{"id":21972,"date":"2008-10-15T19:32:12","date_gmt":"2008-10-15T19:32:12","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21972"},"modified":"2008-10-15T19:32:12","modified_gmt":"2008-10-15T19:32:12","slug":"professores-de-bico-calado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21972","title":{"rendered":"Professores de bico calado"},"content":{"rendered":"<p> \t<!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--> \t <\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western\">Jornalistas que j&aacute; trabalharam com reportagens envolvendo a &aacute;rea de educa&ccedil;&atilde;o sabem das dificuldades de encontrar professores da rede p&uacute;blica de ensino dispostos a abrir a boca quando a pauta trata de qualidade do ensino, problemas de gest&atilde;o escolar ou condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. Poucos falam ou denunciam. E quando aceitam dar declara&ccedil;&otilde;es imp&otilde;em restri&ccedil;&otilde;es: na maioria dos casos, exigem que o jornalista preserve a identidade da fonte. H&aacute;, evidentemente, os corajosos, aqueles que abrem o bico custe o que custar. Mas n&atilde;o &eacute; essa a regra. O que mais se ouve s&atilde;o respostas evasivas, do tipo &quot;n&atilde;o posso falar&quot;, &quot;n&atilde;o quero falar&quot;, &quot;isso vai me trazer problemas&quot;.<\/p>\n<p>Salvo as exce&ccedil;&otilde;es em que o assunto se relaciona com projetos pontuais, que projetam a imagem de uma escola, por exemplo, ou n&atilde;o a maculam, impera o sil&ecirc;ncio do professorado em mat&eacute;rias que abordam pol&iacute;ticas p&uacute;blicas educacionais. Mas mesmo em caso de mat&eacute;rias positivas, nem sempre &eacute; f&aacute;cil conseguir a colabora&ccedil;&atilde;o dos docentes.<\/p>\n<p>Os educadores s&atilde;o protagonistas na implanta&ccedil;&atilde;o e execu&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, s&atilde;o fontes prim&aacute;rias de informa&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o t&ecirc;m presen&ccedil;a na m&iacute;dia. Nas reportagens aparecem pais, alunos, empres&aacute;rios da educa&ccedil;&atilde;o, fontes oficiais (como representantes do MEC, das Secretarias de Educa&ccedil;&atilde;o), mas raramente os professores.<\/p>\n<p><strong>Abuso ou insubordina&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Na ter&ccedil;a-feira (7), participei do debate &quot;Fala educador! Fala educadora!&quot;, organizado pela A&ccedil;&atilde;o Educativa, em parceria com a ONG Artigo 19 e o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S&atilde;o Paulo, que levantou uma das causas desse sil&ecirc;ncio dos professores: eles n&atilde;o podem, por lei, falar sem autoriza&ccedil;&atilde;o de autoridades governamentais. Pesquisas desenvolvidas por estas organiza&ccedil;&otilde;es identificaram dispositivos na legisla&ccedil;&atilde;o brasileira que limitam a liberdade de express&atilde;o de servidores p&uacute;blicos. Uma dessas leis da morda&ccedil;a encontra-se no Estatuto dos Servidores P&uacute;blicos do Estado de S&atilde;o Paulo, de 1968, ano do AI-5. Lamentavelmente, os resqu&iacute;cios da ditadura existem at&eacute; hoje. O artigo 242 desse estatuto pro&iacute;be os servidores p&uacute;blicos de se referirem &quot;depreciativamente&quot; aos atos da administra&ccedil;&atilde;o ou &agrave;s autoridades constitu&iacute;das.<\/p>\n<p>&quot;Artigo 242 &ndash; Ao funcion&aacute;rio &eacute; proibido: I &#8211; referir-se depreciativamente, em informa&ccedil;&atilde;o, parecer ou despacho, ou pela imprensa, ou qualquer meio de divulga&ccedil;&atilde;o, &agrave;s autoridades constitu&iacute;das e aos atos da Administra&ccedil;&atilde;o, podendo, por&eacute;m, em trabalho devidamente assinado, apreci&aacute;-los sob o aspecto doutrin&aacute;rio e da organiza&ccedil;&atilde;o e efici&ecirc;ncia do servi&ccedil;o; (&#8230;) VI &#8211; promover manifesta&ccedil;&otilde;es de apre&ccedil;o ou desapre&ccedil;o dentro da reparti&ccedil;&atilde;o, ou tornar-se solid&aacute;rio com elas.&quot;<\/p>\n<p>O problema n&atilde;o est&aacute; s&oacute; em S&atilde;o Paulo. Em 18 estados brasileiros foram encontradas legisla&ccedil;&otilde;es semelhantes. O texto, em alguns casos, apresenta diferen&ccedil;as, mas o car&aacute;ter proibitivo &eacute; o mesmo. Em algumas dessas regi&otilde;es do pa&iacute;s, as normas n&atilde;o remontam &agrave; &eacute;poca da ditadura. Ao contr&aacute;rio de S&atilde;o Paulo, s&atilde;o legisla&ccedil;&otilde;es recentes, posteriores &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o, o que nos deixa apreensivos quanto ao car&aacute;ter de algumas autoridades que legislam no Brasil atualmente. No Amap&aacute;, o estatuto foi promulgado em 1993. No Esp&iacute;rito Santo, Rio Grande do Sul, Bahia, Maranh&atilde;o, Mato Grosso do Sul e Par&aacute;, em 1994. O da Para&iacute;ba est&aacute; mais fresco ainda: &eacute; de 2003.<\/p>\n<p>&quot;Referir-se depreciativamente&quot; pode abrir margens para in&uacute;meras interpreta&ccedil;&otilde;es. Uma cr&iacute;tica de um professor a uma medida que poder&aacute; at&eacute; prejudicar a escola pode ser identificada como motivo de puni&ccedil;&atilde;o. Uma opini&atilde;o sobre a m&aacute; qualidade de ensino tamb&eacute;m pode ser entendida como um abuso, como insubordina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o tolhido<\/strong><\/p>\n<p>S&atilde;o recorrentes os casos de docentes penalizados (processados ou afastados) ou intimidados por concederem entrevistas. No debate do qual participei, o professor Josaf&aacute; Rehem, da rede p&uacute;blica em S&atilde;o Paulo, relatou uma experi&ecirc;ncia que vivenciou recentemente. Ap&oacute;s uma entrevista concedida a um rep&oacute;rter da r&aacute;dio CBN, tratando sobre falta de professores e o ac&uacute;mulo de fun&ccedil;&otilde;es, o educador recebeu da Diretoria Regional de Educa&ccedil;&atilde;o um documento (uma &quot;folha de informa&ccedil;&atilde;o&quot;) impelindo-o a dar explica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Restri&ccedil;&otilde;es como essas s&atilde;o ileg&iacute;timas, inconstitucionais, agridem a democracia e abusam do direito &agrave; liberdade de express&atilde;o, previstos na Constitui&ccedil;&atilde;o Federal brasileira (artigo 5&ordm;), bem como na Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos (artigo 19). O jornalismo &eacute; prejudicado: (1) por contar com um n&uacute;mero restrito de professores que aceitam falar, as mat&eacute;rias citam sempre as mesmas pessoas &ndash; por isso, a imprensa n&atilde;o reflete a pluralidade de opini&otilde;es; (2) por utilizar de modo indiscriminado informa&ccedil;&otilde;es sem paternidade, sem a identifica&ccedil;&atilde;o da fonte &ndash; embora o anonimato seja um recurso justific&aacute;vel em algumas circunst&acirc;ncias, limita a credibilidade da informa&ccedil;&atilde;o e pode servir de instrumento para entrevistados mal-intencionados transmitirem ao jornalista informa&ccedil;&otilde;es maliciosas e infundadas, sem arcar com a responsabilidade pelo que disseram. Mas, sobretudo, o cidad&atilde;o &eacute; prejudicado por ter o seu direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o tolhido.<\/p>\n<p><strong>Uma cultura perpetuada<\/strong><\/p>\n<p>O jornalismo n&atilde;o pode ficar ref&eacute;m de assessorias de imprensa das secretarias de Educa&ccedil;&atilde;o. Precisa ter passe livre para se relacionar com a escola e com os professores. Hoje, para um jornalista entrar numa escola precisa ter autoriza&ccedil;&atilde;o da secretaria estadual de Educa&ccedil;&atilde;o. O diretor de uma escola pode at&eacute; possibilitar a entrada da imprensa, mas estar&aacute; sujeito a penalidades dependendo do teor da informa&ccedil;&atilde;o que for publicada.<\/p>\n<p>Embora em muitos munic&iacute;pios do interior n&atilde;o existam normas formalizadas, dando conta dessas proibi&ccedil;&otilde;es, o clima de repress&atilde;o &eacute; expressivo. Ainda nesta semana, duas alunas de jornalismo reclamavam que n&atilde;o estavam conseguindo entrevistar respons&aacute;veis por creches na regi&atilde;o. Elas procuravam informa&ccedil;&otilde;es relativas &agrave; exist&ecirc;ncia ou n&atilde;o de vagas. Ningu&eacute;m quis dar depoimentos. A maioria dos servidores p&uacute;blicos receia que uma declara&ccedil;&atilde;o concernente a uma den&uacute;ncia ou cr&iacute;tica possa custar-lhes o emprego.<\/p>\n<p>Existindo uma legisla&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o, na pr&aacute;tica muitos governantes locais n&atilde;o gostam da transpar&ecirc;ncia e calam ou abafam aqueles que tentam colocar os fatos a limpo. Mesmo como representantes da sociedade, fogem de qualquer escrut&iacute;nio. Jornalistas que pegam no p&eacute; s&atilde;o odiados. Para conseguir falar com certos personagens da administra&ccedil;&atilde;o municipal &eacute; uma maratona. Nunca est&atilde;o, sempre se encontram ocupados ou, quando se pronunciam, o fazem mediante suas assessorias de imprensa (raramente compostas por jornalistas, por sinal). Em determinadas ocasi&otilde;es, &eacute; de perder as contas do n&uacute;mero de telefonemas feitos para, enfim, realizar a entrevista. Se o rep&oacute;rter os encontra indispostos e insiste, n&atilde;o raro, batem o telefone.<\/p>\n<p>E assim essa cultura &eacute; perpetuada, mesmo porque os pr&oacute;prios jornais locais se colocam numa condi&ccedil;&atilde;o passiva, dependentes que s&atilde;o das receitas gordas provenientes das prefeituras.<\/p>\n<p>* M&aacute;rcio Tonetti &eacute; jornalista, professor de Jornalismo no Unasp (Centro Universit&aacute;rio Adventista de S&atilde;o Paulo, campus Engenheiro Coelho) e diretor de Reda&ccedil;&atilde;o da Ag&ecirc;ncia Brasileira de Jornalismo &#8211; Campinas\/SP .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jornalistas que j&aacute; trabalharam com reportagens envolvendo a &aacute;rea de educa&ccedil;&atilde;o sabem das dificuldades de encontrar professores da rede p&uacute;blica de ensino dispostos a abrir a boca quando a pauta trata de qualidade do ensino, problemas de gest&atilde;o escolar ou condi&ccedil;&otilde;es de trabalho. Poucos falam ou denunciam. 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