{"id":22591,"date":"2009-03-09T11:08:43","date_gmt":"2009-03-09T11:08:43","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22591"},"modified":"2009-03-09T11:08:43","modified_gmt":"2009-03-09T11:08:43","slug":"ato-critica-folha-de-s-paulo-e-sua-visao-sobre-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22591","title":{"rendered":"Ato critica Folha de S. Paulo e sua vis\u00e3o sobre a ditadura"},"content":{"rendered":"<p>Procura-se uma nova m&aacute;scara para a Folha de S.Paulo. A fantasia de &ldquo;jornal a servi&ccedil;o do Brasil&rdquo;, &ldquo;cr&iacute;tico, pluralista e apartid&aacute;rio&rdquo;, &ldquo;de rabo preso com o leitor&rdquo;, foi desfiada de vez neste s&aacute;bado (7), em ato promovido pelo Movimento dos Sem M&iacute;dia (MSM), em frente &agrave; sede da pr&oacute;pria Folha, em S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>Os manifestantes &mdash; cerca de 500 pessoas &mdash; denunciaram os la&ccedil;os &iacute;ntimos entre a fam&iacute;lia Frias, propriet&aacute;ria do jornal, e a ditadura militar (1964-1985). Fizeram mais: renderam homenagens &agrave;s v&iacute;timas dos &ldquo;anos de chumbo&rdquo; e recha&ccedil;aram o termo &ldquo;ditabranda&rdquo;, evocado pela Folha para relativizar o regime totalit&aacute;rio. Eram ex-presos pol&iacute;ticos e familiares de v&iacute;timas da ditadura, lideran&ccedil;as partid&aacute;rias, ativistas dos mais diversos movimentos da sociedade civil e de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais. <\/p>\n<p>Havia at&eacute; um leitor da Folha, Adilson S&eacute;rgio, que n&atilde;o se contentou em mandar mensagens ao jornal, foi &agrave; manifesta&ccedil;&atilde;o e pediu a palavra. &ldquo;Vim aqui em nome de meus filhos e netos, que precisam saber a verdade. Ditadura &eacute; ditadura. Ditabranda &eacute; a porra&rdquo;, disparou, indignado.<\/p>\n<p>Antes do ato, a Rua Bar&atilde;o de Limeira j&aacute; estava tomada por faixas e cartazes que antecipavam o tom do protesto. &ldquo;Folha, ditabranda nunca existiu. Ditadura nunca mais&rdquo;, dizia uma das faixas. &ldquo;De rabo preso com o feitor&rdquo;, ironizava um cartaz. &ldquo;&lsquo;Ditabranda&rsquo;? No dos outros &eacute; refresco&rdquo;, enunciava uma mensagem mais audaciosa.<\/p>\n<p>&ldquo;Com esse ato, queremos estimular a sociedade a sair da afasia, da letargia&rdquo;, explicou o presidente do MSM, Eduardo Guimar&atilde;es, antes de ler para o p&uacute;blico o manifesto &ldquo;Pela Justi&ccedil;a e pela Paz no Brasil&rdquo;. Segundo Eduardo, &ldquo;depois de 20 anos de ditadura, as pessoas no Brasil t&ecirc;m medo de se manifestar. Mas n&atilde;o podemos ficar quietos&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>&ldquo;Ditabranda&rdquo;<br \/><\/strong><br \/>O manifesto do MSM cita dois editoriais da Folha. Um deles, assinado por Oct&aacute;vio Frias de Oliveira e publicado em 22 de setembro de 1971, exalta o &ldquo;governo s&eacute;rio, respons&aacute;vel, respeit&aacute;vel&rdquo; de Em&iacute;lio Garrastazu M&eacute;dici &mdash; o mesmo governo que massificou a tortura e a repress&atilde;o por meio da Opera&ccedil;&atilde;o Bandeirantes (Oban). O texto comemorava ainda um Brasil &ldquo;de onde a subvers&atilde;o&rdquo; era &ldquo;definitivamente erradicada, com o decidido apoio do povo e da imprensa.&rdquo;<\/p>\n<p>O segundo editorial, de 17 de fevereiro passado, desqualifica o presidente venezuelano Hugo Ch&aacute;vez em favor dos generais-presidentes da ditadura brasileira. &ldquo;As chamadas &lsquo;ditabrandas&rsquo; &mdash; caso do Brasil entre 1964 e 1985 &mdash; partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou institu&iacute;am formas controladas de disputa pol&iacute;tica e acesso &agrave; Justi&ccedil;a&rdquo;.<\/p>\n<p>O conceito de &ldquo;ditabranda&rdquo;, t&atilde;o falso quanto uma nota de R$ 3, foi repudiado por centenas leitores da Folha e personalidades como a professora Maria Vict&oacute;ria Benevides e o jurista F&aacute;bio Konder Comparato. Aos dois em particular, a Folha esgar&ccedil;ou o desaforo, classificando a indigna&ccedil;&atilde;o deles de &ldquo;c&iacute;nica e mentirosa&rdquo;. O ato deste s&aacute;bado lhes prestou solidariedade.<\/p>\n<p>Uma das presen&ccedil;as mais surpreendentes na manifesta&ccedil;&atilde;o foi a do padre J&uacute;lio Lancelotti, alvo recente de cal&uacute;nia e difama&ccedil;&atilde;o na grande m&iacute;dia. &ldquo;Deixei uma peregrina&ccedil;&atilde;o porque fiz quest&atilde;o de vir para rezar aqui&rdquo;, afirmou Lancelotti, que criticou o termo ditabranda &mdash; &ldquo;os mortos morreram do mesmo jeito&rdquo;. Segundo o padre, &ldquo;a imprensa nos tortura psicologicamente, estupra a consci&ecirc;ncia do povo&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>O caso Roque<br \/><\/strong><br \/>O advogado criminalista Egmar Jos&eacute; de Oliveira, da Comiss&atilde;o Anistia do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, contestou a &ldquo;brandura&rdquo; do regime militar com o exemplo de duas professoras &mdash; uma de Santos, outra do Rio de Janeiro &mdash; que foram sequestradas e abusadas pelo regime. Segundo Egmar, um dos pr&oacute;ximos objetivos da comiss&atilde;o &eacute; investigar quais foram os empres&aacute;rios que ajudaram a bancar a Oban. &ldquo;Os Frias que se cuidem.&rdquo;<\/p>\n<p>Ex-presos pol&iacute;ticos, como o sindicalista Toshio Kawamura e os jornalistas Celso Lungaretti e Ivan Seixas, fizeram depoimentos emocionantes. &ldquo;Se foi s&oacute; ditabranda, onde est&atilde;o meus companheiros?&rdquo;, questionou Toshio, aos prantos, citando nomes de diversos militantes mortos pelo regime.<\/p>\n<p>Ivan relatou uma das mais marcantes demonstra&ccedil;&otilde;es de colaboracionismo da fam&iacute;lia Frias. Em 1971, ele e o pai &mdash; o metal&uacute;rgico Joaquim Alencar de Seixas, conhecido como Roque &mdash; foram presos e torturados no DOI-Codi. Na madrugada de 17 de abril, durante um &ldquo;passeio&rdquo; com policiais, Ivan conseguiu avistar, na capa do jornal Folha da Tarde, a not&iacute;cia de que seu pai havia morrido.<\/p>\n<p>Quando voltou para a pris&atilde;o, por&eacute;m, encontrou Roque ainda vivo, mas prestes a ser morto. O jornal dos Frias sabia de antem&atilde;o da morte e, a servi&ccedil;o da Oban, precipitou a divulga&ccedil;&atilde;o. De quebra, o ve&iacute;culo que transportava Ivan no &ldquo;passeio&rdquo; era tamb&eacute;m do grupo Folha.<\/p>\n<p>&ldquo;Falo aqui em nome de companheiros presos, companheiros torturados, companheiros assassinados, e em nome das pessoas transportadas ou capturadas em emboscadas por carros da Folha&rdquo;, disse Ivan no ato. &ldquo;Otavinho (Ot&aacute;vio Frias Filho, atual diretor de reda&ccedil;&atilde;o da Folha de S.Paulo e filho de Oct&aacute;vio Frias de Oliveira) tem algo em comum comigo: n&oacute;s dois honramos a luta de nossos pais.&rdquo;<\/p>\n<p>Cerca de 345 pessoas assinaram a lista de presen&ccedil;a. Outros tantos passaram em algum momento pelo ato, que come&ccedil;ou a receber manifestantes &agrave;s 9h30 e se estendeu at&eacute; as 12h30. Apesar disso, um tal de tenente Cris&oacute;stomo, da Pol&iacute;cia Militar, estimou o p&uacute;blico em &ldquo;umas 65 pessoas, no m&aacute;ximo 70&rdquo;. E debochou, rindo: &ldquo;Mas, se voc&ecirc; perguntar para eles, v&atilde;o falar um milh&atilde;o&rdquo;. Um consolo, enfim, para a Folha: havia algu&eacute;m ali &agrave; altura de sua desfa&ccedil;atez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Procura-se uma nova m&aacute;scara para a Folha de S.Paulo. A fantasia de &ldquo;jornal a servi&ccedil;o do Brasil&rdquo;, &ldquo;cr&iacute;tico, pluralista e apartid&aacute;rio&rdquo;, &ldquo;de rabo preso com o leitor&rdquo;, foi desfiada de vez neste s&aacute;bado (7), em ato promovido pelo Movimento dos Sem M&iacute;dia (MSM), em frente &agrave; sede da pr&oacute;pria Folha, em S&atilde;o Paulo. Os manifestantes &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22591\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Ato critica Folha de S. 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