{"id":22580,"date":"2009-03-04T16:48:36","date_gmt":"2009-03-04T16:48:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22580"},"modified":"2009-03-04T16:48:36","modified_gmt":"2009-03-04T16:48:36","slug":"pirataria-e-desobediencia-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22580","title":{"rendered":"&#8220;Pirataria \u00e9 desobedi\u00eancia civil&#8221;"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\"><em>O ex-ministro da cultura Gilberto Gil concedeu entrevista  a jornalistas da Terra Magazine em Salvador durante o Carnaval. Gil falou sobre  a nova fase na carreira, sobre a vers&atilde;o baiana da mais tradicional festa popular  do Brasil e sobre cultura, novas tecnologias e propriedade intelectual.<\/em><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><em>Nesta parte da entrevista, o compositor fala das  discuss&otilde;es lan&ccedil;adas pela turn&ecirc; de Banda Larga Cordel. V&ecirc; uma abertura  democr&aacute;tica inexor&aacute;vel a partir da quebra dos monop&oacute;lios das ind&uacute;strias  culturais, especialmente a fonogr&aacute;fica. E defende a pirataria como forma de  resist&ecirc;ncia contra os obst&aacute;culos que impedem a circula&ccedil;&atilde;o livre de  conhecimentos. <span>&nbsp;<\/span>&quot;Pirataria &eacute; desobedi&ecirc;ncia civil&quot;, crava.<\/em><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>A ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica cedeu a essa nova  democracia?<\/strong><br \/>Sim. Se n&atilde;o cedeu ainda, parcialmente  ou em alguns aspectos, &eacute; uma quest&atilde;o de tempo, n&atilde;o tem muito mais para resistir.  N&atilde;o sei em que base essa l&oacute;gica de hegemonia e domin&acirc;ncia do modelo industrial  da cultura, seja l&aacute; por que for, em que base eles v&atilde;o buscar sustentar uma vis&atilde;o  de manuten&ccedil;&atilde;o dos seus interesses intactos. N&atilde;o sei. N&atilde;o vejo. Falo de  democracia exatamente nesse sentido. H&aacute; um &iacute;mpeto. Tudo o que eles pr&oacute;prios  criam, tudo o que &eacute; produzido pelo mundo hegem&ocirc;nico da domin&acirc;ncia capitalista, &eacute;  elemento de fortalecimento da base democr&aacute;tica. Voc&ecirc; pega todas as novas  tecnologias, tudo o que est&aacute; na Bolsa da Nasdaq, os grandes empreendimentos da  ind&uacute;stria de ponta no mundo&#8230; Eu estava falando de um computador de dez  d&oacute;lares! Vai estar a&iacute; o projeto da &Iacute;ndia e do Jap&atilde;o. Quando voc&ecirc; fala de um  computador de dez d&oacute;lares, de qual exclus&atilde;o digital voc&ecirc; pode estar falando a  m&eacute;dio prazo? No momento em que voc&ecirc; tenha computadores espalhados por a&iacute;, como &eacute;  que voc&ecirc; vai evitar o MP3, o MP4 e etc. etc. etc.? N&atilde;o vai.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Ainda pode haver uma RIA, a sociedade das ind&uacute;strias  fonogr&aacute;ficas americanas, que faz lobby no Congresso, ainda pressiona a Suprema  Corte americana pra n&atilde;o dar ganho de causa aos jovens&#8230; Ainda pode, por qu&ecirc;?  Porque &eacute; a classe m&eacute;dia americana, a sociedade americana que tem computador. Mas  os grandes mercados mundiais da m&uacute;sica ainda est&atilde;o com eles, que ainda vendem  discos, ainda vendem DVDs. No momento em que um menino l&aacute; da tribo de n&atilde;o sei  onde, da periferia, tenha computador, e as lan-houses estejam em todas as casas,  cada casa seja uma lan-house (risos), em todas as favelas&#8230; Como eles v&atilde;o  controlar o desenvolvimento? N&atilde;o &eacute; o desdobramento natural dos produtos, das  tecnologias, dos instrumentos, das ferramentas, que eles mesmos ofereceram?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Certo&#8230;<\/strong><br \/>Eles criaram o telefone celular. H&aacute; cinco anos, no Carnaval  da Bahia, eu me lembro de um an&uacute;ncio que dizia assim: &quot;Compre seu celular pelo  pre&ccedil;o de um abad&aacute;&quot; (risos). O marketing da comercializa&ccedil;&atilde;o feita pelos agentes  aqui na Bahia j&aacute; percebia o imbricamento. Uma coisa j&aacute; est&aacute; com a outra. O que o  cartaz queria dizer? O cartaz dizia de uma acessibilidade nova, de uma  populariza&ccedil;&atilde;o. Como o abad&aacute; era popular aqui no Carnaval, o celular tamb&eacute;m j&aacute;  era. Trate a id&eacute;ia de adquirir o celular da mesma maneira que voc&ecirc; trata a id&eacute;ia  de brincar o Carnaval.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>No Brasil, n&atilde;o d&aacute; pra fazer uma invers&atilde;o? Grande parte dos  artistas se acomodou muito mais &agrave; vis&atilde;o conservadora do que a pr&oacute;pria ind&uacute;stria  fonogr&aacute;fica. Porque a ind&uacute;stria sente no bolso.<\/strong><br \/>Sente mais r&aacute;pido porque os artistas recebem por &uacute;ltimo!  (risos) Eles recebem as migalhas que a ind&uacute;stria quer deixar pra eles. Mas quem  recebe mesmo o volume polpudo &eacute; a ind&uacute;stria, eles &eacute; que sabem onde est&aacute; o  buraco. Eles est&atilde;o come&ccedil;ando&#8230; Mesmo que tenham chegado tarde tamb&eacute;m. Voc&ecirc; v&ecirc;  que toda an&aacute;lise mais acurada que o sistema faz nos Estados Unidos e na Europa &eacute;  de que eles chegaram tarde. Tanto &eacute; que eles n&atilde;o conseguiram muito mais, nem  conseguem. A Uni&atilde;o Europ&eacute;ia chegou primeiro do que eles, n&atilde;o &eacute;? Os f&oacute;runs  informais mundiais, as redes mundiais, a blogosfera chegou primeiro. Todos  chegaram primeiro do que eles.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Por que resistir?<\/strong><br \/>Eles querem resistir. Porque isso &eacute; natural, eles s&atilde;o  refrat&aacute;rios, s&atilde;o acomodados, e s&atilde;o ciosos dos seus interesses, que eles tendem a  interpretar como seus direitos. Acham que seus interesses t&ecirc;m que ser  interpretados como seus direitos. &Agrave;s vezes n&atilde;o s&atilde;o seus direitos, s&atilde;o s&oacute; seus  interesses, que n&atilde;o precisam ser respeitados como direitos. N&atilde;o s&atilde;o direitos,  n&atilde;o. A pirataria tem direito a desafi&aacute;-los. Pirataria &eacute; desobedi&ecirc;ncia civil. Tem  que ser vista assim, tamb&eacute;m. N&atilde;o tem que ser vista s&oacute; como criminalidade. Tem  que ser vista como desobedi&ecirc;ncia civil! Assim como os protestos das esquerdas,  dos sindicatos&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>&Eacute; resposta &agrave; exclus&atilde;o cultural?<\/strong><br \/>&Eacute; resposta &agrave; exclus&atilde;o, um desafio para a cria&ccedil;&atilde;o de novos  modelos, um desafio para a abertura de espa&ccedil;os mais democr&aacute;ticos, de  participa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &agrave; toa est&aacute; sendo politizada. O Partido Pirata j&aacute; tem 2% do  eleitorado na Su&eacute;cia. J&aacute; t&aacute; concorrendo, j&aacute; tem candidatos concorrendo na  Alemanha. Por exemplo, n&oacute;s j&aacute; temos o OPP, o POP, Partido da Organiza&ccedil;&atilde;o Pirata,  na Su&eacute;cia&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Tem que ser Pop mesmo&#8230;<\/strong><br \/>&Eacute;&#8230; No Brasil, devia ser Pop!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>O Brasil j&aacute; teve a pirataria avant-premi&egrave;re, com Tropa de  Elite.<\/strong><br \/>Pois &eacute;! Coisas desse tipo. S&atilde;o antecipa&ccedil;&otilde;es irrecus&aacute;veis, que  precisam ser feitas, porque s&atilde;o experimentalistas, s&atilde;o feitas com a miss&atilde;o  generosa de ampliar os espa&ccedil;os, for&ccedil;ar a elasticidade. N&atilde;o s&atilde;o necessariamente  s&oacute; associa&ccedil;&atilde;o criminosa. Ent&atilde;o, a cria&ccedil;&atilde;o dos partidos da pirataria&#8230; Estou  falando de tr&ecirc;s ou quatro pa&iacute;ses que j&aacute; os t&ecirc;m, como a Su&eacute;cia, uma civiliza&ccedil;&atilde;o,  uma sociedade irrepreens&iacute;vel, pelos nossos pr&oacute;prios padr&otilde;es de leitura. T&aacute; l&aacute; o  partido advogando as quest&otilde;es da pirataria, colocando em leitos mais seguros, em  canaliza&ccedil;&otilde;es mais convenientes a discuss&atilde;o sobre o que &eacute; propriamente crime, o  que n&atilde;o &eacute; crime, o que deve ser descriminalizado, atrav&eacute;s de novas legisla&ccedil;&otilde;es.  Uma id&eacute;ia de que, ainda que seja pirataria hoje, n&atilde;o dever&aacute; mais ser pirataria  amanh&atilde;.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Com sua obra, voc&ecirc; abriu um flanco para a  pirataria?<\/strong><br \/>&Eacute; evidente. Fiz propositalmente, pra dizer: n&oacute;s precisamos  ter bases experimentais para essa elasticidade, para essa vis&atilde;o nova, para essa  nova forma&ccedil;&atilde;o de compartilhamentos. Fiz, fiz, porque fiz.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Mas foram dois flancos: na sua obra e no Minist&eacute;rio da  Cultura, abrindo o debate.<\/strong><br \/>Porque o Estado tem esse papel, o Estado renovado&#8230; Na nossa  conversa anterior &agrave; entrevista, fal&aacute;vamos no papel da pr&oacute;xima elei&ccedil;&atilde;o no Brasil.  O discurso eleitoral vai ter que incorporar essas quest&otilde;es todas. Aqueles que  almejem &agrave; presid&ecirc;ncia v&atilde;o ter que cuidar dessas coisas, v&atilde;o precisar falar  dessas coisas, v&atilde;o precisar trabalhar essas quest&otilde;es de uma forma mais adequada,  mais contempor&acirc;nea. N&atilde;o v&atilde;o poder ignorar essas quest&otilde;es. Ali, como ministro, eu  disse: na parte que me toca, esse minist&eacute;rio &eacute; da Cultura e uma das quest&otilde;es a  reformar no Pa&iacute;s &eacute; a Cultura, a interpreta&ccedil;&atilde;o do papel do Estado, do papel da  sociedade, da sociedade do direito, o que &eacute; o Direito, quais s&atilde;o os direitos  difusos que v&atilde;o aparecendo cada vez mais, a partir de novas configura&ccedil;&otilde;es de  sociabilidade. Fiz mesmo. Fiz com toda consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>E o direito autoral? E a descentraliza&ccedil;&atilde;o da cultura, que  era uma das principais metas de sua gest&atilde;o?<\/strong><br \/>Claro, propriedade intelectual, direito autoral, patentes. O  candidato (Jos&eacute;) Serra, por exemplo, vai ser obrigado a colocar essas discuss&otilde;es  fortemente na pauta dele. Porque ele, como ministro da Sa&uacute;de, quebrou a patente  (de medicamentos). Quer dizer, em fun&ccedil;&atilde;o de interesses p&uacute;blicos. &Eacute; isso! (risos)  Vai ter que falar do assunto&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Pronto, jogou na agenda de Serra!<\/strong><br \/>Na agenda&#8230; O Partido Pirata j&aacute; devia estar cobrando&#8230;  (risos)<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>No Banda Larga, voc&ecirc; comp&ocirc;s suas m&uacute;sicas a partir dessa  fragmenta&ccedil;&atilde;o, dessa pluralidade que est&aacute; por a&iacute;. No pr&oacute;ximo, depois de Banda  Larga, a inspira&ccedil;&atilde;o vai ser a mesma? Pra mais, pra menos?<\/strong><br \/>N&atilde;o sei. &Eacute; aquilo que a gente falou: ainda estou vivendo uma  inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>O que te inspira?<\/strong><br \/>Ah, eu acho que por uma quest&atilde;o natural de estar nesse  movimento, estar nessa tend&ecirc;ncia, vou ainda querer esclarecer um pouco mais. S&atilde;o  quest&otilde;es novas, por exemplo, aquilo que a gente fala em &quot;Os pais&quot;. Os pais s&atilde;o  contra isso, contra aquilo outro, mas ao mesmo tempo s&atilde;o a favor das liberdades  atuais. Ent&atilde;o, acho que eu vou um pouco querer fazer isso nas produ&ccedil;&otilde;es  art&iacute;sticas, nos discos, pra usar uma express&atilde;o antiga. Os discos s&atilde;o tribunas,  n&eacute;? Tem disco pra tudo. Ecoam vontades, demandas, lutas, etc. Eu vou,  provavelmente, querer fazer no meu pr&oacute;ximo disco ainda uma plataforma de  lan&ccedil;amento dessas id&eacute;ias, dessas quest&otilde;es, desses questionamentos, dessas  pondera&ccedil;&otilde;es. Provavelmente. Mas eu n&atilde;o sei.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Come&ccedil;ou a compor?<\/strong><br \/>J&aacute;, mas eu ainda n&atilde;o comecei, digamos assim, a centralizar no  conceito. &quot;Quero uma can&ccedil;&atilde;o que fale disso, quero uma can&ccedil;&atilde;o que fale  daquilo&#8230;&quot; Ainda t&ocirc; na base do laborat&oacute;rio com as subst&acirc;ncias ainda em  separado, vendo como &eacute; que eu vou combinar, pra depois, quando eu tiver  condi&ccedil;&otilde;es de produzir: &quot;isso aqui &eacute; combina&ccedil;&atilde;o desse elemento com esse&quot;, a&iacute;  ent&atilde;o eu vou escolher o que &eacute; que eu vou produzir. Eu misturei preto com  vermelho, deu isso; misturei azul com amarelo, deu verde. A&iacute; ent&atilde;o que eu vou  usar verde pra pintar isso. Vou usar vermelho pra pintar aquilo outro.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>&quot;N&atilde;o tenho medo da morte&quot; traz essa indefini&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>Ah, ali ent&atilde;o&#8230; &Eacute; aberto pra tudo. Ali, &eacute; aquilo: a gente &eacute;  de uma transitorialidade absoluta, uma finitude, com horizonte irremedi&aacute;vel.  Tudo isso tem um fim, portanto s&oacute; vale a pena, na verdade, aquilo que voc&ecirc;  amealhou, no sentido mais profundo dos valores. &Eacute; aquilo que voc&ecirc; botou na sua  bolsa. &Eacute; aquilo que voc&ecirc; tem como valor, sua moeda de troca com a vida, com o  mundo. Aquilo com que voc&ecirc; se faz compreender. Aquilo com que voc&ecirc; interpreta os  outros para compreend&ecirc;-los. Aquela m&uacute;sica eu gosto. S&oacute; fiz o disco por causa  dela.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Nasceu num quarto de hotel?<\/strong><br \/>Foi, em Sevilha. Eu tinha ido a Sevilha pra um encontro sobre  internet, sobre novas tecnologias, onde estava o Antonio Dam&aacute;sio, neurocientista  portugu&ecirc;s, que fez &quot;O erro de Descartes&quot;. Estava ele, Manuel Castells, o grande  te&oacute;rico catal&atilde;o, o John Perry Barlow, do cyberspace, e v&aacute;rios outros desse  campo. Est&aacute;vamos nesse semin&aacute;rio, tr&ecirc;s ou quatro dias discutindo essas quest&otilde;es  todas. Um dia, de manh&atilde;, eu acordei com aquela m&uacute;sica. Eu escrevi toda, todo o  poema, todo assim bru-bru-bru, as quatro estrofes. Cheguei no Rio depois, chamei  meu filho Bem, mostrei a ele: &quot;Olha, tem esse poema, essa letra&#8230; Vamos fazer  alguma coisa? Queria fazer uma coisa meio toada nordestina&quot;. A&iacute; ele programou na  m&aacute;quina um ritmo, eu peguei o viol&atilde;o e sa&iacute; cantando&#8230; Fiz aquela melodia, sem  nenhuma elabora&ccedil;&atilde;o, sem nenhuma veleidade musical, propriamente, sem nenhuma  pretens&atilde;o de sofisticar. Nada. Como, diante daquelas palavras, um canto se  esbo&ccedil;aria? E ele se esbo&ccedil;ou daquele jeito, com aquela melodia, e a&iacute; pronto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Na fase em que elaborou essa can&ccedil;&atilde;o, voc&ecirc; ainda estava em  seu conv&iacute;vio direto com a pol&iacute;tica&#8230;<\/strong><br \/>Tava, tava. Quando aparece o presidente ali&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Isso. Mas como &eacute; que, com todas aquelas indaga&ccedil;&otilde;es, voc&ecirc;  conseguia conviver com os vazios da pol&iacute;tica. Porque h&aacute; um vazio em Bras&iacute;lia, o  vazio da burocracia&#8230;<\/strong><br \/>De tudo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>O vazio dos pr&eacute;dios, o vazio de algumas pessoas com que  voc&ecirc; era obrigado a conviver. Como era lidar com todos esses vazios?<\/strong><br \/>A gente tem esse vazio total, de tudo. O vazio que est&aacute; em  todas as coisas. E cabe a n&oacute;s, com nossa alma e nosso esp&iacute;rito, com nossa  intelig&ecirc;ncia e nossa cultura, cabe a n&oacute;s preencher esses vazios. &Eacute; isso que a  gente faz o tempo todo. &Eacute; a obra do poeta. O poeta vai dando sentido &agrave; pol&iacute;tica.  Porque ela &eacute; s&oacute; discuss&atilde;o vazia, ela tem que ser necessariamente um vazio onde  caibam todas as contradi&ccedil;&otilde;es dos discursos m&uacute;ltiplos. O que &eacute; o espa&ccedil;o pol&iacute;tico?  &Eacute; a &aacute;gora, onde todo mundo fala, onde todo mundo defende sua vis&atilde;o parcial, seus  interesses. A pol&iacute;tica &eacute; o conflito, o choque, que s&oacute; pode se dar no vazio. E s&oacute;  pode produzir vazio (risos). &Eacute; vazio por forma e por conte&uacute;do. A poesia &eacute; esse  outro lado. &Eacute; uma dedica&ccedil;&atilde;o generosa a dar sentido &agrave;s coisas, que &eacute; o papel do  poeta. &Eacute; isso que n&oacute;s devemos continuar fazendo. Esse &eacute; o nosso papel.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Quais s&atilde;o os pr&oacute;ximos passos de Banda Larga?<\/strong><br \/>Banda Larga deve fazer agora algumas cidades do Norte. Faltam  tr&ecirc;s do Nordeste, algumas do Norte (Manaus, Bel&eacute;m), algumas do interior de S&atilde;o  Paulo, onde eu tenho compromisso por patroc&iacute;nio. Um dos meus patrocinadores &eacute; a  Telef&ocirc;nica, que tem interesses espec&iacute;ficos em pra&ccedil;as no interior de S&atilde;o Paulo,  levar esse tipo de mensagem, essa associa&ccedil;&atilde;o de marca com o conte&uacute;do cultural  aproximado. Ent&atilde;o, vou fazer cinco cidades do interior de S&atilde;o Paulo, e a&iacute; tem  algumas capitais do Sul que ainda n&atilde;o fui, Porto Alegre e Florian&oacute;polis&#8230; E eu  n&atilde;o quero tamb&eacute;m estender muito o Banda Larga, cobrir todo o territ&oacute;rio  brasileiro&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Turn&ecirc; ainda &eacute; um formato antigo?<\/strong><br \/>&Eacute; aquela coisa, eu n&atilde;o preciso&#8230; Primeiro, porque eu n&atilde;o  tenho mais energia pra isso, nem nada. Segundo, porque os acessos m&uacute;ltiplos que  todo mundo pode ter aos v&aacute;rios produtos do Banda Larga s&atilde;o franqueados, cada vez  maiores&#8230; Claro, eu posso chegar com um show do Banda Larga, mas eu prefiro  chegar com outra coisa, n&atilde;o fazendo s&oacute; aquele repert&oacute;rio.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>O acesso a Banda Larga &eacute; franqueado. O espectador pode  tirar fotos, gravar, colher imagens. Mas qual &eacute; o saldo dessa  experi&ecirc;ncia?<\/strong><br \/>Eu n&atilde;o sei direito.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Da turn&ecirc;.<\/strong><br \/>N&atilde;o sei. N&atilde;o tenho muita curiosidade no sentido de usar a  econom&eacute;trica pra estabelecer isso, pra saber medir.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>E no sentido do que voc&ecirc; queria?<\/strong><br \/>Estou l&aacute;, estou cantando, tem a sonoridade razoavelmente  modificada com a banda, com os instrumentos, com os computadores, que tamb&eacute;m s&atilde;o  um dos elementos do trabalho. Isso tamb&eacute;m est&aacute; sendo levado pro p&uacute;blico. A gente  vai, provavelmente, fazer um DVD ou um produto similar, complementar, que  falte&#8230; Mas eu tirei da cabe&ccedil;a essa quest&atilde;o. Fico mais preocupado na  conforma&ccedil;&atilde;o geral do perfil de modelo do neg&oacute;cio. Qual &eacute; o modelo atrav&eacute;s do  qual a gente vai ofertar, fazer essas ofertas novas e receber o pagamento por  essas ofertas? Como a gente vai fazer essa troca com esses mercados que est&atilde;o  a&iacute;? Fico mais preocupado com esses tra&ccedil;os gerais da remodela&ccedil;&atilde;o do que, na  verdade, com uma econometria cl&aacute;ssica, que fica ali medindo resultado&#8230;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Mesmo da cr&iacute;tica?<br \/><\/strong>Mesmo da cr&iacute;tica. N&atilde;o quero saber. A cr&iacute;tica que ande junto,  que caminhe. Porque eu entendo que a cr&iacute;tica tem todo o direito &#8211; at&eacute; mais, o  dever &#8211; de continuar fazendo suas leituras, suas interpreta&ccedil;&otilde;es, etc. O que &eacute;  preciso, apenas, &eacute; que passem a trabalhar um pouco mais com essas novas l&oacute;gicas.  Eu, por exemplo, nas cr&iacute;ticas de Banda Larga, ressenti um pouco essa quest&atilde;o, a  exig&ecirc;ncia de um disco&#8230; &quot;Ah, mas n&atilde;o &eacute; um disco!&quot;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>A cr&iacute;tica est&aacute; presa a coisas que voc&ecirc; j&aacute; deixou?<br \/><\/strong>Mas &eacute; isso que eu digo! Se eu estou dizendo que n&atilde;o &eacute; um  disco, pra que discutir que deveria ser um disco? Discuta o fato: &quot;n&atilde;o ser um  disco: o que &eacute; isso, ent&atilde;o?&quot;. Em n&atilde;o sendo um disco, como &eacute;, e p&aacute; e tal&#8230; Em  que medida estamos suficientemente informados sobre &quot;n&atilde;o ser um disco&quot;. Orientar  a cr&iacute;tica. N&atilde;o t&ocirc; dizendo que deixem de criticar ou deixem de ver, de encontrar  lacunas, de encontrar vazios, defici&ecirc;ncias no trabalho. Mas, n&atilde;o. &Eacute; um pouquinho  caminhar junto com a proposta, caminhar pra onde a gente est&aacute; caminhando. &Eacute; s&oacute;  isso que eu achei: tinha um certo vi&eacute;s retr&ocirc; na vis&atilde;o da cr&iacute;tica. Mas, tudo  bem!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-ministro fala sobre cultura, propriedade intelectual e resist\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[994,993],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22580"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22580\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}