{"id":22027,"date":"2008-10-28T18:18:53","date_gmt":"2008-10-28T18:18:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=22027"},"modified":"2008-10-28T18:18:53","modified_gmt":"2008-10-28T18:18:53","slug":"violencia-contra-mulheres-incentivada-pela-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=22027","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra mulheres incentivada pela m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t   <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">Em Santo Andr&eacute;, na &uacute;ltima semana, presenciamos um caso de c&aacute;rcere privado que desnudou para todo o pa&iacute;s o machismo dos policiais e jornalistas, a irresponsabilidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e a insensibilidade nos casos em que as v&iacute;timas s&atilde;o mulheres. Um homem manteve como ref&eacute;ns a ex-namorada e uma amiga dela porque estava inconformado com o fim do relacionamento.<\/p>\n<p>O machismo, que utilizarei aqui como a concep&ccedil;&atilde;o de mundo que considera os homens superiores &agrave;s mulheres e permite que eles possam impor sua vontade a elas, deve ser combatido. Especialmente em relacionamentos afetivos, n&atilde;o deve haver superioridade ou inferioridade de nenhuma das partes, mas igualdade na rela&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m pode tratar outra pessoa como propriedade, nem obrig&aacute;-la a se manter num relacionamento. E, em hip&oacute;tese alguma, pode-se admitir que sejam cometidos crimes, com o fim de impor a vontade de uma pessoa sobre outra.<\/p>\n<p><strong>Horror e decep&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, a maioria dos casos de viol&ecirc;ncia cometida contra mulheres decorre da insatisfa&ccedil;&atilde;o do homem com o t&eacute;rmino do relacionamento e a tentativa de impor sua vontade, agredindo-a para retomar a rela&ccedil;&atilde;o, ou matando-a, para que n&atilde;o se torne &quot;propriedade&quot; de mais ningu&eacute;m. Quem ama n&atilde;o mata, j&aacute; diziam as feministas alguns anos atr&aacute;s; hoje podemos acrescentar: quem ama n&atilde;o mata, n&atilde;o tortura, n&atilde;o agride, n&atilde;o mutila, n&atilde;o mant&eacute;m em c&aacute;rcere privado. Qualquer defesa desses crimes, em nome de um pretenso sentimento amoroso, serve apenas para encobrir a viol&ecirc;ncia contra uma pessoa que manifestou legitimamente a sua vontade de sair da rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No caso de Santo Andr&eacute;, tanto as autoridades quanto os meios de comunica&ccedil;&atilde;o agiram de forma a desculpar o criminoso, minimizando suas a&ccedil;&otilde;es e tratando-o como um jovem trabalhador em crise amorosa. Isso n&atilde;o deveria apagar o fato de que estava cometendo um crime para impor sua vontade &agrave; ex-namorada. E aqui cabe uma primeira cr&iacute;tica &agrave; atua&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o: por que n&atilde;o falar do horror e decep&ccedil;&atilde;o que uma jovem de 15 anos possa estar sentindo porque o primeiro namorado dela preferiu cometer crimes para afirmar que ela &eacute; propriedade dele, e por isso ela n&atilde;o poderia se separar?<\/p>\n<p><strong>T&iacute;pico crime de g&ecirc;nero<\/strong><\/p>\n<p>Se os jornalistas s&atilde;o t&atilde;o ciosos em mostrar &quot;o outro lado&quot;, especialmente quando se trata de homens-pais-de-fam&iacute;lia-honestos-trabalhadores v&iacute;timas de crimes, por que se omitiram neste caso, em que a v&iacute;tima principal era uma jovem-estudante-s&eacute;ria-respons&aacute;vel com a vida toda pela frente? Temos um criminoso e temos quatro v&iacute;timas: dois homens que eram ref&eacute;ns e foram libertados no primeiro dia (e n&atilde;o tivemos mais not&iacute;cias deles) e duas mulheres ref&eacute;ns, sendo uma delas a ex-namorada do agressor. Por que a empatia da m&iacute;dia foi para o homem, e n&atilde;o para as v&iacute;timas mulheres? &Eacute; praticamente imposs&iacute;vel pensar em alguma explica&ccedil;&atilde;o al&eacute;m de machismo, pois &eacute; &oacute;bvio que neste caso os homens foram tratados como superiores e mais importantes que as mulheres.<\/p>\n<p>Apesar de a Constitui&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica pregar a igualdade e vedar a discrimina&ccedil;&atilde;o, seja qual for a sua forma, o que foi visto na atua&ccedil;&atilde;o das autoridades foi uma discrimina&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero. As ref&eacute;ns, mulheres, foram ignoradas pelas autoridades (inclusive pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico, que sempre atua cioso dos direitos das v&iacute;timas), que procuraram manter a integridade f&iacute;sica de um homem que estava cometendo um crime. Foram divulgadas informa&ccedil;&otilde;es de que o rapaz estava agredindo a ex-namorada durante o c&aacute;rcere. Era um caso em que a atua&ccedil;&atilde;o policial deveria ser mais incisiva, de forma a proteger as v&iacute;timas o m&aacute;ximo poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Mas a impress&atilde;o passada &agrave; popula&ccedil;&atilde;o foi a de que garantir a integridade f&iacute;sica do homem era mais importante do que impedir as agress&otilde;es &agrave; ex-namorada, ou impedir que uma ref&eacute;m j&aacute; libertada voltasse ao cativeiro. O resultado tamb&eacute;m foi t&iacute;pico de crimes relacionados a g&ecirc;nero: o homem saiu ileso; uma das mulheres (a ex-namorada) morreu ap&oacute;s ser baleada no p&uacute;bis (provavelmente para garantir o argumento machista &quot;se n&atilde;o &eacute; minha, n&atilde;o ser&aacute; de mais ningu&eacute;m&quot;) e na cabe&ccedil;a; a outra mulher foi ferida no rosto e talvez precise de mais cirurgias para n&atilde;o ficar desfigurada.<\/p>\n<p><strong>Falas estarrecedoras<\/strong><\/p>\n<p>A atua&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o foi uma subvers&atilde;o de todos os valores que devem reger a comunica&ccedil;&atilde;o social, especialmente a dignidade da pessoa humana e a n&atilde;o-discrimina&ccedil;&atilde;o. Programas de televis&atilde;o n&atilde;o respeitaram sequer a situa&ccedil;&atilde;o delicada das v&iacute;timas e interferiram, ao vivo, conversando com algu&eacute;m que estava cometendo um crime. Como se a situa&ccedil;&atilde;o por si s&oacute; n&atilde;o fosse absurda, optaram por n&atilde;o condenar a atitude do criminoso, tratando-o o tempo todo como se estivesse agindo corretamente. O rapaz, feliz por aparecer na televis&atilde;o e tornar-se celebridade, sentiu-se estimulado e optou por estender o c&aacute;rcere privado at&eacute; o limite poss&iacute;vel, que foi o desfecho tr&aacute;gico.<\/p>\n<p>Com essa postura, os meios de comunica&ccedil;&atilde;o interferiram nas negocia&ccedil;&otilde;es, estimularam uma invers&atilde;o de valores (quem, em s&atilde; consci&ecirc;ncia, torceria por algu&eacute;m que est&aacute; cometendo um crime?) e agiram de forma escandalosa, violando o C&oacute;digo de &Eacute;tica dos Jornalistas (o art.11, par&aacute;grafo II, veda a divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es de car&aacute;ter m&oacute;rbido, sensacionalista ou contr&aacute;rio aos valores humanos, especialmente em casos de crime).<\/p>\n<p>Uma dessas manifesta&ccedil;&otilde;es televisivas, em especial, merece rep&uacute;dio. Trata-se do programa de S&ocirc;nia Abr&atilde;o, no qual foi concedida extrema import&acirc;ncia ao criminoso, com um rep&oacute;rter entrevistando-o ao vivo e chamando-o de &quot;querido&quot;. Ao final da liga&ccedil;&atilde;o, optou-se por conversar com especialistas sobre o caso. As falas de um advogado foram estarrecedoras: ele ignorou o sofrimento da ref&eacute;m, considerou-se otimista, pretendeu que o caso terminasse em pizza e que houvesse um casamento feliz entre v&iacute;tima e carcereiro! Tamanha falta de respeito e empatia pela v&iacute;tima de um crime jamais deveria ser incentivada por profissional algum, nem divulgada sem ressalvas.<\/p>\n<p><strong>Facilitando a impunidade<\/strong><\/p>\n<p>Todo este caso &eacute; de extremo mau-gosto, pois mant&eacute;m uma situa&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia contra mulheres. Uma mulher que esteja pensando em terminar o namoro ou casamento, ap&oacute;s acompanhar o notici&aacute;rio, ficar&aacute; em d&uacute;vida sobre o que fazer. O recado passado pela sucess&atilde;o de acontecimentos da &uacute;ltima semana &eacute; claro: mostra que mulheres que fazem valer sua vontade correm grande risco de serem agredidas e perderem a vida, enquanto os homens que as agrediram para impor um relacionamento se tornam estrelas de televis&atilde;o e recebem toda a simpatia dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Igualdade entre homens e mulheres pressup&otilde;e um tratamento digno nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, para que n&atilde;o sejam perpetuados atos machistas que dificultam e desvalorizam a vida das mulheres. Por&eacute;m, quando a m&iacute;dia opta por valorizar um agressor de mulheres abre espa&ccedil;o para a manifesta&ccedil;&atilde;o de outros agressores, justificando-os e facilitando a sua impunidade, j&aacute; que n&atilde;o s&atilde;o vistos como os criminosos que realmente s&atilde;o. N&atilde;o &eacute; este o papel dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o em um Estado democr&aacute;tico de direito e o m&iacute;nimo que se espera da postura dos profissionais da comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; compreenderem o pr&oacute;prio machismo, a fim de evitar futuras abordagens t&atilde;o tr&aacute;gicas e ofensivas &agrave;s mulheres quanto as do caso de Santo Andr&eacute;.<\/p>\n<p><em>* Cynthia Sem&iacute;ramis Machado Vianna &eacute; professora universit&aacute;ria, mestre em Direito pela PUC-MG.<\/em><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\"><br \/><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Santo Andr&eacute;, na &uacute;ltima semana, presenciamos um caso de c&aacute;rcere privado que desnudou para todo o pa&iacute;s o machismo dos policiais e jornalistas, a irresponsabilidade dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e a insensibilidade nos casos em que as v&iacute;timas s&atilde;o mulheres. 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