{"id":21996,"date":"2008-10-21T20:25:16","date_gmt":"2008-10-21T20:25:16","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21996"},"modified":"2008-10-21T20:25:16","modified_gmt":"2008-10-21T20:25:16","slug":"a-imprensa-em-carcere-privado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21996","title":{"rendered":"A imprensa em c\u00e1rcere privado"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">A imprensa brasileira &eacute; ref&eacute;m de si mesma, de um modelo baseado nas a&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas e quase sempre rasteiras em busca de audi&ecirc;ncia e repercuss&atilde;o. Desde os blogueiros e comentadores de televis&atilde;o que n&atilde;o resistem a frases de efeito, mesmo que suas constru&ccedil;&otilde;es representem a demoli&ccedil;&atilde;o do bom senso, at&eacute; as decis&otilde;es editoriais que priorizam o espetaculoso e o rumoroso. Tem sido assim na cobertura das campanhas eleitorais nas capitais mais importantes, e assim foi no acompanhamento da trag&eacute;dia anunciada que culminou com a morte da jovem E.C.P.M.<\/p>\n<p>O acompanhamento do notici&aacute;rio online que seguiu o desenrolar dos acontecimentos no conjunto habitacional de Santo Andr&eacute; revela que os jornais n&atilde;o tinham, ou desprezaram, um manual de Reda&ccedil;&atilde;o. Desde a necessidade de cuidado extremo com informa&ccedil;&otilde;es que possam colocar a seguran&ccedil;a de pessoas em risco, citada no Manual de Reda&ccedil;&atilde;o da Folha de S.Paulo e nos de outros jornais, at&eacute; a recomenda&ccedil;&atilde;o de evitar a morbidez e a &quot;curiosidade mals&atilde;&quot; do p&uacute;blico nas not&iacute;cias de cat&aacute;strofe e viol&ecirc;ncia &ndash; recomenda&ccedil;&atilde;o do livro &Eacute;tica para Periodistas, de Maria Teresa Herr&aacute;n e Javier Dar&iacute;o Restrepo &ndash; praticamente todas as boas medidas foram deixadas de lado na corrida pela vis&atilde;o mais espetaculosa e pela vers&atilde;o mais recente dos fatos.<\/p>\n<p>At&eacute; mesmo de uma comentadora de fofocas de celebridades, caso da jornalista S&ocirc;nia Abr&atilde;o, que j&aacute; teve melhores momentos quando trabalhou num dos di&aacute;rios do Grupo Folhas, era de se esperar que tivesse o bom senso de evitar ceder holofotes para o jovem desvairado. &Agrave;quela altura, quando a jornalista &ndash; sim, ela &eacute; jornalista com vasta experi&ecirc;ncia na imprensa escrita &ndash; colocou no ar, pela RedeTV!, a entrevista do rapaz, ele ainda ouvia pondera&ccedil;&otilde;es dos negociadores da pol&iacute;cia. A partir dali, e com a seq&uuml;&ecirc;ncia de outras entrevistas, ele claramente se colocou numa atitude superior aos interlocutores, o que prejudicou o di&aacute;logo e ajudou a conduzir ao desfecho tr&aacute;gico.<\/p>\n<p><strong>Cen&aacute;rios de guerra<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foi apenas isso. Como, claramente, o criminoso e suas v&iacute;timas tinham acesso &agrave;s transmiss&otilde;es de r&aacute;dio e televis&atilde;o, tudo que foi dito &ndash; das especula&ccedil;&otilde;es de rep&oacute;rteres &agrave; profus&atilde;o de &quot;an&aacute;lises&quot; mais ou menos especializadas de psic&oacute;logos, soci&oacute;logos e astr&oacute;logos &aacute;vidos por publicidade &ndash; podia ser ouvido no interior do cativeiro. Nem o mais arguto conhecedor da natureza humana poderia assegurar o quanto essa exposi&ccedil;&atilde;o poderia afetar o estado do jovem, que j&aacute; dava sinais de estar alucinando.<\/p>\n<p>A imprensa interferiu dessa forma nos fatos, o que &eacute; absurdo e inaceit&aacute;vel, e tamb&eacute;m condicionou as decis&otilde;es do comandante da opera&ccedil;&atilde;o de resgate. Uma das raz&otilde;es alegadas pelo coronel Eduardo Jos&eacute; F&eacute;lix para usar atiradores especializados para &ndash; no jarg&atilde;o policial &ndash; &quot;neutralizar&quot; o criminoso, foi a percep&ccedil;&atilde;o de que a imprensa condenaria tal atitude. Assim, por mais controversa que viesse a ser, essa medida deixou de ser considerada, justamente por ser controversa. <\/p>\n<p>Desde que a legisla&ccedil;&atilde;o transferiu para o tribunal do j&uacute;ri os casos de mortes em ocorr&ecirc;ncias policiais e passou a impor cursos de reciclagem para os agentes civis e militares envolvidos em tiroteios, a pol&iacute;cia paulista evita a&ccedil;&otilde;es dr&aacute;sticas quando h&aacute; testemunhas. De qualquer modo, pode-se afirmar que faltou autoridade &agrave; maior autoridade presente aos acontecimentos, porque o coronel da Pol&iacute;cia Militar estava condicionado &agrave;s conseq&uuml;&ecirc;ncias pol&iacute;ticas de suas decis&otilde;es.<\/p>\n<p>A cobertura n&atilde;o foi apenas invasiva, espetacularizada, amadora e irrespons&aacute;vel. A imprensa continua omissa, ao aceitar passivamente a vers&atilde;o oficial e ao deixar de colocar em discuss&atilde;o o tipo de opera&ccedil;&atilde;o que costuma ser mobilizada em ocasi&otilde;es como essa. <\/p>\n<p>J&aacute; est&aacute; mais do que em tempo de se colocar em debate p&uacute;blico as estrat&eacute;gias de seguran&ccedil;a adotadas no Brasil, a maioria delas inspirada em cen&aacute;rios de guerra e nos procedimentos desenvolvidos pelas for&ccedil;as de seguran&ccedil;a americanas e israelenses. Se a chamada &quot;intelig&ecirc;ncia&quot; da Pol&iacute;cia Militar deu sinais de desintelig&ecirc;ncia, a imprensa dita s&eacute;ria se tornou ref&eacute;m da m&iacute;dia de entretenimento, colocando-se voluntariamente no c&aacute;rcere privado da irresponsabilidade.<\/p>\n<p><em>* Luciano Martins Costa &eacute; jornalista.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imprensa brasileira &eacute; ref&eacute;m de si mesma, de um modelo baseado nas a&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas e quase sempre rasteiras em busca de audi&ecirc;ncia e repercuss&atilde;o. Desde os blogueiros e comentadores de televis&atilde;o que n&atilde;o resistem a frases de efeito, mesmo que suas constru&ccedil;&otilde;es representem a demoli&ccedil;&atilde;o do bom senso, at&eacute; as decis&otilde;es editoriais que priorizam &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21996\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">A imprensa em c\u00e1rcere privado<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[53],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21996"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21996\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}