{"id":22481,"date":"2009-02-06T17:33:11","date_gmt":"2009-02-06T17:33:11","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22481"},"modified":"2009-02-06T17:33:11","modified_gmt":"2009-02-06T17:33:11","slug":"conferencia-nacional-de-comunicacao-a-batalha-pela-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22481","title":{"rendered":"Confer\u00eancia Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o: A batalha pela Democracia"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t     <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Num tipo de realidade pol&iacute;tico-social fragment&aacute;ria e entr&oacute;pica como esta em que vivemos hoje, cada um se achar&aacute; no direito de considerar algo que lhe toca de perto como aquilo que de mais importante aconteceu no F&oacute;rum Social Mundial 2009. Mas como, na din&acirc;mica hist&oacute;rica, h&aacute; processos que se imp&otilde;em a outros e, s&oacute; por isto, o processo avan&ccedil;a, certamente dois ou tr&ecirc;s eventos ser&atilde;o percebidos como aqueles que caracterizaram este F&oacute;rum. Dentre estes, sem d&uacute;vida alguma, o an&uacute;ncio, pelo presidente Lula, da realiza&ccedil;&atilde;o da I Confer&ecirc;ncia Nacional de Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Lula foi muito feliz ao escolher o espa&ccedil;o do F&oacute;rum para fazer seu an&uacute;ncio, refor&ccedil;ado por uma entrevista &agrave; imprensa do secret&aacute;rio-geral da Presid&ecirc;ncia, Luis Dulci, e por uma conversa da ministra Dilma Roussef, com lideran&ccedil;as do encontro. Diante dos movimentos sociais organizados, o governo, por diferentes vozes, comprometeu-se em levar &agrave; frente esta decisiva reivindica&ccedil;&atilde;o do movimento popular.<\/p>\n<p>Decisiva, por que? Porque o avan&ccedil;o e aprofundamento da democracia, num pa&iacute;s como o Brasil, n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel sem um reordenamento geral do sistema brasileiro de comunica&ccedil;&otilde;es que favore&ccedil;a &agrave; multiplica&ccedil;&atilde;o e diversifica&ccedil;&atilde;o do poder de dizer e do direito de escolher o que ler, ver ou ouvir. O processo que ora se inicia n&atilde;o dever&aacute; ter por alvo simplista, enfraquecer ou desmontar o sistema comercial de comunica&ccedil;&otilde;es, mas, sim, fomentar, fortalecer, consolidar os sistemas n&atilde;o-comerciais de comunica&ccedil;&otilde;es, as publica&ccedil;&otilde;es, emissoras, portais, s&iacute;tios ou blogs que prestem servi&ccedil;o ao p&uacute;blico, na sua diversidade, n&atilde;o sendo e n&atilde;o podendo, por isto, serem sustentados por an&uacute;ncios publicit&aacute;rios, nem servirem &agrave; ideologia do mercado.<\/p>\n<p>O comprometimento p&uacute;blico do Governo com a Confer&ecirc;ncia, coloca os movimentos populares diante de uma enorme responsabilidade: fazer propostas. J&aacute; n&atilde;o se trata mais de lutar pela Confer&ecirc;ncia e de denunciar a enorme quantidade de absurdos legais e morais que caracterizam as comunica&ccedil;&otilde;es brasileiras no presente momento. Existe uma infinitude de demandas reprimidas que, agora, precisar&atilde;o ser ordenadas, priorizadas, sistematizadas em um projeto s&oacute;lido para ser levado ao debate, seja com o campo comercial, seja com a pr&oacute;pria sociedade. A &ldquo;costura&rdquo; desse projeto vai requerer um enorme esfor&ccedil;o de negocia&ccedil;&atilde;o, de articula&ccedil;&atilde;o, de composi&ccedil;&atilde;o, sem o qu&ecirc; o resultado mesmo da Confer&ecirc;ncia poder&aacute; acabar sendo a frustra&ccedil;&atilde;o de muitos.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao menos em princ&iacute;pio, a Confer&ecirc;ncia tem um limitador: a Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira. A n&atilde;o ser que se possa avan&ccedil;ar uma discuss&atilde;o que ponha em quest&atilde;o a pr&oacute;pria Constitui&ccedil;&atilde;o, o debate estar&aacute; subordinado aos artigos 5, inciso IX; 21, inciso XI e XII; e 220 a 224 da Constitui&ccedil;&atilde;o. Como sabemos, muitas dessas cl&aacute;usulas foram modificadas durante o governo Cardoso, resultando neste atual dromed&aacute;rio que trai completamente o resultado de um trabalho constitucional efetivamente realizado pelo povo, atrav&eacute;s das suas muitas representa&ccedil;&otilde;es, como lembrar&aacute; qualquer um que tenha estado presente &agrave;s memor&aacute;veis jornadas legislativas de 1987-88.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso n&atilde;o esquecer uma li&ccedil;&atilde;o chave daquele processo: nas Comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o existe acordo. A Constituinte foi organizada de baixo para cima: subcomiss&otilde;es de deputados e senadores elaboravam ante-projetos setoriais espec&iacute;ficos; estes ante-projetos eram rediscutidos e sistematizados numa comiss&atilde;o mais ampla, reunindo um grupo de subcomiss&otilde;es afins. Destas, um novo ante-projeto setorial mais abrangente subia para a Comiss&atilde;o de Sistematiza&ccedil;&atilde;o, onde um grupo de parlamentares elaborava, respeitando os ante-projetos que lhe chegavam, o verdadeiro ante-projeto da Constitui&ccedil;&atilde;o, a ser finalmente discutido e votado por todos os constituintes, em sucessivas se&ccedil;&otilde;es plen&aacute;rias.<\/p>\n<p>Na subcomiss&atilde;o de Comunica&ccedil;&otilde;es, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, o relat&oacute;rio elaborado pela deputada Cristina Tavares n&atilde;o foi votado. Irritada com as manobras dos deputados pefelistas (hoje, os Demos), ela e a bancada democr&aacute;tica e popular se retiraram da sala de reuni&otilde;es. O relat&oacute;rio aprovado foi votado apenas por um grupo de parlamentares. Na Comiss&atilde;o que reuniu Comunica&ccedil;&otilde;es, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Educa&ccedil;&atilde;o, Fam&iacute;lia (e outros t&oacute;picos), a briga foi ainda mais dura: sendo imposs&iacute;vel um m&iacute;nimo consenso sobre as comunica&ccedil;&otilde;es, a Comiss&atilde;o simplesmente n&atilde;o apresentou qualquer relat&oacute;rio. Encerrou seus trabalhos, em fun&ccedil;&atilde;o de prazos improrrog&aacute;veis, sem ter elaborado a sua proposta de projeto, inclusive nos demais t&oacute;picos. Assim, sem algum documento formal no qual pudesse se apoiar, a Sistematiza&ccedil;&atilde;o p&ocirc;de recuperar o ante-projeto de Cristina Tavares e inseri-lo, com algumas capciosas mudan&ccedil;as, no texto constitucional final.<\/p>\n<p>Uma dessas mudan&ccedil;as, enviava para o artigo 21, que trata das &ldquo;compet&ecirc;ncias da Uni&atilde;o&rdquo;, o ordenamento b&aacute;sico da explora&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;servi&ccedil;os de telecomunica&ccedil;&otilde;es&rdquo; e, separadamente, da dos &ldquo;servi&ccedil;os de radiodifus&atilde;o&rdquo;. Assim, o tratamento do campo das comunica&ccedil;&otilde;es foi segmentado em dois ramos com distintos tratamentos: telefonia, inclusive, celular, de um lado; r&aacute;dio e TV, de outro. Como fica a internet? E a TV por assinatura? E a TV digital? No rigor da lei magna, ressalvada muita criatividade jur&iacute;dica da qual, ali&aacute;s, este pa&iacute;s &eacute; pr&oacute;digo, est&atilde;o no limbo constitucional. No entanto, &agrave;quela &eacute;poca j&aacute; se sabia que novas tecnologias digitais de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o (TICs) estavam a caminho, e que a converg&ecirc;ncia empresarial-tecnol&oacute;gica (CTE) desenhava-se no horizonte. Por isto mesmo, tratou-se, j&aacute; ent&atilde;o, de separar os setores, assim se resguardando interesses cristalizados&#8230;<\/p>\n<p>O outro dispositivo nascido desse conturbado processo, inventou um sistema p&uacute;blico de comunica&ccedil;&otilde;es, distinto do estatal e do privado &ndash; proposta esta que n&atilde;o se encontrava no relat&oacute;rio da deputada Cristina Tavares. Assim, sugeria-se que a radiodifus&atilde;o n&atilde;o seria, em princ&iacute;pio, um servi&ccedil;o p&uacute;blico, ainda que prestado por entidades privadas concession&aacute;rias. Ou seja, abria-se o caminho para a definitiva privatiza&ccedil;&atilde;o dos recursos de comunica&ccedil;&atilde;o, sobretudo e principalmente o espectro de freq&uuml;&ecirc;ncias, exceto aqueles que passariam a ser nominalmente &ldquo;p&uacute;blicos&rdquo;.<\/p>\n<p>Como o que &eacute; estatal, em princ&iacute;pio, &eacute; p&uacute;blico, e o que &eacute; p&uacute;blico acaba, de algum modo, sujeito a algum tipo de ordenamento estatal (n&atilde;o se confundindo estado com governo, como muitos fazem), tem sido um problema qualificar, definir e at&eacute; p&ocirc;r em pr&aacute;tica este conceito de &ldquo;p&uacute;blico&rdquo;, como podemos facilmente observar na pr&aacute;tica concreta desta TV p&uacute;blica criada pelo governo Lula. Alguns dizem que ela tem sido mais estatal do que p&uacute;blica. Ora, se &eacute; estatal, &eacute; p&uacute;blica. A nossa dificuldade &eacute; que nem sempre o estado brasileiro &eacute;, de fato, p&uacute;blico&#8230;<\/p>\n<p>O debate que vamos travar agora n&atilde;o poder&aacute; ignorar os avan&ccedil;os econ&ocirc;micos, sociais e tecnol&oacute;gicos dos &uacute;ltimos 20 anos. Entrar&atilde;o na agenda quest&otilde;es como, por exemplo, o modelo pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico da rec&eacute;m-introduzida TV digital. Ou sobre a dissemina&ccedil;&atilde;o das redes de banda-larga de curto alcance (Wi-Fi). Ou ainda sobre as potencialidades de um regime de espectro aberto. Se &eacute; consenso social (velho) que a telefonia precisaria ser universalizada e, para isso, se necess&aacute;rio, subsidiada, ser&aacute; necess&aacute;rio firmar consenso social (novo) sobre a universaliza&ccedil;&atilde;o da infra-estrutura de banda-larga, se necess&aacute;rio com subs&iacute;dios. Definir a banda-larga como servi&ccedil;o p&uacute;blico, mesmo que concedido a agentes privados (como, no passado, foram definidas a telefonia e a radiodifus&atilde;o) j&aacute; representar&aacute; um grande avan&ccedil;o na dire&ccedil;&atilde;o do socialismo do s&eacute;culo XXI: universalizar a telefonia significava, outrora, permitir a qualquer um conversar, por telefone, com algum outro ou outra, sempre individualmente, mas universalizar a banda-larga, logo a internet, permitir&aacute; a todo mundo dialogar com o mundo todo.<\/p>\n<p>N&atilde;o se espere, diante dessas amplas possibilidades, que os centros pol&iacute;ticos de poder que servem ao capital financeiro mundializado se desfa&ccedil;am, sem luta aberta, dos seus at&eacute; agora exclusivos meios de controle pol&iacute;tico-ideol&oacute;gico da sociedade Logo, esta ser&aacute; a Confer&ecirc;ncia que colocar&aacute; realmente em quest&atilde;o a ess&ecirc;ncia da democracia brasileira. Ela interessa, por isto, a todos os movimentos populares, a toda a sociedade, n&atilde;o apenas aos intelectuais, profissionais ou militantes que h&aacute; muito j&aacute; se empenham nesta causa pela democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es. Por isto mesmo, como em 1988, a batalha ser&aacute; muito dura.<\/p>\n<p><em>* Marcos Dantas &eacute; professor do Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o Social da PUC-Rio, doutor em Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o pela COPP-UFRJ e autor de &ldquo;A l&oacute;gica do capital-informa&ccedil;&atilde;o: da fragmenta&ccedil;&atilde;o dos monop&oacute;lios &agrave; monopoliza&ccedil;&atilde;o dos fragmentos num mundo de comunica&ccedil;&otilde;es globais&rdquo; (Ed. Contraponto).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num tipo de realidade pol&iacute;tico-social fragment&aacute;ria e entr&oacute;pica como esta em que vivemos hoje, cada um se achar&aacute; no direito de considerar algo que lhe toca de perto como aquilo que de mais importante aconteceu no F&oacute;rum Social Mundial 2009. 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