcende, a meu ver, a discuss&atilde;o pura e simples dos limites de atua&ccedil;&atilde;o do ministro Gilmar Mendes. Diante desta submiss&atilde;o inexplic&aacute;vel do presidente da C&acirc;mara dos Deputados e, por extens&atilde;o, do Poder Legislativo, &agrave;s vontades do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), cabe a todos n&oacute;s, jornalistas, refletir sobre os nossos pr&oacute;prios limites.<\/p>\n<p>Na semana passada, diante de um questionamento feito por um jornalista do Acre sobre a posi&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria do ministro em rela&ccedil;&atilde;o ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Mendes voltou-se furioso para o rep&oacute;rter e disparou: &quot;Tome cuidado ao fazer esse tipo de pergunta&quot; (<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pp0HMrwUxck&amp;feature=\">assista ao v&iacute;deo aqui<\/a> ). Como assim? Que perguntas podem ser feitas ao ministro Gilmar Mendes? At&eacute; onde, n&oacute;s, jornalistas, vamos deixar essa situa&ccedil;&atilde;o chegar sem nos pronunciarmos, em termos coletivos, sobre esse crescente cerco &agrave;s liberdades individuais e de imprensa patrocinados pelo chefe do Poder Judici&aacute;rio? Onde est&atilde;o a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas (Fenaj), e a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa (ABI) e os sindicatos?<\/p>\n<p>Apelo, portanto, que as entidades de classe dos jornalistas, em todo o pa&iacute;s, tomem uma posi&ccedil;&atilde;o clara sobre essa situa&ccedil;&atilde;o e, como primeiro movimento, cobrem da C&acirc;mara dos Deputados e da TV C&acirc;mara uma satisfa&ccedil;&atilde;o sobre esse inusitado ato de censura que fere os direitos de express&atilde;o de jornalistas e, t&atilde;o grave quanto, de acesso a informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, por parte dos cidad&atilde;os. As eventuais disputas editoriais, acirradas aqui e ali, entre os ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o brasileiros n&atilde;o pode servir de obst&aacute;culo para a exposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de nossa indigna&ccedil;&atilde;o conjunta contra essa atitude execr&aacute;vel levada a cabo dentro do Congresso Nacional, com a aquiesc&ecirc;ncia do presidente da C&acirc;mara dos Deputados e da diretoria da TV C&acirc;mara que, acredito, seja formada por jornalistas.<\/p>\n<p>Sem mais, fa&ccedil;o valer aqui minha posi&ccedil;&atilde;o de total defesa do direito de informar e ser informado sem a inger&ecirc;ncia de for&ccedil;as do obscurantismo pol&iacute;tico brasileiro, apoiadas por quem deveria, por dever de of&iacute;cio, nos defender. [Bras&iacute;lia, 19 de mar&ccedil;o de 2009]<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TCFP6qnjl94&amp;eurl=http%3A%2F%2F\">Veja aqui<\/a>  o programa retirado do site da TV C&acirc;mara. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 11 de mar&ccedil;o de 2009, fui convidado pelo jornalista Paulo Jos&eacute; Cunha, da TV C&acirc;mara, para participar do programa intitulado Comit&ecirc; de Imprensa, um espa&ccedil;o reconhecidamente plural de discuss&atilde;o da imprensa dentro do Congresso Nacional. 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