{"id":22282,"date":"2008-12-15T17:59:27","date_gmt":"2008-12-15T17:59:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22282"},"modified":"2008-12-15T17:59:27","modified_gmt":"2008-12-15T17:59:27","slug":"mpf-x-rede-tv-a-liberdade-de-comunicacao-nao-e-absoluta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22282","title":{"rendered":"MPF x Rede TV!: A liberdade de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absoluta"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao padrao\">O Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (MPF), por interm&eacute;dio da procuradora Regional dos Direitos do Cidad&atilde;o, Adriana da Silva Fernandes, ajuizou na segunda-feira (1), na Vara C&iacute;vel da 1&ordf; Subse&ccedil;&atilde;o Judici&aacute;ria de S&atilde;o Paulo, uma A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica (ACP) contra a Rede TV!, em fun&ccedil;&atilde;o da cobertura &quot;jornal&iacute;stica&quot; do seq&uuml;estro de Santo Andr&eacute; (ver, neste <em>Observat&oacute;rio,<\/em> <a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=509IMQ001\">&quot;As li&ccedil;&otilde;es do caso Santo Andr&eacute;&quot;<\/a> ).<\/p>\n<p>Duas foram as raz&otilde;es b&aacute;sicas apresentadas: primeiro que, embora j&aacute; tivesse sido advertida, a concession&aacute;ria exibiu, sem autoriza&ccedil;&atilde;o judicial, no dia 15 de outubro, entrevista &quot;ao vivo&quot; com a adolescente Elo&aacute; Cristina Pimentel, que estava sendo mantida ref&eacute;m pelo ex-namorado, transformando-a, junto com o seq&uuml;estrador, numa das atra&ccedil;&otilde;es principais do programa &ldquo;A Tarde &eacute; Sua&rdquo;; e, segundo, que analisado o conte&uacute;do da entrevista, verificou-se que a RedeTV! cometeu ato abusivo, explorando, durante quase uma hora, a situa&ccedil;&atilde;o em que se encontravam as adolescentes Elo&aacute;, sua amiga Nayara e Lindemberg Alves, ex-namorado da primeira, interferindo, indevidamente, em investiga&ccedil;&atilde;o policial em curso.<\/p>\n<p>O MPF requereu que a Rede TV! seja condenada ao pagamento de indeniza&ccedil;&atilde;o por danos morais coletivos no valor de 1,5 milh&atilde;o de reais, acrescidos de juros morat&oacute;rios e corre&ccedil;&atilde;o monet&aacute;ria, valor que dever&aacute; ser revertido ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos [<a href=\"http:\/\/www.prsp.mpf.gov.br\/infoprdc\/acpentrevista.pdf\" target=\"_blank\">o texto completo da A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica pode ser lido aqui<\/a> ].<\/p>\n<p>Noticia-se que a Rede TV! s&oacute; se manifestar&aacute; ap&oacute;s ser notificada. A concession&aacute;ria, no entanto, reafirmou que &quot;sempre defendeu a liberdade de express&atilde;o e o n&atilde;o cerceamento do direito do jornalismo informar os telespectadores&quot;. Segundo sua assessoria de comunica&ccedil;&atilde;o, &quot;a iniciativa do MPF &eacute; uma forma velada de censura&quot;.<\/p>\n<p><strong>Reafirma&ccedil;&atilde;o de princ&iacute;pios legais<\/strong><\/p>\n<p>Ao justificar sua compet&ecirc;ncia para tratar do caso, o MPF lembra que a RedeTV! &eacute; concession&aacute;ria de um servi&ccedil;o p&uacute;blico federal e que faz parte de suas fun&ccedil;&otilde;es constitucionais &quot;a defesa da ordem jur&iacute;dica, do regime democr&aacute;tico e dos interesses sociais e individuais indispon&iacute;veis&quot;. Al&eacute;m disso, a Lei Complementar que disp&otilde;e sobre as atribui&ccedil;&otilde;es do MP lhe atribui expressamente &quot;zelar pelo efetivo respeito dos Poderes P&uacute;blicos da Uni&atilde;o e dos servi&ccedil;os de relev&acirc;ncia p&uacute;blica e dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social aos princ&iacute;pios, garantias, condi&ccedil;&otilde;es, direitos, deveres e veda&ccedil;&otilde;es previstos na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal e na lei, relativos &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o social&quot;.<\/p>\n<p>Por outro lado, quando apresenta as raz&otilde;es de direito, s&atilde;o reafirmados princ&iacute;pios normativos sempre presentes no debate sobre a regula&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia e recorrentemente questionados pelos representantes do sistema privado de radiodifus&atilde;o (<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/artigos.asp?cod=514IPB001\" target=\"_blank\">ver &quot;Novo conceito jur&iacute;dico para sistema privado de TV&quot;<\/a> ): os limites da liberdade de imprensa; o car&aacute;ter de servi&ccedil;o p&uacute;blico das concession&aacute;rias e sua conseq&uuml;ente subordina&ccedil;&atilde;o ao direito p&uacute;blico; e a necessidade de controle democr&aacute;tico no interesse da sociedade. Vale a longa cita&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p>&quot;A Constitui&ccedil;&atilde;o Federal garante plenamente a liberdade de express&atilde;o e de manifesta&ccedil;&atilde;o do pensamento, de cria&ccedil;&atilde;o, de express&atilde;o e de informa&ccedil;&atilde;o, vedando qualquer censura de natureza pol&iacute;tica, ideol&oacute;gica ou art&iacute;stica (art. 220, caput e &sect; 2&ordm;). No entanto a liberdade de comunica&ccedil;&atilde;o social n&atilde;o &eacute; absoluta, devendo estar em compasso com outros direitos inseridos na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, dentre eles o direito &agrave; privacidade, &agrave; imagem e &agrave; intimidade dos indiv&iacute;duos (art. 220, &sect; 1&ordm; e art. 5&ordm;, X), bem como os valores &eacute;ticos e sociais da pessoa e da fam&iacute;lia (art. 221, IV).<\/p>\n<p>Ademais, o art. 53 da Lei 4.117\/62 declara que constitui abuso, no exerc&iacute;cio da liberdade de radiodifus&atilde;o, o emprego desse meio de comunica&ccedil;&atilde;o para a pr&aacute;tica de crime ou contraven&ccedil;&atilde;o previstos na legisla&ccedil;&atilde;o em vigor no Pa&iacute;s, inclusive para incitar a desobedi&ecirc;ncia &agrave;s leis ou decis&otilde;es judici&aacute;rias; comprometer as rela&ccedil;&otilde;es internacionais do Pa&iacute;s, ofender a moral familiar, p&uacute;blica, ou os bons costumes; colaborar na pr&aacute;tica de rebeldia desordens ou manifesta&ccedil;&otilde;es proibidas.<\/p>\n<p>&Eacute; importante dizer que, ao contr&aacute;rio do que pensa o senso-comum, a R&eacute; n&atilde;o &eacute; &quot;propriet&aacute;ria&quot; do canal em que opera. &Eacute;, na verdade, uma concession&aacute;ria do servi&ccedil;o p&uacute;blico federal de radiodifus&atilde;o de sons e imagens, e, como tal, est&aacute; sujeita &agrave;s normas de direito p&uacute;blico que regulam este setor da ordem social.<\/p>\n<p>Justifica-se o regime jur&iacute;dico de direito p&uacute;blico porque, diversamente do que acontece nas m&iacute;dias escritas, as emissoras de r&aacute;dio e TV operam um bem p&uacute;blico escasso: o espectro de ondas eletromagn&eacute;ticas por onde se propagam os sons e as imagens. Trata-se de um bem p&uacute;blico de interesse de todos os brasileiros, pois somente por interm&eacute;dio da televis&atilde;o e do r&aacute;dio &eacute; poss&iacute;vel a plena circula&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias no pa&iacute;s. A liberdade de comunica&ccedil;&atilde;o dever&aacute; ser protegida sempre que cumprir sua fun&ccedil;&atilde;o social, mas ser&aacute; submetida a controle quando incorrer em abuso. Referida liberdade &eacute; uma garantia institu&iacute;da pela sociedade e para a sociedade, n&atilde;o se podendo admitir, portanto, que seja utilizada contra esta&quot;.<\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao padrao\">Certamente existem muitas outras raz&otilde;es para a regula&ccedil;&atilde;o e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o democr&aacute;ticas do conte&uacute;do e da programa&ccedil;&atilde;o das empresas concession&aacute;rias de radiodifus&atilde;o, inclusive, de coberturas &quot;jornal&iacute;sticas&quot; de epis&oacute;dios como o seq&uuml;estro de Santo Andr&eacute;.<\/p>\n<p><strong>M&iacute;dia e viol&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p>A BBC Brasil, por exemplo, divulgou em 20 de novembro passado, ap&oacute;s o caso Elo&aacute;, os primeiros resultados de uma longa pesquisa realizada por professores da Rutgers University, nos EUA, que vincula a viol&ecirc;ncia na m&iacute;dia a agressividade em jovens. Esse v&iacute;nculo tem sido reconhecido por especialistas nos &uacute;ltimos 40 anos. <\/p>\n<p>No estudo, foram entrevistados 820 adolescentes do estado de Michigan. Destes, 430 eram alunos do ensino m&eacute;dio de comunidades rurais, suburbanas e urbanas. Outros 390 eram delinq&uuml;entes juvenis detidos em institui&ccedil;&otilde;es municipais e estaduais, distribu&iacute;dos equilibradamente entre os sexos masculino e feminino. Pais ou guardi&otilde;es de 720 deles tamb&eacute;m foram entrevistados, assim como os professores ou funcion&aacute;rios que lidavam com 717 dos jovens. <\/p>\n<p>A pesquisa revela que mesmo considerando outros fatores como talento acad&ecirc;mico, exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia na comunidade ou problemas emocionais, a &quot;prefer&ecirc;ncia por m&iacute;dia violenta na inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia contribuiu significativamente para a previs&atilde;o de viol&ecirc;ncia e agress&atilde;o em geral&quot;. E conclui: &quot;voc&ecirc; &eacute; o que assiste&quot;, quando se trata da popula&ccedil;&atilde;o jovem (<a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/reporterbbc\/story\/2008\/11\/081120_violencia_midia_mv.shtml\" target=\"_blank\">dispon&iacute;vel aqui<\/a>).<\/p>\n<p><strong>Reponsabiliza&ccedil;&atilde;o legal<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o se sabe se o juiz da Vara C&iacute;vel da 1&ordf; Subse&ccedil;&atilde;o Judici&aacute;ria de S&atilde;o Paulo vai ou n&atilde;o acatar a a&ccedil;&atilde;o proposta. A iniciativa do MPF paulista, no entanto, mostra &ndash; como j&aacute; comprovado em outras poucas ocasi&otilde;es &ndash; que, dentro do atual arcabou&ccedil;o legal, existe a possibilidade de a&ccedil;&otilde;es em defesa de direitos fundamentais do cidad&atilde;o. <\/p>\n<p>Mesmo que o sistema privado de radiodifus&atilde;o prossiga na sua tentativa de confundir a quest&atilde;o evocando o fantasma da censura, &eacute; reconfortante saber que o MP est&aacute; cumprindo o seu dever e pode, sim, responsabilizar legalmente os concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o pelos abusos que cometem.<\/p>\n<p><em>* Ven&iacute;cio A. de Lima &eacute; pesquisador s&ecirc;nior do N&uacute;cleo de Estudos sobre M&iacute;dia e Pol&iacute;tica (NEMP) da Universidade de Bras&iacute;lia e autor\/organizador, entre outros, de A m&iacute;dia nas elei&ccedil;&otilde;es de 2006 (Editora Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, 2007).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (MPF), por interm&eacute;dio da procuradora Regional dos Direitos do Cidad&atilde;o, Adriana da Silva Fernandes, ajuizou na segunda-feira (1), na Vara C&iacute;vel da 1&ordf; Subse&ccedil;&atilde;o Judici&aacute;ria de S&atilde;o Paulo, uma A&ccedil;&atilde;o Civil P&uacute;blica (ACP) contra a Rede TV!, em fun&ccedil;&atilde;o da cobertura &quot;jornal&iacute;stica&quot; do seq&uuml;estro de Santo Andr&eacute; (ver, neste Observat&oacute;rio, &quot;As &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22282\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">MPF x Rede TV!: A liberdade de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absoluta<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22282"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22282"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22282\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}