{"id":21977,"date":"2008-10-16T17:28:52","date_gmt":"2008-10-16T17:28:52","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21977"},"modified":"2008-10-16T17:28:52","modified_gmt":"2008-10-16T17:28:52","slug":"veja-a-revista-que-virou-panfleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21977","title":{"rendered":"Veja: A revista que virou panfleto"},"content":{"rendered":"<p>   \t \t \t \t \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t  <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\">A revista &ldquo;&quot;Veja&quot;&rdquo; parece ter perdido definitivamente o rumo, talvez em fun&ccedil;&atilde;o do vexame hist&oacute;rico na cobertura da crise financeira internacional. Afinal, n&atilde;o &eacute; todo dia que uma reda&ccedil;&atilde;o prepara uma capa espetacularmente incisiva, com o Tio Sam de dedo em riste e a manchete garantindo &quot;Eu salvei voc&ecirc;&quot; (edi&ccedil;&atilde;o 2079, com data de 24\/9\/2008), para, dias depois, essa mesma capa se transformar num case de &quot;barriga&quot; jornal&iacute;stica, uma vez que o crash de 29 de setembro revelou n&atilde;o apenas que o Tio Sam n&atilde;o havia conseguido salvar ningu&eacute;m como estava desesperadamente em busca de uma solu&ccedil;&atilde;o que envolvesse a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia e at&eacute; pa&iacute;ses emergentes. A &quot;barriga&quot; foi t&atilde;o descomunal que na semana seguinte a rival &ldquo;Carta Capital&rdquo; fez gra&ccedil;a e repetiu a capa da &ldquo;&quot;Veja&quot;&rdquo;, com o mesmo Tio Sam de dedo em riste, acompanhado por uma manchete marota: &quot;Ele n&atilde;o salva ningu&eacute;m&quot;.<\/p>\n<p>Se o problema fosse apenas na forma, tudo bem, &quot;barrigas&quot; acontecem nas melhores reda&ccedil;&otilde;es (em &quot;Veja&quot;, com uma freq&uuml;&ecirc;ncia um tanto maior, est&atilde;o a&iacute; o boimate, os milh&otilde;es do Ibsen Pinheiro e os d&oacute;lares de Cuba que n&atilde;o me deixam mentir). A quest&atilde;o central n&atilde;o est&aacute; na forma, est&aacute; no conte&uacute;do. &quot;Veja&quot; h&aacute; muito tempo n&atilde;o &eacute; uma revista jornal&iacute;stica, mas um panflet&atilde;o conservador, editado por uma equipe que conta com a fina flor do pensamento reacion&aacute;rio brasileiro. A crise global, por&eacute;m, parece ter mexido com os nervos do pessoal da &quot;Veja&quot; e o panflet&atilde;o perdeu o rumo.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, &quot;Veja&quot; apresentou ao distinto p&uacute;blico a id&eacute;ia de que a crise j&aacute; tinha acabado com o an&uacute;ncio do primeiro pacote de Bush-Paulson; o que havia era um &quot;solu&ccedil;o&quot; absolutamente normal no capitalismo. Na semana seguinte, com data de capa de 1&deg; de outubro, mas circulando no fim de semana de 27-28 de setembro, portanto &agrave;s v&eacute;speras do crash de 29\/9, a revista da Editora Abril voltou a dar capa para a crise, fazendo uma esp&eacute;cie de &quot;balan&ccedil;o&quot; do que vinha ocorrendo. &quot;Depois do desastre&quot; era a manchete da capa &ndash; mas o desastre real ainda nem tinha acontecido.<\/p>\n<p><strong>Exemplo de fora<\/strong><\/p>\n<p>O problema de &quot;Veja&quot; &eacute; que os valores nos quais continua acreditando e defendendo estavam virando p&oacute; com a crise e n&atilde;o havia discurso coerente que servisse para manter o panflet&atilde;o em p&eacute;, muito menos com o disfarce de ve&iacute;culo jornal&iacute;stico.<\/p>\n<p>Primeiro, veio a euforia (ok, existe uma crise, reconhecemos, mas Bush &eacute; &quot;dos nossos&quot;, vai dar um tiro certeiro e cortar o mal pela raiz). N&atilde;o funcionou, para a perplexidade dos jornalistas que cuidam de traduzir o pensamento reacion&aacute;rio norte-americano em uma linguagem acess&iacute;vel a qualquer idiota, e a revista come&ccedil;ou a tentar reconhecer que se tratava mesmo de uma crise grav&iacute;ssima e que exp&otilde;e as entranhas de um sistema podre, desregulado e baseado na gan&acirc;ncia de gente que vendia terrenos na Lua sem o menor escr&uacute;pulo, contando com a certeza da impunidade.<\/p>\n<p>Enquanto tateia em busca de um discurso para a crise &ndash; se os mercados continuarem euf&oacute;ricos, provavelmente a pr&oacute;xima capa ser&aacute; um enorme &quot;UFA!&quot; &ndash; &quot;Veja&quot; n&atilde;o descuida do front interno. Na edi&ccedil;&atilde;o corrente (n&ordm;. 2082, com data de capa de 15\/10), a &quot;Carta ao Leitor&quot;, espa&ccedil;o editorial da revista, leva o t&iacute;tulo &quot;O povo n&atilde;o &eacute; bobo&quot;, acompanhada de uma grande foto do prefeito Gilberto Kassab. O recado da revista ao seu p&uacute;blico come&ccedil;a assim: &quot;O primeiro turno das elei&ccedil;&otilde;es municipais demonstrou, outra vez, que a esmagadora maioria dos brasileiros sabe, sim, votar, ao contr&aacute;rio do que ainda insistem em propalar os descrentes na democracia nacional (felizmente, poucos)&quot;.<\/p>\n<p>Em seguida, vem o argumento &quot;racional&quot; de que a popula&ccedil;&atilde;o votou nos melhores, gente que trabalha s&eacute;rio, &quot;independente do partido&quot;. Beto Richa (PSDB) e Fernando Gabeira (PV) s&atilde;o citados no texto, e Kassab na legenda da foto (&quot;Gilberto Kassab, de S&atilde;o Paulo: exemplo de que a maioria dos brasileiros sabe, sim, votar&quot;). No final do texto, o veredicto final: &quot;N&atilde;o basta para um partido &ndash; qualquer um &ndash; contar s&oacute; com a for&ccedil;a de um presidente da Rep&uacute;blica bem avaliado e simp&aacute;tico. &Eacute; preciso muito mais. O povo n&atilde;o &eacute; bobo&quot;.<\/p>\n<p>N&atilde;o, de fato o povo n&atilde;o &eacute; bobo e j&aacute; sabe que &quot;Veja&quot; tem lado. Neste ponto, ali&aacute;s, seria mais honesto e correto copiar o que de bom existe nos Estados Unidos e explicitar, no editorial, que a revista ap&oacute;ia os candidatos da oposi&ccedil;&atilde;o, especialmente os do PSDB e DEM &ndash; legendas que por sinal ap&oacute;iam Gabeira no Rio. &Eacute; assim que se faz l&aacute; fora e &eacute; assim que agiram &ldquo;Carta Capital&rdquo; e, em diversas ocasi&otilde;es, a &ldquo;Folha de S. Paulo&rdquo; e &ldquo;O Estado de S. Paulo&rdquo;. &quot;Veja&quot;, ao contr&aacute;rio, editorializa as reportagens.<\/p>\n<p><strong>Aritm&eacute;tica enviesada<\/strong><\/p>\n<p>Um bom exemplo est&aacute; tamb&eacute;m na edi&ccedil;&atilde;o desta semana, na reportagem que faz um balan&ccedil;o do resultado das urnas. A revista reconhece que o PT cresceu, mas diz que foi nos grot&otilde;es. Um infogr&aacute;fico est&aacute; l&aacute; para quem quiser fazer contas: em n&uacute;mero absoluto de votos, o PT cresceu 1% em rela&ccedil;&atilde;o a 2004, o DEM teve 17% a menos do que na vota&ccedil;&atilde;o anterior e o PSDB perdeu 8% dos votantes de quatro anos atr&aacute;s. O PMDB, l&iacute;der no pa&iacute;s pelo crit&eacute;rio de prefeitos eleitos, viu seu eleitorado crescer 30%.<\/p>\n<p>Qualquer foca de jornalismo faz as contas, soma os danos e conclui que o lead &eacute; a derrota dos partidos de oposi&ccedil;&atilde;o, que perderam exatamente 25% do eleitorado de quatro anos atr&aacute;s. Qualquer foca, menos a &quot;Veja&quot;, que preferiu destacar o aumento de 30% do PMDB, um partido-&ocirc;nibus em que cabe qualquer um e que tem na resili&ecirc;ncia a sua maior virtude. &Eacute; justo que se d&ecirc; destaque &agrave; vit&oacute;ria peemedebista, mas &eacute; evidente que o fato pol&iacute;tico mais relevante &eacute; a estrondosa derrota da alian&ccedil;a demo-tucana, com conseq&uuml;&ecirc;ncias evidentes na corrida sucess&oacute;ria de 2010.<\/p>\n<p>No fundo, &quot;Veja&quot; age na pol&iacute;tica e na economia seguindo a m&aacute;xima do ex-ministro Rubens Ricupero: o que &eacute; bom (para o ide&aacute;rio conservador), a gente mostra; o que &eacute; ruim, a gente esconde. E isto, fica aqui o reconhecimento, o pessoal da reda&ccedil;&atilde;o de &quot;Veja&quot; sabe fazer como ningu&eacute;m.<\/p>\n<p><em>* Luiz Ant&ocirc;nio Magalh&atilde;es &eacute; editor de pol&iacute;tica do DCI e editor-assistente do Observat&oacute;rio da Imprensa. <\/em><\/span> <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\"><span class=\"padrao\"><br \/><\/span> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista &ldquo;&quot;Veja&quot;&rdquo; parece ter perdido definitivamente o rumo, talvez em fun&ccedil;&atilde;o do vexame hist&oacute;rico na cobertura da crise financeira internacional. 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