{"id":22235,"date":"2008-12-08T16:07:55","date_gmt":"2008-12-08T16:07:55","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22235"},"modified":"2008-12-08T16:07:55","modified_gmt":"2008-12-08T16:07:55","slug":"ausencia-de-demanda-e-resultado-de-modelo-equivocado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22235","title":{"rendered":"Aus\u00eancia de demanda \u00e9 resultado de modelo equivocado"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">No dia 2 de dezembro, a TV digital completou seu primeiro ano de vida no Brasil. O anivers&aacute;rio da primeira transmiss&atilde;o de sinais digitais de TV, realizada em S&atilde;o Paulo, foi basicamente tratado pelo Minist&eacute;rio das Comunica&ccedil;&otilde;es e os radiodifusores como oportunidade para tentar colocar em evid&ecirc;ncia a nova tecnologia, que, afinal, em 12 meses n&atilde;o mostrou a que veio. N&uacute;meros do pr&oacute;prio setor demonstram que a implanta&ccedil;&atilde;o da TVD no Brasil ocorre em &iacute;ndices insatisfat&oacute;rios. <\/p>\n<p>A Associa&ccedil;&atilde;o de Fabricantes de Produtos Eletroeletr&ocirc;nicos (Eletros), por exemplo, estima que at&eacute; o fim do ano ter&atilde;o sido vendidos 470 mil conversores ou aparelhos adaptados para receber o sinal digitalizado. Isso significa que apenas apenas 0,5% da popula&ccedil;&atilde;o tem hoje condi&ccedil;&otilde;es reais de aproveitar a nova tecnologia. <\/p>\n<p>As raz&otilde;es para a baixa penetra&ccedil;&atilde;o da TV digital s&atilde;o v&aacute;rias e as declara&ccedil;&otilde;es dadas nas &uacute;ltimas semanas por atores envolvidos no processo de implanta&ccedil;&atilde;o deixam clara a disputa de vers&otilde;es sobre o gargalo do processo. Nesta briga, ora a culpa &eacute; da oferta reduzida, ora da demanda n&atilde;o estimulada. <\/p>\n<p>Para o ministro das comunica&ccedil;&otilde;es, H&eacute;lio Costa, a venda reduzida de conversores seria resultado da baixa oferta deste tipo de dispositivo no mercado por parte dos fabricantes. &ldquo;O que est&aacute; faltando &eacute; um pol&iacute;tica industrial capaz de atender &agrave; necessidade de se produzir em grande escala o conversor de TV digital popular. Ele est&aacute; sendo produzido, mas s&atilde;o 100 mil conversores por m&ecirc;s e a demanda &eacute; de mais de 1 milh&atilde;o&rdquo;, afirmou.<\/p>\n<p>J&aacute; os fabricantes evitam incrementar a produ&ccedil;&atilde;o dos conversores sob a alega&ccedil;&atilde;o da baixa perspectiva de venda. Para agentes do setor e para pesquisadores, a falta de interesse dos consumidores &eacute; gerada basicamente por dois fatores: o pre&ccedil;o dos conversores e o modelo tecnol&oacute;gico e de neg&oacute;cio adotado, que n&atilde;o resultou na cria&ccedil;&atilde;o de novos conte&uacute;dos e funcionalidades para a boa e velha televis&atilde;o. <\/p>\n<p><strong>Pre&ccedil;o e redu&ccedil;&atilde;o de impostos<\/strong><\/p>\n<p>At&eacute; julho deste ano, os conversores dispon&iacute;veis no mercado eram vendidos por cerca de R$ 600. A empresa Proview lan&ccedil;ou naquele m&ecirc;s um modelo mais barato, anunciando reduzir o valor para at&eacute; R$ 199. Passados seis meses, no entanto, o pre&ccedil;o permanece na casa dos R$ 300. Segundo o professor da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e pesquisador na &aacute;rea Marcelo Zuffo, para que o pre&ccedil;o baixe para R$ 200 reais seria preciso um ganho de escala maior do que as 500 mil vendas. E a&iacute; se esbarra novamente no dilema: o pre&ccedil;o n&atilde;o baixa porque n&atilde;o h&aacute; escala e esta n&atilde;o &eacute; adquirida porque o pre&ccedil;o mant&eacute;m-se alto em um pa&iacute;s com terr&iacute;vel distribui&ccedil;&atilde;o de renda. <\/p>\n<p>Em raz&atilde;o deste problema e na aus&ecirc;ncia de uma iniciativa do mercado, a solu&ccedil;&atilde;o deve vir com o investimento de recursos p&uacute;blicos na forma da redu&ccedil;&atilde;o de impostos. &ldquo;Acho que o pr&oacute;prio governo tem espa&ccedil;o para reduzir impostos na &aacute;rea federal. Se consegu&iacute;ssemos tirar o PIS e a Cofins, j&aacute; ter&iacute;amos a&iacute; um desconto b&aacute;sico de 30% no pre&ccedil;o do conversor&rdquo;, disse Costa. <\/p>\n<p>Tentando apontar uma justificativa mais comportamental, Walter Duran, diretor de Tecnologia da Philips para Am&eacute;rica Latina, credita a baixa penetra&ccedil;&atilde;o a um fen&ocirc;meno natural de resist&ecirc;ncia a novas tecnologias. &ldquo;A popula&ccedil;&atilde;o em geral tende a ser reativa a toda introdu&ccedil;&atilde;o de produtos com tecnologia inovadora. Ela demora um tempo para reagir a essa inova&ccedil;&atilde;o; muitas vezes reage negativamente&rdquo;, argumenta. Ele lembra que o DVD vendeu apenas 35 mil unidades em 1999 e, cinco anos depois, atingiu a marca de 2 milh&otilde;es de aparelhos.<\/p>\n<p><strong>Problema no modelo<\/strong><\/p>\n<p>A compara&ccedil;&atilde;o, no entanto, n&atilde;o se sustenta dentro das regras de mercado. No caso do DVD, o novo dispositivo trazia novas funcionalidades para al&eacute;m da melhoria na qualidade da imagem, o que criou demanda naturalmente. Em segundo lugar, a curva descendente nos pre&ccedil;os do aparelho de DVD &ndash; que acompanha a ascens&atilde;o r&aacute;pida nas vendas &ndash; ocorreu porque a tecnologia foi adquirida inicialmente pelo conjunto das classes mais ricas, gerando a base para uma redu&ccedil;&atilde;o no valor para as pessoas com menor renda. <\/p>\n<p>Isso se deu pelo fato de o DVD ter substitu&iacute;do totalmente seu antecessor, o videocassete, e n&atilde;o ter ainda um concorrente de peso. Al&eacute;m disso, diferente do padr&atilde;o de TV digital adotado no Brasil, a tecnologia do DVD foi e &eacute; comercializada em escala mundial. Os equipamentos para TV digital necess&aacute;rios em terras brasileiras s&oacute; s&atilde;o vendidos aqui e no Jap&atilde;o.<\/p>\n<p>Para Gustavo Gindre, ocupante de uma das cadeiras da sociedade civil do Comit&ecirc; Gestor da Internet no Brasil e integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, a baix&iacute;ssima atratividade da TV digital se deve ao modelo equivocado adotado pelo pa&iacute;s. A ado&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o japon&ecirc;s de modula&ccedil;&atilde;o associada &agrave; op&ccedil;&atilde;o de uso da nova tecnologia feita pelas emissoras n&atilde;o oferece ao telespectador nada al&eacute;m da alta defini&ccedil;&atilde;o de imagem e, por isso, esbarra na concorr&ecirc;ncia de outros segmentos que oferecem mais canais e funcionalidades interativas, como a TV paga, a IPTV e a internet.<\/p>\n<p><strong>Sem atrativos<\/strong><\/p>\n<p>&quot;A TV digital aberta no Brasil &eacute; a velha TV aberta anal&oacute;gica, apenas com uma imagem melhor &ndash; e mesmo assim, onde n&atilde;o h&aacute; &aacute;reas de sombras&rdquo;, comenta. Gindre faz quest&atilde;o de frisar que &ldquo;todas as grandes oportunidades de transforma&ccedil;&otilde;es foram negligenciadas em nome dos interesses dos radiodifusores&rdquo; e, portanto, n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para que o cidad&atilde;o tenha interesse em comprar um set top box. &ldquo;Se ele quer servi&ccedil;os interativos, vai para a internet. Se quer muitos canais, vai para a TV paga (ou para o &#39;gatonet&#39;). Com isso, a penetra&ccedil;&atilde;o da TV digital aberta ainda &eacute; baix&iacute;ssima e n&atilde;o h&aacute; perspectivas dessa curva de ado&ccedil;&atilde;o mudar nos pr&oacute;ximos anos&quot;, analisa.<\/p>\n<p>Para o professor da PUC do Rio de Janeiro Marcos Dantas, o governo federal abandonou os princ&iacute;pios do Decreto 4903\/2003, que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD). Segundo ele, a ado&ccedil;&atilde;o real deste princ&iacute;pios dariam um diferencial &agrave; nova tecnologia, como a inclus&atilde;o social, a democratiza&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e o uso de funcionalidades interativas para criar uma rede de educa&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia. <\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o de Nelson Wortsman, da empresa de software Brasscom, a TV digital s&oacute; ganhar&aacute; penetra&ccedil;&atilde;o se as pessoas virem neste meio algo que fa&ccedil;a diferen&ccedil;a em suas vidas e que tenha um diferencial de fato em rela&ccedil;&atilde;o aos outros. <\/p>\n<p>Valdecir Becker, diretor da ITV Produ&ccedil;&otilde;es Interativas, argumenta na mesma dire&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Creio que o motivo [da baixa penetra&ccedil;&atilde;o] seja o conte&uacute;do. Al&eacute;m de ainda n&atilde;o termos interatividade, que deve come&ccedil;ar no primeiro semestre do ano que vem, h&aacute; pouco conte&uacute;do em alta defini&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, mesmo para quem tem condi&ccedil;&otilde;es financeiras de ter o equipamento, o investimento ainda n&atilde;o est&aacute; valendo a pena&rdquo;, avalia.<\/p>\n<p><strong>Sem alta defini&ccedil;&atilde;o, interatividade ou mais canais<\/strong><\/p>\n<p>Mat&eacute;ria veiculada pelo jornal &ldquo;O Estado de S. Paulo&rdquo; revela que as emissoras veiculam apenas 10% de seus programas em alta defini&ccedil;&atilde;o. Para Roberto Franco, diretor de tecnologia do SBT, &ldquo;&agrave; medida que mais pessoas aderirem, elas nos for&ccedil;ar&atilde;o a aumentar a quantidade&rdquo;. Aparece a&iacute; novamente o dilema: n&atilde;o h&aacute; oferta porque n&atilde;o h&aacute; demanda e vice-versa. <\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; interatividade, o middleware Ginga, que seria a &uacute;nica inova&ccedil;&atilde;o nacional no sistema dito nipo-brasileiro, permanece ainda n&atilde;o finalizado por conta de problemas de royalties com um de seus componentes. &ldquo;O atraso [do Ginga] tem gerado um passivo de set top box n&atilde;o interativos&rdquo;, lamenta Gustavo Gindre.<\/p>\n<p>J&aacute; a aus&ecirc;ncia de um modelo que privilegie a multiprograma&ccedil;&atilde;o dificulta a concorr&ecirc;ncia da TV digital aberta com outros servi&ccedil;os, que oferecem mais canais. Enquanto as emissoras p&uacute;blicas ir&atilde;o promover a multiplica&ccedil;&atilde;o de suas programa&ccedil;&otilde;es, as comerciais, que re&uacute;nem 95% da audi&ecirc;ncia desta m&iacute;dia, n&atilde;o devem apostar nisso. <\/p>\n<p>&ldquo;A multiprograma&ccedil;&atilde;o &eacute; modelo de neg&oacute;cio, cada emissora determina o seu. A Globo, que tem programa&ccedil;&atilde;o &#39;premium&#39;, jamais vai trabalhar com multiprograma&ccedil;&atilde;o, o neg&oacute;cio dela &eacute; alta defini&ccedil;&atilde;o. J&aacute; a TV Senado ganha com a multiprograma&ccedil;&atilde;o, porque pode exibir o plen&aacute;rio em um canal e as comiss&otilde;es em outro, j&aacute; que quando tem CPI as comiss&otilde;es d&atilde;o muito mais ibope que o plen&aacute;rio&quot;, diz Carlos Fructuoso, que participa do F&oacute;rum SBTVD, espa&ccedil;o que congrega empresas e pesquisadores na articula&ccedil;&atilde;o da implanta&ccedil;&atilde;o desta nova tecnologia no pa&iacute;s. <\/p>\n<p>&quot;A TV aberta comercial tem medo de qualquer outro modelo de neg&oacute;cios. Portanto, falar em &#39;interatividade&#39; ou aumento do n&uacute;mero de programa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis tornou-se um an&aacute;tema no F&oacute;rum do SBTVD&quot;, refor&ccedil;a Gustavo Gindre. Neste cen&aacute;rio, n&atilde;o h&aacute; nenhuma garantia que as classes mais ricas dever&atilde;o adquirir o conversor, o que pode ocasionar em uma barreira &agrave; redu&ccedil;&atilde;o dos pre&ccedil;os dos conversores. <\/p>\n<p>Se &eacute; fato que o cronograma de in&iacute;cio das transmiss&otilde;es nas cidades est&aacute; sendo bem atendido &#8211; com emissoras operando nas cidades de S&atilde;o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goi&acirc;nia, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Campinas &#8211; as dificuldades apontadas continuam como um dilema com perspectivas nada animadoras de solu&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s uma preocupa&ccedil;&atilde;o inicial com o ritmo da migra&ccedil;&atilde;o das emissoras e com o pre&ccedil;o dos conversores, a quest&atilde;o volta-se novamente ao modelo adotado. <\/p>\n<p>No atual, ganham as emissoras ao preservarem o espectro para si e impedirem a entrada de novos concorrentes. Mas perdem estas e a sociedade com um projeto pela metade, que desperdi&ccedil;a as potencialidades e, com isso, ainda permanece sob a etiqueta de curiosidade, distante da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>* Com informa&ccedil;&otilde;es de Ag&ecirc;ncia Estado, Uol Tecnologia, Infomoney e B2B Magazine.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro ano de implanta\u00e7\u00e3o, TV digital apresenta \u00edndices insatisfat\u00f3rios de ades\u00e3o; ministro ainda culpa pre\u00e7o dos conversores, mas problemas come\u00e7aram com escolha de modelo inadequado para o pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[79],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22235"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22235\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}