{"id":22560,"date":"2009-02-26T19:08:50","date_gmt":"2009-02-26T19:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22560"},"modified":"2009-02-26T19:08:50","modified_gmt":"2009-02-26T19:08:50","slug":"radio-comunitaria-descriminalizacao-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22560","title":{"rendered":"R\u00e1dio comunit\u00e1ria, descriminaliza\u00e7\u00e3o e democracia"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\"><em>Instigar o pensamento, formar cidad&atilde;os conscientes de seus direitos e deveres, atender &agrave;s reais necessidades de uma determinada comunidade. Esses s&atilde;o alguns dos objetivos das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, emissoras que nem sempre s&atilde;o compreendidas em seu papel e, na maior parte das vezes, s&atilde;o perseguidas justamente por trazerem em sua ess&ecirc;ncia uma cr&iacute;tica ao modelo de m&iacute;dia dominante. Na opini&atilde;o da jornalista Neusa Ribeiro, &ldquo;as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o instrumentos de democracia que podem contribuir no desenvolvimento das comunidades locais&rdquo;. Atrav&eacute;s delas, acentua, &ldquo;as pessoas ir&atilde;o buscar o conhecimento por seus pr&oacute;prios est&iacute;mulos, e n&atilde;o s&oacute; por estarem sendo forjados a um tipo de programa&ccedil;&atilde;o que &eacute; meramente consumista e alienante&rdquo;.<\/p>\n<p>Neusa fala, tamb&eacute;m, sobre a pol&ecirc;mica a respeito das r&aacute;dios piratas: &ldquo;Na verdade, n&atilde;o existem r&aacute;dios piratas. R&aacute;dio pirata &eacute; um termo usado por alguns setores da sociedade que n&atilde;o concordam com o uso do meio r&aacute;dio voltado para o interesse das comunidades&rdquo;. E arremata: &ldquo;H&aacute; uma confus&atilde;o muito grande nesse sentido, e as emissoras comerciais fazem isso com o prop&oacute;sito de boicote, porque n&atilde;o h&aacute; interesse de que a popula&ccedil;&atilde;o seja realmente bem informada&rdquo;. O papel do jornalista como agente social transformador, que une quest&otilde;es de interesse social com quest&otilde;es de sua forma&ccedil;&atilde;o e aspectos tecnol&oacute;gicos, &eacute; outro ponto discutido na entrevista concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos &ndash; IHU.<\/p>\n<p>Por mais de vinte anos atuando como jornalista, Neusa trabalhou em r&aacute;dios locais, comerciais e jornais em Porto Alegre. Morou por dois anos em S&atilde;o Paulo, onde trabalhou na <\/em><span style=\"font-style: normal\">Folha de S. Paulo<\/span><em>, <\/em><span style=\"font-style: normal\">O Estado de S. Paulo<\/span><em>, na R&aacute;dio Eldorado e algumas ag&ecirc;ncias de comunica&ccedil;&atilde;o. Especializou-se em comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria fazendo assessoria a sindicatos de trabalhadores, interessando-se especialmente por r&aacute;dios comunit&aacute;rias. &Eacute; professora universit&aacute;ria desde 2001. Atualmente, ensina na Feevale. Graduou-se em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), &eacute; mestre e doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o pela Unisinos, com a tese &ldquo;A media&ccedil;&atilde;o das mulheres na constitui&ccedil;&atilde;o das redes informais de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista.<\/em><\/p>\n<p><strong>O que muda com o projeto do governo encaminhado ao Congresso para descriminalizar r&aacute;dios comunit&aacute;rias ao acabar com a pena de pris&atilde;o para quem for flagrado operando sem autoriza&ccedil;&atilde;o?<\/strong><br \/>De maneira geral, muda a perspectiva do uso do meio r&aacute;dio comunit&aacute;rio e da responsabilidade de quem gerencia o processo e executa, realmente, um trabalho voltado para as diferentes comunidades com o uso da r&aacute;dio e com a inten&ccedil;&atilde;o de realmente realizar algo para o desenvolvimento dessas comunidades que t&ecirc;m r&aacute;dios instaladas. Se houver uma caracteriza&ccedil;&atilde;o nesse processo de um efetivo desenvolvimento com o uso da r&aacute;dio, realmente faz sentido essa descriminaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>A Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Emissoras de R&aacute;dio e TV (ABERT) disse que o projeto incentiva r&aacute;dios piratas. Isso tem fundamento?<br \/><\/strong>A luta &eacute; permanente. A Associa&ccedil;&atilde;o Ga&uacute;cha de Emissoras de R&aacute;dio e Televis&atilde;o (AGERT) &eacute; completamente contra esse projeto. H&aacute; um posicionamento pol&iacute;tico e comercial a respeito do processo. &Eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o dada e clara dos empres&aacute;rios de comunica&ccedil;&atilde;o. Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o nacional sendo implementada para o benef&iacute;cio, ou para que os procedimentos com o uso das r&aacute;dios comunit&aacute;rias sejam efetivamente regulamentos, esta quest&atilde;o da indu&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o de r&aacute;dios piratas &eacute; uma vis&atilde;o muito parcial dos empres&aacute;rios. Na verdade, n&atilde;o existem r&aacute;dios piratas. R&aacute;dio pirata &eacute; um termo usado por alguns setores da sociedade que n&atilde;o concordam com o uso do meio r&aacute;dio voltado para o interesse das comunidades. Na verdade, h&aacute; uma legisla&ccedil;&atilde;o que caracteriza esse processo, que est&aacute; sendo regulamentada desde 1998. Trata-se da Lei 9.612. Essa lei est&aacute; dada e, at&eacute; hoje, n&atilde;o foi totalmente regulamentada em fun&ccedil;&atilde;o da press&atilde;o dos empres&aacute;rios. <br \/>Quando se fala em ilegalidade nas r&aacute;dios, num processo que n&atilde;o &eacute; abra&ccedil;ado por determinados setores sociais com o uso das r&aacute;dios comunit&aacute;rias, h&aacute; um exagero e um uso indevido dos termos. O termo adequado &eacute; r&aacute;dio comunit&aacute;ria, para qualquer uso do meio r&aacute;dio. O termo r&aacute;dio-pirata &eacute; pejorativo para o processo, que tenta confundir a popula&ccedil;&atilde;o com a adequa&ccedil;&atilde;o do uso das r&aacute;dios comunit&aacute;rias. H&aacute; um procedimento geral, cultural, inclusive, que n&atilde;o reconhece o processo das r&aacute;dios comunit&aacute;rias como um elemento leg&iacute;timo para o desenvolvimento de determinadas comunidades que utilizam o meio como algo necess&aacute;rio para o aumento de conhecimentos e para seu crescimento em si. <\/p>\n<p><strong>Que mudan&ccedil;as seriam necess&aacute;rias na legisla&ccedil;&atilde;o das r&aacute;dios comunit&aacute;rias? Ainda existe uma heran&ccedil;a autorit&aacute;ria na legisla&ccedil;&atilde;o atual?<\/strong><br \/>Eu n&atilde;o diria uma heran&ccedil;a autorit&aacute;ria. Penso que h&aacute;, isso sim, diferentes equ&iacute;vocos pol&iacute;ticos criados e constitu&iacute;dos pelos pr&oacute;prios legisladores, que s&atilde;o detentores de canais, emissoras comerciais. Temos, no Congresso Nacional, uma grande maioria de deputados federais e senadores, que s&atilde;o propriet&aacute;rios de r&aacute;dios comerciais. Esse lobby, e essa pretensa legalidade que buscamos, efetivamente, ou que as emissoras comunit&aacute;rias buscam, entravam nesses procedimentos pol&iacute;ticos que s&atilde;o &ldquo;manuse&aacute;veis&rdquo; no Congresso. Penso que o que acontece &eacute; que h&aacute;, realmente, entraves colocados pela disputa. O que est&aacute; mesmo em discuss&atilde;o &eacute; a hegemonia da audi&ecirc;ncia. Quando se fala em disputa de r&aacute;dios comerciais com r&aacute;dios comunit&aacute;rias se fala na disputa da hegemonia da audi&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, o sentido efetivo &eacute; de uma audi&ecirc;ncia das r&aacute;dios comunit&aacute;rias se formando atrav&eacute;s de uma programa&ccedil;&atilde;o mais educativa, cultural, menos comercial no sentido da padroniza&ccedil;&atilde;o e da pasteuriza&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos que s&atilde;o colocados nas suas programa&ccedil;&otilde;es. H&aacute; uma s&eacute;rie de elementos que disputam o conte&uacute;do e a forma&ccedil;&atilde;o intelectual do ouvinte. No caso das emissoras comerciais, &eacute; l&oacute;gico que h&aacute; a quest&atilde;o dos espa&ccedil;os comerciais, que nesse caso est&atilde;o forjando uma audi&ecirc;ncia voltada essencialmente para o consumo de produtos. Essa quest&atilde;o do embate que se d&aacute; vem atrav&eacute;s desses procedimentos. Uma legisla&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o est&aacute; totalmente regulamentada e que n&atilde;o se coaduna com todas as possibilidades das emissoras comunit&aacute;rias estarem a pleno funcionamento para o interesse e desenvolvimento dessas comunidades ocorre em fun&ccedil;&atilde;o de todo esse sistema instaurado. <br \/>O que se deveria melhorar na legisla&ccedil;&atilde;o? A&iacute; caberia aos movimentos sociais e &agrave;s comunidades interessadas buscar essas discuss&otilde;es em seus pr&oacute;prios nichos de organiza&ccedil;&atilde;o. Na medida em que as emissoras comunit&aacute;rias s&atilde;o enfraquecidas legislativamente, em Bras&iacute;lia, com toda essa discuss&atilde;o e aparato, o pr&oacute;prio movimento social se retrai e acaba n&atilde;o conseguindo alcan&ccedil;ar um status de poder, que poderia possuir, para olhar suas pr&oacute;prias necessidades usando a comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria como instrumento de desenvolvimento local. Nesses casos, sim, h&aacute; uma evas&atilde;o de energia das comunidades, que acabam se desinteressando por essas quest&otilde;es. As emissoras comunit&aacute;rias ficam, assim, na m&atilde;o de quem n&atilde;o deveriam ficar &ndash; os pr&oacute;prios legisladores, que s&atilde;o propriet&aacute;rios de emissoras. Penso que h&aacute; elementos importantes na discuss&atilde;o final da legisla&ccedil;&atilde;o, como a amplitude do espa&ccedil;o eletromagn&eacute;tico, das antenas, da localiza&ccedil;&atilde;o, da transmiss&atilde;o do raio da antena. H&aacute; elementos a&iacute; que s&atilde;o concretos na legisla&ccedil;&atilde;o, provados &ldquo;por A mais B&rdquo; de que h&aacute; restri&ccedil;&otilde;es graves. Mas quem deve fazer essas discuss&otilde;es s&atilde;o as pr&oacute;prias comunidades, que devem se beneficiar desse tipo de emissoras.<\/p>\n<p><strong>Qual seria a fun&ccedil;&atilde;o social do r&aacute;dio no Brasil?<\/strong><br \/>A fun&ccedil;&atilde;o social do r&aacute;dio no Brasil continua sendo essencial na troca de conhecimentos entre diferentes comunidades, na medida em que n&oacute;s ainda temos uma popula&ccedil;&atilde;o alijada de determinadas inst&acirc;ncias dos saberes, sejam universit&aacute;rios, sejam de n&iacute;veis intelectuais um pouco mais desenvolvidos. O r&aacute;dio continua tendo grande import&acirc;ncia para as comunidades que vivem nessas condi&ccedil;&otilde;es, com dificuldades de acesso a sistemas mais tecnol&oacute;gicos. Sabemos que a grande massa da popula&ccedil;&atilde;o ainda tem dificuldade de acesso a computadores, internet, processos de globaliza&ccedil;&atilde;o. Isso ainda existe no Brasil. O r&aacute;dio tem uma efici&ecirc;ncia na divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es para a grande maioria da popula&ccedil;&atilde;o, inclusive aquela que n&atilde;o tem acesso a meios mais desenvolvidos. Por outro lado, com o avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico t&atilde;o acelerado, em contrapartida a essas dificuldades que apontamos, acredito que o r&aacute;dio &eacute; essencial porque &eacute; uma m&iacute;dia que interv&eacute;m muito rapidamente na transmiss&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o. Essa presen&ccedil;a do r&aacute;dio em locais onde ainda a TV n&atilde;o alcan&ccedil;a, onde o computador e a internet n&atilde;o chegaram, &eacute; fant&aacute;stica para o desenvolvimento das comunidades. <br \/>Por mais que se transformem a tecnologia, que haja avan&ccedil;os e desenvolvimentos com o uso do r&aacute;dio digital, que vem por a&iacute;, mais se acelera um processo de apropria&ccedil;&atilde;o que deveria estar na m&atilde;o da pr&oacute;pria popula&ccedil;&atilde;o. H&aacute; um contraste nisso, porque continuam a acontecer concess&otilde;es de emissoras para determinados grupos, como um empresariado que &eacute; dominador economicamente. Existe uma dificuldade de se estabelecer uma troca no processo de concess&otilde;es das emissoras em Bras&iacute;lia. H&aacute; um processo muito lento de nosso governo federal, que infelizmente n&atilde;o favorece a implanta&ccedil;&atilde;o dessas emissoras comunit&aacute;rias com mais est&iacute;mulo e apropria&ccedil;&atilde;o por parte de suas comunidades.<\/p>\n<p><strong>E essa fun&ccedil;&atilde;o social est&aacute; sendo cumprida?<\/strong><br \/>De certa forma, est&aacute; sendo cumprida na medida em que, bem ou mal, o r&aacute;dio est&aacute; no ar. As emissoras est&atilde;o funcionando, s&oacute; que com aquela caracter&iacute;stica mais voltada aos interesses da popula&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Segundo a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de R&aacute;dios Comunit&aacute;rias (ABRA&Ccedil;O), pelo menos uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria &eacute; fechada por dia. Por que essas r&aacute;dios s&atilde;o t&atilde;o perseguidas e oprimidas?<br \/><\/strong>O processo de discuss&atilde;o do uso da emissora comercial em contrapartida &agrave;s emissoras comunit&aacute;rias &eacute; muito forte, bem como o processo de disputa. E essa disputa se d&aacute; n&atilde;o apenas pelos elementos mais simplistas, como a hist&oacute;ria de que as r&aacute;dios comunit&aacute;rias atuam negativamente, ou que a sua tecnologia atinge a avia&ccedil;&atilde;o nacional. Tecnicamente falando, isso &eacute; um absurdo. N&atilde;o h&aacute; nada que comprove que uma onda sonora interfira numa queda de aeronave. S&atilde;o faixas de transmiss&atilde;o diferenciadas. O que haver em uma cabine de avi&atilde;o &eacute; a possibilidade de captura de ondas sonoras de diferentes inst&acirc;ncias, que n&atilde;o vem apenas de r&aacute;dios comunit&aacute;rias. H&aacute; uma confus&atilde;o muito grande nesse sentido, e as emissoras comerciais fazem isso com o prop&oacute;sito de boicote, porque n&atilde;o h&aacute; interesse de que a popula&ccedil;&atilde;o seja realmente bem informada. Essa &eacute; a discuss&atilde;o maior. A disputa se d&aacute; por uma ampla audi&ecirc;ncia. <br \/>Enquanto houver uma programa&ccedil;&atilde;o pasteurizada, com &ldquo;musiquinhas&rdquo; comerciais, americanas, ou do Brasil, que pegam o &ldquo;hit&rdquo; nacional de um cantorzinho da moda, e n&atilde;o houver a possibilidade de uma discuss&atilde;o sobre isso, num outro campo, mesmo na programa&ccedil;&atilde;o de uma r&aacute;dio comunit&aacute;ria, isso se caracteriza como um lobby forte de manipula&ccedil;&atilde;o sobre a popula&ccedil;&atilde;o. Se dermos esse tipo de programa&ccedil;&atilde;o permanentemente aos jovens, eles acabar&atilde;o assimilando um gosto cultural e musical nesse formato. Mas se dermos uma programa&ccedil;&atilde;o variada, que fale de cultura geral, de m&uacute;sicas do mundo, do folclore nacional, dos outros pa&iacute;ses, de uma hist&oacute;ria musical brasileira, estaremos oferecendo uma forma&ccedil;&atilde;o intelectual aberta, pass&iacute;vel de discuss&atilde;o de conhecimentos com mais sabedoria. As pessoas ir&atilde;o buscar o conhecimento por seus pr&oacute;prios est&iacute;mulos, e n&atilde;o s&oacute; por estarem sendo forjados a um tipo de programa&ccedil;&atilde;o que &eacute; meramente consumista e alienante. <\/p>\n<p><strong>Em que sentido as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o uma express&atilde;o e exig&ecirc;ncia pela liberdade de comunica&ccedil;&atilde;o e, consequentemente, por mais democracia?<br \/><\/strong>Essa &eacute; a grande quest&atilde;o. Na medida em que se abrem as portas para discuss&otilde;es desses &acirc;mbitos, em que podemos, abertamente, falar sobre o que &eacute; a m&iacute;dia no Brasil hoje, numa programa&ccedil;&atilde;o de r&aacute;dio, por exemplo; se tivermos um grupo de discuss&atilde;o numa r&aacute;dio comunit&aacute;ria que discuta sobre a m&iacute;dia local, esse &eacute; um processo democr&aacute;tico importante. Esse processo d&aacute; ao cidad&atilde;o a no&ccedil;&atilde;o de que ele &eacute; um ser que tem direito de opinar e pensar sobre o que lhe &eacute; colocado &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o nesse formato de programa&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica. Isso &eacute; democracia, isso &eacute; reconhecer a sabedoria do cidad&atilde;o que faz parte de um processo democr&aacute;tico e que constr&oacute;i a sua realidade com os seus saberes. E, na medida em que esse cidad&atilde;o vai descobrindo tais caminhos, se torna uma pessoa com muito mais possibilidade de definir o que &eacute; melhor para ele na quest&atilde;o pol&iacute;tica, inclusive. Ele ter&aacute; acesso a mais conhecimento, a mais estudos, condi&ccedil;&otilde;es de poder opinar e ter o dom&iacute;nio de sua pr&oacute;pria vida, diferente de uma quest&atilde;o que lhe &eacute; imposta, dada, manipulada, e na qual ele deve pensar daquele jeito.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido as r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o chave para aumentar a inclus&atilde;o social em nosso pa&iacute;s?<br \/><\/strong>Sem d&uacute;vida. As r&aacute;dios comunit&aacute;rias s&atilde;o instrumentos de democracia que podem contribuir no desenvolvimento das comunidades locais. H&aacute; experi&ecirc;ncias no mundo inteiro, sobretudo na Am&eacute;rica Latina, nas regi&otilde;es andinas, do Equador, Chile, Venezuela, com emissoras comunit&aacute;rias em que as comunidades aprendem a lidar com seus processos de comunica&ccedil;&atilde;o de uma forma em que isso venha a melhorar a qualidade de vida dessas comunidades. Ent&atilde;o, essas experi&ecirc;ncias, desde as r&aacute;dios mineiras da Bol&iacute;via, em 1948, s&atilde;o experi&ecirc;ncias que tem um registro hist&oacute;rico que, bem ou mal, tem se consolidado ao longo dos processos de comunica&ccedil;&atilde;o de diferentes pa&iacute;ses e diferentes comunidades. No Brasil, temos muitas dificuldades por uma legisla&ccedil;&atilde;o engessada em alguns conceitos, alguns processos voltados e mais vinculados a essas quest&otilde;es das r&aacute;dios comerciais.<\/p>\n<p><strong>Que exemplos de r&aacute;dios comunit&aacute;rias significativas a senhora citaria no Brasil?<br \/><\/strong>N&atilde;o podemos deixar de falar na R&aacute;dio Favela, de Belo Horizonte, que ganhou pr&ecirc;mio da ONU. &Eacute; uma emissora que, desde 1983, atua muito fortemente junto &agrave; comunidade da Serrinha. Ela fez hist&oacute;ria. H&aacute; um filme que foi baseado na R&aacute;dio Favela: Uma onda no ar. No Rio de Janeiro h&aacute; outras r&aacute;dios comunit&aacute;rias importantes, algumas delas recentemente fechadas. Cito a r&aacute;dio Novos Rumos, uma emissora que lutou muito contra o fechamento. Em S&atilde;o Paulo h&aacute; v&aacute;rias outras importantes.<\/p>\n<p><strong>E qual &eacute; a import&acirc;ncia da forma&ccedil;&atilde;o do jornalista no aprofundamento de um fazer comunit&aacute;rio de comunica&ccedil;&atilde;o?<br \/><\/strong>Penso que &eacute; um dado fundamental que, nos processos de ensino dos cursos de comunica&ccedil;&atilde;o hoje, as emissoras comunit&aacute;rias s&atilde;o colocadas em disciplinas que s&atilde;o de modelo optativo para o estudante. Eu considero isso algo de um sentido bastante equivocado nos curr&iacute;culos escolares porque, se falarmos de comunica&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria, falamos em comunica&ccedil;&atilde;o social, e quando falamos de comunica&ccedil;&atilde;o social trata-se de comunica&ccedil;&atilde;o social para a sociedade, e com a sociedade. Um estudante de jornalismo que se forma hoje tem muito pouca no&ccedil;&atilde;o desses processos sociais que envolvem o desenvolvimento local e a a&ccedil;&atilde;o do jornalismo especificamente voltada para esses interesses da sociedade. Temos um ensino que visa a forma&ccedil;&atilde;o do jornalista, mas com um cunho mais generalista, e n&atilde;o com um cunho mais aprofundado para as diferentes comunidades. <br \/>Como professora universit&aacute;ria h&aacute; nove anos, e trabalhando com essa disciplina, penso que devemos formar um estudante e um jornalista com um olhar e perspectivas sociais, de seu crescimento, olhando a sociedade e desenvolvendo um processo profissional em que ele atue com esta perspectiva, valorizando as quest&otilde;es sociais. Isso &eacute; uma refer&ecirc;ncia muito importante no processo de forma&ccedil;&atilde;o do jornalista. <br \/>O jornalista &eacute;, hoje, mais do que nunca, um agente social transformador, e neste caso, tem que aprender a associar as quest&otilde;es de interesse social com as quest&otilde;es de sua forma&ccedil;&atilde;o e os aspectos tecnol&oacute;gicos que est&atilde;o sendo ofertados no mercado. Essas ferramentas devem servir ao desenvolvimento da sociedade, e n&atilde;o ao desenvolvimento de grupos de empres&aacute;rios que acabam manipulando e detendo o poder dessas quest&otilde;es. &Eacute; preciso olhar agu&ccedil;ado para as quest&otilde;es sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora refor\u00e7a legitimidade de emissoras<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[988],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22560"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22560"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22560\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}