{"id":22152,"date":"2008-11-20T15:39:43","date_gmt":"2008-11-20T15:39:43","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22152"},"modified":"2008-11-20T15:39:43","modified_gmt":"2008-11-20T15:39:43","slug":"negros-continuam-em-situacao-marginal-na-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22152","title":{"rendered":"Negros continuam em situa\u00e7\u00e3o marginal na m\u00eddia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"padrao padrao\">O dia 20 de novembro, Dia da Consci&ecirc;ncia Negra, que celebra a morte de Zumbi dos Palmares em 1695 como s&iacute;mbolo de resist&ecirc;ncia &agrave; escravid&atilde;o, &eacute; tradicionalmente marcado por marchas e protestos realizados pelo movimento negro. Este momento, utilizado para dar visibilidade ao debate sobre a igualdade racial no Brasil, &eacute; v&aacute;lido tamb&eacute;m para uma reflex&atilde;o sobre como esta quest&atilde;o &eacute; retratada nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, das not&iacute;cias &agrave;s novelas, e qual &eacute; a influ&ecirc;ncia que estes conte&uacute;dos geram no imagin&aacute;rio popular em nosso pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Um dos exemplos mais gritantes &eacute; a afirma&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos existente na teledramaturgia brasileira. Resistem na TV as velhas situa&ccedil;&otilde;es de inferioridade impostas aos negros e negras: a dom&eacute;stica, a mulata sambista, o malandro delinq&uuml;ente. Mais recentemente, o pol&iacute;tico corrupto da novela &ldquo;A Favorita&rdquo; da Rede Globo surgiu para &ldquo;comprovar&rdquo; a doutrina da emissora de que a ascens&atilde;o social pela iniciativa individual &eacute; poss&iacute;vel, mas que mau-caratismo n&atilde;o tem cor, mesmo que um s&oacute; exemplo baste.<\/p>\n<p>&Eacute;, de qualquer maneira, sintom&aacute;tico que os rostos vistos nos telejornais e programas de audit&oacute;rio sejam quase sempre brancos. &ldquo;O dado &eacute; que existe uma invisibilidade do negro nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, afirma M&aacute;rcio Alexandre Gualberto, militante do Coletivo de Entidades Negras do Rio de Janeiro. A resposta das emissoras &ndash; que operam em regime de concess&atilde;o p&uacute;blica, nunca &eacute; demais lembrar &ndash; &agrave; demanda dos negros e negras, quase metade da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, refere-se a casos de integrantes deste segmento em posi&ccedil;&atilde;o de destaque, como os jornalistas Gl&oacute;ria Maria e Heraldo Pereira, trajet&oacute;rias que podem ser consideradas como exce&ccedil;&otilde;es que servem apenas de confirma&ccedil;&atilde;o &agrave; regra.<strong><\/p>\n<p>Segrega&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica<\/p>\n<p><\/strong>Para Dennis de Oliveira, professor da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes da USP e membro do N&uacute;cleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro, h&aacute; no pa&iacute;s uma &ldquo;segrega&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica&rdquo;, ou seja, tolera-se a presen&ccedil;a do negro em atividades l&uacute;dicas como esporte, dan&ccedil;a e m&uacute;sica como uma forma de compensa&ccedil;&atilde;o por sua aus&ecirc;ncia em outros espa&ccedil;os. &ldquo;O resultado &eacute; justamente a cria&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos&rdquo;, diz o docente.<\/p>\n<p>&ldquo;Quem entrega a pizza na propaganda &eacute; sempre um negro. Queremos que todos sejam tratados iguais&rdquo;, afirma Gl&aacute;ucia Matos, militante da Fala Preta! &#8211; Organiza&ccedil;&atilde;o de Mulheres Negras. Segundo ela, o conte&uacute;do dos personagens negros tem uma tend&ecirc;ncia &agrave; desvaloriza&ccedil;&atilde;o, sobretudo no caso das mulheres. &ldquo;Nas cr&ocirc;nicas policiais, o branco &eacute; sempre retratado como classe m&eacute;dia, enquanto o negro &eacute; visto como marginal&rdquo;, concorda      M&aacute;rcio Gualberto. &ldquo;Al&eacute;m disso, na TV, quando a vitima &eacute; negra, sua rea&ccedil;&atilde;o &eacute; sempre pela vitimiza&ccedil;&atilde;o ou pela supera&ccedil;&atilde;o, mas nunca a den&uacute;ncia&rdquo;, acrescenta Dennis de Oliveira.<\/p>\n<p>Esta segrega&ccedil;&atilde;o tem tamanho poder que atinge a imagem que os negros t&ecirc;m de si pr&oacute;prios. Em 1932, Castro Barbosa cantava a marchinha &ldquo;O teu cabelo n&atilde;o nega&rdquo;, composi&ccedil;&atilde;o de Lamartine Babo at&eacute; hoje executada nos blocos carnavalescos. &ldquo;Mas como a cor n&atilde;o pega, mulata, mulata eu quero teu amor&rdquo; &eacute; a mensagem passada pela m&uacute;sica. Desde ent&atilde;o, as piadas pejorativas relativas ao cabelo crespo t&iacute;pico da ra&ccedil;a negra n&atilde;o cessaram. Gualberto conta que &eacute; comum que os negros passem em algum momento pela &ldquo;crise do cabelo&rdquo;.<\/p>\n<p>Isso acontece, diz ele, porque a id&eacute;ia de belo reproduzida pela m&iacute;dia &eacute; justamente o padr&atilde;o europeu. &ldquo;&Eacute; como o negro que fica rico e se casa com uma loira. Esta &eacute; a l&oacute;gica do vencedor imposta pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Gl&aacute;ucia Matos conta que o movimento negro inclusive j&aacute; processou a marca de palhas de a&ccedil;o Assolan por associar seu produto ao cabelo crespo de maneira pejorativa.<strong><\/p>\n<p>Preconceito velado<\/strong><\/p>\n<p>No &uacute;ltimo dia 2 de novembro, o ingl&ecirc;s Lewis Hamilton n&atilde;o ganhou a etapa de S&atilde;o Paulo da F&oacute;rmula 1, mas levou o t&iacute;tulo do campeonato vencendo justamente um brasileiro. Primeiro negro a conquistar a principal categoria do automobilismo mundial, Hamilton e familiares sofreram um racismo que n&atilde;o acreditavam encontrar por aqui. As manifesta&ccedil;&otilde;es foram exaustivamente reproduzidas pela imprensa europ&eacute;ia, mas no Brasil a repercuss&atilde;o foi quase nula, revelando a omiss&atilde;o da m&iacute;dia nativa em denunciar o preconceito de seus cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>Para M&aacute;rcio Gualberto, para al&eacute;m da presen&ccedil;a f&iacute;sica na teledramaturgia ou na publicidade, existe nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o em geral, sobretudo no jornalismo, &ldquo;incapacidade, indiferen&ccedil;a e m&aacute; vontade&rdquo; para lidar com a quest&atilde;o do preconceito racial. Gl&aacute;ucia Matos acredita que este cen&aacute;rio se refere ao papel da m&iacute;dia em manter o preconceito. &ldquo;Existem in&uacute;meros casos de racismo nos tribunais. Os jornais tamb&eacute;m n&atilde;o dizem que a maioria dos jovens assassinados no pa&iacute;s s&atilde;o negros&rdquo;, afirma.<strong><\/p>\n<p>Admiss&atilde;o de culpa<\/strong><\/p>\n<p>O soci&oacute;logo brasileiro Florestan Fernandes dizia que a caracter&iacute;stica mais marcante do racista brasileiro &eacute; a de n&atilde;o se considerar racista. A melhor tradu&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica dessa afirma&ccedil;&atilde;o surge em &ldquo;N&atilde;o Somos Racistas&rdquo;, livro de Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo. &ldquo;Ao mesmo tempo em que admite que existem diferen&ccedil;as, diz que &eacute; preciso ignor&aacute;-las para n&atilde;o criar uma divis&atilde;o no pa&iacute;s. &Eacute; algo paran&oacute;ico&rdquo;, comenta Gualberto.<\/p>\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o de Dennis de Oliveira, a m&iacute;dia insiste que o racismo no Brasil n&atilde;o tem um car&aacute;ter sist&ecirc;mico, abordando a quest&atilde;o sempre pela &oacute;tica individual. &ldquo;A a&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia &eacute; sempre no sentido de minorar a quest&atilde;o, tirando-lhe a seriedade para que n&atilde;o entre na agenda [p&uacute;blica].&rdquo;<\/p>\n<p>O professor aponta que a &uacute;nica forma de supera&ccedil;&atilde;o do preconceito nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o seria o movimento negro se organizar para construir m&iacute;dias alternativas. Gl&aacute;ucia Matos afirma que existem conquistas por conta da atua&ccedil;&atilde;o do movimento, que tem monitorado e denunciado com maior rigor. &ldquo;Mas no que depender da m&iacute;dia&rdquo;, diz ela, &ldquo;ainda falta muito.&rdquo;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia em que se discute os desafios \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da igualdade racial no pa\u00eds, os meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o lembrados como instrumento poderoso de reprodu\u00e7\u00e3o de preconceitos de ra\u00e7a, cor e etnia.  <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[916],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22152"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22152"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22152\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22152"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22152"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22152"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}