{"id":21939,"date":"2008-10-09T23:01:36","date_gmt":"2008-10-09T23:01:36","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=21939"},"modified":"2014-09-07T02:57:12","modified_gmt":"2014-09-07T02:57:12","slug":"artigo-223-coloca-em-xeque-papel-do-estado-e-do-mercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=21939","title":{"rendered":"Artigo 223 coloca em xeque papel do Estado e do mercado"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"padrao\">Muitos eram os desafios postos para o cap&iacute;tulo Da Comunica&ccedil;&atilde;o Social que surgia, em 1988, pela primeira vez em uma Constitui&ccedil;&atilde;o brasileira. Um deles era consolidar a comunica&ccedil;&atilde;o como um bem p&uacute;blico. Afinal, o setor de comunica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o poderia fugir da grande disputa que esteve no cerne daquela Assembl&eacute;ia Nacional Constituinte: qual o papel a ser desempenhado pelo Estado e pelo mercado para que fossem garantidos os direitos positivados na nova Carta?<\/p>\n<p>O contexto internacional &#8211; marcado pelo avan&ccedil;o do neoliberalismo na Europa e a derrocada dos governos baseados no modelo estatal-centralizador, simbolizada pela queda do Muro de Berlim &#8211; j&aacute; explicava o porqu&ecirc; deste debate instalar-se com for&ccedil;a no Congresso Nacional. No cen&aacute;rio nacional, o Brasil acabara de sair de um longo per&iacute;odo de ditadura militar em que a imagem do Estado tinha sido muito desgastada pelo processo antidemocr&aacute;tico. Particularmente na &aacute;rea de comunica&ccedil;&atilde;o, o uso que o governo militar tinha feito dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o do Estado e da regula&ccedil;&atilde;o do setor a favor da sua legitima&ccedil;&atilde;o fazia com que a balan&ccedil;a da Constituinte pendesse, neste tema, para o lado do ultra-liberalismo.<\/p>\n<p>Ainda assim, aprovou-se o que foi considerado &agrave; &eacute;poca &#8211; e ainda &eacute; considerado &#8211; uma das grandes inova&ccedil;&otilde;es da atual Carta Magna: o Artigo 223, que prev&ecirc; a complementaridade dos sistemas estatal, p&uacute;blico e privado de comunica&ccedil;&atilde;o. A inova&ccedil;&atilde;o fica por conta do texto estabelecer uma diferencia&ccedil;&atilde;o de pap&eacute;is entre os tr&ecirc;s setores, o que n&atilde;o ocorre com nenhum dos outros direitos tratados sob o chap&eacute;u Da Ordem Social, como a sa&uacute;de, a educa&ccedil;&atilde;o e a previd&ecirc;ncia social.<\/p>\n<p>Mas o artigo mant&eacute;m-se como um das previs&otilde;es constitucionais mais pol&ecirc;micas exatamente porque, como quase todos os demais artigos do cap&iacute;tulo da comunica&ccedil;&atilde;o, segue at&eacute; hoje sem regulamenta&ccedil;&atilde;o. A inexist&ecirc;ncia de refer&ecirc;ncia legal do que venha a ser a configura&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica de cada um destes sistemas levou a uma grande confus&atilde;o conceitual, que ao longo dos anos afastou a possibilidade de o artigo funcionar na dire&ccedil;&atilde;o imaginada em 1988.<\/p>\n<p><strong>Inten&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Para os defensores da complementaridade, sua inclus&atilde;o na Constitui&ccedil;&atilde;o seria uma forma de equilibrar os j&aacute; existentes sistema privado e estatal, com not&oacute;ria preval&ecirc;ncia do primeiro, e tamb&eacute;m equiparar a estes uma nova figura, o sistema p&uacute;blico. A inten&ccedil;&atilde;o era ter um sistema de comunica&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o estivesse &agrave; servi&ccedil;o nem do mercado, nem dos governos do dia.<\/p>\n<p>Segundo Ven&iacute;cio A. de Lima, pesquisador da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB) e que na &eacute;poca da Constituinte trabalhou como assessor t&eacute;cnico do Senado, a complementaridade apareceu nos textos discutidos dentro do subcomit&ecirc; de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, Comunica&ccedil;&atilde;o e Inform&aacute;tica em um dos substitutivos propostos por Artur da T&aacute;vola, &uacute;ltimo relator do cap&iacute;tulo da comunica&ccedil;&atilde;o. Antes disso, a id&eacute;ia tinha sido descrita nos cadernos produzidos pelo Centro de Estudos de Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura da UnB e entregues a Tancredo Neves, logo ap&oacute;s sua elei&ccedil;&atilde;o, para servir de base para as pol&iacute;ticas de comunica&ccedil;&atilde;o da Nova Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o para a proposta da complementaridade, segundo Lima, tinha a ver com a conjuntura nacional. &quot;Est&aacute;vamos saindo de um per&iacute;odo militar e traumatizados com a experi&ecirc;ncia de 20 anos de Estado militar autorit&aacute;rio. Ent&atilde;o, o p&uacute;blico era uma alternativa&quot;, comenta. &quot;A discuss&atilde;o sobre o p&uacute;blico era um debate extremamente politizado porque era a forma de escapulir do autoritarismo.&quot;<\/p>\n<p>Embora a conjuntura explique a op&ccedil;&atilde;o por ressaltar a id&eacute;ia de um sistema p&uacute;blico diferenciado do estatal, para alguns, a confus&atilde;o conceitual come&ccedil;a aqui. &quot;N&atilde;o existe diferen&ccedil;a entre &#39;estatal&#39; e &#39;p&uacute;blico&#39;. O que &eacute; estatal &eacute; p&uacute;blico, pois o Estado &eacute;, ou deve ser, p&uacute;blico&quot;, defende Marcos Dantas, professor da PUC-RJ, ressaltando ainda que h&aacute; uma confus&atilde;o entre Estado e governo. &quot;Concordo, entretanto, que o Estado possa ser mais fechado ou menos fechado, mais autorit&aacute;rio ou menos autorit&aacute;rio, mais democr&aacute;tico ou menos democr&aacute;tico, mais transparente ou menos transparente, refletindo, nisso, o jogo das for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas que o sustentam e influenciam.&quot;<\/p>\n<p>Para o coordenador do Laborat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas de Comunica&ccedil;&atilde;o da UnB, Murilo Ramos, a separa&ccedil;&atilde;o entre o p&uacute;blico e o estatal transformou-se em uma armadilha normativa que acabou por escapar a todos os especialistas naquele momento. Participando da assembl&eacute;ia do F&oacute;rum Nacional pela Democratiza&ccedil;&atilde;o da Comunica&ccedil;&atilde;o, em maio deste ano, Ramos afirmou que o isolamento do sistema privado em rela&ccedil;&atilde;o ao estatal e ao p&uacute;blico acaba por ignorar o fato de que o primeiro n&atilde;o pode existir sem a autoriza&ccedil;&atilde;o e a fiscaliza&ccedil;&atilde;o do Estado e da sociedade.<br \/><strong><br \/>Problemas de execu&ccedil;&atilde;o<br \/><\/strong><br \/>A confus&atilde;o conceitual, no entanto, extrapola o texto constitucional, os debates acad&ecirc;micos e as discuss&otilde;es sobre uma poss&iacute;vel regulamenta&ccedil;&atilde;o do Artigo 223, e se concretiza nas experi&ecirc;ncias de comunica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica registradas como tal no Brasil. Em sua maioria, estas iniciativas nascem de projetos estatais, como as TVs Educativas e r&aacute;dios ligadas aos estados e munic&iacute;pios. No entanto, por quest&otilde;es que v&atilde;o da forma de organiza&ccedil;&atilde;o destes ve&iacute;culos &agrave;s conjunturas pol&iacute;ticas nacional e regional, praticamente nenhuma deixou de estar atrelada &agrave;s vontades dos governos de plant&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;A id&eacute;ia de servi&ccedil;o p&uacute;blico de radiodifus&atilde;o &#8211; que tem como refer&ecirc;ncia maior a BBC de Londres, a R&aacute;dio e Televis&atilde;o da Alemanha, a NHK do Jap&atilde;o e a PBS dos Estados Unidos &#8211; nunca vingou por aqui. At&eacute; a TV Cultura de S&atilde;o Paulo, montada institucionalmente como emissora p&uacute;blica independente do Estado, jamais conseguiu viver uma poss&iacute;vel autonomia&quot;, avalia Laurindo Lalo Leal Filho, pesquisa da Universidade de S&atilde;o Paulo e ouvidor da Empresa Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O resultado &eacute; desastroso, segundo o professor da Universidade Federal da Bahia Othon Jambeiro. &quot;O estatal &eacute; desmoralizado entre n&oacute;s e o p&uacute;blico n&atilde;o consegue deixar de ser estatal. Al&eacute;m disso, o sistema privado supre os grupos que dominam o Estado com o suporte ideol&oacute;gico de que dependem para manter sua hegemonia&quot;, dispara Jambeiro.<\/p>\n<p>O pesquisador baiano ainda ressalta que a rela&ccedil;&atilde;o que historicamente foi estabelecida entre o poder p&uacute;blico e os concession&aacute;rios da radiodifus&atilde;o, tanto em termos pol&iacute;ticos como no que diz respeito &agrave; regula&ccedil;&atilde;o das atividades privadas de comunica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o desenha cen&aacute;rio futuro diferente do que j&aacute; existe. &quot;O desequil&iacute;brio em favor do sistema privado &eacute; t&atilde;o grande que s&oacute; uma transforma&ccedil;&atilde;o radical em todo o sistema brasileiro de radiodifus&atilde;o tornaria poss&iacute;vel fazer a Constitui&ccedil;&atilde;o &#39;pegar&#39;, pelo menos nesse artigo&quot;, ratifica Lalo.<\/p>\n<p><strong>Lobby pela desregulamenta&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A confus&atilde;o entre conceitos na Constitui&ccedil;&atilde;o e, principalmente, na execu&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que direcionaram a configura&ccedil;&atilde;o do sistema nacional de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o explica a aus&ecirc;ncia de uma regulamenta&ccedil;&atilde;o do Artigo 223. O fato de que as duas d&eacute;cadas que separam a promulga&ccedil;&atilde;o da Carta e os dias de hoje n&atilde;o tenham sido suficientes para que se chegasse a um denominador comum que pudesse ser consagrado em um texto complementar pode ser melhor compreendido se considerada a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as dentro dos governos e do Legislativo.<\/p>\n<p>&quot;A n&atilde;o regulamenta&ccedil;&atilde;o deste e de tantos outros artigos que ainda figuram como letra morta na Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se deu em fun&ccedil;&atilde;o de qualquer questionamento de ordem conceitual&quot;, acredita Bia Barbosa, do Intervozes &#8211; Coletivo Brasil de Comunica&ccedil;&atilde;o Social. &quot;O grande problema est&aacute; na falta de vontade pol&iacute;tica, que envolve tamb&eacute;m o poderio econ&ocirc;mico e os interesses privados dos parlamentares, boa parte deles ligada direta ou indiretamente aos radiodifusores.&quot;<\/p>\n<p>Sabe-se que as necessidades dos grupos mais poderosos nunca foram impedimento para que se regulamentasse a Constitui&ccedil;&atilde;o e, at&eacute; mesmo, seu texto fosse modificado. Em 20 anos, o Congresso j&aacute; aprovou 55 emendas constitucionais que &quot;retocaram&quot; a Carta Magna. No cap&iacute;tulo Da Comunica&ccedil;&atilde;o Social, apenas uma emenda foi aprovada nestas duas d&eacute;cadas. Foi, n&atilde;o por acaso, um retoque patrocinado explicitamente pelas empresas de comunica&ccedil;&atilde;o. A emenda constitucional que reformou o Artigo 222, permitindo a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, foi rapidamente aprovada pelo Congresso e sancionada pelo Executivo em 2002 (<a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21931\">saiba mais<\/a> ). Prova de que quando &eacute; do interesse dos empres&aacute;rios de comunica&ccedil;&atilde;o e dos muitos parlamentares que os defendem, a regulamenta&ccedil;&atilde;o e at&eacute; mesmo a revis&atilde;o de preceitos constitucionais saem do papel.<br \/><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"padrao\"><strong>LEIA MAIS:<\/strong><br \/><\/span><\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21909\">Cap&iacute;tulo Da Comunica&ccedil;&atilde;o Social contrap&otilde;e interesses privados e car&aacute;ter p&uacute;blico<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21915\">Cria&ccedil;&atilde;o do CCS reflete for&ccedil;a dos empres&aacute;rios durante a constituinte<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21922\">Restri&ccedil;&atilde;o &agrave; concentra&ccedil;&atilde;o de propriedade mant&eacute;m-se como letra morta<\/a>&nbsp;<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21931\">Endividadas, empresas aprovam reforma que abriu setor ao capital estrangeiro<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21949\">Regula&ccedil;&atilde;o de outorgas de r&aacute;dio e TV mant&eacute;m oligop&oacute;lio do setor<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=21964\">Promo&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;ao regional e independente continua apenas no papel <\/a> <\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/localhost\/intervozes_direitoacomunicacao\/wordpress\/?p=22104\">Debates indicam avan&ccedil;os, ainda t&iacute;midos, na garantia da liberdade de express&atilde;o<\/a>  <\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta de 88 inova ao instituir complementaridade entre os sistemas estatal, p\u00fablico e privado de comunica\u00e7\u00e3o, mas, na falta de regulamento espec\u00edfico, impera a confus\u00e3o conceitual<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[875],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21939"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=21939"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21939\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27941,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/21939\/revisions\/27941"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=21939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=21939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=21939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}