{"id":22122,"date":"2008-11-13T15:41:09","date_gmt":"2008-11-13T15:41:09","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22122"},"modified":"2008-11-13T15:41:09","modified_gmt":"2008-11-13T15:41:09","slug":"em-sp-lei-e-decisoes-judiciais-calam-funcionarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22122","title":{"rendered":"Em SP, lei e decis\u00f5es judiciais calam funcion\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao padrao\">O artigo 5&ordm; da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal prev&ecirc; que todo cidad&atilde;o brasileiro disp&otilde;e, como seu direito inalien&aacute;vel, liberdade de express&atilde;o isenta de qualquer tipo de san&ccedil;&atilde;o ou repreens&atilde;o. &Eacute; evidente que em um pa&iacute;s desigual como o Brasil esta liberdade esteja sempre em quest&atilde;o. Mas no caso do estado de S&atilde;o Paulo, pelo menos, quem questiona este direito &eacute; a pr&oacute;pria legisla&ccedil;&atilde;o. Trata-se da Lei 10.261\/1968, o chamado Estatuto dos Funcion&aacute;rios P&uacute;blicos Civis do Estado de S&atilde;o Paulo. <\/p>\n<p>Resqu&iacute;cio da ditadura militar que privou os funcion&aacute;rios paulistas de opini&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica por d&eacute;cadas, o estatuto hoje &eacute; utilizado, sobretudo, como meio de coer&ccedil;&atilde;o do funcionalismo, n&atilde;o obstante sua evidente inconstitucionalidade reiterada por diversos juristas. &ldquo;Ao funcion&aacute;rio (&#8230;) &eacute; proibido referir-se depreciativamente, em informa&ccedil;&atilde;o, parecer ou despacho, ou pela imprensa, ou qualquer meio de divulga&ccedil;&atilde;o, &agrave;s autoridades constitu&iacute;das e aos atos da Administra&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &eacute; o que informa o artigo 242 do Estatuto, ainda em vigor, surpreendentemente. <\/p>\n<p>Pouco se fala a respeito da lei. O governo paulista jura que n&atilde;o a aplica e que ela n&atilde;o teria efetividade. No entanto, o Executivo estadual tamb&eacute;m nunca se esmerou na revoga&ccedil;&atilde;o da extempor&acirc;nea pe&ccedil;a legislativa e parece pouco atento aos relatos das ONGs dedicadas &agrave; defesa da liberdade de express&atilde;o. Agora, mais um cap&iacute;tulo desta hist&oacute;ria de censura velada est&aacute; sendo escrito com a greve da Pol&iacute;cia Civil do estado, que produziu pelo menos dois casos de supostos abusos por parte do governo Jos&eacute; Serra: a proibi&ccedil;&atilde;o de veicula&ccedil;&atilde;o de um an&uacute;ncio dos sindicatos na TV e a cassa&ccedil;&atilde;o do blog de um delegado.<\/p>\n<p>Para os professores da rede p&uacute;blica estadual a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda mais presente. Segundo as ONGs A&ccedil;&atilde;o Educativa e Artigo 19, acumulam-se os casos de ass&eacute;dio moral usando os termos da 10.621 como instrumento de press&atilde;o. Os relatos s&atilde;o corroborados por depoimentos de jornalistas que descrevem as dificuldades que encontram para entrevistar as professoras e professores, o que traz conseq&uuml;&ecirc;ncias, inclusive, para a pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o do senso cr&iacute;tico do docente.<\/p>\n<p><strong>Pol&iacute;cia censurada<\/strong><\/p>\n<p>As viola&ccedil;&otilde;es &agrave; liberdade de express&atilde;o t&ecirc;m sido mais ostensivas nos &uacute;ltimos meses por parte do Governo Serra em resposta &agrave; greve dos policiais civis do estado. O movimento, que durou 59 dias e buscou reposi&ccedil;&atilde;o de perdas salariais, tentou, de v&aacute;rias maneiras, furar a blindagem midi&aacute;tica ao presidenci&aacute;vel Jos&eacute; Serra. A Pol&iacute;cia Civil paulista &eacute; a nona mais mal paga do pa&iacute;s, atr&aacute;s de Sergipe e Alagoas, por exemplo, e estava h&aacute; 14 anos sem reajuste.<\/p>\n<p>A iniciativa mais ousada foi comprar uma inser&ccedil;&atilde;o nos intervalos comerciais, em hor&aacute;rio nobre, das redes Record, Bandeirantes e Globo. O comercial mostrava os policiais batendo &agrave; porta do governador sem, no entanto, serem atendidos. Nas duas primeiras emissoras o comercial foi veiculado, mas na v&eacute;spera da inser&ccedil;&atilde;o na Rede Globo uma a&ccedil;&atilde;o do governo do Estado foi acatada pelo juiz da 6&ordf; Vara da Fazenda P&uacute;blica, Rodrigo de Oliveira Carvalho, proibindo que a pe&ccedil;a fosse ao ar sob a alega&ccedil;&atilde;o de que causaria &ldquo;temor e inseguran&ccedil;a na popula&ccedil;&atilde;o.&rdquo;<\/p>\n<p>&Uacute;nico abrigo do movimento grevista, a internet tamb&eacute;m se tornou alvo da Justi&ccedil;a com a retirada do ar, no &uacute;ltimo dia 23 de outubro, do blog &ldquo;Flit Paralisante&rdquo;, mantido pelo delegado Roberto Conde Guerra. A p&aacute;gina tornou-se refer&ecirc;ncia para os policiais em greve por conta das cr&iacute;ticas contundentes &agrave; pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a p&uacute;blica do governo tucano. O juiz de Direito Davi Capelatto, do Departamento de Inqu&eacute;ritos Policiais, ainda reiterou por tr&ecirc;s vezes sua decis&atilde;o, exigindo que o Google atentasse para os novos blogs que o delegado insistia em colocar no ar. Para se ter uma id&eacute;ia da veem&ecirc;ncia com que a decis&atilde;o foi tomada, o juiz d&aacute; um prazo de duas horas para a execu&ccedil;&atilde;o da senten&ccedil;a.<\/p>\n<p>&ldquo;Infelizmente, o direito de comunicar est&aacute; prejudicado em S&atilde;o Paulo&rdquo;, afirma o presidente do Sindicato dos Investigadores de Policia Jo&atilde;o Batista Rebou&ccedil;as.<\/p>\n<p><strong>Puni&ccedil;&atilde;o &agrave; opini&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m de um policial civil a descri&ccedil;&atilde;o mais impressionante de persegui&ccedil;&atilde;o a um funcion&aacute;rio p&uacute;blico que se arriscou a emitir sua opini&atilde;o em um grande ve&iacute;culo de comunica&ccedil;&atilde;o. Em outubro de 2007, quando da publica&ccedil;&atilde;o de um pol&ecirc;mico artigo do apresentador Luciano Huck na &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo;, que ent&atilde;o se queixava da pol&iacute;cia pelo roubo do seu rel&oacute;gio Rolex em um sem&aacute;foro na capital paulista, o investigador Roger Franchini fez quest&atilde;o de emitir seu ponto de vista sobre a situa&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a p&uacute;blica em S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>&ldquo;Os policiais que est&atilde;o na linha de frente do combate ao crime (todos os que n&atilde;o s&atilde;o delegados ou oficiais da PM), sabemos onde est&aacute; o &#39;rolex roubado&#39; do Luciano Huck (&#8230;) Mas n&atilde;o vou trocar tiro com bandidos recebendo um sal&aacute;rio base de R$ 568,29 ao m&ecirc;s&rdquo;, afirmou Franchini no &ldquo;Painel do Leitor&rdquo; da &ldquo;Folha&rdquo; na &eacute;poca. Acusava ainda o governo do PSDB por manter a pol&iacute;cia paulista &ldquo;na mis&eacute;ria h&aacute; 14 anos.&rdquo;<\/p>\n<p>A ironia do investigador foi interpretada pelo jornal e pela Corregedoria da Pol&iacute;cia Civil como uma admiss&atilde;o de culpa, o que resultou em um inqu&eacute;rito contra o investigador. Mandado para uma delegacia distante, sofreu processo administrativo e, por fim, pediu sua exonera&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Eu fiz criticas por me sentir ofendido e ironizei o artigo dele (Huck) de forma democr&aacute;tica&rdquo;, afirma Franchini. [1]<\/p>\n<p>O investigador conta que tinha conhecimento da Lei dos Funcion&aacute;rios P&uacute;blicos e tamb&eacute;m do Estatuto dos Policiais Civis, que conta com restri&ccedil;&otilde;es semelhantes, mas que n&atilde;o se preocupou porque &ldquo;ningu&eacute;m nunca foi processado por isso&rdquo;. Franchini, ent&atilde;o, &eacute; o primeiro de v&aacute;rios que ainda podem sofrer as mesmas retalia&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>Intimida&ccedil;&atilde;o a professores<\/strong> <\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o identificamos nenhum caso de puni&ccedil;&atilde;o citando a lei especificamente&rdquo;, conta Mari&acirc;ngela Graciano, coordenadora do programa Observat&oacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, da A&ccedil;&atilde;o Educativa. &ldquo;Acontece que ela, por n&atilde;o ter sido revogada, &eacute; usada como mecanismo de amea&ccedil;a, uma forma de cercear e intimidar.&rdquo; Esta tem sido a pr&aacute;tica mais comum, pelo menos entre os professores.<\/p>\n<p>De fato, n&atilde;o existem muitos casos de processos administrativos baseados no artigo 242. Todas as organiza&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m acompanhado essa quest&atilde;o fazem quest&atilde;o de ressaltar que a sua efic&aacute;cia est&aacute; no constrangimento que ela causa aos servidores, que vivem sob constante amea&ccedil;a por seus superiores, o quais, por sua vez, det&ecirc;m cargos comissionados e precisam &ldquo;zelar&rdquo; pela boa imagem das institui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Paula Martins, da Artigo 19, define como &ldquo;sutil&rdquo; o ass&eacute;dio moral a que est&atilde;o submetidos os funcion&aacute;rios paulistas. &ldquo;Temos casos em que n&atilde;o houve procedimento administrativo ou advert&ecirc;ncia, mas sim uma a&ccedil;&atilde;o mais sutil, como transfer&ecirc;ncias e amea&ccedil;as. A exist&ecirc;ncia da legisla&ccedil;&atilde;o tem gerado medo de repres&aacute;lias.&rdquo; O risco de transfer&ecirc;ncias para lugares distantes de suas casas serve n&atilde;o apenas como aviso, mas tamb&eacute;m, se efetivada, como uma forma de ex&iacute;lio para aqueles que &ldquo;falaram demais&rdquo;.<\/p>\n<p>Para Maria Isabel Azevedo de Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S&atilde;o Paulo (Apeoesp), a legisla&ccedil;&atilde;o vigente em S&atilde;o Paulo contradiz o momento hist&oacute;rico de &ldquo;avan&ccedil;o da democracia&rdquo;. &ldquo;A categoria dos professores est&aacute; adoecida. Todo dia eles enfrentam salas de aula lotadas, sofrem com stress, perda da voz, tendinite, e s&atilde;o constrangidos a n&atilde;o se manifestar.&rdquo;<\/p>\n<p>&ldquo;A lei &eacute; um entrave, mas sabemos que os professores n&atilde;o se manifestam apenas por causa disso. Existe um clima de desvaloriza&ccedil;&atilde;o geral do magist&eacute;rio&rdquo;, concorda Mari&acirc;ngela.<\/p>\n<p><strong>Movimento por liberdade de express&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A Apeoesp, a A&ccedil;&atilde;o Educativa e a Artigo 19 prometem a&ccedil;&otilde;es no sentido de rever a legisla&ccedil;&atilde;o e afirmar o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o dos servidores p&uacute;blicos. &ldquo;O desafio agora &eacute; nacionalizar a campanha&rdquo;, afirma Mari&acirc;ngela. &ldquo;&Eacute; preciso disponibilizar informa&ccedil;&otilde;es para a comunidade local e paralelamente fazer um trabalho de mobiliza&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara federal. O relator da ONU  tamb&eacute;m solicitou informa&ccedil;&otilde;es ao Brasil sobre essa quest&atilde;o.&rdquo;<\/p>\n<p>Paula Martins admite que existe uma dificuldade em quantificar os casos, mas conta que est&aacute; se iniciando um projeto de monitoramento em parceria com os sindicatos. &ldquo;A liberdade de express&atilde;o est&aacute; garantida na Constitui&ccedil;&atilde;o. Diante de tantas medidas autorit&aacute;rias deste governo temos que nos juntar por esse direito&rdquo;, convida Maria Isabel.<\/p>\n<p>A Apeoesp, Artigo 19 e A&ccedil;&atilde;o Educativa criaram um blog para receber den&uacute;ncias feitas por funcion&aacute;rios p&uacute;blicos: <a href=\"http:\/\/falaeducadorfalaeducadora.livreacesso.net\/\">http:\/\/falaeducadorfalaeducadora.livreacesso.net\/<\/a> <\/p>\n<p>A possibilidade de a legisla&ccedil;&atilde;o vigente transformar-se em instrumento de intimida&ccedil;&atilde;o do funcionalismo p&uacute;blico existe tamb&eacute;m em outros estados. Segundo levantamento da A&ccedil;&atilde;o Educativa, em 18 estados, o Estatuto dos Funcion&aacute;rios P&uacute;blicos impede que professores e outros servidores d&ecirc;em entrevistas. Al&eacute;m de S&atilde;o Paulo, a organiza&ccedil;&atilde;o encontrou leis semelhantes no Amap&aacute;, Amazonas, Bahia, Cear&aacute;, Esp&iacute;rito Santo, Goi&aacute;s, Maranh&atilde;o, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Par&aacute;, Para&iacute;ba, Paran&aacute;, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Sergipe.<\/p>\n<p>*************************************<br \/>[1] A informa&ccedil;&atilde;o sobre o processo que levou a pedido de exonera&ccedil;&atilde;o foi corrigida em 15\/1\/2009, a pedido do entrevistado Roger Franchini.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Policiais civis tiveram an\u00fancio contra o governo e blog censurados; professores relatam casos em que lei de 1968, que impede servidor de emitir opini\u00e3o &#8220;depreciativa&#8221; sobre &#8220;autoridades&#8221;, \u00e9 usada para intimidar<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[90],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22122"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=22122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/22122\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=22122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=22122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=22122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}