{"id":22167,"date":"2008-11-24T19:23:35","date_gmt":"2008-11-24T19:23:35","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22167"},"modified":"2008-11-24T19:23:35","modified_gmt":"2008-11-24T19:23:35","slug":"violencia-e-controle-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22167","title":{"rendered":"Viol\u00eancia e controle social"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm; page-break-before: always\" class=\"western padrao\"><span>Por ocasi&atilde;o dos 16 dias de ativismo contra a viol&ecirc;ncia &agrave; mulher, trago para reflex&atilde;o a influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia no est&iacute;mulo &agrave; viol&ecirc;ncia em geral e, em particular, contra a mulher.<\/p>\n<p><\/span>Certamente, seremos questionadas: o procedimento da m&iacute;dia, afinal, remete mais &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o do que &agrave; viol&ecirc;ncia. Mas, lembrando Foucault, propomo-nos a apontar os mecanismos de viol&ecirc;ncia sutil da produ&ccedil;&atilde;o de imagens socialmente valorizadas, que controla de forma mais eficiente do que o mando e a viol&ecirc;ncia expl&iacute;citos. E a presen&ccedil;a de viol&ecirc;ncia expl&iacute;cita, que tamb&eacute;m encontramos em suas p&aacute;ginas, fotos, mat&eacute;rias, programa&ccedil;&atilde;o etc.<\/p>\n<p>Se nos concentrarmos na m&iacute;dia televisiva, podemos perceber v&aacute;rias formas de viol&ecirc;ncia, a come&ccedil;ar pela viol&ecirc;ncia da sua intensa concentra&ccedil;&atilde;o. Os especialistas se dividem sobre o n&uacute;mero de fam&iacute;lias que det&ecirc;m em m&atilde;os este formid&aacute;vel poder de decidir o que vamos ver, e o que n&atilde;o veremos, al&eacute;m da interpreta&ccedil;&atilde;o que ser&aacute; dada aos fatos e not&iacute;cias mostrados &ndash; seis ou nove fam&iacute;lias concentram este poder em suas m&atilde;os.<\/p>\n<p>Decorre desta viol&ecirc;ncia, mais uma: a viol&ecirc;ncia da usurpa&ccedil;&atilde;o de nosso direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o. O direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; um direito humano que nos subtraem, limitando-o ao &quot;direito&quot; de absorvermos as informa&ccedil;&otilde;es que nos passam, sem nos permitir exercer o direito de dizer e mostrar o que pensamos, aprovamos, desaprovamos. Afinal, a comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma via de duas m&atilde;os &ndash; e n&atilde;o de m&atilde;o &uacute;nica, como nos imp&otilde;em.<\/p>\n<p><strong>Imposi&ccedil;&atilde;o de modelos<\/strong><\/p>\n<p>Mas temos tamb&eacute;m a viol&ecirc;ncia expl&iacute;cita, que se reflete na programa&ccedil;&atilde;o e que a banaliza. Se tirarmos por uma semana os filmes baseados em viol&ecirc;ncia, ficaremos praticamente sem programa&ccedil;&atilde;o filmogr&aacute;fica. Neles, a viol&ecirc;ncia abunda e se banaliza. Gera id&eacute;ias e modelos. Aumenta a toler&acirc;ncia a esta carga enorme que se precipita em nosso imagin&aacute;rio. E, c&uacute;mulo da sofistica&ccedil;&atilde;o, por vezes chega a ser erotizada &ndash; induzindo desapercebidamente (ou n&atilde;o), &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es sexuais for&ccedil;adas e &quot;romantizadas&quot;, como foi o caso do artigo do colunista Henrique Goldman, intitulado &quot;Carta Aberta para uma Luisa&quot;, na revista Trip, que mereceu cartas de protesto que sequer foram reproduzidas, desrespeitando o direito de resposta.<\/p>\n<p>Ou no notici&aacute;rio, como ocorreu com o caso do seq&uuml;estro seguido de morte da Elo&aacute;, em Santo Andr&eacute;, intensa e extensivamente explorado em forma de espet&aacute;culo, e que parece ter estimulado uma s&eacute;rie de crimes contra as mulheres, noticiados na mesma semana.<\/p>\n<p>Ou mesmo no que a Globo decidiu batizar de &quot;merchandising social&quot;, quando foca o tema em sua teledramaturgia, como fez em algumas de suas novelas. O que entra em discuss&atilde;o, no caso, &eacute; o timing &ndash; um n&uacute;mero infind&aacute;vel de epis&oacute;dios em que alguma mulher sofre impunemente viol&ecirc;ncia f&iacute;sica por parte de algum homem pr&oacute;ximo, finalmente coroado por um cap&iacute;tulo em que tal viol&ecirc;ncia &eacute; punida. Que valor afinal &eacute; mais promovido: a impunidade da viol&ecirc;ncia contra a mulher, ou o contr&aacute;rio?<\/p>\n<p>E temos tamb&eacute;m a viol&ecirc;ncia impl&iacute;cita, que vem de nossa invisibilidade seletiva (nunca aparecemos com nossas demandas sociais em nossas manifesta&ccedil;&otilde;es e reivindica&ccedil;&otilde;es, em nossos feitos e manifesta&ccedil;&otilde;es, como especialistas em quest&otilde;es de interesse geral, onde se prefere entrevistar t&atilde;o-somente homens) e na imposi&ccedil;&atilde;o sutil e poderosa de modelos &ndash; de beleza, de comportamento, de consumo, de &quot;felicidade&quot;, de valores, de normatiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Termo de ajustamento de conduta<\/strong><\/p>\n<p>E estes modelos todos reproduzem imagens mais ou menos sutis de submiss&atilde;o, de manuten&ccedil;&atilde;o de valores segregadores que j&aacute; foram largamente ultrapassados pelas transforma&ccedil;&otilde;es sociais que promovemos na estrutura e no tecido social. Nos mant&ecirc;m presas a uma imagem empalidecida e conservadora, prenhe de valores ultrapassados e conformistas.<\/p>\n<p>A nossa diversidade e o nosso contradit&oacute;rio s&atilde;o cuidadosamente ocultados, atrav&eacute;s de exibi&ccedil;&atilde;o ad nauseam de um modelo &uacute;nico e repetitivo de jeito de ser e ter, que se confundem&#8230;<\/p>\n<p>O impacto dessas imagens &ndash; e dessas aus&ecirc;ncias &ndash; na forma&ccedil;&atilde;o da subjetividade deixa suas marcas em uma gera&ccedil;&atilde;o de homens e mulheres.<\/p>\n<p>Em nome da sa&uacute;de mental e do desenvolvimento pleno e saud&aacute;vel da popula&ccedil;&atilde;o, esta situa&ccedil;&atilde;o tem que mudar.<\/p>\n<p>Temos &ndash; as mulheres e a sociedade civil organizada &ndash; promovido uma s&eacute;rie de a&ccedil;&otilde;es contra alguns destes abusos. Como quando a Campanha pela &Eacute;tica na TV obteve o &quot;direito de resposta&quot;, substituindo o programa de Jo&atilde;o Kleber por um m&ecirc;s, em que os diversos segmentos sociais ridicularizados em seu programa (mulheres, negros, homossexuais) tiveram espa&ccedil;o para dizer a que vieram. Ou como quando a mesma campanha conseguiu a mudan&ccedil;a de hor&aacute;rio do &ldquo;P&acirc;nico na TV&rdquo;.<\/p>\n<p>Ou, ainda, quando o CLADEM e o Instituto Patr&iacute;cia Galv&atilde;o conseguiram um TAC &ndash; termo de ajustamento de conduta &ndash; com a Kaiser, que bancou um semin&aacute;rio para a discuss&atilde;o da imagem da mulher na propaganda, em conseq&uuml;&ecirc;ncia de suas &quot;bolachas&quot; espalhadas pelas mesas dos bares, com os dizeres &quot;mulher e cerveja &ndash; especialidade da casa&quot;.<\/p>\n<p><strong>Responsabilidade social<\/strong><\/p>\n<p>As mulheres conseguiram, ainda, no Norte do pa&iacute;s, a proibi&ccedil;&atilde;o da propaganda de uma oficina publicada em revista em que, sobre o rosto de mulher, de olho roxo, se lia &quot;Est&aacute; na cara que precisa de funilaria&quot;. No Sul, a ONG Themis conseguiu multa e a proibi&ccedil;&atilde;o da m&uacute;sica &quot;Um Tapinha n&atilde;o D&oacute;i&quot;.<\/p>\n<p>Outras tentativas tiveram menos sucesso, mas n&atilde;o deixam de ser importantes. Como o processo movido pelo Observat&oacute;rio da Mulher contra a Skol, pela propaganda &quot;A musa do ver&atilde;o&quot;, estranhamente transferida do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal (depois de um ano de tramita&ccedil;&atilde;o e de tentativa frustrada de chegar a um Termo de Ajustamento de Conduta) para o Minist&eacute;rio P&uacute;blico Estadual, onde terminou finalmente arquivado, sem que a entidade que encaminhou o processo tivesse ao menos sido ouvida.<\/p>\n<p>Ou, ainda, as centenas de cartas de protesto encaminhadas ao jornal &ldquo;O Estado de S. Paulo&rdquo; por sua enquete &ndash; em que perguntava a que as mulheres aspiravam mais em termos de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, se opera&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica ou outras medidas de embelezamento. Finalmente, a carta de protesto endossada por v&aacute;rias entidades feministas, e outras, protestando contra a mat&eacute;ria publicada na revista Trip, onde um articulista relatava, de forma galhofeira e romantizada, o estupro a que submeteu a empregada dom&eacute;stica da casa de seus pais para a sua pr&oacute;pria inicia&ccedil;&atilde;o sexual (carta que a revista sequer publicou).<\/p>\n<p>Nesses 16 dias de ativismo contra a viol&ecirc;ncia &agrave; mulher, cabe p&ocirc;r em pauta o papel da m&iacute;dia na reprodu&ccedil;&atilde;o destes valores execr&aacute;veis e da naturaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia. &Eacute; mais do que hora de pensar num controle social, exercido pela sociedade civil organizada, para que a m&iacute;dia efetivamente cumpra a sua fun&ccedil;&atilde;o de informar e entreter, com toda a responsabilidade social que lhe cabe, tanto quando a sua propriedade &eacute; privada, como quando se trata de uma concess&atilde;o p&uacute;blica, como no caso da r&aacute;dio e da televis&atilde;o.<\/p>\n<p><em>* Rachel Moreno &eacute; psic&oacute;loga, pesquisadora e presidente do Observat&oacute;rio da Mulher.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ocasi&atilde;o dos 16 dias de ativismo contra a viol&ecirc;ncia &agrave; mulher, trago para reflex&atilde;o a influ&ecirc;ncia da m&iacute;dia no est&iacute;mulo &agrave; viol&ecirc;ncia em geral e, em particular, contra a mulher. 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