{"id":22531,"date":"2009-02-17T16:11:37","date_gmt":"2009-02-17T16:11:37","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22531"},"modified":"2009-02-17T16:11:37","modified_gmt":"2009-02-17T16:11:37","slug":"a-confissao-de-sarney-e-a-cassacao-que-devemos-cobrar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22531","title":{"rendered":"A confiss\u00e3o de Sarney e a cassa\u00e7\u00e3o que devemos cobrar"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">Imortal, talvez. Infal&iacute;vel, certamente n&atilde;o. Fisgado em grampo da Pol&iacute;cia Federal em conversa com seu filho, Fernando Sarney, o senador do Amap&aacute; &ndash; ou o quarto senador do Maranh&atilde;o &ndash; confessa o &oacute;bvio n&atilde;o assumido: as emissoras de televis&atilde;o e r&aacute;dio, bem como os jornais e todo e qualquer ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o, servem de batalh&atilde;o de elite na guerra pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>&ldquo;Vamos botar isso na TV&rdquo;. Sint&eacute;tico, o presidente do Senado se refere a uma den&uacute;ncia de corrup&ccedil;&atilde;o contra Aderson Lago, tucano que comanda, de fato, o governo do Maranh&atilde;o. Aderson, primo do governador Jackson Lago, enquanto deputado estadual, destacou-se pela oposi&ccedil;&atilde;o ferrenha ao sarne&iacute;smo durante os dois mandatos da governadora Roseana Sarney (1995-1998 e 1999-2002). Vale o registro, por&eacute;m, que o mesmo Aderson Lago j&aacute; teve abrigo cativo na fam&iacute;lia real do Maranh&atilde;o.<\/p>\n<p>Entretanto, o que nos interessa aqui, mais do que os elementos e o m&eacute;rito da disputa, &eacute; a confiss&atilde;o expl&iacute;cita de Jos&eacute; Sarney revelando o uso pol&iacute;tico de uma concess&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o, no seu artigo 54, &eacute; inequ&iacute;voca quanto &agrave; proibi&ccedil;&atilde;o de parlamentares serem concession&aacute;rios de r&aacute;dio e TV:<\/p>\n<p>&ldquo;Os Deputados e Senadores n&atilde;o poder&atilde;o:<br \/>I &#8211; desde a expedi&ccedil;&atilde;o do diploma:<br \/>a) firmar ou manter contrato com pessoa jur&iacute;dica de direito p&uacute;blico, autarquia, empresa p&uacute;blica, sociedade de economia mista ou empresa concession&aacute;ria de servi&ccedil;o p&uacute;blico, salvo quando o contrato obedecer a cl&aacute;usulas uniformes;<br \/>[&#8230;]<br \/>II &#8211; desde a posse:<br \/>a) ser propriet&aacute;rios, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jur&iacute;dica de direito p&uacute;blico, ou ela exercer fun&ccedil;&atilde;o remunerada.&rdquo;<\/p>\n<p>A essa veda&ccedil;&atilde;o objetiva, somam-se os princ&iacute;pios gerais da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, listados no artigo 37 da Carta Magna:<\/p>\n<p>&ldquo;A administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica direta e indireta de qualquer dos Poderes da Uni&atilde;o, dos Estados, do Distrito Federal e dos Munic&iacute;pios obedecer&aacute; aos princ&iacute;pios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e efici&ecirc;ncia (&#8230;)&rdquo;.<\/p>\n<p>E tanto a Constitui&ccedil;&atilde;o quanto o C&oacute;digo Brasileiro de Telecomunica&ccedil;&otilde;es determinam a subordina&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e TV &agrave;s finalidades &ndash; educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas &ndash; que atendam ao interesse p&uacute;blico da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Ao confessar, incauto, a conduta em que se vale de uma concess&atilde;o do Estado para obter favorecimento pol&iacute;tico de car&aacute;ter pessoal, o ex-presidente da Rep&uacute;blica e dirigente m&aacute;ximo da institui&ccedil;&atilde;o que elabora as leis do pa&iacute;s refor&ccedil;a a constata&ccedil;&atilde;o de que o Estado n&atilde;o &eacute; neutro e tampouco a Justi&ccedil;a &eacute; cega.<\/p>\n<p>A fam&iacute;lia Sarney, embora destronada do governo estadual ap&oacute;s quatro d&eacute;cadas de dom&iacute;nio, controla n&atilde;o apenas os principais meios de comunica&ccedil;&atilde;o do estado mais indigente do pa&iacute;s. O Judici&aacute;rio maranhense, por exemplo, est&aacute; profundamente atado &agrave;s redes de rela&ccedil;&otilde;es de poder tecidas desde que Jos&eacute; Sarney derrotou a oligarquia comandada por Vitorino Freire, em 1965.<\/p>\n<p>Jamais a hegemonia do cl&atilde; Sarney esteve t&atilde;o amea&ccedil;ada quanto no momento atual. Derrotado nas urnas na elei&ccedil;&atilde;o de 2006 e praticamente varrido das principais cidades maranhenses em 2008, tem os neg&oacute;cios investigados a fundo pela PF e pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (MPF). Fernando Sarney &eacute; acusado de crimes contra o sistema financeiro, forma&ccedil;&atilde;o de quadrilha, falsidade ideol&oacute;gica, fraude em licita&ccedil;&atilde;o, lavagem de dinheiro e evas&atilde;o de divisas, entre outros delitos, e teve pris&atilde;o preventiva solicitada pelo MPF. Atacado duramente at&eacute; por publica&ccedil;&otilde;es conservadoras, como as revistas <em>The Economist <\/em>e <em>Veja <\/em>(atrav&eacute;s de um colega de partido, o senador Jarbas Vasconcelos) e denunciado pela <em>Folha de S. Paulo<\/em>, ve&iacute;culo no qual assina coluna semanal, o patriarca Sarney pode ter na dire&ccedil;&atilde;o do Senado menos uma prova de for&ccedil;a do que um derradeiro e incerto respiro. A conferir.<\/p>\n<p>Na lista hist&oacute;rica de confiss&otilde;es desse tipo, n&atilde;o esque&ccedil;amos o que disse o nosso sumo magnata da m&iacute;dia. Em 1987, <em>The New York Times <\/em>publicou entrevista com Roberto Marinho, t&atilde;o reveladora do seu pensamento quanto pouco conhecida do grande p&uacute;blico:<\/p>\n<p>&ldquo;Sim, eu uso o poder [da Rede Globo], mas eu sempre fa&ccedil;o isso patrioticamente, tentando corrigir as coisas (&#8230;). N&oacute;s gostar&iacute;amos de ter poder para consertar tudo o que n&atilde;o funciona no Brasil. N&oacute;s dedicamos todo o nosso poder para isso. Se o poder &eacute; usado para desarticular um pa&iacute;s, para destruir seus costumes, ent&atilde;o, isso n&atilde;o &eacute; bom. Mas se &eacute; usado para melhorar as coisas, como n&oacute;s fazemos, isso &eacute; bom&rdquo;. (Citado em: &ldquo;M&iacute;dia: Teoria Pol&iacute;tica&rdquo;, de Ven&iacute;cio Lima, Ed. Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2001.)<\/p>\n<p>Em 2005, como lembra o professor Ven&iacute;cio Arthur de Lima em artigo no <em>Observat&oacute;rio da Imprensa<\/em>, Sarney cunhou uma m&aacute;xima que resume a rela&ccedil;&atilde;o entre pol&iacute;ticos e m&iacute;dia no Brasil: &ldquo;Se n&atilde;o fossemos pol&iacute;ticos, n&atilde;o ter&iacute;amos necessidade de ter meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, registrado em <em>Carta Capital <\/em>(n&ordm; 369, de 23\/11\/2005).<\/p>\n<p>Na conversa flagrada pela PF, divulgada semanas atr&aacute;s, Sarney economizou nas palavras, mas n&atilde;o deixou d&uacute;vidas quanto a uma das finalidades da sua emissora de televis&atilde;o. <\/p>\n<p>Diante de tal declara&ccedil;&atilde;o de culpa, o m&iacute;nimo que se pode esperar das autoridades &eacute; a cassa&ccedil;&atilde;o da concess&atilde;o da TV Mirante (anagrama de mentira), afiliada da Rede Globo.<\/p>\n<p>Como bem apontou a revista inglesa, Sarney representa o mais aut&ecirc;ntico dinossauro pol&iacute;tico do pa&iacute;s. &Eacute; sin&ocirc;nimo do atraso e do fisiologismo. A ren&uacute;ncia do posto rec&eacute;m-assumido no Senado seria a conseq&uuml;&ecirc;ncia esperada, desejada e, ademais, l&oacute;gica, embora, na pol&iacute;tica, esse termo n&atilde;o tenha muito sentido.<\/p>\n<p><em>* Rog&eacute;rio Tomaz Jr.  &eacute; jornalista formado pela Universidade Federal do Maranh&atilde;o (UFMA), membro do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imortal, talvez. Infal&iacute;vel, certamente n&atilde;o. 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