{"id":22237,"date":"2008-12-08T17:24:10","date_gmt":"2008-12-08T17:24:10","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22237"},"modified":"2008-12-08T17:24:10","modified_gmt":"2008-12-08T17:24:10","slug":"sequestro-de-santo-andre-esta-na-rede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22237","title":{"rendered":"Seq\u00fcestro de Santo Andr\u00e9: Est\u00e1 na rede"},"content":{"rendered":"<p> \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">N&atilde;o h&aacute; palavras para descrever. S&oacute; vendo. Quem puder entre no Youtube e assista a algo inacredit&aacute;vel. A conversa do produtor do programa &quot;A Tarde &eacute; Sua&quot;, apresentado por Sonia Abr&atilde;o, na Rede TV, com Lindemberg Alves, em plena a&ccedil;&atilde;o de sequestro da menina Elo&aacute;. Por mais que o fato j&aacute; tenha sido comentado, qualquer descri&ccedil;&atilde;o do que aconteceu fica muito longe da realidade. Trata-se da vis&atilde;o tr&aacute;gica dos limites a que chega a dignidade humana. E aqui n&atilde;o falo do sequestrador e sim de quem o entrevista, dos seus chefes e patr&otilde;es. Eles mentem, usurpam fun&ccedil;&otilde;es especializadas pretendendo-se negociadores, violam o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente e interv&ecirc;m indevidamente numa a&ccedil;&atilde;o do Estado, representado naquele momento pelas for&ccedil;as policiais.<\/p>\n<p>A espetaculariza&ccedil;&atilde;o da not&iacute;cia na TV n&atilde;o &eacute; novidade, com conseq&uuml;&ecirc;ncias tr&aacute;gicas em alguns casos. Escola Base e Bar Bodega s&atilde;o apenas os exemplos mais conhecidos. E o caso Isabela Nardoni, o mais recente. Mas nunca a televis&atilde;o havia ultrapassado o limite da informa&ccedil;&atilde;o (ainda que distorcida ou sensacionalista) passando &agrave; interven&ccedil;&atilde;o. No caso Elo&aacute;, a TV mudou o rumo dos acontecimentos ao bloquear as negocia&ccedil;&otilde;es telef&ocirc;nicas da pol&iacute;cia com o seq&uuml;estrador e interferir no seu humor. No v&iacute;deo ele chega a dizer para o entrevistador: &quot;n&atilde;o me deixa nervoso n&atilde;o&quot; que responde do alto do seu conhecimento psicol&oacute;gico pedindo calma.<\/p>\n<p>Que direito tem uma empresa comercial de intervir num processo da al&ccedil;ada exclusiva do Estado? Espero que essa pergunta seja respondida na a&ccedil;&atilde;o proposta pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal contra a Rede TV. Cabe ao Judici&aacute;rio decidir se houve abuso ou n&atilde;o. Nesse sentido, para embasar melhor o processo seria muito importante que entidades como o Conselho Federal de Psicologia, a Federa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Jornalistas, a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Imprensa e a Ordem dos Advogados do Brasil oferecessem pareceres sobre o caso. Afinal produtores e apresentadores de televis&atilde;o transformaram-se, nesse caso, publicamente em psic&oacute;logos, advogados e jornalistas sem escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p>Claro que a Rede TV j&aacute; est&aacute; tratando a possibilidade da a&ccedil;&atilde;o como &quot;uma forma velada de censura&quot;. Ao que a procuradora Adriana Fernandes, autora do pedido, respondeu com propriedade dizendo que a liberdade de express&atilde;o n&atilde;o &eacute; absoluta e que, neste caso, deveria ter sido respeitado o fato de uma menor estar envolvida. &Eacute; sempre assim, e n&atilde;o &eacute; s&oacute; a Rede TV que faz isso. Basta qualquer setor da sociedade exigir um pouco mais de responsabilidade de um concession&aacute;rio de TV que a resposta &eacute; sempre a mesma. Infelizmente a combina&ccedil;&atilde;o cronol&oacute;gica entre o fim da ditadura militar e a ascens&atilde;o do neoliberalismo pelo mundo deixaram a popula&ccedil;&atilde;o brasileira ref&eacute;m do fantasma da censura e da fantasia do mercado como regulador supremo. &Eacute; atrav&eacute;s desse casamento que a TV deita e rola. Tudo que a incomoda &eacute; censura e o limite admitido &eacute; dado apenas pelos &iacute;ndices de audi&ecirc;ncia. Como se eles refletissem algum tipo de escolha democr&aacute;tica e n&atilde;o fossem mera san&ccedil;&atilde;o do mercado, no dizer preciso de Pierre Bourdieu.<\/p>\n<p>A Rede TV tamb&eacute;m afirma que sempre vai defender &quot;a liberdade de express&atilde;o e o n&atilde;o cerceamento do jornalismo de informar os telespectadores&quot;. Gostaria de saber onde h&aacute; informa&ccedil;&atilde;o numa entrevista realizada com um seq&uuml;estrador em pleno ato criminoso. Pode-se afirmar que at&eacute; a Constitui&ccedil;&atilde;o Federal foi afrontada. L&aacute; est&aacute; dito que &quot;a produ&ccedil;&atilde;o e a programa&ccedil;&atilde;o das emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o atender&atilde;o a finalidades educativas, art&iacute;sticas, culturais e informativas&quot;. Em nenhum momento est&aacute; prevista a interven&ccedil;&atilde;o da concession&aacute;ria num crime, como fez a Rede TV.<\/p>\n<p>Ressalte-se que essa emissora &eacute; reincidente. No final de 2005 foi obrigada, judicialmente, a retirar do ar um programa que violava os Direitos Humanos e, durante um m&ecirc;s, colocar no mesmo hor&aacute;rio produ&ccedil;&otilde;es elaboradas por organiza&ccedil;&otilde;es sociais. Fato in&eacute;dito na hist&oacute;ria da TV brasileira, tornado poss&iacute;vel gra&ccedil;as &agrave; articula&ccedil;&atilde;o da sociedade e o acolhimento da demanda pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Em vista do tr&aacute;gico desfecho, o caso atual &eacute; ainda mais grave. E n&atilde;o ficou restrito &agrave; Rede TV. Record e Globo a seguiram.<\/p>\n<p>Uma outra refer&ecirc;ncia pode ser utilizada, talvez, para auxiliar na instru&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o judicial caso ela ocorra. S&atilde;o alguns trechos das normas editoriais da BBC. Dizem elas que &quot;em casos de seq&uuml;estros devemos estar cientes de que qualquer informa&ccedil;&atilde;o pode ser vista ou ouvida pelos respons&aacute;veis pelo ataque. Devemos avaliar as quest&otilde;es &eacute;ticas envolvidas em conceder uma vitrina a seq&uuml;estradores, especialmente se eles fazem contato direto&quot;. Reparem que a preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; com o contato que o seq&uuml;estrador possa fazer com a emissora. Nem passa pela cabe&ccedil;a dos jornalistas brit&acirc;nicos a possibilidade da emissora fazer contato com o seq&uuml;estrador como aconteceu por aqui.<\/p>\n<p>E mais: &quot;devemos permanecer no controle editorial da cobertura dos eventos e n&atilde;o entrevistar um respons&aacute;vel por um ataque ao vivo; instalar um delay (pequeno atraso na veicula&ccedil;&atilde;o de sons e imagens em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo real) quando transmitimos ao vivo material de coberturas delicadas, por exemplo, um cerco a escola ou seq&uuml;estro de avi&atilde;o. Isto &eacute; especialmente importante quando o desenlace &eacute; imprevis&iacute;vel e podemos registrar material perturbador, impr&oacute;prio para transmitir sem uma reflex&atilde;o cuidadosa&quot;. Em Santo Andr&eacute;, n&oacute;s todos corremos o risco de ver um assassinato ao vivo.<\/p>\n<p>E para finalizar, diz a BBC que &quot;quando cobrimos seq&uuml;estros devemos ouvir a orienta&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia e de outras autoridades sobre qualquer coisa que, se divulgada, possa exacerbar a situa&ccedil;&atilde;o&quot;. Parece que est&atilde;o falando conosco, n&atilde;o?<\/p>\n<p>* Laurindo Lalo Leal Filho &eacute; soci&oacute;logo e jornalista, &eacute; professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade C&aacute;sper L&iacute;bero. &Eacute; autor, entre outros, de &ldquo;A TV sob controle &ndash; A resposta da sociedade ao poder da televis&atilde;o&rdquo; (Summus Editorial).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o h&aacute; palavras para descrever. S&oacute; vendo. Quem puder entre no Youtube e assista a algo inacredit&aacute;vel. 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