{"id":21952,"date":"2008-10-13T17:26:01","date_gmt":"2008-10-13T17:26:01","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21952"},"modified":"2008-10-13T17:26:01","modified_gmt":"2008-10-13T17:26:01","slug":"mentirinha-sobre-um-estupro-o-escarnio-da-trip-e-seu-colunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21952","title":{"rendered":"&#8216;Mentirinha&#8217; sobre um estupro: o esc\u00e1rnio da Trip e seu colunista"},"content":{"rendered":"<p><!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t--><\/p>\n<p style=\"margin-bottom: 0cm\" class=\"western padrao\">&quot;Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos&rdquo;. Este &eacute; o p&eacute; biogr&aacute;fico original da coluna intitulada &ldquo;Carta aberta para Luisa&rdquo; publicada no site da revista Trip em sua edi&ccedil;&atilde;o de setembro. Sem mencionar a palavra &ldquo;estupro&rdquo; uma &uacute;nica vez, o autor usa o texto para desculpar-se com a empregada da fam&iacute;lia &ldquo;com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos&rdquo;. Finaliza esperando &ldquo;que para voc&ecirc; a mem&oacute;ria daquela tarde n&atilde;o seja t&atilde;o ruim e que voc&ecirc; hoje possa rir do que aconteceu&rdquo;. Puro esc&aacute;rnio. Do colunista e da revista.<\/p>\n<p>Depois que o texto circulou em in&uacute;meras listas de discuss&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil, especialmente entre as feministas, nos dias 9 e 10 de outubro a participa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico no espa&ccedil;o reservado a coment&aacute;rios foi intensa. Foram mais de 500 mensagens em apenas dois dias. A rea&ccedil;&atilde;o geral foi de forte indigna&ccedil;&atilde;o e de rep&uacute;dio veemente ao texto. Em resposta, na noite do dia 10, Trip publica nota afirmando que o texto &eacute; ficcional e desculpando-se por n&atilde;o ter deixado isso claro aos leitores desde o in&iacute;cio. Afirma tamb&eacute;m que considera inaceit&aacute;vel qualquer forma de ass&eacute;dio ou viol&ecirc;ncia sexual e decide editar o p&eacute; biogr&aacute;fico que classifica de &ldquo;desastrado&rdquo;. Ao mesmo tempo, a revista publica nota de Henrique Goldman na qual afirma que nunca estuprou ningu&eacute;m na vida, que est&aacute; muito abalado com as mensagens agressivas que recebeu dos leitores e arrependido por ter criado um mal-entendido.<\/p>\n<p>Trip levou mais de dez dias para fazer seu &ldquo;esclarecimento&rdquo; e Goldman para expor seu &ldquo;arrependimento&rdquo;. N&atilde;o h&aacute; como saber se s&atilde;o verdadeiros. Mas n&atilde;o restam d&uacute;vidas de que isso s&oacute; aconteceu devido &agrave; exist&ecirc;ncia de um canal de di&aacute;logo entre p&uacute;blico e ve&iacute;culo, permitindo a manifesta&ccedil;&atilde;o de cr&iacute;ticas e mostrando que o leitor tamb&eacute;m &ldquo;se abala&rdquo; com o que l&ecirc; e tamb&eacute;m reage. Longe de um ataque &agrave; &ldquo;liberdade de express&atilde;o&rdquo; do autor e dos editores da revista, o que o p&uacute;blico fez foi recha&ccedil;ar um tipo de conte&uacute;do que considera ofensivo a suas liberdades e seus direitos. <\/p>\n<p>Este &eacute; um exemplo claro de exerc&iacute;cio do controle social. Por enquanto, os resultados limitam-se &agrave;s notas publicadas pela revista e &agrave; edi&ccedil;&atilde;o do p&eacute; biogr&aacute;fico, que exclui o trecho &ldquo;jeitosinho&rdquo;. Mas al&eacute;m das cr&iacute;ticas, as mensagens dos leitores apresentam sugest&otilde;es de repara&ccedil;&atilde;o &ndash; como espa&ccedil;o para a publica&ccedil;&atilde;o de respostas &ndash;, amea&ccedil;am com a&ccedil;&otilde;es judiciais, questionam e pressionam anunciantes para que n&atilde;o mais financiem a publica&ccedil;&atilde;o, prop&otilde;em boicote &agrave; revista. Se levadas a cabo, estas iniciativas podem gerar resultados mais contundentes j&aacute; que, realidade ou fic&ccedil;&atilde;o, o fato &eacute; que o autor e a revista tratam de forma leviana, jocosa e irrespons&aacute;vel um assunto extremamente s&eacute;rio e delicado.<\/p>\n<p><strong>Os n&uacute;meros que Trip desconhece<\/strong><\/p>\n<p>Trip e seu colunista ignoram &iacute;ndices como o da Funda&ccedil;&atilde;o Perseu Abramo, que estima que a cada 15 segundos uma mulher &eacute; espancada por um homem no Brasil. Ou como o da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de que, em 2002, mostrou, atrav&eacute;s de pesquisa realizada em v&aacute;rios pa&iacute;ses, que at&eacute; 47% das mulheres declaram que sua primeira rela&ccedil;&atilde;o sexual foi for&ccedil;ada. Em S&atilde;o Paulo, dados de 2000 da OMS afirmam que 10,01% das paulistanas sofreram tentativas ou foram for&ccedil;adas a fazer sexo com parceiros &iacute;ntimos em algum momento de suas vidas.<\/p>\n<p>Levantamento da Funda&ccedil;&atilde;o Seade (Sistema Estadual de An&aacute;lise de Dados) referente ao per&iacute;odo de 1997 a 2002 revela que mais da metade das ocorr&ecirc;ncias de estupro registradas nos distritos policiais e nas delegacias especializadas de defesa da mulher no Estado de S&atilde;o Paulo nem chega a resultar em inqu&eacute;rito policial. A apura&ccedil;&atilde;o da maior parte n&atilde;o vai al&eacute;m do boletim de ocorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria narrada por Goldman, infelizmente, ainda acontece com freq&uuml;&ecirc;ncia no Brasil. Ela &eacute; um retrato n&iacute;tido da sociedade patriarcal e machista em que vivemos, perpetuada cotidianamente pela m&iacute;dia. E sim, &eacute; extremamente necess&aacute;rio falar sobre o assunto e debat&ecirc;-lo. A quest&atilde;o &eacute; que o autor narra a hist&oacute;ria e pede desculpas como se ele &ndash; ou o seu eu l&iacute;rico &ndash; tivesse cometido um mero ato infantil, impensado. No fim das contas, mesmo que se trate de uma fic&ccedil;&atilde;o, avaliza um crime hediondo, como se fosse poss&iacute;vel dele redimir-se com um pedido de desculpas.<\/p>\n<p><em>* Mariana Pires &eacute; integrante do Intervozes &ndash; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos&rdquo;. Este &eacute; o p&eacute; biogr&aacute;fico original da coluna intitulada &ldquo;Carta aberta para Luisa&rdquo; publicada no site da revista Trip em sua edi&ccedil;&atilde;o de setembro. 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