{"id":22123,"date":"2008-11-13T15:59:14","date_gmt":"2008-11-13T15:59:14","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22123"},"modified":"2008-11-13T15:59:14","modified_gmt":"2008-11-13T15:59:14","slug":"a-negritude-em-primeiro-plano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22123","title":{"rendered":"A negritude em primeiro plano"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\"><em>Antrop&oacute;logo, cineasta e professor, Celso Prudente organiza, desde 2004, a Mostra Internacional do Cinema Negro. Em novembro, m&ecirc;s da Consci&ecirc;ncia Negra, a quinta edi&ccedil;&atilde;o da mostra destaca o tema &ldquo;M&uacute;sica Religiosidade e Ontologia&rdquo; e busca a autonomia da africanidade.<\/em><\/p>\n<p><strong>O que &eacute; o Cinema Negro? Qual foi sua motiva&ccedil;&atilde;o inicial para organizar uma mostra com esse tema?<\/strong><br \/>O Cinema Negro n&atilde;o &eacute; s&oacute; uma quest&atilde;o de preocupa&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica, pois existem demandas de sintaxe. No livro &ldquo;Reflex&otilde;es sobre o Racismo&rdquo;, Sartre estuda, entre outras coisas, os poetas negros das col&ocirc;nias francesas. Ele sugere o seguinte: os poetas negros t&ecirc;m um discurso que &eacute; longo; e esse verso longo n&atilde;o fere a linguagem po&eacute;tica, porque os negros t&ecirc;m o direito de ter um discurso longo, na medida em que eles t&ecirc;m uma hist&oacute;ria longa. Ao meu quase cego ver, esse fen&ocirc;meno se repete em outras demandas art&iacute;sticas e &eacute; poss&iacute;vel localizar no cinema que surge no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 80 a valoriza&ccedil;&atilde;o do primeiro plano na figura do negro. Nessa &eacute;poca, alguns jovens cineastas do Brasil v&atilde;o para a &Aacute;frica, totalmente motivados pelo comportamento do Glauber Rocha, quando ele faz o &ldquo;Le&atilde;o de Sete Cabe&ccedil;as&rdquo;, rodado no Congo-Brazaville, com m&uacute;sicas da Clementina de Jesus. O Glauber vai trabalhar com essa ess&ecirc;ncia hist&oacute;rica dentro de um plexo cultural africano para sugerir que o discurso irreverente de uma est&eacute;tica emergente se d&aacute; com a presen&ccedil;a hist&oacute;rica africana. &Eacute; poss&iacute;vel fazer uma observa&ccedil;&atilde;o f&iacute;lmica &#8211; e n&atilde;o cinematogr&aacute;fica &#8211; em que o primeiro plano se coloca como um elemento norteador das rela&ccedil;&otilde;es de planos. Percebemos este mesmo fen&ocirc;meno, por exemplo, com Ari C&acirc;ndido, em &ldquo;Por que Eritr&eacute;ia?&rdquo;. A gente vai percebendo que esta quest&atilde;o do primeiro plano &eacute; importante, porque quando voc&ecirc; coloca no centro aquele que foi desarticulado para a margem, voc&ecirc; coloca a express&atilde;o de um resgate da sua hist&oacute;ria. Ent&atilde;o voc&ecirc; tem sim uma sintaxe do Cinema Negro. O Cinema Negro &eacute; o cinema que mostra, na estrutura do primeiro e do primeir&iacute;ssimo plano, toda a express&atilde;o de conjunto cultural que traz rela&ccedil;&otilde;es do ser africano, que &eacute; furtado num processo de massifica&ccedil;&atilde;o, na qual lhe &eacute; negada a sua condi&ccedil;&atilde;o humana.<\/p>\n<p><strong>Esse processo de retratar o negro de uma maneira positiva a partir da d&eacute;cada de 80 ocorre tamb&eacute;m no resto do mundo, ou &eacute; um fen&ocirc;meno brasileiro?<br \/><\/strong>Aqui no Brasil, o Cinema Negro aparece com o Cinema Novo, que nasce como cr&iacute;tica ao cinema dos grandes est&uacute;dios. Mas o Cinema Novo &eacute; um fen&ocirc;meno brasileiro, dentro de um ascenso cultural, internacional, de uma est&eacute;tica que se contrap&otilde;e &agrave;s redes de domina&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o, na mesma &eacute;poca, n&oacute;s temos o Neorealismo na It&aacute;lia, a Nouvelle Vague na Fran&ccedil;a e o Undergound nos EUA. A maior express&atilde;o mundial do cinema negro &eacute; o Spike Lee, nos EUA.<\/p>\n<p><strong>Como est&aacute; a produ&ccedil;&atilde;o do Cinema Negro hoje?<\/strong><br \/>O Cinema Negro &eacute; muito novo, ele &eacute; uma est&eacute;tica emergente, que nasce no seio do Cinema Novo, porque a estrutura que permitiu o nascedouro do cinema negro entre n&oacute;s, brasileiros, foi o Cinema Novo do Glauber. &ldquo;Barravento&rdquo; j&aacute; &eacute; um testemunho do Cinema Negro. Mas n&oacute;s temos esse ascenso na d&eacute;cada de 80, a partir de um ac&uacute;mulo de outras experi&ecirc;ncias. Na d&eacute;cada de 70, n&oacute;s tivemos o processo de descoloniza&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica, as lutas pelos direitos civis nos EUA e, aqui no Brasil, surge o Movimento Negro Unificado. Evidentemente, o Movimento Negro Unificado acabou sendo o grande elemento pol&iacute;tico de refer&ecirc;ncia, tanto que os jovens realizadores que fazem Cinema Negro passaram por ele. O Z&oacute;zimo Bubul, o Ari C&acirc;ndido, eu, todos n&oacute;s passamos pelo movimento, que conseguiu mostrar para o mundo que o Brasil n&atilde;o era o para&iacute;so da democracia racial. Nessa perspectiva, o jovem negro j&aacute; n&atilde;o se contentava mais de se ver discutido, ele passa a querer pautar a discuss&atilde;o, ele quer ser o protagonista e o grande escritor. &Eacute; este o momento em que, no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 80, esses jovens negros come&ccedil;am a pegar nas c&acirc;meras para escrever um Brasil a partir de um olhar tamb&eacute;m africanista.<\/p>\n<p><strong>O cinema &ndash; pelo menos a obra de alguns diretores &#8211; teve este papel de trazer o negro para o primeiro plano. E a televis&atilde;o?<\/strong><br \/>&Eacute; evidente que os negros, os ib&eacute;ricos, os amer&iacute;ndios, os asi&aacute;ticos n&atilde;o est&atilde;o na TV, mas essa luta em favor do direito &agrave; personalidade existe. O negro se sente torturado diante de uma televis&atilde;o em que ele s&oacute; assiste ao outro e n&atilde;o consegue se ver. Nas poucas express&otilde;es &#8211; que s&atilde;o rarefeitas mesmo &#8211; ele &eacute; posto num processo de bo&ccedil;alidade, do inferior, do hil&aacute;rio, do desnaturado. Ele vai aparecer como o excessivamente engra&ccedil;ado, como aquele que n&atilde;o &eacute;, que n&atilde;o ama. &Eacute; muito recente a presen&ccedil;a das fam&iacute;lias negras na televis&atilde;o. Quando o negro aparece numa novela, ele n&atilde;o ama, n&atilde;o tem amigo, n&atilde;o tem m&atilde;e, n&atilde;o tem pai, n&atilde;o tem irm&atilde;o, ele n&atilde;o vai &agrave; quitanda e, mais grave que n&atilde;o ir &agrave; quitanda, &eacute; um personagem que n&atilde;o conhece o supermercado. N&atilde;o conhecer o supermercado numa sociedade degenerada significa voc&ecirc; n&atilde;o andar, voc&ecirc; estar preso. A liberdade de uma sociedade degenerada, com rela&ccedil;&otilde;es meramente de mercado, &eacute; voc&ecirc; consumir, porque quem vai pautar a televis&atilde;o &eacute; o mercado e s&oacute; agora &eacute; que a gente come&ccedil;a a ouvir falar dos produtos &eacute;tnicos.<\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; o norte da Quinta Mostra Internacional do Cinema Negro?<\/strong><br \/>A Quinta Mostra est&aacute; vivendo um momento muito interessante. N&oacute;s fechamos um processo, porque n&oacute;s mostramos que ela veio para ficar, porque n&oacute;s temos ac&uacute;mulos que permitem que exista uma mostra. Os filmes est&atilde;o dialogando com outros. Por exemplo, n&oacute;s j&aacute; passamos &ldquo;Rio, Zona Norte&rdquo;, porque o Nelson Pereira dos Santos, nesse filme, conta a hist&oacute;ria do Z&eacute; Ketti. Esse ano entra &ldquo;Doces B&aacute;rbaros&rdquo;, que fala do encontro entre o Gil e o Caetano. Entra tamb&eacute;m o filme &ldquo;Partido Alto&rdquo;. Ent&atilde;o, esse encontro, que &eacute; musical, acontece agora num processo totalmente imag&eacute;tico. Essa mostra tem uma costura, &eacute; o tempo que dialoga com o lugar. Essa possibilidade de o tempo dialogar com o lugar &eacute; o alternativo, &eacute; o horizontal. Na sociedade de mercado, o tempo n&atilde;o dialoga com o lugar. Quem tem hist&oacute;ria n&atilde;o tem lugar e quem tem lugar n&atilde;o tem hist&oacute;ria. A nossa mostra &eacute; diferente, n&oacute;s n&atilde;o estamos mais falando de uma resist&ecirc;ncia da cultura negra, n&oacute;s estamos falando numa autonomia da africanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antrop\u00f3logo fala sobre a presen\u00e7a do negro no cinema e na TV<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[914],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22123"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22123\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}