{"id":22088,"date":"2008-11-06T15:42:01","date_gmt":"2008-11-06T15:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22088"},"modified":"2008-11-06T15:42:01","modified_gmt":"2008-11-06T15:42:01","slug":"a-midia-que-balanca-o-berco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22088","title":{"rendered":"A m\u00eddia que balan\u00e7a o ber\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Nestes tempos de crian&ccedil;as expostas a tantos tipos de m&iacute;dia, o velho prov&eacute;rbio &ldquo;a m&atilde;o que balan&ccedil;a o ber&ccedil;o governa o mundo&rdquo; propicia uma reflex&atilde;o sobre quem &eacute; realmente a maior autoridade na estrutura familiar. Tomando-se por autoridade aquele que prov&ecirc; a manuten&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, sup&otilde;e-se que ambos, marido e mulher, dividam entre si esse papel de governar a educa&ccedil;&atilde;o dos filhos. No entanto, cada vez mais, as crian&ccedil;as expressam valores e anseios contr&aacute;rios aos da educa&ccedil;&atilde;o recebida em casa e na escola. O fato &eacute; que elas dependem dos exemplos adultos para a constru&ccedil;&atilde;o de sua identidade. E, por acreditarem no que ouvem ou v&ecirc;em, em sua l&oacute;gica infantil, passam a ver a m&iacute;dia [1] como outra autoridade dentro de casa.<\/p>\n<p>Por meio dos sites, jogos eletr&ocirc;nicos, revistas, mensagens comerciais e programas inadequados, a m&iacute;dia prop&otilde;e-se a satisfazer, de v&aacute;rias formas, os desejos infantis que, pela manobra persuasiva, converte em necessidades. Expresso em n&uacute;meros (Interscience, 2003), o resultado desse bombardeio de mensagens e apelos comerciais &eacute; de 80% de influ&ecirc;ncia das crian&ccedil;as nas compras da fam&iacute;lia. Isso concorre para diminuir a autoridade dos pais perante os filhos. A prop&oacute;sito, h&aacute; alguns meses, muita gente viu um comercial de autom&oacute;vel equipado com um aparelho de DVD, insinuando que a atua&ccedil;&atilde;o dos pais pode ser dispens&aacute;vel na vida dos filhos mediante a aquisi&ccedil;&atilde;o de determinada tecnologia. A mensagem mostrava dois carros na estrada. Num deles, os pais se desesperavam por n&atilde;o saber como conter as rusgas entre os filhos pequenos enquanto, no outro, equipado com o aparelho DVD, o clima era de total tranq&uuml;ilidade pela aten&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as presa &agrave; tela.<\/p>\n<p>O que melhor explica o fato dos filhos aderirem t&atilde;o mais prontamente a tantas mensagens da m&iacute;dia e desdenhar os ensinamentos dos pais &eacute; a permissividade expressa por ela das duas formas mais sedutoras para a crian&ccedil;a: a aus&ecirc;ncia do &ldquo;n&atilde;o&rdquo;, palavrinha inc&ocirc;moda por&eacute;m decisiva para a demarca&ccedil;&atilde;o dos limites imprescind&iacute;veis &agrave; socializa&ccedil;&atilde;o; e a rever&ecirc;ncia irrestrita &agrave;s vontades das crian&ccedil;as que s&oacute; faz ampliar nelas a fantasia de poder ter tudo.<\/p>\n<p>Um pequeno recorte na trama do filme de Curtis Hanson: &ldquo;A M&atilde;o que balan&ccedil;a o ber&ccedil;o&rdquo; &ndash; t&iacute;tulo, ali&aacute;s, inspirado no citado prov&eacute;rbio, como explicita a fala de um de seus protagonistas &ndash;, ilustra essa atra&ccedil;&atilde;o dos pequenos por adultos complacentes demais com os desejos infantis. A trama gira em torno de uma bab&aacute; aparentemente dedicada e afetuosa que come&ccedil;a a se apropriar das duas crian&ccedil;as de um jovem casal de forma lenta e sedutora. Valendo-se de sua maior disponibilidade de tempo junto aos pequenos, a bab&aacute; permite &agrave; garotinha mais velha &ndash; cerca de cinco anos &ndash; assistir a um g&ecirc;nero de filme vetado &agrave; ela pelos pais em fun&ccedil;&atilde;o de sua pouca idade. Como &eacute; de se esperar, a garotinha logo entende a bab&aacute; como mais amorosa que seus pais.<\/p>\n<p>De modo geral, tal cumplicidade com os caprichos infantis est&aacute; presente em diversos tipos de m&iacute;dia dirigidos &agrave;s crian&ccedil;as. E a tend&ecirc;ncia &eacute; antecipar-se, cada vez mais, essa interfer&ecirc;ncia na educa&ccedil;&atilde;o delas. Por isso, quem tiver hoje nos bra&ccedil;os seu rec&eacute;m-nascido j&aacute; n&atilde;o pode deixar para mais tarde a preocupa&ccedil;&atilde;o com os impactos da comunica&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica na forma&ccedil;&atilde;o dos pequenos. Ela j&aacute; est&aacute; do lado do ber&ccedil;o na forma dos programas para beb&ecirc;s.<\/p>\n<p>Se nos faltam ainda dados de pesquisa para saber o que acontecer&aacute;, daqui a alguns anos, com os beb&ecirc;s &ldquo;educados&rdquo; via TV, n&atilde;o faltam experi&ecirc;ncias e estudos sobre a forma&ccedil;&atilde;o do psiquismo. Um beb&ecirc; n&atilde;o tem estrutura mental para saber sequer quem &eacute; e o que &eacute;; n&atilde;o tem id&eacute;ia de suas dimens&otilde;es f&iacute;sicas; desconhece o mundo &agrave; sua volta e, sobretudo, &eacute; fusionado com sua m&atilde;e, tendo-a como uma extens&atilde;o de si mesmo. Como concluiu o psicanalista e pediatra Donald Winnicott, um dos mais brilhantes estudiosos do desenvolvimento infantil, &ldquo;n&atilde;o existe tal coisa chamada beb&ecirc;, significando com isso que se decidirmos descrever um beb&ecirc;, encontrar-nos-emos descrevendo um beb&ecirc; e algu&eacute;m. Um beb&ecirc; n&atilde;o pode existir sozinho, sendo essencialmente parte de uma rela&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Sendo assim, o que pensar sobre a rela&ccedil;&atilde;o de um beb&ecirc; com um aparelho de televis&atilde;o que fala e age, sem estabelecer um contato real com ele? Uma das primeiras formas de contato da crian&ccedil;a com o mundo &eacute; a identifica&ccedil;&atilde;o projetiva, mecanismo ps&iacute;quico por meio do qual ela projeta aspectos de si mesma sobre o outro enquanto sente como seus determinados aspectos deste outro em virtude do estado de fusionamento em que se encontra. Sendo assim, &eacute; fundamental refletir sobre o qu&ecirc; um beb&ecirc; ir&aacute; projetar na caixa de uma TV (sem sua m&atilde;e dentro), com uma seq&uuml;&ecirc;ncia de imagens ainda sem sentido ou valor para ele? E, pior ainda, que aspectos ele tomar&aacute; do aparelho e da produ&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica como partes de si mesmo?<\/p>\n<p>Se n&atilde;o podemos prever o futuro, olhemos o que j&aacute; acontece, no presente, com tantas crian&ccedil;as que nos rodeiam, no cotidiano ou na pr&aacute;tica cl&iacute;nica: natural nos primeiros anos de vida, o narcisismo (amor a si mesmo) e a onipot&ecirc;ncia (certeza de poder ser e ter tudo) andam durando al&eacute;m do previsto quando, at&eacute; por volta dos seis anos, deveriam ter se convertido na capacidade de se preocupar com o outro. O que estar&aacute; estimulando, ent&atilde;o, nas crian&ccedil;as, o prolongamento dessas caracter&iacute;sticas? Quem pensou em interesse comercial, acertou no x da quest&atilde;o que envolve hoje a preocupa&ccedil;&atilde;o com os impactos da publicidade e de determinados tipos de entretenimento na forma&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as. Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo do marketing &eacute; implantar o quanto antes na crian&ccedil;a a necessidade de consumir.<\/p>\n<p>Como diz Suzan Linn, doutora em Educa&ccedil;&atilde;o e professora de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, em seu livro Crian&ccedil;as do consumo &ndash; A Inf&acirc;ncia Roubada, &ldquo;quando nos referimos a produtos especificamente projetados para crian&ccedil;as &ldquo;do ber&ccedil;o &agrave; universidade&rdquo; pode ser o m&aacute;ximo que algu&eacute;m possa almejar, mas muitos fabricantes buscam lealdade &agrave; marca que dure do ber&ccedil;o ao t&uacute;mulo&rdquo;.<\/p>\n<p>Na reportagem &ldquo;A perigosa rela&ccedil;&atilde;o do beb&ecirc; com a TV&rdquo;, do Jornal Observat&oacute;rio da Imprensa &ndash; a jornalista Leneide Duarte-Plon destaca um dos trechos do manifesto assinado pelos cientistas franceses Pierre Delion e Bernard Golse publicado por este jornal: &quot;Numa &eacute;poca em que se fala muito de ecologia, &eacute; preciso que nos conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de desenvolver uma forma de depend&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; tela luminosa &eacute; uma forma de ecologia do esp&iacute;rito. Por isso, &eacute; urgente que nos mobilizemos para a cria&ccedil;&atilde;o de uma morat&oacute;ria que pro&iacute;ba a exist&ecirc;ncia desses canais, antes que a ci&ecirc;ncia possa conhecer melhor a rela&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a pequena com a tela&quot;.<\/p>\n<p>Pelo tanto que evolu&iacute;mos, chega a parecer irreal que tenhamos hoje que nos revolver em argumentos para impedir que se continue penetrando um terreno t&atilde;o fr&aacute;gil e misterioso como a psique de um beb&ecirc;. E isso sob a proposta, desculpe, descabida de ampliar-lhe a intelig&ecirc;ncia e a criatividade como afirmam alguns argumentos de vendas desses programas para os pequenos.<\/p>\n<p>Nascidos em ber&ccedil;o de ouro ou em cestos pobres de palha, as perspectivas dentro de cada beb&ecirc; est&atilde;o intactas nessa fase do broto e n&atilde;o demandam outros cuidados al&eacute;m dos prescritos pela natureza. Os mais caros entre eles s&atilde;o o calor do seio materno, o alimento saud&aacute;vel, as vozes amorosas e a m&atilde;o protetora que governa seu passo a passo at&eacute; o contato pleno com a vida real.<\/p>\n<p>Se h&aacute; tanta preocupa&ccedil;&atilde;o com o desenvolvimento dos beb&ecirc;s, que ela seja convertida, ent&atilde;o, para a melhora social do &ldquo;ber&ccedil;o&rdquo; que os abrigar&aacute; ao nascer. Nada substitui o amor e os efeitos que s&oacute; ele pode produzir na constru&ccedil;&atilde;o de um novo indiv&iacute;duo. Recordando uma vez mais a sabedoria e prud&ecirc;ncia de Winnicott: &ldquo;Ainda temos muito que aprender sobre os primeiros tempos de uma crian&ccedil;a e talvez s&oacute; as m&atilde;es possam dizer o que queremos saber&rdquo;.<\/p>\n<p>*********************<br \/>[1] A m&iacute;dia &eacute;, muitas vezes, legitimada pela audi&ecirc;ncia que os pais lhe prestam.<\/p>\n<p><em>* Maria Helena Masquetti &eacute; psicol&oacute;ga do Projeto Crian&ccedil;a e Consumo, do Instituto Alana, e&nbsp; assina, no &ldquo;Le Monde Diplomatique Brasil&rdquo;, a coluna Consumo &amp; Direitos.<br \/><\/em><br \/><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestes tempos de crian&ccedil;as expostas a tantos tipos de m&iacute;dia, o velho prov&eacute;rbio &ldquo;a m&atilde;o que balan&ccedil;a o ber&ccedil;o governa o mundo&rdquo; propicia uma reflex&atilde;o sobre quem &eacute; realmente a maior autoridade na estrutura familiar. 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