{"id":22331,"date":"2009-01-05T19:42:35","date_gmt":"2009-01-05T19:42:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22331"},"modified":"2009-01-05T19:42:35","modified_gmt":"2009-01-05T19:42:35","slug":"voz-do-brasil-e-o-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22331","title":{"rendered":"Voz do Brasil e o Papai Noel"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Era o in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970. &Agrave; noite, entre sete e oito horas, quem passasse pelo p&aacute;tio central da Faculdade de Psicologia &quot;Sedes Sapientiae&quot;, no centro de S&atilde;o Paulo, quase n&atilde;o perceberia o vulto franzino andando ao redor das &aacute;rvores. S&oacute; mais de perto distinguiria a figura da Madre Cristina Sodr&eacute; Doria com um pequeno r&aacute;dio port&aacute;til (seria Spica?) colado ao ouvido. No ar, A Voz do Brasil.<\/p>\n<p>Talvez naquele mesmo momento, numa sala pr&oacute;xima ao p&aacute;tio, estivessem escondidos alguns dos l&iacute;deres da resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura mais procurados do pa&iacute;s. Por obra e gra&ccedil;a da Madre. Que n&atilde;o temia tamb&eacute;m colocar uma enorme faixa preta em frente ao pr&eacute;dio do Sedes, na rua Caio Prado, quando sabia da morte, pela repress&atilde;o, de algum combatente.<\/p>\n<p>Em plena ditadura, Madre Cristina confiava mais na Voz do Brasil do que em qualquer outro notici&aacute;rio transmitido pelas emissoras comerciais. L&aacute;, pelo menos, ela podia ouvir trechos de discursos de parlamentares do MDB, chamados de &quot;aut&ecirc;nticos&quot; por suas posturas mais cr&iacute;ticas em rela&ccedil;&atilde;o ao regime. Todas as r&aacute;dios estavam sob censura, mas nas particulares &agrave;s imposi&ccedil;&otilde;es policiais somavam-se os interesses pol&iacute;tico-empresariais.<\/p>\n<p>A democracia foi restabelecida e as restri&ccedil;&otilde;es do Estado desapareceram, mas resta at&eacute; hoje a censura privada. Seus mentores tentam, h&aacute; v&aacute;rios anos, acabar com A Voz do Brasil. Perspicaz, o professor Ven&iacute;cio Lima, pin&ccedil;ou, ao final do ano, uma informa&ccedil;&atilde;o omitida dos notici&aacute;rios: a Comiss&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica da C&acirc;mara dos Deputados rejeitou um projeto de lei que propunha a &quot;flexibiliza&ccedil;&atilde;o&quot; da Voz do Brasil. Por ele, o programa poderia ser transmitido em qualquer hor&aacute;rio entre 18h e 24h, a crit&eacute;rio das emissoras. Muitas j&aacute; fazem isso, sustentadas por liminares. A decis&atilde;o da C&acirc;mara deve ser comemorada. Nem que seja apenas pelo argumento apresentado no parecer vencedor, elaborado pelo Deputado Miro Teixeira: a Voz, &agrave;s 19 horas, &quot;&eacute; um h&aacute;bito que j&aacute; faz parte da cultura brasileira&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; mais do que isso. &Eacute; uma forma de termos &#8211; pelo menos durante uma hora ao dia &#8211; not&iacute;cias despolu&iacute;das de interesses comerciais, oferecidas a um s&oacute; tempo a todo povo brasileiro. A hora ocupada simultaneamente pela Voz do Brasil em todas as emissoras nacionais, al&eacute;m de informar, aproxima o ouvinte dos poderes p&uacute;blicos, constituindo-se dessa forma em importante instrumento de pedagogia pol&iacute;tica. Goste-se ou n&atilde;o do que ali &eacute; dito.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, &eacute; inconceb&iacute;vel que governos e parlamentares democraticamente eleitos tenham que se relacionar com a sociedade apenas atrav&eacute;s da m&iacute;dia cujas prioridades s&atilde;o tiragens, audi&ecirc;ncias e faturamentos publicit&aacute;rios. Nada disso tem a ver com os interesses dos cidad&atilde;os. Da&iacute; a necessidade de canais p&uacute;blicos e estatais em n&uacute;mero cada vez maior.<\/p>\n<p>N&atilde;o se trata de um problema apenas brasileiro. Vale para todos os pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina governados por lideran&ccedil;as populares sitiadas pelos bar&otilde;es da m&iacute;dia globalizada. N&atilde;o &eacute; por acaso que o presidente Evo Morales aponta a necessidade urgente de o estado boliviano possuir o seu jornal di&aacute;rio, capaz de restabelecer o equil&iacute;brio informativo no pa&iacute;s. Al&eacute;m de propor a cria&ccedil;&atilde;o de canais de TV para dar voz e imagem &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es rurais.<\/p>\n<p>S&atilde;o provid&ecirc;ncias necess&aacute;rias, justificadas pelo longo hist&oacute;rico de golpismo latino-americano, sempre sustentado por forte apoio midi&aacute;tico. Evo lembra Vargas que procurou defender seu governo impulsionando a &Uacute;ltima Hora de Samuel Wainer. N&atilde;o foi o bastante para evitar as tentativas de golpe, abortadas temporariamente pelo suic&iacute;dio. Naquele momento talvez uma emissora de televis&atilde;o j&aacute; fizesse falta. Get&uacute;lio deve ter intu&iacute;do isso, tanto &eacute; que deu uma concess&atilde;o &agrave; Radio Nacional para implantar a primeira TV p&uacute;blica do pa&iacute;s. Era o canal 4, do Rio, que JK alguns anos depois, sob press&atilde;o dos radiodifusores, transferiria para as Organiza&ccedil;&otilde;es Globo.<\/p>\n<p>At&eacute; na Europa, onde o equil&iacute;brio informativo &eacute; maior j&aacute; se percebe essa atrofia do espa&ccedil;o comunicacional determinado pela concentra&ccedil;&atilde;o crescente das corpora&ccedil;&otilde;es da m&iacute;dia. Atento ao problema o fil&oacute;sofo Jurgen Habermas lembrava em artigo de 2007 que &quot;em termos hist&oacute;ricos, a id&eacute;ia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cen&aacute;rio em que id&eacute;ias subversivas puderam se emancipar da repress&atilde;o estatal. Mas o mercado s&oacute; &eacute; capaz de desempenhar essa fun&ccedil;&atilde;o se as determina&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas n&atilde;o penetrarem nos poros dos conte&uacute;dos culturais e pol&iacute;ticos nele dispersos&quot;.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, o mercado da m&iacute;dia est&aacute; longe desse distanciamento. Ao contr&aacute;rio, &eacute; quase sempre o porta voz dos interesses privados dos que o controlam. Em 2006, o presidente Lula sentiu isso na pele quando o seu d&eacute;bil advers&aacute;rio chegou ao segundo turno das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais gra&ccedil;as ao esfor&ccedil;o concentrado dos grandes grupos de comunica&ccedil;&atilde;o. Acreditar que pol&iacute;ticas de governos populares cheguem intactas ao conhecimento dos cidad&atilde;os atrav&eacute;s dessa m&iacute;dia equivale a crer em duendes ou no Papai Noel, de passagem recente entre n&oacute;s.<\/p>\n<p><em>* Laurindo Lalo Leal Filho, soci&oacute;logo e jornalista, &eacute; professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade C&aacute;sper L&iacute;bero. &Eacute; autor, entre outros, de &ldquo;A TV sob controle &ndash; A resposta da sociedade ao poder da televis&atilde;o&rdquo; (Summus Editorial).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1970. &Agrave; noite, entre sete e oito horas, quem passasse pelo p&aacute;tio central da Faculdade de Psicologia &quot;Sedes Sapientiae&quot;, no centro de S&atilde;o Paulo, quase n&atilde;o perceberia o vulto franzino andando ao redor das &aacute;rvores. 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