{"id":22130,"date":"2008-11-14T18:51:17","date_gmt":"2008-11-14T18:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22130"},"modified":"2008-11-14T18:51:17","modified_gmt":"2008-11-14T18:51:17","slug":"regulacao-da-publicidade-quando-o-cabrito-toma-conta-da-horta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22130","title":{"rendered":"Regula\u00e7\u00e3o da publicidade: Quando o cabrito toma conta da horta"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">A &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo; de segunda-feira, 10 de novembro, abriu seu espa&ccedil;o nobre na p&aacute;gina 3 para o secret&aacute;rio-executivo da ANJ, a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais, Antonio Athaide. Texto esperto. Critica certo tipo de publicidade, chamada por ele de &ldquo;fase Caras&rdquo; ou &ldquo;Zeca fase&rdquo; por se utilizar das celebridades da m&iacute;dia nos an&uacute;ncios. E aproveita para bater duro nas iniciativas que prop&otilde;em o estabelecimento de algum tipo de norma para a propaganda. Ao editor da p&aacute;gina isso n&atilde;o passou desapercebido tanto &eacute; que destacou do artigo a seguinte frase para chamar a aten&ccedil;&atilde;o do leitor: &ldquo;a sociedade sabe escolher o que lhe conv&eacute;m, sem precisar de entidades, de governo ou n&atilde;o, que diga o que fazer e o que comprar.&rdquo; Esse &eacute; o recado do texto, enviado principalmente aos deputados e senadores, &agrave;s voltas com importantes projetos de lei referentes &agrave; regula&ccedil;&atilde;o do setor.<\/p>\n<p>O artigo do secret&aacute;rio-executivo da ANJ n&atilde;o &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o isolada. Faz parte da ofensiva dos empres&aacute;rios da m&iacute;dia contra as vozes da sociedade que apontam com precis&atilde;o os males causados por diferentes tipos de propaganda. Com destaque para os an&uacute;ncios dirigidos &agrave;s crian&ccedil;as e aos adolescentes atrav&eacute;s da televis&atilde;o. Eles s&atilde;o dirigidos a seres em forma&ccedil;&atilde;o ainda incapazes de diferenciar a propaganda do entretenimento. Ao banir esse tipo de publicidade em 2004, a Su&eacute;cia baseou-se numa pesquisa conduzida pelo soci&oacute;logo Erling Bjurstr&ouml;m. O trabalho conclui afirmando que &ldquo;algumas crian&ccedil;as j&aacute; aos 3 ou 4 anos de idade conseguem distinguir um comercial de um programa normal de televis&atilde;o, mas somente dos 6 aos 8 anos &eacute; que a maioria consegue fazer a distin&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Para o soci&oacute;logo, s&oacute; aos doze &eacute; que todas as crian&ccedil;as conseguem ter uma posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; publicidade ou discernir concretamente sobre os seus objetivos. Portanto, todas precisam da prote&ccedil;&atilde;o do Estado.<\/p>\n<p>No Brasil nunca se fez esse tipo de pesquisa, mas acredito que, apesar de todas as diferen&ccedil;as culturais e econ&ocirc;micas existentes entre os dois pa&iacute;ses, as respostas seriam semelhantes. H&aacute; relatos de pais contando que as primeiras palavras pronunciadas por seus filhos s&atilde;o &ldquo;m&atilde;e&rdquo;, &ldquo;pai&rdquo; e &ldquo;compra&rdquo;. Situa&ccedil;&atilde;o agravada diante das brutais diferen&ccedil;as de renda. Os an&uacute;ncios estimulam um consumo que a maioria das fam&iacute;lias n&atilde;o pode realizar. Como o caso do menino da periferia paulistana que, ao ser detido pelo seguran&ccedil;a de um supermercado tomando um danoninho, disse estar apenas querendo sentir o gosto desse produto t&atilde;o anunciado na televis&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; no meio publicit&aacute;rio uma posi&ccedil;&atilde;o fechada contra qualquer tipo de lei para o setor, defendida ruidosamente em eventos da categoria. O limite aceit&aacute;vel para eles &eacute; apenas o da auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o, praticada atrav&eacute;s do Conar, o Conselho Nacional de Auto-Regulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria. Como se fosse poss&iacute;vel uma entidade privada regular a&ccedil;&otilde;es de empresas particulares cuja atua&ccedil;&atilde;o tem impacto sobre toda a sociedade. E ainda quando se trata de um organismo controlado pelos pr&oacute;prios agentes das poss&iacute;veis irregularidades. &Eacute; o mesmo que colocar o cabrito para tomar conta da horta.<\/p>\n<p>A credibilidade do Conar, t&atilde;o decantada pelas entidades de publicit&aacute;rios, &eacute; posta facilmente em d&uacute;vida. Basta ver o que diz o artigo 28 do seu c&oacute;digo nacional: &ldquo;o an&uacute;ncio deve ser claramente distinguido como tal, seja qual for a sua forma ou meio de veicula&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Ou seja, pro&iacute;be o merchandising na TV. No entanto, para ver um, basta ligar a televis&atilde;o neste momento. L&aacute; estar&atilde;o os an&uacute;ncios, em meio a programas de audit&oacute;rio, nas novelas e, o que &eacute; pior, misturados aos &iacute;dolos e her&oacute;is infantis. S&atilde;o apresentadoras e apresentadores que conquistam a confian&ccedil;a e a admira&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as com simpatia, bom humor e alegria, para sorrateiramente &ndash; entre uma brincadeira e outra &ndash; tornarem-se vendedores de todo o tipo de mercadoria. Nunca vi o Conar se manifestar sobre essa pr&aacute;tica, incompat&iacute;vel com as suas pr&oacute;prias regras. &Eacute; um exemplo que mostra, de forma clara, como s&atilde;o falaciosas as defesas da auto-regulamenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Como concess&otilde;es p&uacute;blicas, outorgadas pelo Estado em nome da sociedade, elas necessitam de regras precisas para o seu funcionamento. N&atilde;o &eacute; justo que grupos privilegiados se utilizem do espa&ccedil;o p&uacute;blico para moldar gostos, h&aacute;bitos e valores de toda a sociedade, sem qualquer controle. No caso da propaganda h&aacute; prioridades urgentes a serem regulamentadas. Al&eacute;m daquelas voltadas para o p&uacute;blico infanto-juvenil, o mercado se utiliza do r&aacute;dio e da TV para impingir rem&eacute;dios de efic&aacute;cia duvidosa, bebidas alco&oacute;licas em qualquer hor&aacute;rio embaladas por cenas de sucesso pessoal, para n&atilde;o se falar dos alimentos pobres em nutrientes e ricos em gorduras, sais e a&ccedil;&uacute;cares, respons&aacute;veis, entre outros danos, pelo aumento da obesidade em grande parte da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A ofensiva dos publicit&aacute;rios reflete o atraso cultural e pol&iacute;tico do Brasil em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s na&ccedil;&otilde;es com longa hist&oacute;ria democr&aacute;tica. Nelas essa discuss&atilde;o est&aacute; superada. Tratam agora apenas do tipo de propaganda que deve sofrer restri&ccedil;&otilde;es e qual o grau de controle que o Estado deve exercer. No caso daquelas dirigidas a crian&ccedil;as e adolescentes, temos desde o banimento total adotado pelos pa&iacute;ses n&oacute;rdicos &agrave; regulamenta&ccedil;&otilde;es sobre hor&aacute;rios e formas de an&uacute;ncios encontradas no Reino Unido, Canad&aacute;, Jap&atilde;o, Alemanha, Austr&aacute;lia e Estados Unidos, entre outros pa&iacute;ses. Por aqui, ainda estamos muito longe disso. E artigos, como o publicado pela &ldquo;Folha&rdquo;, mostram a disposi&ccedil;&atilde;o que os empres&aacute;rios da m&iacute;dia t&ecirc;m para retardar ao m&aacute;ximo o avan&ccedil;o do processo civilizat&oacute;rio brasileiro. <\/p>\n<p><em>* Laurindo Lalo Leal Filho, soci&oacute;logo e jornalista, &eacute; professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade C&aacute;sper L&iacute;bero. &Eacute; autor, entre outros, de &ldquo;A TV sob controle &ndash; A resposta da sociedade ao poder da televis&atilde;o&rdquo; (Summus Editorial). &Eacute; ouvidor-geral da Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/em><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\"><br \/><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo; de segunda-feira, 10 de novembro, abriu seu espa&ccedil;o nobre na p&aacute;gina 3 para o secret&aacute;rio-executivo da ANJ, a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Jornais, Antonio Athaide. 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