{"id":22460,"date":"2009-02-03T14:10:42","date_gmt":"2009-02-03T14:10:42","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22460"},"modified":"2009-02-03T14:10:42","modified_gmt":"2009-02-03T14:10:42","slug":"novelas-brasileiras-tem-impacto-sobre-os-comportamentos-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22460","title":{"rendered":"Novelas brasileiras t\u00eam impacto sobre os comportamentos sociais"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p>Famosas h&aacute; muito por mostrar praias maravilhosas, personagens carism&aacute;ticos e representa&ccedil;&otilde;es realistas da vida e das aspira&ccedil;&otilde;es da classe m&eacute;dia, as novelas brasileiras ajudaram a moldar as id&eacute;ias das mulheres sobre div&oacute;rcio e filhos de maneira cr&iacute;tica, segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).<\/p>\n<p>Ambos os estudos analisam o papel da televis&atilde;o e das novelas em influenciar mudan&ccedil;as significativas nas taxas de fertilidade e div&oacute;rcio no Brasil nas tr&ecirc;s &uacute;ltimas d&eacute;cadas. As taxas de fertilidade no pa&iacute;s ca&iacute;ram mais de 60% desde a d&eacute;cada de 1970 e os div&oacute;rcios aumentaram mais de cinco vezes desde a d&eacute;cada de 1980. Durante o mesmo per&iacute;odo, a presen&ccedil;a de aparelhos de televis&atilde;o teve uma eleva&ccedil;&atilde;o de mais de dez vezes, estando hoje em mais de 80% das resid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>As descobertas dos dois estudos, Novelas e Fertilidade: Evid&ecirc;ncias do Brasil, e Televis&atilde;o e Div&oacute;rcio: Evid&ecirc;ncias de Novelas Brasileiras, podem ter implica&ccedil;&otilde;es importantes para os governos de pa&iacute;ses em desenvolvimento. As autoridades desses pa&iacute;ses com freq&uuml;&ecirc;ncia t&ecirc;m dificuldade para educar a popula&ccedil;&atilde;o em quest&otilde;es sociais e de sa&uacute;de p&uacute;blica fundamentais devido &agrave; alta taxa de analfabetismo e aos n&iacute;veis limitados de circula&ccedil;&atilde;o de jornais e de acesso &agrave; internet.<\/p>\n<p>&ldquo;A televis&atilde;o desempenha um papel crucial na circula&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias, em particular em na&ccedil;&otilde;es em desenvolvimento com uma forte tradi&ccedil;&atilde;o oral, como o Brasil,&rdquo; disse o economista do BID Alberto Chong, um dos autores dos estudos. &ldquo;Os artigos sugerem que alguns programas de televis&atilde;o podem ser uma ferramenta para transmitir mensagens sociais muito importantes que ajudem, por exemplo, a lutar contra a dissemina&ccedil;&atilde;o da epidemia de Aids e promover a prote&ccedil;&atilde;o dos direitos de minorias.&rdquo;<\/p>\n<p>Os dois estudos centram-se na expans&atilde;o da Rede Globo, o maior grupo de m&iacute;dia do Brasil e a quarta maior rede de televis&atilde;o comercial do mundo. A Globo tem ampla cobertura nacional: suas transmiss&otilde;es foram expandidas para 98% dos munic&iacute;pios do pa&iacute;s na d&eacute;cada de 1990, atingindo 17,9 milh&otilde;es de resid&ecirc;ncias, em compara&ccedil;&atilde;o com praticamente zero em meados da d&eacute;cada de 1960.<\/p>\n<p>A r&aacute;pida expans&atilde;o da Globo durante esses anos e a mudan&ccedil;a acentuada de alguns indicadores sociais brasileiros oferecem um campo f&eacute;rtil para pesquisas. Os estudos realizam uma s&eacute;rie de testes econom&eacute;tricos com resultados estat&iacute;sticos consistentes. Utilizam dados demogr&aacute;ficos amplos e informa&ccedil;&otilde;es detalhadas sobre a expans&atilde;o da cobertura dos sinais de televis&atilde;o e sobre o conte&uacute;do das novelas no Brasil nas tr&ecirc;s &uacute;ltimas d&eacute;cadas.<\/p>\n<p><strong>Impacto da televis&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Os estudos mostram que a televis&atilde;o teve um papel importante na influ&ecirc;ncia das percep&ccedil;&otilde;es das mulheres sobre casamento e fam&iacute;lia de 1970 a 1991, ao lado de outros fatores bem estudados como aumento dos n&iacute;veis de instru&ccedil;&atilde;o e do acesso a contracep&ccedil;&atilde;o e algumas pol&iacute;ticas governamentais. <\/p>\n<p>O primeiro estudo encontrou que as taxas de fertilidade, ou o n&uacute;mero de nascidos vivos por mulher em idade reprodutiva, foram significativamente mais baixas em &aacute;reas do Brasil alcan&ccedil;adas pelo sinal da rede Globo do que em &aacute;reas que n&atilde;o recebiam o sinal. <\/p>\n<p>O impacto sobre o comportamento foi mais forte entre mulheres de fam&iacute;lias pobres e mulheres no meio ou no final de seus anos reprodutivos, sugerindo que a televis&atilde;o influenciou a decis&atilde;o de parar de ter filhos, e n&atilde;o de quando deveriam come&ccedil;ar a ter filhos.<\/p>\n<p>Em geral, a probabilidade de uma mulher ter um filho em &aacute;reas cobertas pelo sinal da Globo caiu 0,6 ponto percentual a mais do que em &aacute;reas sem cobertura. A magnitude do efeito &eacute; compar&aacute;vel &agrave; de um aumento de 2 anos no n&iacute;vel de escolaridade das mulheres. N&atilde;o houve impacto nas taxas de fertilidade no ano anterior &agrave; entrada do sinal da Globo.<\/p>\n<p>A exposi&ccedil;&atilde;o constante &agrave;s fam&iacute;lias menores e menos oneradas que aparecem na televis&atilde;o pode ter criado uma prefer&ecirc;ncia por ter menos filhos, disse Chong.<\/p>\n<p>A pesquisa de Chong sobre fertilidade e televis&atilde;o tamb&eacute;m revelou um impacto relacionado sobre a taxa de div&oacute;rcios. Embora os dados de apoio n&atilde;o fossem t&atilde;o amplos, Chong encontrou que a porcentagem de mulheres separadas ou divorciadas tamb&eacute;m &eacute; maior em &aacute;reas que recebem o sinal da Globo, em particular em pequenas comunidades em que uma alta propor&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o tem acesso &agrave;s transmiss&otilde;es da emissora. Essas &aacute;reas apresentaram um aumento de 0,1 a 0,2 ponto percentual na porcentagem de mulheres de 15 a 49 anos que s&atilde;o divorciadas ou separadas. O aumento &eacute; pequeno, mas estatisticamente significativo, de acordo com Chong.<\/p>\n<p>O impacto &eacute; compar&aacute;vel a um aumento de 6 meses no n&iacute;vel de instru&ccedil;&atilde;o de uma mulher, o que &eacute; um efeito muito significativo quando se leva em conta que a escolaridade m&eacute;dia das mulheres no per&iacute;odo era de 3,2 anos.<\/p>\n<p><strong>Influ&ecirc;ncia das novelas<\/strong><\/p>\n<p>Sessenta a oitenta milh&otilde;es de brasileiros assistem regularmente a novelas noturnas em portugu&ecirc;s. A Globo domina a produ&ccedil;&atilde;o nacional de novelas, as quais geralmente mostram um modelo de fam&iacute;lia muito espec&iacute;fic pequena, atraente, branca, saud&aacute;vel, urbana, de classe m&eacute;dia ou alta e consumista. <\/p>\n<p>O cen&aacute;rio, na maioria das vezes, s&atilde;o as cidades do Rio de Janeiro e de S&atilde;o Paulo. Em geral, as fam&iacute;lias mais felizes nas novelas s&atilde;o pequenas e ricas, enquanto as fam&iacute;lias mais infelizes s&atilde;o mais pobres e com mais filhos.<\/p>\n<p>Os estudos analisaram o conte&uacute;do de 115 novelas transmitidas pela Globo entre 1965 e 1999 nos dois hor&aacute;rios de maior audi&ecirc;ncia: 19 e 20 horas. Sessenta e dois por cento das principais personagens femininas n&atilde;o tinham filhos e 21% tinham apenas um filho. Vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infi&eacute;is a seus parceiros.<\/p>\n<p>Os enredos das novelas com freq&uuml;&ecirc;ncia incluem cr&iacute;ticas a valores tradicionais. Por exemplo, o sucesso de 1988 da rede, a novela <em>Vale Tudo<\/em>, apresentava uma protagonista que era capaz de roubar, mentir e enganar a fim de alcan&ccedil;ar o seu objetivo de ficar rica a qualquer custo. A Globo tamb&eacute;m trouxe para a tela estilos de vida modernos e emancipa&ccedil;&atilde;o feminina em novelas como <em>Dancing Days<\/em>, transmitida em 1978, em que a protagonista feminina era uma ex-presidi&aacute;ria lutando para reconstruir sua reputa&ccedil;&atilde;o e recuperar o amor de sua filha adolescente.<\/p>\n<p>A redu&ccedil;&atilde;o das taxas de fertilidade foi maior em anos imediatamente seguintes &agrave; exibi&ccedil;&atilde;o de novelas que inclu&iacute;am casos de ascens&atilde;o social, e para mulheres com idades mais pr&oacute;ximas da idade da protagonista feminina da novela.<\/p>\n<p>As novelas tamb&eacute;m influenciaram a escolha dos nomes dos filhos. A probabilidade de que os 20 nomes mais populares em uma determinada &aacute;rea inclu&iacute;ssem um ou mais nomes de personagens de uma novela exibida naquele ano foi de 33% se a regi&atilde;o recebesse o sinal da Globo. Em regi&otilde;es sem acesso &agrave; Globo, a probabilidade foi de apenas 8,5%. <\/p>\n<p>&quot;H&aacute; ainda indica&ccedil;&otilde;es sugestivas de que o conte&uacute;do das novelas tenha influenciado tamb&eacute;m as taxas de div&oacute;rcio&quot;, de acordo com Chong. &quot;Quando a protagonista feminina de uma novela era divorciada ou n&atilde;o era casada, a taxa de div&oacute;rcio aumentava, em m&eacute;dia, 0,1 ponto percentual.&quot;<\/p>\n<p><strong>Globo versus SBT<\/strong><\/p>\n<p>A expans&atilde;o do Sistema Brasileiro de Televis&atilde;o (SBT), a segunda maior rede de televis&atilde;o do Brasil, n&atilde;o afetou as taxas de fertilidade no pa&iacute;s durante o mesmo per&iacute;odo.<\/p>\n<p>Os estudos atribuem esse resultado a diferen&ccedil;as de conte&uacute;do. As novelas da Globo s&atilde;o escritas por autores brasileiros e produzidas no Brasil, enquanto a maioria das novelas do SBT &eacute; importada do M&eacute;xico, ou usa enredos importados.<\/p>\n<p>&quot;Para afetarem o comportamento, os programas t&ecirc;m que ser percebidos como representa&ccedil;&otilde;es realistas da sociedade brasileira&quot;, disse Chong. &quot;O p&uacute;blico consegue se identificar facilmente com as situa&ccedil;&otilde;es apresentadas nas novelas da Globo.&quot; <\/p>\n<p>As novelas da Globo tamb&eacute;m t&ecirc;m produ&ccedil;&atilde;o muito mais cara do que as produzidas no M&eacute;xico ou em outros pa&iacute;ses latino-americanos. A Globo gasta em m&eacute;dia cerca de US$ 125.000 por cap&iacute;tulo de novela, ou cerca de 15 vezes mais do que qualquer rede da Am&eacute;rica Latina.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, as novelas da Globo s&atilde;o filmadas em locais facilmente reconhec&iacute;veis e mostram um ambiente de classe m&eacute;dia t&iacute;pica que a maioria dos espectadores pode identificar, qualquer que seja a sua situa&ccedil;&atilde;o socioecon&ocirc;mica.<\/p>\n<p>Eliana Ferrara, economista da Bocconi University, foi co-autora do artigo sobre div&oacute;rcio, junto com Chong. A economista do BID Suzanne Duryea foi co-autora do estudo sobre fertilidade, com Chong e Ferrara.<\/p>\n<p>* Veja o estudo <a href=\"http:\/\/idbdocs.iadb.org\/wsdocs\/getdocument.aspx?docnum=1856122\" target=\"_blank\">Novelas e Fertilidade: Evid&ecirc;ncia do Brasil (Somente em ingl&ecirc;s)<\/a><\/p>\n<p>* Veja o estudo <a href=\"http:\/\/idbdocs.iadb.org\/wsdocs\/getdocument.aspx?docnum=1856109\" target=\"_blank\">Televis&atilde;o e Div&oacute;rcio: Evid&ecirc;ncia das Novelas Brasileiras (Somente em ingl&ecirc;s)<\/a><br \/>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Famosas h&aacute; muito por mostrar praias maravilhosas, personagens carism&aacute;ticos e representa&ccedil;&otilde;es realistas da vida e das aspira&ccedil;&otilde;es da classe m&eacute;dia, as novelas brasileiras ajudaram a moldar as id&eacute;ias das mulheres sobre div&oacute;rcio e filhos de maneira cr&iacute;tica, segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 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